Manual MSD

Please confirm that you are a health care professional

Carregando

Queimaduras

Por

Steven E. Wolf

, MD, University of Texas - Southwestern Medical Center

Última modificação do conteúdo nov 2018
Clique aqui para acessar Educação para o paciente
Recursos do assunto

Queimaduras são lesões da pele ou outros tecidos causadas por contato térmico, radioativo, químico ou elétrico. Classificam-se por profundidade (espessura parcial profunda e espessura total) e porcentagem da área de superfície corporal total acometida. As complicações abrangem choque hipovolêmico, lesão por inalação, infecção, cicatriz e contraturas articulares. Pacientes com grandes queimaduras (> 20% área de superfície corporal) necessitam de reanimação. O tratamento das queimaduras compreende antibacterianos tópicos, limpeza permanente, elevação e, às vezes, enxertos de pele. Reabilitação intensiva, que consiste em exercícios para amplitude de movimentos e tala, é frequentemente necessária.

Queimaduras causam cerca de 3.000 mortes ao ano nos EUA e 2 milhões de consultas médicas.

Etiologia

Queimaduras térmicas podem resultar de qualquer fonte externa de calor (chama, líquidos, objetos sólidos ou vapor). O fogo também pode causar inalação de fumaça tóxica ( Intoxicação por monóxido de carbono).

Dicas e conselhos

  • Avaliar a via respiratória e preparar para entubação se os pacientes tiverem sintomas respiratórios, expectoração carbonácea, queimadura perioral, pelos nasais chamuscados ou estiveram confinados a um ambiente de incêndio.

Queimaduras por radiação são mais comuns por exposição prolongada aos raios ultravioleta (queimadura solar), embora também possam ocorrer por exposição intensa a outras fontes de radiação ultravioleta (p. ex., bronzeamento artificial), radiografia ou outras radiações não solares ( Exposição e contaminação radioativa).

Queimaduras químicas resultam de ácidos fortes, álcalis fortes (p. ex., lixívia e cimento), fenóis, cresóis, gás mostarda, fósforo e certos produtos derivados de petróleo (p. ex., gasolina, tíner). A necrose da pele ou de tecidos mais profundos devido a tais agentes pode progredir por diversas horas.

Queimaduras elétricas são causadas por geração de calor e eletroporação das membranas celulares associada com correntes intensas dos elétrons. Tais queimaduras ocasionam extenso e profundo dano tecidual, como músculos, nervos e vasos sanguíneos, a despeito de lesão cutânea aparentemente mínima.

Eventos associados a queimaduras (p. ex., pular de prédio que está se incendiando, ser atingido por escombros, colisão de automóvel) podem causar outros danos. Maus tratos devem ser levados em consideração, no caso de crianças pequenas e idosos com queimaduras ( Visão geral da criança maltratada e Abuso ao idoso).

Fisiopatologia

Queimaduras por calor provocam desnaturação de proteínas e, portanto, necrose por coagulação. Ao redor do tecido queimado coagulado, agregam-se plaquetas, vasos se contraem e o tecido marginal perfundido (conhecido como zona de estase) pode se necrosar. Na zona de estase há hiperemia e inflamação do tecido.

Danos à barreira epidérmica normal permitem

  • Invasão bacteriana

  • Extravasamento de líquidos

  • Comprometimento da regulação térmica

Os tecidos lesados costumam ficar edematosos, aumentando ainda mais a perda de volume. A perda de temperatura pode ser significante, já que a termorregulação da derme danificada é prejudicada, principalmente em ferimentos expostos.

Profundidade da queimadura

Queimadura de primeiro grau é limitada à epiderme.

Espessura parcial (também chamada queimadura de 2o grau): a queimadura acomete parte da derme, sendo subdividida em superficial e profunda.

A queimadura superficial de espessura parcial acomete a derme papilar (mais superficial). Essas queimaduras cicatrizam em 1 a 2 semanas, raramente deixando marcas. A cura ocorre a partir das células epidérmicas que revestem os ductos de glândulas sudoríparas e pelos; tais células crescem para a superfície e, depois, migram através dela para encontrar células de glândulas vizinhas e folículos.

