Visão geral da criança maltratada

(Abuso infantil; Negligência infantil)

PorAlicia R. Pekarsky, MD, State University of New York Upstate Medical University, Upstate Golisano Children's Hospital
Revisado/Corrigido: modificado nov. 2025
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Visão Educação para o paciente

Os maus-tratos à criança incluem todos os tipos de maus-tratos e negligência de uma criança < 18 anos por um dos pais, cuidador ou outra pessoa em uma função de custódia que resulta em dano, potencial de dano ou ameaça de danos a essa criança. Quatro tipos de maus-tratos são genericamente reconhecidos: abuso físico, abuso sexual, abuso emocional (abuso psicológico) e negligência. O abuso médico infantil é outra forma de maus-tratos infantis. As causas dos maus-tratos à criança são variadas. O abuso e a negligência estão frequentemente associados a lesões físicas, retardo de crescimento e desenvolvimento e problemas de saúde mental. O diagnóstico baseia-se em história, exame físico e, às vezes, exames laboratoriais e imagiologia diagnóstica. A conduta inclui a documentação e o tratamento de quaisquer lesões e condições de saúde física e mental, a notificação obrigatória às agências governamentais competentes e, por vezes, hospitalização e/ou colocação alternativa para garantir a segurança da criança.

Os maus-tratos infantis incluem todos os tipos de abuso e negligência contra crianças < 18 anos por pais, cuidadores ou outras pessoas em função de guarda, que resultem em dano, potencial de causar dano ou ameaça de dano à criança (1). Em 2023, 4,4 milhões de relatos de supostos maus-tratos contra crianças foram feitos no Child Protective Services (CPS) nos Estados Unidos, envolvendo 7,8 milhões de crianças. Cerca de 3,1 milhões desses relatos foram investigados em detalhes ou receberam uma resposta alternativa, e aproximadamente 546.000 crianças maltratadas foram identificadas (1). Os índices de maus-tratos foram mais altos entre meninas (7,9 por 1.000 meninas) do que meninos (6,9 por 1.000 meninos). Quanto mais jovem a criança, maior a taxa de vitimização (cerca de 26,6% tinham 2 anos de idade ou menos).

Cerca de dois terços de todos os relatos ao Child Protective Services nos Estados Unidos foram feitos por profissionais que são obrigados a relatar os maus-tratos (p. ex., educadores, executores da lei, assistentes sociais, profissionais jurídicos, profissionais de creches, profissionais médicos ou da saúde mental, pais adotivos) (2). Nos Estados Unidos, educadores respondem consistentemente pela maior proporção de denúncias de maus-tratos.

Dos casos comprovados nos Estados Unidos em 2023, 76% envolveram negligência (incluindo negligência médica), 16% envolveram abuso físico, 10% envolveram abuso sexual e 0,2% envolveram tráfico sexual (1). Muitas crianças foram vítimas de múltiplos tipos de maus-tratos (3).

Aproximadamente 2.000 crianças morreram nos Estados Unidos em decorrência de maus-tratos em 2023, cerca de metade das quais tinha < 1 ano de idade (1). Cerca de 78% dessas crianças foram vítimas de negligência e 41,6% foram vítimas de violência física, com ou sem outras formas de maus-tratos. Mais de 80% dos agressores eram pais agindo sozinhos ou com outros indivíduos.

Os potenciais perpetradores de maus-tratos contra crianças são definidos de forma ligeiramente distinta entre jurisdições; contudo, em geral, para que sejam legalmente considerados como tal, os maus-tratos devem ser praticados por pessoa responsável pelo bem-estar da criança. Portanto, pais e outros parentes, pessoas que vivem na casa da criança que têm responsabilidade rotineira, professores, motoristas de ônibus, conselheiros e assim por diante, podem ser considerados agressores. Pessoas que cometem violência contra crianças com as quais não têm vínculo ou responsabilidade (p. ex., em tiroteios em escolas) podem responder por agressão, homicídio etc., mas não se considera, do ponto de vista legal, que pratiquem abuso infantil.

Os maus-tratos infantis são reconhecidos como uma das várias formas de experiências adversas da infância (EAIs). As EAIs (como abuso infantil ou disfunção familiar) aumentam o risco de problemas de longa duração, incluindo transtornos de saúde mental e transtornos por uso de substâncias (4). Os maus-tratos infantis também estão associados a problemas na idade adulta, como obesidade, doença cardíaca, asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).

A prevenção primária dos maus-tratos infantis é importante (5). As estratégias preventivas eficazes incluem apoiar os pais por meio de educação sobre práticas parentais construtivas e fortalecer a legislação a fim de proibir formas violentas de disciplina ou punição. Uma vez ocorridos os maus-tratos, serviços adequados de resposta e apoio devem estar disponíveis e atuantes para identificar os casos e fornecer cuidados contínuos às vítimas e suas famílias. Isso ajuda a reduzir a recorrência de maus-tratos e mitigar suas consequências, que podem ser vitalícias.

Referências gerais

  1. 1. U.S. Department of Health & Human Services; Children's Bureau: An Office of the Administration for Children & Families. Child Maltreatment (2023). Accessed September 10, 2025.

  2. 2. Nadon M, Park K, Lee JY, Wright M. Who makes the call? Examining the relationship between child maltreatment referral sources and case outcomes in the United States, 2008-2018. Child Abuse Negl. 2023;145:106404. doi:10.1016/j.chiabu.2023.106404

  3. 3. Turner HA, Finkelhor D, Ormrod R. Poly-victimization in a national sample of children and youth. Am J Prev Med. 2010;38(3):323-330. doi:10.1016/j.amepre.2009.11.012

  4. 4. Waehrer GM, Miller TR, Silverio Marques SC, et al. Disease burden of adverse childhood experiences across 14 states. PLoS One. 15(1):e0226134, 2020. doi: 10.1371/journal.pone.0226134

  5. 5. World Health Organization. Fact Sheets: Child maltreatment. November 4, 2024. Accessed September 10, 2025.

