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Visão geral da doença inflamatória intestinal

Por

Aaron E. Walfish

, MD,

  • Mount Sinai Medical Center
;


Rafael Antonio Ching Companioni

, MD, Digestive Diseases Center

Última modificação do conteúdo abr 2019
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Recursos do assunto

A doença inflamatória intestinal, que abrange a doença de Crohn e a colite ulcerativa, é um quadro recidivante caracterizado pela inflamação crônica em vários locais do trato GI, que resulta em diarreia e dor abdominal.

A inflamação resulta de resposta imunitária celular na mucosa gastrointestinal. A etiologia precisa de doença inflamatória intestinal é desconhecida, mas evidências sugerem que a flora intestinal normal desencadeia uma reação imunitária anormal em pacientes com predisposição genética multifatorial (talvez envolvendo barreiras epiteliais anormais e defesas imunitárias da mucosa). Não se identificou qualquer fator dietético, ambiental ou infeccioso. A reação imunitária envolve a liberação dos mediadores inflamatórios, incluindo citocinas, interleucinas e FNT.

Embora a doença de Crohn e a colite ulcerativa sejam similares, elas podem ser diferenciadas em muitos casos ( Diferenciação entre doença de Crohn e colite ulcerativa). Cerca de 10% dos casos de colite não são inicialmente distinguíveis e são denominados não classificados; se um espécime patológico cirúrgico não pode ser classificado, ele é chamado de colite indeterminada. O termo colite se aplica somente às doenças inflamatórias do cólon (p. ex., colite ulcerativa, granulomatosa, isquêmica, por radiação e infecciosa). A colite espástica (mucosa) é um termo inadequado aplicado a uma doença funcional, síndrome do intestino irritável.

Tabela
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Diferenciação entre doença de Crohn e colite ulcerativa

Doença de Crohn

Colite ulcerativa

Intestino delgado envolvido em 80% das vezes.

Doença é confinada ao cólon.

O reto é geralmente poupado; o envolvimento colônico é geralmentedo lado direito.

O reto é invariavelmente acometido; o envolvimento colônico é geralmentedo lado esquerdo.

Sangramento retal intenso é raro, exceto em 75 a 85% dos casos de colite de Crohn.

Sangramento retal significativo está sempre presente.

Fístulas, massas e abscessos são comuns.

Não ocorrem fístulas.

Lesões perianais são significativas em 25 a 35% dos casos.

Nunca ocorrem lesões perianais significativas.

Em radiografias, a parede intestinal é afetada assimetricamente e de maneira segmentar, com áreas poupadas entre os segmentos afetados.

A parede intestinal é afetada simétrica e continuamente do reto proximal.

A aparência endoscópica é irregular, com ulcerações discretas separadas por segmentos de mucosa com aparência normal.

A inflamação é uniforme e difusa.

A inflamação microscópica e fissuras se estendem transmuralmente; a distribuição da lesões costuma ser altamente focal.

A inflamação é restrita à mucosa, exceto em casos graves.

Granulomas epitelioides (tipo de sarcoidose) são detectados na parede intestinal ou linfonodos em 25 a 50% dos casos (patognomônicos).

Não ocorrem granulomas epiteliais típicos.

Epidemiologia

A doença intestinal inflamatória afeta pessoas de todas as idades, mas geralmentecomeça antes dos 30 anos, com pico de incidência dos 14 aos 24 anos. A doença inflamatória intestinal pode apresentar outro pico menor aos 50 e 70 anos de idade; entretanto, esse pico tardio pode incluir alguns casos de colite isquêmica.

A doença inflamatória intestinal é mais comum na população do norte da Europa e de origem anglo-saxônica e é 2 a 4 vezes mais comum em judeus asquenazes do que não judeus brancos. A incidência é baixa na Europa central e do sul e ainda mais baixa na América do Sul, Ásia e África. Entretanto, a incidência vem aumentando em negros e latino-americanos que vivem na América do Norte. Ambos os sexos são igualmente afetados. Parentes de primeiro grau dos pacientes com doença inflamatória intestinaltêm um risco 4 a 20 vezes maior; seu risco absoluto pode chegar a 7%. A tendência familiar é muito maior na doença de Crohn do que na colite ulcerativa. Várias mutações gênicas conferem um risco maior da doença de Crohn (e algumas possivelmente relacionadas à colite ulcerativa) foram identificadas.

O tabagismo parece contribuir para o desenvolvimento e a exacerbação da doença de Crohn, mas diminui o risco de colite ulcerativa. A apendicectomia realizada para tratar a apendicite também parece diminuir o risco de colite ulcerativa. Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) podem exacerbar a doença inflamatória intestinal. Contraceptivos orais podem aumentar o risco de doença de Crohn. Alguns dados sugerem que a doença perinatal e a utilização de antibióticos na infância podem estar associados a um maior risco de doença inflamatória intestinal.

