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Náuseas e vômitos em lactentes e crianças

Por

Deborah M. Consolini

, MD, Sidney Kimmel Medical College of Thomas Jefferson University

Última modificação do conteúdo jul 2018
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Náuseas representam a sensação de vômitos iminentes, sendo frequentemente acompanhada de alterações autônomas, como aumento da frequência cardíaca e salivação. Náuseas e vômitos tipicamente acontecem em sequência; entretanto, eles podem ocorrer separadamente (p. ex., o vômito pode ocorrer sem ser precedido de náuseas como resultado do aumento da pressão intracraniana).

O vômito é desconfortável e pode causar desidratação por causa da perda de líquidos e da capacidade limitada de reidratação com ingestão de bebidas.

Fisiopatologia

O vômito é a parte final de uma sequência de eventos coordenados por um centro emético localizado na medula. O centro emético pode ser ativado por vias neurais aferentes de órgãos digestivos (p. ex., faringe, estômago, intestino delgado) e não digestivos (p. ex., coração, testículos), zona de gatilho quimiorreceptora localizada na área postrema no assoalho do 4o ventrículo (com receptores da dopamina e da serotonina) e outros centros do sistema nervoso central (p. ex., tronco cerebral, sistema vestibular).

Etiologia

As causas de vômito dependem da idade e variam dentro de uma faixa que vai de relativamente benigno até potencial ameaça à vida ({blank} Algumas causas de vômitos em lactentes, crianças e adolescentes). O vômito é um mecanismo protetor que fornece um meio de expelir toxinas, porém também pode indicar uma doença grave (p. ex., obstrução intestinal). O vômito bilioso indica obstrução intestinal alta e requer avaliação imediata, principalmente no lactente.

Lactentes

Lactentes normalmente regurgitam pequenas quantidades (em geral, < 5 a 10 mL) durante as refeições ou logo após, frequentemente quando estão eructando. Alimentação rápida, deglutição de ar e alimentação excessiva podem ser a causa, embora a regurgitação possa ocorrer sem esses fatores. Vômitos ocasionais também podem ser normais, mas não os vômitos persistentes.

As causas mais comuns entre neonatos e lactentes incluem:

Outras causas importantes nessa faixa de idade ainda incluem:

Causas menos comuns de vômitos recorrentes incluem sepse e intolerância alimentar. Disfunções metabólicas (p. ex., anomalias no ciclo da ureia, acidemias orgânicas) são incomuns, porém podem manifestar-se com vômitos.

Crianças maiores

A causa mais comum é

Infecções não GI podem causar episódios de vômitos. Outras causas a considerar incluem infecções graves (p. ex., meningite, pielonefrite), abdome agudo (p. ex., apendicite), hipertensão intracraniana secundária a lesões invasivas (p. ex., causada por trauma ou tumor) e vômitos cíclicos.

Em adolescentes, as causas de vômitos também incluem gestação, distúrbios alimentares e ingestões de toxinas (p. ex., paracetamol, ferro, etanol)

Tabela
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Algumas causas de vômitos em lactentes, crianças e adolescentes

Causa*

Achados sugestivos

Abordagem diagnóstica

Vômitos em lactentes

Geralmente com diarreia

Às vezes, febre e/ou contato com pessoa com sintomas semelhantes

Avaliação clínica

Às vezes, imunoensaios rápidos para antígenos virais (p. ex., rotavírus, adenovírus)

Agitação recorrente durante ou após a amentação

Ganho de peso possivelmente baixo, arqueamento das costas, sintomas respiratórios recorrentes (p. ex., tosse, estridor, sibilos)

Teste empírico da supressão ácida

Às vezes, exame com contraste do trato GI superior, Milk Scan, monitoramento do pH e/ou estudo de impedância ou endoscopia

Colite ou enterite bacteriana

Geralmente com diarreia (muitas vezes sanguinolenta), febre, dor abdominal em cólicas, distensão

Às vezes, febre, contato com uma pessoa com sintomas semelhantes

Avaliação clínica

Ocasionalmente, exame de fezes para contagem de leucócitos e cultura

Vômito recorrente em jato, logo depois da amamentação em neonatos com 2–12 semanas de idade, fezes infrequentes

Pode estar emaciado e desidratado

Às vezes, “azeitona” palpável no hipocôndrio direito

Ultrassonografia do piloro

Estudo contrastado GI alto se o ultrassom não estiver disponível ou for duvidoso

Estenoses e atresias congênitas

Distensão abdominal

Êmese biliosa nas primeiras 24–48 h de vida (grau menor de estenose pode retardar o aparecimento dos vômitos)