Classificação dos maus-tratos infantis

Pode haver coexistência de diferentes formas de maus-tratos, e a sobreposição pode ser considerável. As 4 formas principais incluem o seguinte (1):

  • Abuso físico

  • Abuso sexual

  • Abuso emocional

  • Negligência

Além disso, simular intencionalmente, falsificar ou exagerar sintomas médicos em uma criança que resulta em intervenções médicas potencialmente prejudiciais (agora denominado transtorno factício imposto a outro ou abuso médico infantil; anteriormente chamado de síndrome de Munchausen por procuração) também é considerado uma forma de abuso (abuso infantil em ambiente médico).

Negligência

É não suprir as necessidades físicas básicas, emocionais, educativas e médicas da criança. A negligência é frequentemente passiva. É importante distinguir pobreza de negligência; a pobreza em si não é reportável aos serviços de proteção à criança.

Diferentes tipos de negligência podem ser definidos como

  • A negligência física inclui a falta de oferta adequada de alimento, vestuário, proteção, supervisão e proteção contra danos potenciais.

  • Negligência emocional é a falha na demonstração de afeto, ou amor, ou outro tipo de apoio emocional.

  • A negligência educacional é a falha em não matricular a criança na escola, assegurar a frequência escolar ou uma prática de educar em casa.

  • A negligência médica é a falha em assegurar que a criança receba tratamento adequado ou necessário por lesões ou distúrbios físicos ou mentais.

Mas a falha em fornecer tratamentos preventivos (p. ex., vacinações, exames odontológicos de rotina) geralmente não é considerada negligência.

Abuso físico

O abuso físico envolve um cuidador que inflige danos físicos ou que participa de ações que criam alto risco de danos. O abuso físico pode assumir muitas formas, como sacudir, deixar cair, chutar, bater, morder e queimar (p. ex., por escaldadura ou contato com cigarros).

Lactentes e crianças pequenas correm maior risco de abuso físico porque os estágios de desenvolvimento pelos quais a maioria passa (p. ex., choro com ou sem cólica, padrões de sono inconsistentes, birras, treinamento de higiene) podem frustrar os cuidadores. Esse grupo etário também corre maior risco porque não consegue articular ou relatar seu abuso. O abuso físico é a causa mais comum de lesão craniana grave em lactentes. Em crianças pequenas, lesão abdominal também é comum. Crianças nesses grupos etários também apresentam risco aumentado de lesões cerebrais (isto é, traumatismo craniano abusivo) e da coluna vertebral devido à sua maior proporção cabeça-corpo, além dos músculos do pescoço mais fracos.

Abuso sexual

Qualquer ação com uma criança que vise à satisfação sexual de um adulto ou de uma criança maior (em termos de desenvolvimento físico ou idade), constitui abuso sexual (ver também Transtorno pedofílico).

O abuso sexual não inclui brincadeiras sexuais normais, em que as crianças quase na mesma idade e desenvolvimento se olham ou tocam a área genital sem força ou coerção. Embora as definições legais que diferenciam o abuso sexual de brincadeiras variem de acordo com a jurisdição, em geral, o contato sexual entre indivíduos com uma disparidade de idade > 4 anos (cronologicamente ou no desenvolvimento mental ou físico) é considerado impróprio.

As formas de abuso sexual incluem

  • Relações sexuais, que consistem em penetração oral, anal ou vaginal

  • Molestamento sexual, que é o contato genital sem relação sexual

  • Formas que não envolvem contato físico pelo agressor, incluindo exposição dos órgãos genitais do agressor, mostrar ou enviar por mensagem material sexualmente explícito para uma criança, postar fotos sexualmente explícitas de uma criança, e forçar uma criança a participar de um ato sexual com outra pessoa ou a participar da produção de material sexual

Abuso emocional

O abuso emocional ocorre quando um pai ou responsável substituto inflige dano emocional a uma criança por meio do uso de palavras ou ações, mediante qualquer uma das seguintes condutas:

  • Repreender a criança gritando ou berrando

  • Rejeitar a criança depreciando suas habilidades e realizações

  • Intimidar e aterrorizar a criança com ameaças

  • Explorar ou corromper a criança, incentivando um comportamento desviante ou criminoso

O abuso emocional também pode ocorrer quando palavras ou ações são omitidas ou recusadas, caracterizando, na essência, uma negligência emocional (p. ex., ignorar ou rejeitar uma criança ou isolá-la do convívio com outras crianças ou adultos).

Considerações especiais

Abuso médico infantil

Abuso em um ambiente médico (antigamente chamado síndrome de Munchausen por procuração, agora chamado transtorno factício imposto ao outro no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª ed [DSM-5]) ocorre quando os responsáveis produzem ou falsificam intencionalmente sintomas ou sinais físicos ou psicológicos em uma criança. O responsável pode lesionar a criança com drogas ou outros agentes ou acrescentar sangue ou contaminantes bacterianos a amostras de urina para simular uma doença.

Vítimas deste tipo de abuso infantil podem receber avaliações, exames e/ou tratamentos desnecessários e prejudiciais ou potencialmente prejudiciais, incluindo procedimentos ou cirurgias (2).

Fatores culturais

As normas culturais variam e um indivíduo pode ser guiado pelas normas de uma ou mais culturas definidas por região, país, cidade ou município, grupo social, faixa etária, origem nacional, religião ou outros fatores. A distinção entre comportamento socialmente aceito e abuso varia entre diferentes culturas. Contudo, normas culturais não devem ser utilizadas como justificativa para todo e qualquer comportamento, embora diferenciar comportamento normal de maus-tratos possa ser desafiador. Por exemplo, castigo corporal grave (p. ex., chicotear, queimar, escaldar) constitui claramente abuso físico, mas, para graus menores de punição física e emocional de uma criança, o limite entre o comportamento socialmente aceitável e o abuso pode variar entre as culturas. Da mesma forma, existem algumas práticas aceitas e valorizadas como parte de tradições ou rituais culturais e religiosos que são consideradas abuso nos Estados Unidos ou em alguns outros países, por exemplo, mutilação genital feminina ou certos remédios populares (p. ex., dermoabrasão, ventosaterapia, cataplasmas irritativos) que podem criar lesões (p. ex., hematomas, petéquias, queimaduras leves).