A queimadura de espessura parcial profunda acomete a metade inferior da derme e leva 2 semanas para cicatrizar. A cura é proveniente apenas dos folículos pilosos, as cicatrizes são comuns e podem ser graves.

Queimaduras de espessura total (3o grau): abrangem a toda a derme e estendem-se até a gordura subcutânea. A cicatrização é proveniente somente da região periférica; tais queimaduras, a menos que sejam pequenas, requerem excisão e enxerto de pele.

Complicações

As queimaduras causam complicações sistêmicas e locais. Os principais fatores que contribuem para complicações sistêmicas são rompimento da integridade da pele e perda de líquidos. Complicações locais incluem escaras, contraturas e cicatrização.

Complicações sistêmicas das queimaduras

Quanto maior o percentual da superfície total corporal atingido, maior o risco de ocorrer complicação sistêmica. Os fatores de risco de complicações sistêmicas graves e mortalidade incluem todos os seguintes:

  • Queimaduras de segundo e terceiro graus ≥ 40% da área de superfície corporal

  • Idade > 60 anos ou < 2 anos

  • Presença de trauma maior simultâneo ou inalação de fumaça

As complicações sistêmicas mais comuns são hipovolemia e infecção.

A hipovolemia, causando hipoperfusão nos tecidos queimados e, às vezes, choque, pode resultar da perda de líquidos devido a queimaduras mais profundas ou que acometem grandes partes da superfície corporal; edema no corpo todo por perda de volume intravascular para o interstício e célula também ocorre. A hipoperfusão do tecido afetado também pode ser resultante do dano direto aos vasos sanguíneos ou da vasoconstrição secundária à hipovolemia.

A infecção, mesmo em pequenas queimaduras, é causa comum de sepsia, complicações locais e morte. Invasão e crescimento bacteriano são acentuados quando as defesas orgânicas estão prejudicadas e os tecidos desvitalizados. Os patógenos mais comuns são estreptococos e estafilococos durante os primeiros dias e bactérias Gram-negativas após 5 a 7 dias; contudo, a flora é sempre mista.

Anormalidades metabólicas podem englobar hipoalbuminemia, que é, em parte, decorrente da hemodiluição (secundária à reposição de líquidos) e, parcialmente, decorrente da perda de proteínas para o espaço extravascular através dos capilares danificados. Deficiências de eletrólitos pela diluição podem se desenvolver, incluindo hipomagnesemia, hipofosfatemia e hipopotassemia. Acidose metabólica pode resultar de choque. Rabdomiólise ou hemólise podem resultar de queimaduras térmicas ou elétricas profundas dos músculos ou da isquemia muscular decorrentes de cicatrizes constritivas. Rabdomiólise causando mioglobinúria ou hemólise com hemoglobinúria pode resultar em necrose tubular aguda ou lesão renal aguda.

Hipotermia pode resultar da grande quantidade de líquidos frios intravenosos (IV) e de prolongada exposição da superfície corporal ao ambiente frio do serviço de emergência, particularmente em pacientes com queimaduras extensas.

Íleo é comum após queimaduras extensas.

Complicações locais das queimaduras

A escara é um tecido duro e morto, causada por queimaduras profundas. Uma cicatriz circunferencial, que envolve total a circunferência de um membro (às vezes, o pescoço ou o tórax), é potencialmente constritiva. Cicatrizes constritivas limitam a expansão do tecido em resposta ao edema; em vez disso, a pressão tecidual aumenta, causando isquemia local. A isquemia ameaça a viabilidade dos membros e dos dedos distais à escara, e uma cicatriz em torno do tórax pode comprometer a ventilação.

Cicatrizes e contraturas são resultados da cura de queimaduras profundas. Dependendo da extensão da cicatriz, deformidades por contratura podem aparecer nas articulações. Se a queimadura estiver localizada perto das articulações (especialmente nas mãos), nos pés ou no períneo, a função pode ser gravemente comprometida. A infecção pode aumentar a cicatriz. Queloides se formam em alguns pacientes, em especial da raça negra.