Às vezes, polidrâmnio durante a gestação, síndrome de Down, icterícia

Radiografia do abdome

Estudo GI alto ou enema contrastado, dependendo dos achados

Dor progressiva de cólica abdominal, choro inconsolável, letargia, flexão das pernas sobre o tórax

Mais tarde, fezes com sangue ("geleia de groselha")

Maior número acontece dos 3–36 meses

Ultrassonografia abdominal

Se o ultrassom é positivo ou não diagnóstico, fazer enema aéreo ou com contraste (a menos que paciente tenha sinais de peritonite ou perfuração)

Nos neonatos, atraso na eliminação do mecônio, distensão abdominal e dor, vômitos biliosos

Radiografia do abdome

Enema contrastado

Biópsia retal

Má rotação com volvulus

Nos neonatos, vômitos biliosos, distensão e dor abdominais

Fezes com sangue

Radiografia do abdome

Enema com contraste ou seriografia do esôfago, estômago e duodeno

Febre, letargia, taquicardia, taquipneia

Pressão de pulso ampliada, hipotensão

Contagem de células e culturas (sangue, urina, LCS)

Radiografia de tórax, se houver sintomas pulmonares

Dor abdominal, diarreia

Possivelmente, exantema eczematoso ou urticária

Dieta de eliminação

Algumas vezes, testes cutâneos e/ou testes alergorradioabsorventes (RAST)

Amamentação deficiente, atraso no desenvolvimento, letargia, hepatoesplenomegalia, icterícia

Às vezes, odor anormal, catarata

Eletrólitos, amônia, testes de função hepática, ureia, creatinina, glicemia, bilirrubina total e direta, hemograma, proteínas, tempo de protrombina

Rastreamento metabólico neonatal

Testes específicos em função dos achados

Vômitos em crianças e adolescentes

Geralmente com diarreia

Às vezes, febre, contato com pessoa com sintomas semelhantes ou história de viagem

Avaliação clínica

Às vezes, imunoensaios rápidos para antígenos virais (p. ex., rotavírus, adenovírus)

Colite ou enterite bacteriana

Geralmente com diarreia (muitas vezes sanguinolenta), febre, dor abdominal em cólica, distensão, urgência fecal

Frequentemente, febre, contato com pessoa com sintomas semelhantes ou história de viagem

Avaliação clínica

Ocasionalmente, fezes para cultura e leucócitos

Infecção não GI

Febre

Frequentemente, resultados locais (p. ex., cefaleia, otalgias e garganta, adenopatia cervical, disúria, dor lombar, corrimento nasal) dependendo da causa

Avaliação clínica

Exames dirigidos para a causa suspeita

Início de mal-estar geral e desconforto periumbilical seguido de dor localizada no quadrante inferior direito, vômitos depois da dor, anorexia, febre, ponto de McBurney dolorido, diminuição dos ruídos intestinais

Ultrassonografia (preferida no lugar de TC para limitar exposição à radiação)

Infecções graves

Febre, aparência toxêmica, dor lombar e/ou disúria (pielonefrite)

Rigidez de nuca, fotofobia (meningite)

Desatenção, hipotensão, taquicardia (sepse)

Contagens de células e culturas (sangue, urina, LCS), conforme indicado pelos achados

≥ 3 episódios de náuseas e vômitos intensos agudos incessantes e, às vezes, dor abdominal ou cefaleia que dura horas a dias

Intervalos sem sintomas intervenientes que duram semanas a meses

Exclusão de doenças metabólicas, GI (p. ex., má rotação) ou do sistema nervoso central (p. ex., tumor cerebral)

Hipertensão intracraniana (causada por tumor ou trauma)

Cefaleia progressiva crônica; despertares noturnos; vômitos matinais; cefaleia agravada pela tosse ou manobra de Valsalva; alterações na visão

TC cerebral (sem contraste)

Ciclos de compulsão e purgação, erosão do esmalte dentário, perda ou ganho de peso

Às vezes, lesão cutânea na mão por indução de vômito (sinal de Russell)

Avaliação clínica

Amenorreia, mal-estar matinal, edema, sensibilidade mamária

História de relação sexual sem proteção

Teste urinário de gestação

Ingestões tóxicas (p. ex., paracetamol, ferro, etanol)

Frequentemente, história de ingestão

Vários resultados dependendo da substância ingerida

Níveis qualitativos e às vezes quantitativos de fármacos no soro (dependendo da substância)

Reação adversa a fármacos (p. ex., a fármacos quimioterapêuticos)

Exposição a um fármaco específico

Avaliação clínica

*As causas são dispostas em ordem de frequência.

Muitos adolescentes não admitem que têm atividade sexual.