As crenças de alguns grupos religiosos ou culturais incluem não procurar tratamento médico, não consentir com certos tipos de tratamentos médicos (p. ex., transfusão de sangue, vacinação) ou considerar algo como manifestação sagrada ou espiritual em vez de uma doença (p. ex., convulsões). Membros desses grupos, às vezes, não disponibilizam tratamento para salvar a vida (p. ex., para cetoacidose diabética ou meningite), resultando na morte da criança. Essa falha é normalmente considerada negligência, independentemente das crenças dos pais ou responsáveis. Quando uma criança está doente, a recusa de tratamento medicamente aceito pode resultar em intervenção legal (p. ex., ordenada pela justiça). A classificação legal da recusa de vacinação ou de outros cuidados médicos preventivos como negligência médica varia conforme a jurisdição.

Referências sobre classificação

  1. 1. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Child Abuse and Neglect Prevention: About Child Abuse and Neglect. May 16, 2024. Accessed September 17, 2025.

  2. 2. Bass C, Glaser D. Early recognition and management of fabricated or induced illness in children. Lancet. 2014;383(9926):1412-1421. doi:10.1016/S0140-6736(13)62183-2

Fatores de risco para maus-tratos infantis

A etiologia dos maus-tratos infantis é provavelmente multifatorial, envolvendo uma interação complexa de fatores de risco individuais, familiares, comunitários e sociais (isto é, determinantes sociais da saúde) (1) que contribuem tanto para abuso quanto para negligência (2). Os fatores de risco são altamente inter-relacionados e cumulativos; a presença de múltiplos fatores de risco aumenta exponencialmente a probabilidade de maus-tratos (3). Fatores de proteção, como apoio social forte e relacionamentos saudáveis entre cuidador e criança, podem mitigar o risco (4).

Abuso

Em geral, o abuso infantil pode ser atribuído a uma quebra do controle dos impulsos dos pais ou responsáveis. Vários fatores podem contribuir.

As características dos pais e os aspectos da personalidade podem desempenhar um papel no maltrato infantil. Na infância dos pais pode ter havido falta de afeto e carinho, com desenvolvimento inadequado de autoestima ou maturidade emocional, além de formas de maus-tratos em muitos casos. Os pais abusivos podem ver os seus filhos como uma fonte ilimitada e incondicional de afeto, e podem procurar neles o apoio que eles nunca receberam. Como resultado, eles podem ter expectativas irreais do que os filhos podem fornecer, frustram-se facilmente e têm pouco controle dos impulsos e são incapazes de dar o que eles nunca tiveram. O uso de substâncias pode provocar comportamentos impulsivos e descontrolados em relação às crianças. Transtornos de saúde mental dos pais não tratados também aumentam o risco de maus-tratos infantis.

Os pais podem alcançar seu limiar de frustração e praticar as ações abusivas subsequentes com mais facilidade e frequência no caso de crianças com necessidades especiais e/ou comportamentos difíceis (5). A falta de vínculo emocional pode contribuir para o risco de abuso, que ocorre mais comumente em crianças prematuras ou doentes separadas precocemente dos pais ou em crianças sem vínculo biológico (p. ex., enteados).

O estresse situacional (p. ex., perda de emprego, divórcio) pode precipitar o abuso, particularmente quando o apoio emocional de parentes, amigos, vizinhos ou colegas não está disponível.

Todos os tipos de abuso, incluindo o abuso sexual, ocorrem em um espectro amplo de grupos socioeconômicos. No entanto, alguns estressores socioeconômicos (p. ex., estresse financeiro, isolamento social, pais jovens ou solteiros) estão associados a um maior risco (1). Crianças de pais de primeira viagem, pais adolescentes e pais com vários outros filhos < 5 anos de idade também apresentam risco aumentado de maus-tratos.

Negligência

Em geral, negligência resulta de uma combinação de fatores incluindo dificuldades de criação pelos pais, inabilidade para enfrentar o estresse, falta de estrutura de apoio familiar, circunstâncias de vida sob pressão. A negligência costuma ocorrer em famílias que enfrentam estresses financeiros e ambientais, particularmente naquelas em que os pais também apresentam doença mental não tratada (geralmente depressão, ansiedade, transtorno bipolar ou esquizofrenia), transtorno por uso de substâncias ou deficiência intelectual. Crianças em famílias monoparentais podem estar em risco de negligência devido à menor disponibilidade de recursos (6).

Referências sobre etiologia

  1. 1. Hunter AA, Flores G. Social determinants of health and child maltreatment: a systematic review. Pediatr Res. 2021;89(2):269-274. doi:10.1038/s41390-020-01175-x

  2. 2. Luo Z, Chen Y, Epstein RA. Risk factors for child abuse and neglect: Systematic review and meta-analysis. Public Health. 2025;241:89-98. doi:10.1016/j.puhe.2025.01.028

  3. 3. Vial A, van der Put C, Stams GJJM, Kossakowski J, Assink M. Exploring the interrelatedness of risk factors for child maltreatment: A network approach. Child Abuse Negl. 2020;107:104622. doi:10.1016/j.chiabu.2020.104622

  4. 4. Younas F, Gutman LM. Parental Risk and Protective Factors in Child Maltreatment: A Systematic Review of the Evidence. Trauma Violence Abuse. 2023;24(5):3697-3714. doi:10.1177/15248380221134634

  5. 5. Austin AE, Lesak AM, Shanahan ME. Risk and protective factors for child maltreatment: A review. Curr Epidemiol Rep. 7(4):334–342, 2020. doi: 10.1007/s40471-020-00252-3

  6. 6. Vanderminden J, Hamby S, David-Ferdon C, et al. Rates of neglect in a national sample: Child and family characteristics and psychological impact. Child Abuse Negl. 2019;88:256-265. doi:10.1016/j.chiabu.2018.11.014

Sinais e sintomas dos maus-tratos em crianças

Dependem da natureza e duração do abuso ou negligência.

Abuso físico

Lesões cutâneas são os achados mais comuns. Em geral, os achados cutâneos são sutis (p. ex., um pequeno hematoma, petéquias na face e/ou pescoço) (1).