Sinais e sintomas

Os sinais e sintomas dependem da profundidade da queimadura, classificada em:

  • Queimaduras de 1º grau: essas queimaduras são avermelhadas, dolorosas e frágeis, embranquecem acentuadamente e amplamente à leve pressão. Não há desenvolvimento de bolhas ou vesículas.

  • Queimaduras de espessura parcial superficial: essas queimaduras embranquecem à pressão e são dolorosas e sensíveis. A formação de vesículas e bolhas ocorre em 24 h. As bases das vesículas e bolhas são rósea e então desenvolvem exsudato fibrinoso.

  • Queimaduras de espessura parcial profunda: pode ser avermelhadas, esbranquiçadas ou matizadas em vermelho e branco. Não embranquecem e são menos dolorosas e sensíveis do que as queimaduras mais superficiais. Uma alfinetada é frequentemente interpretada como pressão em vez de picada. Há possível formação de bolhas e vesículas; essas queimadura costumam secar.

  • Queimaduras de espessura total: sem formação de bolhas ou vesículas, podem ser esbranquiçadas e maleáveis, negras e carbonizadas, marrons e coriáceas ou vermelho-brilhantes devido à fixação da hemoglobina na região subdérmica. Queimaduras de espessura totalmente descorada podem simular pele normal, exceto pelo fato de esta não embranquecer à pressão. Queimaduras de toda espessura são, em geral, hipoanestésicas ou anestésicas. Pelos podem ser facilmente tracionados de seus folículos. Vesículas e bolhas não costumam se desenvolver. Às vezes, as características que diferenciam a queimadura de espessura parcial profunda daquela de espessura total levam 24 a 48 horas para se manifestarem.

Diagnóstico

  • Avaliação clínica da extensão e profundidade da queimadura

  • Testes de laboratório e radiografia do tórax dos pacientes hospitalizados

Localização e profundidade das áreas queimadas são registradas em um diagrama. Presumem-se que queimaduras com aparência compatível tanto com de espessura parcial profunda como de espessura total sejam queimaduras de espessura total.

Calcula-se a porcentagem da área de superfície corporal envolvida; só são incluídas neste cálculo as queimaduras de espessura parcial ou total (1). Para adultos, estima-se o percentual da área de superfície corporal para partes do corpo pela regra dos nove ( (A) Regra dos nove (para adultos) e (B), Tabela de Lund-Browder (para crianças) para estimar a extensão das queimaduras); em queimaduras pequenas e esparsas, as estimativas podem se basear no tamanho da superfície de toda a mão aberta do paciente (não somente da superfície palmar), que é 1% da área de superfície corporal. Crianças têm cabeças grandes e membros pequenos, assim, estima-se a porcentagem da área de superfície corporal de maneira mais precisa usando a tabela de Lund-Browder ( (A) Regra dos nove (para adultos) e (B), Tabela de Lund-Browder (para crianças) para estimar a extensão das queimaduras).

(A) Regra dos nove (para adultos) e (B), Tabela de Lund-Browder (para crianças) para estimar a extensão das queimaduras

(Redesenhado de Artz CP, JA Moncrief: The Treatment of Burns, ed. 2. Philadelphia, WB Saunders Company, 1969; usada com permissão.)

(A) Regra dos nove (para adultos) e (B), Tabela de Lund-Browder (para crianças) para estimar a extensão das queimaduras

Em pacientes hospitalizados, deve-se dosar no sangue hemoglobina, hematócrito, eritrócitos, eletrólitos séricos, ureia, creatinina, albumina, proteína, fosfato e cálcio ionizado. Deve-se realizar também eletrocardiograma (ECG), exame de urina para mioglobina e radiografia de tórax. Mioglobinúria (sugerindo hemólise ou rabdomiólise) é encontrada na urina, a qual é fortemente escura, ou em testes positivos para sangue no papel-fita na ausência da contagem microscópica dos eritrócitos. Tais exames são repetidos quando necessário. Compartimentos musculares são avaliados em pacientes com mioglobinúria.