Avaliação

Inclui diagnóstico da causa e gravidade (p. ex., desidratação, cirurgia ou disfunção com ameaça à vida).

História

História da doença atual deve registrar o início dos episódios de vômitos, a frequência e o tipo (particularmente se o vômito é em jato, bilioso ou em pequena quantidade e mais semelhante à regurgitação). Deve-se estabelecer qualquer padrão para o vômito (p. ex., após se alimentar, apenas com certos alimentos, principalmente de manhã ou em episódios cíclicos recorrentes). Sintomas associados importantes incluem diarreia (com ou sem sangue), febre, anorexia e dor abdominal, distensão ou ambos. Devem-se observar frequência e consistência das evacuações e alterações urinárias.

A revisão dos sistemas deve buscar sintomas que causam as disfunções, incluindo fraqueza, sucção fraca e dificuldade para ganhar peso (disfunções metabólicas); atraso na eliminação do mecônio, distensão abdominal e letargia (obstrução intestinal); cefaleia, rigidez de nuca e distúrbios visuais (disfunções intracranianas); alimentação excessiva ou sinais de distorção da imagem corpórea (distúrbios alimentares); parada da menstruação e ingurgitamento mamário (gestação); exantema (eczema ou urticaria nas alergias a alimentos); otalgias e garganta (infecção focal não GI) e febre com cefaleia, dores no dorso ou no pescoço ou dor abdominal (meningite, pielonefrite ou apendicite).

A história clínica deve observar registro de viagens (possível gastrenterite infecciosa), qualquer trauma craniano recente e sexo sem proteção (gestação).

Exame físico

Os sinais vitais são avaliados como indicadores de infecção (p. ex., febre) e depleção de volume (p. ex., taquicardia, hipotensão).

O exame geral avalia sinais de angústia (p. ex., letargia, irritabilidade, choro inconsolável) e sinais de perda ponderal (caquexia) ou ganho de peso.

Como o exame do abdome pode ser desconfortável, o exame físico deve começar pela cabeça. Cabeça e pescoço são avaliados na busca de sinais de infecção (p. ex., membrana timpânica vermelha, abaulada; fontanela anterior abaulada; tonsilas avermelhadas) e desidratação (p. ex., mucosas secas, ausência de lágrimas). O pescoço deve ser flexionado passivamente para verificar resistência ou desconforto, sugerindo irritação meníngea.

O exame cardíaco deve observar a existência de taquicardia (p. ex., desidratação, febre, angústia). O exame abdominal deve observar distensão; presença e qualidade dos sons intestinais (p. ex., altos, normais, ausentes), sensibilidade e qualquer espasmo muscular associado, rigidez ou repercussões (sinais peritoneais) e presença de organomegalia ou massas.

Na pele e nas extremidades, verificar petéquias, púrpura (infecção grave) ou outros exantemas (possível infecção viral ou sinais de atopia), icterícia (possível disfunção metabólica) e sinais de desidratação (p. ex., turgor da pele diminuído, demora no retorno capilar).

Verificar os parâmetros do crescimento e sinais de desenvolvimento.

Sinais de alerta

Os achados a seguir são particularmente preocupantes:

  • Êmese biliosa

  • Letargia ou desatenção

  • Inconsolabilidade e abaulamento da fontanela do lactente

  • Rigidez de nuca, fotofobia e febre nas crianças maiores

  • Sinais peritoneais ou distensão abdominal (“abdome cirúrgico”)

  • Vômitos persistentes com deficit de crescimento ou desenvolvimento

Interpretação dos achados

Os resultados iniciais ajudam a determinar a gravidade do diagnóstico e a necessidade de intervenção imediata.

  • Qualquer neonato ou lactente com vômitos biliosos (amarelo ou verde) ou recorrentes ou em jato tem como diagnóstico mais provável obstrução GI, com provável necessidade de intervenção cirúrgica.

  • Em lactente ou criança pequena com cólica abdominal, sinais de dor intermitente ou desatenção, fezes ausentes ou com sangue, avaliar existência de intussuscepção.

  • Na criança ou no adolescente com febre, rigidez de nuca e fotofobia, avaliar meningite.

  • Em criança ou adolescente com febre e dor abdominal seguidas de vômitos, anorexia e diminuição dos ruídos hidroaéreos, avaliar a presença de apendicite.

  • História recente de trauma craniano ou cefaleias progressivas crônicas com vôtimos matinais e alterações visuais indicam hipertensão intracraniana.

Outros achados podem ser interpretados conforme a idade da criança ({blank} Algumas causas de vômitos em lactentes, crianças e adolescentes).