Achados mais graves podem consistir em

  • Marcas de mão ou marcas ovais de dedos, causadas ao dar tapas, agarrar e sacudir

  • Equimoses extensas causadas por açoites com cintos

  • Hematomas arqueados estreitos causados por açoites com fios elétricos

  • Múltiplas queimaduras pequenas arredondadas causadas por cigarros

  • Queimaduras simétricas de escaldamento nos membros inferiores ou superiores causadas por imersão intencional

  • Marcas de mordida

  • Pele espessada ou com cicatrizes nos cantos da boca causada por mordaças

  • Alopecia irregular, com comprimento capilar variado, causada por puxões de cabelo

Fraturas altamente indicativas de abuso físico incluem lesões metafisárias clássicas (isto é, fraturas em alça de balde, geralmente causadas por sacudimento de lactentes ou crianças pequenas), fraturas de costelas e fraturas de processos espinhosos (2). Fraturas mais frequentemente associadas a violência física incluem fraturas cranianas, fraturas de ossos longos e fraturas de arcos costais. Em crianças < 1 ano, cerca de 25% das fraturas são infligidas por outras pessoas (3).

As lesões do sistema nervoso central causam confusão e anormalidades neurológicas localizadas. Os profissionais de saúde devem estar cientes de que a falta de lesões visíveis externamente na cabeça não exclui danos internos, como traumatismo cranioencefálico, particularmente em lactentes submetidos a sacudimento violento. Esses lactentes podem entrar em coma ou estado de torpor por lesão encefálica, ainda que faltem sinais conspícuos de agressão (com a exceção comum da hemorragia de retina), ou eles podem manifestar sinais inespecíficos como inquietação e vômito. Traumatismos de órgãos torácicos ou abdominais/pélvicos podem também ocorrer inicialmente sem sinais visíveis.

As crianças podem sofrer mais de um tipo de maus-tratos, resultando em lesões periorais e intraorais. Profissionais médicos e odontológicos devem estar cientes de lesões e doenças que devem despertar suspeita de maus-tratos infantis (4).

Crianças mais velhas que sofreram abusos constantes geralmente são medrosas, irritadiças e dormem mal. Elas podem apresentar sintomas de depressão, reações de estresse pós-traumático ou ansiedade. Por vezes, as vítimas de abuso apresentam sintomas semelhantes aos de transtorno de deficit de atenção/hiperatividade (TDAH) e são erroneamente diagnosticadas com esse transtorno. Pode ocorrer comportamento suicida ou violento.

Dicas e conselhos

  • A falta de lesões encefálicas visíveis não exclui traumatismo cranioencefálico em crianças que sofreram abuso.

Abuso sexual

As crianças nem sempre apresentam sinais comportamentais ou físicos de abuso sexual. Na maioria dos casos, as crianças não revelam espontaneamente o abuso sexual; podem sentir vergonha de fazê-lo ou temer represálias do abusador ou outras consequências caso contem a alguém. Se houver revelação, ela pode ocorrer tardiamente, às vezes após dias ou até anos. Em alguns casos, mudanças abruptas ou extremas no comportamento podem ocorrer sem um fator precipitante óbvio. Podem surgir isolamento ou agressividade, fobias e distúrbios do sono. Algumas crianças que sofreram abuso sexual agem de maneiras que são consideradas sexualmente inapropriadas para sua idade.

Potenciais sinais físicos de abuso sexual que envolve penetração podem incluir

  • Dificuldade em deglutir, caminhar ou sentar

  • Hematomas ou lacerações em torno dos genitais, ânus ou boca

  • Corrimento vaginal, prurido ou sangramento

Poucos dias após o abuso, o exame dos genitais, ânus e boca provavelmente será normal, mas o examinador deve estar ciente de lesões cicatrizadas ou outras alterações sutis. Se uma criança for diagnosticada com infecção sexualmente transmissível ou gravidez, avaliação e apoio social para abuso sexual ou agressão sexual devem ser iniciados.

Abuso emocional

Os profissionais de saúde devem estar cientes dos sinais de abuso emocional infantil (às vezes também chamado de maus-tratos psicológicos infantis), que é diferente de negligência. O abuso emocional ocorre quando as tentativas da criança de ter suas necessidades psicológicas atendidas são frustradas, distorcidas ou corrompidas (5). Na infância, o abuso emocional pode enfraquecer o emocional e diminuir o interesse pelo meio ambiente. Ocasionalmente, o abuso emocional resulta em insuficiência de crescimento e frequentemente é confundido com deficiência intelectual ou doença física. O atraso no desenvolvimento de habilidades sociais e de linguagem pode ser um sinal de estímulo e interação inadequados dos pais.

Crianças que são abusadas emocionalmente podem se tornar inseguras, ansiosas, desconfiadas, superficiais nas relações interpessoais ou passivas. Podem compensar sendo, ou aparentando estar, excessivamente preocupados em agradar aos adultos. Crianças rejeitadas podem ter uma autoestima muito baixa. Crianças ameaçadas podem parecer amedrontadas e retraídas.

Em geral, o efeito emocional sobre as crianças torna-se óbvio na idade escolar, quando surgem dificuldades de se relacionar com professores e colegas. Frequentemente, os efeitos emocionais são valorizados apenas depois que a criança é colocada em outro ambiente ou após os comportamentos aberrantes diminuírem e serem substituídos por comportamentos mais aceitáveis. Crianças que são exploradas podem cometer crimes ou desenvolver transtorno por uso de substâncias.

Negligência

Desnutrição, fadiga, falta de higiene, falta de vestuário adequado e insuficiência de crescimento são sinais comuns de negligência (isto é, fornecimento inadequado de alimento, roupas ou abrigo). Crescimento atrofiado e morte resultantes de inanição ou exposição a extremos de temperatura ou clima podem ocorrer. A negligência que envolve supervisão inadequada pode resultar em doenças ou lesões evitáveis.