A infecção da queimadura é sugerida por exsudato da ferida, má cicatrização ou evidências sistêmicas de infecção (p. ex., intolerância alimentar, diminuição da contagem de plaquetas, aumento do nível sérico da glicose). Febre e leucocitose são comuns em queimaduras sem infecção e, portanto, são sinais não confiáveis de sepse. Se o diagnóstico não for evidente, a infecção poderá ser confirmada por biópsia; culturas da superfície da ferida ou do exsudato não são confiáveis.

Referência sobre diagnóstico

Tratamento

  • Líquidos IV para queimaduras > 10% da área de superfície corporal

  • Limpeza do ferimento, curativo e avaliação em série

  • Medidas de suporte

  • Transferência ou recomendação de pacientes selecionados para centros especializados em tratamento de queimados

  • Cirurgia e fisioterapia para queimaduras de espessura parcial profunda ou total

Tratamento inicial

O tratamento se inicia no local pré-hospitalar. As primeiras prioridades são iguais para qualquer paciente acidentado: vias respiratórias, respiração e circulação. Providenciar uma via respiratória, suporte à ventilação e trata-se a possível inalação de fumaça associada com 100% de oxigênio. O prosseguimento da queimadura é extinto e combustão lenta e materiais quentes são removidos. Todas as roupas são retiradas. Químicos, exceto em pó, são limpos com água; pós devem ser raspados antes de molhar. Queimaduras causadas por álcalis, ácidos ou compostos orgânicos (p. ex., fenóis, cresóis, petroquímicos) são limpas com quantidades volumosas de água continuamente por pelo menos 20 minutos, até que não reste nada da solução original.

Líquidos intravenosos

Líquidos IV são administrados a pacientes em choque ou com queimaduras em > 10% da área de superfície corporal. Uma cânula venosa de calibre 14 a 16 de diâmetro é colocada em 1 a 2 veias periféricas em área não queimada, se possível. A dissecção de veia deve ser evitada pelo risco de infecção.

A reposição inicial de líquidos é orientada pelo tratamento do choque clinicamente evidente (1). Se não há choque, a administração de líquidos é para substituir o deficit previsto e fornecer líquidos de manutenção. Usa-se a fórmula de Parkland (4 mL/kg) × % área de superfície corporal queimada (queimaduras de segundo e terceiro graus) para estimar o volume de líquido necessário nas primeiras 24 h após a queimadura (não após a chegada ao hospital) e determina a velocidade da administração do líquido IV. Administrar metade da quantidade calculada ao longo das primeiras 8 h; administrar o restante nas 16 h seguintes. Administram-se líquidos como solução de lactato de Ringer porque grandes quantidades de soro fisiológico podem resultar em acidose hiperclorêmica.

Por exemplo, em um indivíduo que pesa 100 kg e tem 50% da área de superfície corporal queimada, o volume de líquido pela fórmula de Parkland seria

equation

Metade desta quantidade, 10 L, é dada nas primeiras 8 h após a queimadura como infusão constante; os demais 10 L são administrados nas próximas 16 h. Na prática, essa fórmula é somente o ponto de partida, e a taxa de infusão é ajustada com base na resposta clínica. Normalmente, o volume da urina é medido com um cateter e é o indicador da resposta clínica; o objetivo é manter um volume entre 30 e 50 mL/h em adultos e entre 0,5 e 1,0 mL/kg/h em crianças. Ao administrar grandes volumes típicos do líquido, também é importante evitar a sobrecarga de líquidos e consequente insuficiência cardíaca e síndrome compartimental. Parâmetros clínicos, incluindo fluxo de urina e sinais de choque ou insuficiência cardíaca, são anotados pelo menos a cada hora em um diagrama.

Dicas e conselhos

  • Fórmulas de Parkland e outras de reanimação hídrica para queimaduras são apenas o ponto de partida; a velocidade e o volume dos líquidos devem ser ajustadas de acordo com a resposta clínica.

Alguns médicos recomendam coloide, geralmente albumina, após 12 h para pacientes com grandes queimaduras, muito jovens ou idosos, ou com cardiopatias que precisam grandes volumes de líquidos.