Nos lactentes, irritabilidade, sufocação e sinais respiratórios (estridor) podem ser manifestações de refluxo gastroesofágico. História de retardo de desenvolvimento ou manifestações neurológicas sugerem disfunção do sistema nervoso central ou metabólica. Demora na eliminação do mecônio e/ou vômitos pode sugerir doença de Hirschsprung ou estenose intestinal.

Nas crianças e adolescentes, febre sugere infecção; a combinação de vômitos e diarreia sugere gastrenterite aguda. Lesões dos dedos, erosão do esmalte dentário ou um adolescente despreocupado com a perda ponderal ou com uma imagem distorcida do corpo sugerem distúrbio alimentar. Náuseas matinais, vômitos, amenorreia e possível ganho de peso sugerem gestação. Vômitos episódicos que ocorreram no passado, de curta duração, sem outros sintomas, sugerem vômitos cíclicos.

Exames

Os exames devem ser direcionados para as causas suspeitas ({blank} Algumas causas de vômitos em lactentes, crianças e adolescentes). Os exames de imagem são tipicamente realizados na avaliação de patologia abdominal ou do sistema nervoso central. Vários exames de sangue ou culturas específicos são feitos para diagnosticar doenças metabólicas hereditárias ou infecção grave.

Na desidratação, avaliar eletrólitos.

Tratamento

O tratamento de náuseas e vômitos tem por alvo a causa da doença. Reidratação é importante.

Fármacos frequentemente utilizados em adultos para diminuir náuseas e vômito são usados com menos frequência em crianças porque a utilidade do tratamento não foi comprovada e porque esses fármacos têm os potenciais riscos dos efeitos adversos e porque mascaram a doença subjacente. Mas se náuseas ou vômitos são graves ou persistentes, antieméticos podem ser usados com cautela em crianças > 2 anos. Exemplos úteis de fármacos incluem

  • Prometazina: para crianças > 2 anos, 0,25 a 1 mg/kg (dose máxima de 25 mg), VO, IM IV ou retal, a cada 4 a 6 h

  • Proclorperazina: para crianças > 2 anos e peso entre 9 e 13 kg, 2,5 mg VO a cada 12 a 24 h; para aquelas com 13 a 18 kg, 2,5 mg VO a cada 8 a 12 h; para aquelas com 18 a 39 kg, 2,5 mg VO a cada 8 h; para aquelas > 39 kg, 5 a 10 mg VO a cada 6 a 8 h

  • Metoclopramida: 0,1 mg/kg, VO ou IV a cada 6 h (dose máxima de 10 mg)

  • Ondansetron: 0,15 mg/kg (dose máxima de 8 mg), IV a cada 8 h ou, se a forma oral é utilizada, para crianças de 2 a 4 anos, 2 mg, a cada 8 h; para aquelas com 4 a 11 anos, 4 mg, a cada 8 h; para aquelas ≥ 12 anos, 8 mg, a cada 8 h

Prometazina é um bloqueador dos receptores H1 (anti-histamínico) que inibe a resposta do centro emético aos estimulantes periféricos. O efeito adverso mais comum é depressão respiratória e sedação; o fármaco é contraindicado em crianças < 2 anos. Doses terapêuticas de prometazina podem causar efeitos adversos extrapiramidais, incluindo torcicolo.

Proclorperazina é um bloqueador fraco do receptor de dopamina que deprime a zona do gatilho quimiorreceptor. Acatisia e distonia são os efeitos adversos mais comuns, ocorrendo em até 44% dos pacientes.

A metoclopramida é um antagonista do receptor de dopamina que age tanto centralmente como perifericamente aumentando a motilidade gástrica e diminuindo os impulsos aferentes na zona do gatilho quimiorreceptor. Acatisia e distonia ocorrem em até 25% das crianças.

Ondansetrona é um bloqueador do receptor de serotonina (5-HT3) que inibe a iniciação do reflexo do vômito na periferia. Uma dose única de ondansetrona é segura e eficaz em crianças com gastroenterite aguda que e não respondem à terapia de reidratação oral (TRO). Facilitando a TRO, esse fármaco pode evitar a necessidade de líquidos IV ou, em crianças que recebem líquidos IV pode ajudar a prevenir a hospitalização. Tipicamente, apenas uma dose única é usada porque doses repetidas podem causar diarreia persistente.

Pontos-chave

  • Em geral, a causa mais comum dos vômitos é a gastrenterite viral aguda.

  • Diarreia associada sugere uma causa infecciosa GI.

  • Êmese biliosa, sangue nas fezes ou ausência de peristaltismo intestinal sugerem uma causa obstrutiva.

  • Vômitos persistentes (especialmente no lactente) exigem avaliação imediata.

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