Referência sobre sinais e sintomas

  1. 1. Pierce MC, Kaczor K, Douglas JL, et al. Validation of a clinical decision rule to predict abuse in young children based on bruising characteristics. JAMA Netw Open. 4(4):e215832, 2021. doi: 10.1001/jamanetworkopen.2021.5832

  2. 2. Mankad K, Sidpra J, Mirsky DM, et al. International Consensus Statement on the Radiological Screening of Contact Children in the Context of Suspected Child Physical Abuse. JAMA Pediatr. 2023;177(5):526-533. doi:10.1001/jamapediatrics.2022.6184

  3. 3. Leventhal JM, Martin KD, Asnes AG. Incidence of fractures attributable to abuse in young hospitalized children: results from analysis of a United States database. Pediatrics. 2008;122(3):599-604. doi:10.1542/peds.2007-1959

  4. 4. Fisher-Owens SA, Lukefahr JL, Tate AR, et al. Oral and Dental Aspects of Child Abuse and Neglect. Pediatrics. 2017;140(2):e20171487. doi:10.1542/peds.2017-1487

  5. 5. American Professional Society on the Abuse of Children (APSAC) Task Force. Practice Guidelines: The investigation and determination of suspected psychological maltreatment of children and adolescents. Published 2023. Accessed September 23, 2025.

Diagnóstico de maus-tratos em crianças

  • História e exame físico detalhados

  • Questionamentos de apoios indeterminados

  • Ocasionalmente exames de imagem e laboratoriais

Os maus-tratos infantis são diagnosticados por meio de uma combinação de história clínica abrangente, exame físico (com atenção cuidadosa a certos achados clínicos) e testes diagnósticos direcionados, todos considerados em conjunto no contexto desenvolvimental e psicossocial da criança. Lesões acidentais e condições médicas comuns devem ser descartadas.

Reconhecer os maus-tratos como a causa de sintomas ou sinais inespecíficos pode ser difícil, e um alto índice de suspeita deve ser mantido. Devido a preconceitos implícitos, os profissionais de saúde podem ser menos propensos a considerar abuso em crianças que vivem em famílias biparentais com status socioeconômico presumidamente médio ou alto. Mas o abuso infantil pode ocorrer independentemente da composição familiar ou do nível socioeconômico. Apesar da presença de fatores de risco ou de vieses implícitos, os maus-tratos devem ser considerados em qualquer criança que apresente sinais e/ou sintomas sugestivos (p. ex., incompatibilidade entre a história fornecida e lesões traumáticas visíveis).

Uma história médica detalhada, incluindo o histórico de eventos significativos, deve ser obtida das crianças (se forem capazes, do ponto de vista do desenvolvimento, de fornecê-la), enquanto a criança e/ou seus cuidadores não envolvidos nos maus-tratos se encontram em um ambiente tranquilo (1). Detalhes pertinentes da história familiar e psicossocial incluem mudanças na composição familiar, exposição à violência por parceiro íntimo, problemas de saúde mental dos pais, transtorno por uso de substâncias, envolvimento com serviços de proteção à criança ou com a justiça juvenil e qualquer violência em curso. Frequentemente, após a avaliação inicial, permanece incerto se houve abuso. Contudo, a exigência de notificação obrigatória de suspeita de abuso deve acionar as autoridades competentes e/ou agências sociais para fins de investigação; se essa avaliação confirmar o abuso, podem ser realizadas intervenções legais e sociais apropriadas.

Tanto perguntas abertas quanto fechadas podem ser necessárias, dependendo da idade de desenvolvimento e do contexto psicossocial da lesão. Perguntas abertas (p. ex., “Você pode me contar o que aconteceu?”) são particularmente importantes nesses casos, pois perguntas fechadas (p. ex., “Papai fez isso?”, “Ele tocou você aqui?”) podem construir uma narrativa falsa na mente de uma criança pequena (2). Às vezes, perguntas diretas podem fornecer respostas, mas geralmente essa linha de questionamento deve ser reservada para indivíduos treinados em perícia médico-legal; alguns profissionais de saúde têm esse treinamento. Crianças que sofreram maus-tratos podem descrever os acontecimentos e o agressor, mas é importante notar que algumas crianças, particularmente as que sofreram abuso sexual, podem ser coagidas a manter segredos sob ameaças, ou estão tão traumatizadas que relutam em falar sobre o abuso (podem até negar o abuso quando especificamente questionadas).

O encontro clínico deve incluir, além de uma história detalhada, a observação das interações entre a criança e os cuidadores sempre que possível. A documentação da história e do exame físico deve ser a mais completa e precisa possível, incluindo o registro de citações exatas da anamnese e fotografias de possíveis lesões.

Abuso físico

Nos Estados Unidos, abuso físico (incluindo homicídio) está entre as 10 principais causas de morte em crianças (3). Tanto a história quanto o exame físico podem fornecer informações sugestivas de maus-tratos (4).

Na história, os aspectos sugestivos de abuso são

  • Relutância ou incapacidade dos pais de fornecer a história de uma lesão importante

  • História inconsistente com as lesões (p. ex., hematomas na parte posterior das pernas atribuídas a uma queda para frente) ou lesões em resolução (p. ex., lesões antigas descritas como recentes)

  • História que varia conforme a fonte de informação ou ao longo do tempo (reconhece-se que algumas discrepâncias podem ser atribuídas a diferentes informantes e à forma como as informações foram documentadas pelo profissional de saúde).

  • História de lesão incompatível com o estágio de desenvolvimento da criança (p. ex., lesões atribuídas à queda do leito em lactente muito pequeno para rolar ou deslocar-se o suficiente, ou à queda de escadas em lactente muito pequeno para engatinhar e que não foi colocado próximo às escadas).

  • Resposta inadequada dos pais à gravidade da lesão (seja excessivamente preocupada, seja indiferente).

  • Atrasos incomuns na busca de atendimento para a lesão

Os principais indicadores de abuso ao exame físico são

  • Lesões atípicas

  • Lesões frequentemente associadas a abuso em vez de quedas típicas da infância

  • Lesões incompatíveis com a história

As lesões na infância resultantes de quedas simples são tipicamente isoladas e tendem a ocorrer na testa, queixo, boca ou superfícies extensoras das extremidades, particularmente nos cotovelos, joelhos, antebraços e canelas. Hematomas nas nádegas e na parte de trás das pernas são extremamente raros como resultado de quedas. Fraturas, exceto as de clavícula, tíbia em crianças pequenas e rádio distal (fratura de Colles), são menos comuns em quedas típicas durante brincadeiras ou de escadas. Nenhuma fratura é patognomônica de abuso, mas lesões metafisárias clássicas (p. ex., fraturas em alça de balde), fraturas de arcos costais (especialmente da região posterior e da primeira costela), fraturas de crânio deprimidas ou múltiplas (causadas por traumas supostamente leves), fraturas de escápula, fraturas esternais e fraturas de processos espinhosos devem despertar preocupação para abuso.