Se o fluxo urinário do paciente for inadequado, a despeito da administração de grandes quantidades de cristaloides, deve-se consultar um centro de queimados. Esse tipo de paciente pode responder a uma mistura que inclui coloide. Pacientes com débito urinário inadequado, apesar da administração de grandes quantidades de cristaloides têm o risco de complicações da reanimação, incluindo síndrome compartimental do abdome e membros.

Para pacientes de qualquer idade, a rabdomiólise é tratada com líquidos suficientes para manter o fluxo de urina entre 0,5 e 1 mL/h. Algumas autoridades recomendam a alcalinização da urina adicionando 50 mEq NaHCO3 (uma ampola de 50 mL a 8,4% solução) em 1 l de líquido IV.

Cuidado inicial do ferimento

Após analgesia adequada, a ferida é limpa com água e sabão, e todos os fragmentos soltos são removidos. A água deve estar em temperatura ambiente ou mais quente, para evitar a indução de hipotermia. Bolhas rompidas, exceto as de palmas das mãos, dedos e plantas dos pés, são debridadas. Bolhas não rompidas algumas vezes podem permanecer intactas, mas devem ser tratadas aplicando um antimicrobiano tópico. Curativos secos podem ser utilizados (cremes para queimadura podem interferir na avaliação da ferida pelo receptor) em pacientes que estão prestes a serem transferidos para um centro de queimados, eles devem permanecer quentes e relativamente confortáveis com opioides IV.

Após a ferida ser limpa e avaliada pelo clínico, as queimaduras podem ser tratadas topicamente. Para queimaduras de espessura parcial superficial, somente o tratamento tópico é adequado. Todas as queimaduras de espessura profunda e espessura parcialmente profunda devem ser tratados com excisão e enxerto, mas, até o procedimento, os tratamentos tópicos são apropriados.

O tratamento tópico pode ser feito com pomada antibacteriana (p. ex., sulfadiazina de prata a 1%), curativos comerciais com prata (p. ex., curativos com prata nanocristalina de liberação sustentada) ou curativos biossintéticos (pele artificial). Pomadas tópicas podem ser utilizadas diariamente e a sulfadiazina de prata pode induzir leucopenia transitória. Alguns curativos impregnados de prata (mas não todos) devem ser mantidos úmidos, mas podem ser trocados com pouca frequência, até a cada 7 dias (para minimizar a dor associada ao tratamento repetido das lesões). Produtos de pele artificial não são trocados rotineiramente, mas podem resultar em purulência subjacente, precisando ser removidos, especialmente no caso de feridas mais profundas. Extremidades queimadas devem ser elevadas.

Toxoide tetânico de reforço (0,5 mL por via subcutânea ou IM) é dado em pacientes com pequenas queimaduras que tenham sido previamente vacinados e que não tenham recebido reforço nos últimos 5 anos. Pacientes que tomaram reforço mais remoto ou que não tenham recebido a série completa da vacina recebem imunoglobulina tetânica, 250 unidades IM e vacinação ativa concomitantemente ( Tétano : Prevenção).

A escarotomia (incisão da escara) pode ser necessária para permitir a expansão adequada do tórax ou a perfusão de uma extremidade. Todavia, cicatrizes constritivas raramente ameaçam a viabilidade da extremidade durante as primeiras horas; portanto, a transferência para um centro de queimados pode ocorrer dentro desse prazo, sendo a escarotomia quase sempre preterida.

Medidas de suporte

Tratar a hipotermia e controlar a dor. Sempre deve-se administrar opioides (p. ex., morfina) por via IV e podem ser necessárias doses mais altas para controle adequado da dor. O tratamento dos deficits de eletrólitos pode exigir a suplementação de cálcio (Ca), magnésio (Mg), potássio (K) ou fosfato (PO4).

Indica-se suporte nutricional para pacientes com queimaduras em > 20% da área de superfície corporal ou com desnutrição preexistente. Suporte com uma sonda gástrica se inicia o quanto antes. Por sua vez, o suporte parenteral raramente é necessário.