Por razões pouco claras, as pessoas com melhor nível socioeconômico podem ter um maior risco de doença de Crohn.

Dicas e conselhos

  • O tabagismo diminui o risco de colite ulcerativa.

Manifestações extraintestinais

Doença de Crohn e colite ulcerativa afetam outros órgãos além do intestino. A maioria das manifestações extraintestinais é mais comum na colite ulcerativa e colite de Crohn do que nos casos de doença de Crohn limitada ao intestino delgado. As manifestações extraintestinais da doença inflamatória intestinal são caracterizadas de 3 maneiras:

1. Doenças que geralmenteacompanham (vêm e vão) surtos de doença inflamatória intestinal: essas doenças incluem artrite periférica, episclerite, estomatite aftosa e eritema nodoso. A artrite tende a envolver grandes articulações e ser migratória e intermitente. Uma ou mais doenças concomitantes aparecem em mais de um terço dos pacientes hospitalizados com doença inflamatória intestinal.

2. Doenças que claramente estão associadas com doença inflamatória intestinal, mas aparecem de modo independente da atividade da doença inflamatória intestinal: essas doenças incluem espondilite anquilosante, sacroileíte, uveítepioderma gangrenoso e colangite esclerosante primária. A espondilite anquilosante é mais comum nos pacientes com doença inflamatória intestinal com antígeno HLA-B27. A maioria dos pacientes com envolvimento da coluna ou do sacroilíaco tem evidência de uveíte e vice-versa. A colangite esclerosante primária, que é um fator de risco de câncer do trato biliar, está fortemente associada à colite ulcerativa ou colite de Crohn. A colangite pode aparecer antes ou concomitantemente com doença intestinal ou mesmo 20 anos depois da colectomia. A doença hepática (p. ex., esteatose hepática, hepatite autoimune, pericolangite e cirrose) aparece em 3 a 5% dos pacientes, embora alterações mínimas da função hepática sejam mais comuns. Algumas dessas condições (p. ex., colangite esclerosante primária) podem preceder a doença inflamatória intestinal em muitos anos e, quando diagnosticadas, devem ser seguidas de investigação imediata para eventual doença inflamatória intestinal associada.

3. Doenças que são consequências da fisiologia intestinal rompida: essas doenças ocorrem principalmente na doença de Crohn grave do intestino delgado. A má absorção pode ser secundária a ressecções ileais extensas, causando deficiências de vitaminas solúveis em gordura, vitamina B12 ou minerais, resultando em anemia, hipocalcemia, hipomagnesemia, distúrbios de coagulação e desmineralização óssea. Em crianças, má absorção retarda o crescimento e desenvolvimento. Outras alterações incluem cálculos urinários secundários ao excesso de absorção do oxalato da dieta, hidroureter e hidronefrose secundários à compressão pelo processo inflamatório intestinal, cálculos biliares secundários à falha de reabsorção de sais biliares pelo íleo inflamado e amiloidose secundária ao longo processo inflamatório e supurativo.

A doença tromboembólica pode ocorrer como resultado de múltiplos fatores nas 3 categorias.

Tratamento

Muitas classes de fármacos são úteis na doença inflamatória intestinal. Os detalhes de sua escolha e uso são discutidos em cada doença e em Fármacos para doença inflamatória intestinal.

Cuidados de suporte

Muitos pacientes e suas famílias são interessados em dieta e controle do estresse. Embora existam relatos incidentais de melhora clínica com certas dietas, incluindo uma com restrição rígida de ingestão de carboidratos, ensaios controlados não demonstraram nenhum benefício consistente. O tratamento do estresse pode ser útil.

Manutenção da saúde

Imunizações

Pacientes com doença inflamatória intestinal devem receber anualmente vacinação contra influenza e vacinação antipneumocócica. Pacientes > 50 anos que não estão tomando fármacos biológicos devem considerar receber vacinação contra herpes zoster. Pacientes que iniciarão terapia imunossupressora e que não tenham exposição prévia ao vírus da varicela devem receber vacinação contra varicela antes de iniciar a terapia imunossupressora.

Deve-se administrar vacinas de rotina como tétano-difteria, hepatite A, hepatite B e papilomavírus humano de acordo com as diretrizes do Advisory Committee on Immunization Practices (ACIP).

Exames de triagem

Deve-se monitorar nas pacientes que não estão recebendo terapia imunossupressora câncer do colo do útero com um teste de Papanicolau (Pap) a cada 3 anos Pacientes que estão recebendo terapia imunossupressora devem ser submetidas a teste de Papanicolau anualmente.

Deve-se pesquisar em todos os pacientes que estão tomando ou planejam tomar fármacos imunomoduladores ou agentes biológicos câncer de pele anualmente.

Informações adicionais

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