Abuso físico e lesões internas graves devem ser considerados no diagnóstico diferencial quando uma lesão sentinela (lesões pouco explicadas, de menor gravidade clínica, em crianças pequenas que despertam suspeita de abuso) é identificada (p. ex., um hematoma em um lactente) (5). Um lactente pode parecer normal, apesar de traumas cerebrais significativos, de modo que um traumatismo craniano agudo infligido deve fazer parte do diagnóstico diferencial de todo lactente letárgico. Outras sugestões são lesões múltiplas em diferentes fases de cura ou evolução, lesões cutâneas com padrões sugestivos de fontes específicas de lesões; e lesões que se repetem, o que indica abuso ou supervisão inadequada.

Em casos de suspeita de abuso físico, incluindo trauma craniano abusivo, um exame oftalmológico com dilatação pupilar e neuroimagem são recomendados para todas as crianças < 1 ano de idade (6). A hemorragia retiniana ocorre de 85 a 90% dos traumas cranianos por abuso versus < 10% dos casos de traumatismo craniano acidental (7). Entretanto, hemorragias retinianas não são patognomônicas de abuso. Elas também podem resultar do parto e persistir por 4 ou mais semanas. Quando a hemorragia da retina é devida a um trauma por acidente, o mecanismo é geralmente óbvio e ameaça a vida (p. ex., colisão de veículos), e as hemorragias são tipicamente pouco numerosas e confinadas nos polos posteriores.

Crianças com < 24 meses de idade com possibilidade de abuso físico devem ter avaliação do esqueleto (via radiografia) para verificar lesões ósseas anteriores (fraturas em fases diferentes de cicatrização ou elevação subperiostal dos ossos longos) (8, 9). Ocasionalmente, realizam-se avaliações radiográficas em crianças mais velhas que apresentam atrasos significativos no desenvolvimento. A pesquisa padrão inclui imagens do

  • Esqueleto apendicular: úmeros, antebraços, mãos, fêmures, pernas e pés

  • Esqueleto axial: tórax (incluindo incidências oblíquas), pelve, coluna lombossacral, coluna cervical e crânio

Doenças físicas que podem provocar fraturas múltiplas incluem osteogênese imperfeita, raquitismo, e sífilis congênita. Na deficiência de cobre hereditária (síndrome de Menkes), a osteoporose pode levar a fraturas ósseas.

Abuso sexual

Infecções sexualmente transmissíveis (10, 11) em uma criança < 12 anos de idade quase sempre são resultado de abuso sexual. Quando uma criança sofreu abuso sexual, a mudança de comportamento (p. ex., irritabilidade, medo, insônia) pode, inicialmente, ser o único indício.

Se houver suspeita de abuso sexual, as regiões perioral e anal e a genitália externa devem ser examinadas em busca de evidências de lesões como parte de um exame físico abrangente. Se apropriado, testes para infecções sexualmente transmissíveis são realizados da forma menos invasiva possível para a criança (p. ex., exames de sangue e urina para algumas infecções).

Se o abuso suspeito for considerado recente, a coleta de evidências forenses deve ser oferecida e, se houver assentimento, realizada com o uso de kit apropriado e manuseada de acordo com os padrões legais exigidos (ver o tópico Testes e coleta de evidências) (12). Testes e profilaxia pós-exposição são oferecidos quando apropriado. Um exame envolvendo o uso de uma fonte de luz com uma câmera, como um colposcópio especialmente equipado, pode ser útil para o examinador e também para a documentação com finalidades legais.

Abuso emocional e negligência

Uma avaliação focalizando o aspecto geral e o comportamento pode revelar se a criança está tendo um desenvolvimento normal. Os professores e assistentes sociais são os primeiros a reconhecer a negligência. O médico pode notar a falta às consultas e vacinações fora do calendário de vacinações. A negligência médica de doenças crônicas potencialmente fatais, como asma e diabetes, pode resultar em atendimentos mas frequentes no consultório ou em prontos-socorros e baixa adesão ao tratamento recomendado.

(Ver também Deficiências nutricionais.)

Referências sobre diagnóstico

  1. 1. APSACTaskforce. Forensic Interviewing of Children. American Professional Society on the Abuse of Children (APSAC). 2023. Accessed October 4,2025.

  2. 2. Henderson HM, Lundon GM, Lyon TD. Suppositional Wh- Questions About Perceptions, Conversations, and actions are More Productive than Paired Yes-No Questions when Questioning Maltreated Children. Child Maltreat. 2023;28(1):55-65. doi:10.1177/10775595211067208

  3. 3. Centers for Disease Control and Prevention. National Center for Health Statistics: Child Health. Accessed September 24, 2025.

  4. 4. Christian CW; Committee on Child Abuse and Neglect, American Academy of Pediatrics. The evaluation of suspected child physical abuse. Pediatrics. 2015;135(5):e1337-e1354. doi:10.1542/peds.2015-0356

  5. 5. Sheets LK, Leach ME, Koszewski IJ, Lessmeier AM, Nugent M, Simpson P. Sentinel injuries in infants evaluated for child physical abuse. Pediatrics. 2013;131(4):701-707. doi:10.1542/peds.2012-2780

  6. 6. Narang SK, Haney S, Duhaime AC, et al. Abusive Head Trauma in Infants and Children: Technical Report. Pediatrics. 2025;155(3):e2024070457. doi:10.1542/peds.2024-070457

  7. 7. Maguire SA, Watts PO, Shaw AD, et al. Retinal haemorrhages and related findings in abusive and non-abusive head trauma: A systematic review. Eye (Lond). 27(1):28–36, 2013. doi: 10.1038/eye.2012.213

  8. 8. Haney S, Scherl S, DiMeglio L, et al. Evaluating Young Children With Fractures for Child Abuse: Clinical Report. Pediatrics. 2025;155(2):e2024070074. doi:10.1542/peds.2024-070074

  9. 9. American College of Radiology and Society for Pediatric Radiology. ACR-SPR practice parameter for the performance and interpretation of skeletal surveys in children. Revised 2021. Accessed September 17, 2025.