Hospitalização e encaminhamento

Após tratamento inicial e estabilização, a necessidade de hospitalização é avaliada. O tratamento do paciente internado, preferencialmente em um centro de queimados, é necessário para

  • Queimaduras de espessura total > 1% da área de superfície corporal

  • Queimaduras de espessura parcial > 5% da área de superfície corporal

  • Queimaduras das mãos, face, pés e períneo (espessura parcial ou profunda)

Além disso, a hospitalização é necessária se

  • Pacientes têm < 2 anos ou > 60 anos.

  • A aderência ao tratamento residencial for pobre ou difícil (p. ex., se a elevação contínua de mãos ou pés é difícil na moradia)

Muitos especialistas recomendam que todas as queimaduras, exceto as de 1º grau < 1% da área de superfície corporal, sejam tratadas por médicos experientes e que um breve tratamento em paciente hospitalizado seja fortemente considerado para todas as queimaduras > 2% da área de superfície corporal. A manutenção adequada de analgesia e exercício pode ser difícil para muitos pacientes e cuidadores.

Infecção

Antibióticos sistêmicos profiláticos não são administrados.

O tratamento inicial empírico com antibióticos para tratar aparente infecção durante os primeiros 5 dias deve cobrir estafilococos e estreptococos (p. ex., com vancomicina). A infecção que se desenvolve após 5 dias é tratada com antibióticos de espectro maior que englobem bactérias Gram-positivas e negativas. A escolha do antibiótico é subsequentemente ajustável aos resultados de cultura e sensibilidade.

Cirurgia

Indica-se cirurgia para queimaduras em que não se espera a cura em 2 semanas, incluindo as de espessura parcial profunda e todas as de espessura total. As escaras são removidas tão logo quanto possível, sendo o ideal em 3 dias para auxiliar na prevenção de sepse e facilitar a enxertia de pele, o que diminui o tempo de hospitalização e melhora os resultados funcionais. Se a queimadura for extensa e com risco à vida, as escaras maiores são primeiramente removidas para se conseguir uma cicatrização mais precoce da maior área queimada possível.

Após a excisão, procede-se à enxertia, de preferência usando autoenxertos de espessura parcial (pele do paciente), que são permanentes (2). Autoenxertos são transplantados como lâminas (peças sólidas de pele) ou em rede (lâminas da pele doadora, a qual é distendida para recobrir uma grande área, fazendo-se múltiplas pequenas incisões a espaços regulares). Este último é usado em áreas nas quais a aparência não é uma preocupação, quando a queimadura acomete > 20% da área de superfície corporal e a área doadora é escassa. Tais enxertos cicatrizam com aparência de rede irregular, às vezes com excessiva cicatriz hipertrófica.

Quando as queimaduras comprometem > 40% da área de superfície corporal e o suprimento de autoenxertos parece insuficiente, um molde regenerativo dérmico artificial pode ser usado temporariamente (2). Aloenxertos (pele viável, geralmente proveniente de cadáveres) ou xenoenxertos (p. ex., pele de porco) podem ser utilizados temporariamente; eles são rejeitados, às vezes em 10 a 14 dias. Os dois tipos de tratamento temporário com o tempo precisam ser substituídos por autoenxertos.

Fasciotomia é realizada quando o edema dentro de um compartimento muscular eleva a pressão do compartimento > 30 mmHg.

Fisioterapia e terapia ocupacional

As terapias física e ocupacional iniciam-se logo na admissão para auxiliar na minimização de cicatrizes e contraturas, particularmente em superfícies cutâneas com muita tensão e frequentes movimentos (p. ex., face, mãos), a fim de otimizá-los. Exercícios ativos e passivos de amplitude de movimentos tornam-se mais fáceis quando o edema inicial desaparece; são realizados 1 a 2 vezes ao dia. Após enxertia, os exercícios, em geral, são suspensos por 3 dias e, depois, reintroduzidos. Articulações afetadas por queimaduras de espessura parcial ou total são imobilizadas em posições funcionais tão logo quanto possível e imobilizadas continuamente (exceto durante os exercícios) até que os enxertos estejam bem colocados e a cicatrização tenha ocorrido.