  10. 10. Jenny C, Crawford-Jakubiak JE; Committee on Child Abuse and Neglect; American Academy of Pediatrics. The evaluation of children in the primary care setting when sexual abuse is suspected. Pediatrics. 132(2):e558–e567, 2013. doi: 10.1542/peds.2013-1741

  11. 11. Adams JA, Kellogg ND, Farst KJ, et al. Updated Guidelines for the Medical Assessment and Care of Children Who May Have Been Sexually Abused. J Pediatr Adolesc Gynecol. 2016;29(2):81-87. doi:10.1016/j.jpag.2015.01.007

  12. 12. Thackeray JD, Hornor G, Benzinger EA, Scribano PV. Forensic evidence collection and DNA identification in acute child sexual assault. Pediatrics. 2011;128(2):227-232. doi:10.1542/peds.2010-3498

Conduta no caso de maus-tratos infantis

  • Tratamento das lesões

  • Notificar a agência apropriada

  • Elaboração de um plano de segurança

  • Aconselhamento e apoio à família

  • Às vezes, remoção da casa

A conduta primeiro aborda as necessidades médicas urgentes (incluindo possíveis infecções sexualmente transmissíveis) e a segurança imediata da criança (1, 2). Deve-se cogitar o encaminhamento a um pediatra especializado em medicina do abuso infantil. Nas situações de abuso e negligência, as famílias devem ser abordadas com ajuda e apoio, e não de maneira punitiva.

Segurança imediata

Profissionais de saúde que suspeitam que uma criança está sendo maltratada são aconselhados a seguir requisitos clínicos, regulatórios e legais locais e a utilizar os recursos disponíveis apropriados para avaliar, apoiar e proteger a criança.

Nos Estados Unidos, médicos e outros profissionais que mantêm contato com crianças (p. ex., enfermeiros, assistentes médicos, enfermeiros de prática avançada, assistentes sociais, psicólogos, professores, trabalhadores de creches e policiais) são denunciantes obrigatórios e, por lei, em todos os estados, devem notificar suspeitas de abuso ou negligência infantil (ver Mandatory Reporters of Child Abuse and Neglect). Membros de instituições públicas são encorajados, mas não obrigados a relatar suspeitas de abusos.

Qualquer pessoa que relata um abuso com bases justas e com boa-fé está imune de obrigações criminais e/ou civis. Por outro lado, um denunciante obrigatório que falha em fazer uma denúncia pode ficar sujeito a penalidades civis e criminais. As denúncias são feitas aos Serviços de Proteção à Criança (nos Estados Unidos) ou a outra agência de proteção à criança regionalmente apropriada. Na maioria das situações, é apropriado que os profissionais informem os responsáveis de que uma notificação está sendo realizada nos termos da lei e de que eles serão contatados, entrevistados e provavelmente visitados em seu domicílio, caso a notificação seja aceita. Em alguns casos, o profissional de saúde pode avaliar que informar os pais ou responsáveis antes de haver apoio da polícia ou de outro órgão competente cria maior risco de lesão à criança e/ou ao próprio profissional. Nessas circunstâncias, pode ser aceitável que o profissional adie a comunicação ao pai ou cuidador.

Profissionais de saúde que suspeitam de maus-tratos infantis frequentemente trabalham com assistentes sociais para determinar os próximos passos, incluindo

  • Fazer uma denúncia a um órgão de proteção infantil

  • Morar com parentes ou em residências temporárias (às vezes toda a família muda-se da casa do agressor)

  • Acolhimento temporário em família substituta ou, mais raramente, destituição do poder familiar (3) com o objetivo de assegurar a permanência por meio de adoção

  • Casas com serviços de atendimentos sociais e acompanhamento médico imediatos

Uma criança desnutrida suspeita de ser vítima de negligência deve primeiro ser hospitalizada e receber nutrição de maneira apropriada à idade antes de qualquer outro cuidado nutricional de suporte ser iniciado (p. ex., tubo de gastrostomia). Se uma criança passa a evoluir adequadamente durante a hospitalização, isso é considerado evidência objetiva e significativa de negligência (ou de pobreza associada à privação alimentar).

O médico desempenha papel importante ao trabalhar em conjunto com agências comunitárias para defender o melhor e mais seguro encaminhamento para a criança.

Os profissionais de saúde nos Estados Unidos muitas vezes são solicitados a escrever uma declaração de impacto, que é uma carta tipicamente dirigida a um funcionário de agência de proteção à criança (que pode então comunicar isso ao sistema judicial), sobre a suspeita de que uma criança é vítima de maus-tratos. A carta deve conter uma explicação clara da história e achados do exame físico (em termos leigos) e uma impressão clínica resumida sobre a probabilidade de que a criança tenha sofrido maus-tratos.

Acompanhamento

O acesso a cuidados médicos primários para a criança é essencial. Porém, as famílias de crianças que sofreram abusos ou negligência mudam-se com frequência, dificultando a continuidade dos cuidados. Consultas canceladas ou faltas são comuns. Em tais casos, ações de busca ativa e visitas domiciliares realizadas por assistentes sociais e/ou enfermeiros de saúde pública podem ser úteis. Um centro de defesa à criança pode ajudar entidades comunitárias, clínicos e órgãos da justiça a trabalharem em conjunto como uma equipe multidisciplinar de forma mais coordenada, eficaz e amigável à criança.

Deve-se realizar avaliação cuidadosa do contexto familiar, dos contatos prévios com diferentes agências de serviços comunitários e das necessidades dos responsáveis. Um assistente social pode realizar essa avaliação e auxiliar na coleta de informações e no aconselhamento familiar. Assistentes sociais também podem fornecer assistência real para os responsáveis ajudando-os a obter assistência pública, creche e serviços de auxiliares domésticos (o que pode reduzir o estresse para os responsáveis). Eles também podem ajudar a coordenar os serviços de saúde mental para os responsáveis. Em geral, é necessário um contato periódico e continuado do assistente social.

Em algumas comunidades há programas de auxílio aos pais, compostos por pessoal treinado, não profissional, que dão suporte a pais abusivos e negligentes e fornecem exemplos de boas práticas de criação de filhos. Outros grupos de apoio aos pais também têm agido com sucesso.