Tratamento ambulatorial das queimaduras

Consiste na limpeza das queimaduras e em manter o mais elevado possível a região do corpo afetada. Curativos com pomadas são usados e trocados diariamente. A pomada é aplicada e coberta com um curativo de gaze não aderente e seco e com envoltórios de compressão. Curativos com prata devem ser trocados a cada 3 a 7 dias. A troca do curativo é feita pela remoção do antigo com a colocação de um novo. Curativos biossintéticos não devem ser trocados na ausência de purulência. Eles simplesmente devem ser cobertos com gaze seca, que é trocada diariamente.

Consultas de acompanhamento de pacientes externos devem ser agendadas conforme necessário, dependendo da gravidade da queimadura (p. ex., para queimaduras muito pequenas, consultas a cada 24 h, depois consultas subsequentes a cada 5 a 7 dias). Nas consultas incluem-se desbridamento, se indicado, reavaliação da profundidade da queimadura e avaliação quanto à necessidade de terapia física e enxerto de pele. Os pacientes devem retornar antes, caso notem sinais de infecção, como aumento de rubor que se estende das extremidades das feridas, aumentando purulência e dor, ou uma mudança na aparência da ferida, com aparecimento de manchas pretas ou vermelhas. Se esses sinais ocorrerem, a avaliação médica deve ser feita urgentemente. Tratamento para discreta celulite em paciente externo é admissível em indivíduos saudáveis com idade de 2 a 60 anos, sendo a hospitalização indicada para outras infecções.

Referências sobre tratamento

Pontos-chave

  • Indicações de queimadura profunda são a existência de vesículas ou bolhas (sugerindo queimadura de segundo grau); e diminuição da sensação, escara áspera seca, hipoestesia e capacidade de facilmente puxar os pelos (sugerindo queimadura de terceiro grau).

  • Se as queimaduras comprometerem > 10% da área de superfície corporal, administrar solução de lactato de Ringer em uma velocidade inicial orientada pela fórmula de Parkland (4 mL/kg × % área de superfície corporal queimada durante as 1ªs 24 h após a queimadura) e ajustada de acordo com o débito urinário a cada hora.

  • Para escaras circunferenciais ou constritivas, considerar a escarotomia.

  • As medidas de suporte incluem analgesia adequada e, se as queimaduras comprometerem > 20% da área de superfície corporal, suporte nutricional precoce.

  • Considerar fortemente a hospitalização se as queimaduras comprometerem as mãos, os pés ou o períneo (segundo ou terceiro graus); totalizarem > 5% da área de superfície corporal (segundo ou terceiro graus); abrangem > 1% da área de superfície corporal (terceiro grau); ou os pacientes tiverem > 60 ou < 2 anos de idade ou não forem propensos a aderir plenamente às medidas terapêuticas em casa.

  • Tratar cirurgicamente se houver alguma escara, a pressão compartimental for > 30 mmHg ou, geralmente, se as queimaduras forem de 2º ou 3º graus.

  • Em caso de infecção, aplicar antimicrobianos tópicos (para prevenção); sempre inspecionar as queimaduras (para o diagnóstico precoce das complicações); e usar antibióticos sistêmicos, alterar o tratamento tópico conforme necessário e, algumas vezes, desbridar a área infectada (para tratamento).

  • Começar fisioterapia e terapia ocupacional cedo para minimizar cicatrizes e contraturas.

Clique aqui para acessar Educação para o paciente
OBS.: Esta é a versão para profissionais. CONSUMIDORES: Clique aqui para a versão para a família
Profissionais também leram

Também de interesse

Vídeos

Visualizar tudo
Alteração unilateral no teste de Thompson
Vídeo
Alteração unilateral no teste de Thompson
Modelos 3D
Visualizar tudo
Tecido conjuntivo musculoesquelético
Modelo 3D
Tecido conjuntivo musculoesquelético

MÍDIAS SOCIAIS

PRINCIPAIS