Ofensas sexuais podem ter efeito tardio sobre o desenvolvimento e a adaptação sexual da criança, particularmente entre as crianças maiores e os adolescentes. O aconselhamento ou a psicoterapia para a criança e os adultos não agressores pode atenuar esses efeitos.

Maus-tratos físicos, particularmente o traumatismo craniano grave, também podem ter efeitos duradouros sobre o desenvolvimento, e crianças com suspeita ou confirmação de trauma craniano abusivo devem ser encaminhadas para avaliação de intervenção precoce. Se os cuidadores estiverem preocupados com a possibilidade de uma criança pequena ter uma deficiência ou atraso no desenvolvimento, podem solicitar uma avaliação junto a programas de educação infantil. Nos Estados Unidos, cada estado possui um sistema de intervenção precoce, que é um programa para avaliar e tratar crianças com suspeita de deficiências ou atrasos no desenvolvimento.

Remoção da casa

Embora a remoção de emergência temporária da casa até que a avaliação esteja completa e a segurança garantida às vezes seja feita, o objetivo fundamental das agências de proteção à criança é manter a criança com sua família em ambiente saudável e seguro. Muitas vezes, oferecem-se às famílias serviços para reabilitar os responsáveis de modo que as crianças que foram afastadas possam estar novamente com a família.

Se as intervenções descritas anteriormente não garantirem a segurança, deve-se considerar a remoção a longo prazo e possivelmente até mesmo a perda dos direitos parentais. Este passo significativo requer a petição da corte representada por um conselho legal do departamento do bem-estar. Nos Estados Unidos, o procedimento específico varia de estado para estado, mas geralmente envolve depoimento em tribunal de família por um clínico. Quando o tribunal decide pela remoção urgente da criança do domicílio, é providenciado um encaminhamento, geralmente para acolhimento temporário, como o acolhimento familiar. Durante a realocação temporária, o médico da criança ou uma equipe médica especializada em cuidados infantis devem, se possível, manter contato com os pais e assegurar que todos os esforços estão sendo feitos para ajudá-los. Ocasionalmente, a criança pode sofrer abusos na casa de criação. O médico deve estar alerta para esta possibilidade.

Se a dinâmica familiar melhorar, a criança pode retornar para os cuidados dos responsáveis. Entretanto, podem ocorrer recorrências de maus-tratos.

Referências sobre tratamento

  1. 1. World Health Organization. Responding to child maltreatment: A clinical handbook for health professionals. August 4, 2022. Accessed September 23, 2025.

  2. 2. World Health Organization. WHO guidelines for the health sector response to child maltreatment. Technical Report. September 16, 2019. Accessed September 23, 2025.

  3. 3. Child Welfare Information Gateway. Adoption and Safe Families Act of 1997 – P.L. 105-89. November 1997. Accessed October 4, 2025.

Prevenção da maus-tratos em crianças

Pediatras e outros profissionais de atenção primária à saúde da criança estão na vanguarda dos esforços para prevenir maus-tratos infantis (1). Para clínicos pediátricos, o objetivo da prevenção de maus-tratos infantis é duplo: o objetivo principal é minimizar o risco identificando e abordando estressores familiares e comunitários, e o objetivo secundário é aumentar a resiliência melhorando os fatores de proteção da criança e da família.

A prevenção dos maus-tratos deve fazer parte de cada visita da criança ao consultório, mediante educação dos pais, responsáveis e crianças e identificação dos fatores de risco (1). Após a avaliação de risco, as famílias em risco devem receber intervenções educacionais direcionadas na clínica e ser encaminhadas aos recursos comunitários apropriados.

Pais que foram vítimas de maus-tratos têm maior risco de maltratar seus próprios filhos. Ocasionalmente, esses pais podem verbalizar ansiedade relacionada a sua história de abuso, mas também podem estar dispostos a receber assistência.

Alguns fatores de risco maternos para o abuso podem ser identificados durante o pré-natal (p. ex., mãe que fuma, tem transtorno por uso de substâncias e/ou história de violência doméstica) (2). Complicações obstétricas ou problemas médicos durante a gestação, o parto ou os primeiros meses de vida que afetam a saúde da mãe e/ou do lactente podem resultar em enfraquecimento do vínculo pais-criança (ver Neonatos doentes). Quando tais problemas são identificados, é importante explorar os sentimentos dos pais quanto à sua própria capacidade de exercer a parentalidade, bem como em relação ao bem-estar e às necessidades do lactente. Atenção especial deve ser dedicada à capacidade dos pais ou do cuidador de apoiar um lactente com múltiplas necessidades médicas, à existência de apoio emocional e físico mútuo entre os pais (quando constituem um casal) ou, no caso de pais solteiros, à disponibilidade de outras pessoas para oferecer esse apoio e auxiliar no cuidado, bem como à presença de parentes ou amigos que possam ajudar em momentos de necessidade. O profissional de saúde que está atento aos indícios durante o encontro clínico e é capaz de fornecer apoio oportuno pode ter um impacto significativo na família e possivelmente prevenir o abuso infantil.

Referências sobre prevenção

  1. 1. Stirling J, Gavril A, Brennan B, Sege RD, Dubowitz H; American Academy of Pediatrics, COUNCIL ON CHILD ABUSE AND NEGLECT. The Pediatrician's Role in Preventing Child Maltreatment: Clinical Report. Pediatrics. 2024;154(2):e2024067608. doi:10.1542/peds.2024-067608

  2. 2. Blangis F, Drouin J, Launay E, et al. Maternal, prenatal and postnatal risk factors for early child physical abuse: a French nationwide cohort study. Lancet Reg Health Eur. 2024;42:100921. Published 2024 May 14. Doi:10.1016/j.lanepe.2024.100921 

Informações adicionais

Os recursos em inglês a seguir podem ser úteis. Observe que este Manual não é responsável pelo conteúdo desses recursos.

  1. World Health Organization: WHO guidelines on parenting interventions to prevent maltreatment and enhance parent–child relationships with children aged 0–17 years

  2. Center for Parent Information and Resources

  3. Prevent Child Abuse America

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