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Derrame pleural

Por

Richard W. Light

, MD, Vanderbilt University Medical Center

Última modificação do conteúdo jul 2019
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Os derrames pleurais são acúmulos de líquido dentro do espaço pleural. Eles têm múltiplas causas e normalmente, são classificados como transudatos ou exsudatos. São detectados por exame físico ou radiografia de tórax; a toracocentese e a análise do líquido pleural costumam ser necessárias para determinar a causa. Os transudatos assintomáticos não necessitam de tratamento. Os transudatos sintomáticos e quase todos os exsudatos requerem toracocentese, drenagem torácica, pleurectomia, ou uma combinação destes procedimentos.

Em condições normais, 10 a 20 mL de líquido pleural, com composição semelhante ao plasma, mas com conteúdo mais baixo de proteína (< 1,5 g/dL [< 15 g/L]), espalham-se finamente pelas pleuras viscerais e parietais, facilitando o movimento entre os pulmões e a parede torácica. O líquido proveniente dos capilares sistêmicos da pleura parietal entra na cavidade pleural e sai pelos estomas e linfáticos do mesmo folheto. O líquido acaba sendo drenado para o átrio direito, portanto a depuração depende em parte das pressões do lado direito. O líquido pleural acumula-se quando entra muito ou sai pouco líquido da cavidade pleural.

Etiologia

Os derrames pleurais costumam ser classificados como

  • Transudatos

  • Exsudatos

A classificação dos derrames se baseia nas características laboratoriais do líquido (ver tabela Critérios para identificar os derrames pleurais exsudativos). Independentemente de ser unilateral ou bilateral, o transudato pode ser tratado sem avaliação extensiva, ao passo que a causa do exsudato necessita de investigação. Há várias causas (ver tabela Causas do derrame pleural).

Os derrames transudativos são provocados por alguma combinação de aumento da pressão hidrostática e diminuição da pressão oncótica na circulação pulmonar ou sistêmica. A insuficiência cardíaca é a causa mais comum, seguida pela cirrose com ascite por hipoalbuminemia, geralmente em decorrência da síndrome nefrótica.

Os derrames exsudativos são provocados por processos locais, causando aumento da permeabilidade capilar e resultando em exsudação de líquido, proteína, células e outros constituintes séricos. As causas são diversas, mas as mais comuns são pneumonia, doença maligna, embolia pulmonar, infecções virais e tuberculose.

A síndrome da unha amarela é um distúrbio raro que causa derrames pleurais exsudativos crônicos, linfedema e unhas amarelas distróficas—todas consideradas resultado de drenagem linfática prejudicada.

Tabela
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Critérios para identificação de derrames pleurais exsudativos

Exame

Exsudato

Sensibilidade (%)

Especificidade (%)

Critérios de Light ( 1 dos 3 a seguir):

98

77

  • HDL no líquido*

2/3 LSN para HDL sérica

66

100

  • Líquido pleural: razão de proteína total sérica

0,5

91

89

  • Líquido pleural: razão de HDL sérico

0,6

93

82

Proteína total no líquido

3 g/dL (30 g/L)

90

90

Colesterol no líquido

60 mg/dL (1,55 mmol/L)

43 mg/dL (1,11 mmol/L)

54

75

92

80

Líquido pleural: fração do colesterol sérico

0,3

89

71

Proteína do sorolíquido pleural†

3,1 g/dL (31 g/L)

87

92

*Correção para o aumento na DHL decorrente da lise de eritrócitos = DHL medida 0,0012 × número de eritrócitos/mcL.

† Exame preferível para pacientes para os quais foram prescritos diuréticos após desenvolvimento de derrame, se os critérios de Light para líquido exsudativo forem preenchidos mas nenhuma das medições bioquímicas for > 15% acima dos níveis de corte para os critérios de Light.

DHL = desidrogenase láctica; LSN = limite superior do normal.

Dados modificados de Light RW: Pleural effusion. New England Journal of Medicine 346:1971–1977, 2002.

O derrame quiloso (quilotórax) é o derrame branco e leitoso, rico em triglicerídios, causado por lesão traumática ou neoplásica (linfomatosa, com maior frequência) ao ducto torácico. Esse derrame também ocorre na síndrome da veia cava superior.

Os derrames quiliformes (colesterol ou pseudoquiloso) assemelham-se aos derrames quilosos, mas têm baixo teor de triglicerídios e alto teor de colesterol. Admite-se que os derrames quiliformes decorram da lise de eritrócitos e neutrófilos em derrames de longa evolução, quando a absorção é bloqueada pela pleura espessada.

O hemotórax é o líquido sanguinolento (hematócrito do líquido pleural > 50% do hematócrito periférico) na cavidade pleural, decorrente de trauma ou, raramente, de coagulopatia, ou após ruptura de grande vaso sanguíneo, como aorta ou artéria pulmonar.

O empiema é pus no espaço pleural. Ele pode ocorrer como uma complicação da pneumonia, toracotomia, abscessos (pulmonar, hepático ou subdiafragmático) ou trauma penetrante com infecção secundária. O empiema necessitatis é a extensão do empiema aos tecidos moles, causando infecção da parede torácica e drenagem externa.

O encarceramento pulmonar é o encarceramento do pulmão por tecido fibroso desencadeado por empiema ou tumor. Como o pulmão não pode se expandir, a pressão pleural torna-se mais negativa que o normal, aumentando a transudação de líquido dos capilares pleurais parietais. O líquido é caracteristicamente limítrofe entre o transudato e o exsudato; ou seja, os valores bioquímicos encontram-se nos 15% dos níveis limítrofes dos critérios de Light (ver tabela Critérios de identificação dos derrames pleurais exsudativos).

Os derrames iatrogênicos podem ser provocados por migração ou deslocamento da sonda de alimentação para dentro da traqueia ou a perfuração da veia cava superior por um acesso venoso central, acarretando a infusão de alimentos ou de solução intravenosa para a cavidade pleural.

Tabela
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Causas do derrame pleural*

Causa

Comentários

Transudato

Derrame bilateral, 81%; lado direito, 12%; lado esquerdo, 7%

Na insuficiência ventricular esquerda, há um aumento da pressão intersticial, que atravessa a pleura visceral e entra no espaço pleural

Cirrose com ascite (hidrotórax hepático)

Derrame do lado direito, 70%; lado esquerdo, 15%; bilateral, 15%

O líquido ascítico migra para a cavidade pleural através de orifícios diafragmáticos

Derrame ocorre em 5% dos pacientes com ascite clinicamente aparente

Hipoalbuminemia

Incomum

Derrame bilateral em mais de 90%

Diminuição da pressão oncótica intravascular acarreta transudação para a cavidade pleural

Associado a anasarca ou edema em outro local

Derrame geralmente bilateral; comumente subpulmonar

A diminuição da pressão oncótica intravascular associada à hipervolemia provoca transudação para a cavidade pleural

A urina disseca o retroperitônio, alcançando o espaço pleural e provocando urinotórax

Pericardite constritiva

Aumento da pressão hidrostática intravenosa no lado direito

Em alguns pacientes, acompanhado por anasarca maciça e ascite por um mecanismo semelhante ao do hidrotórax hepático

Aumento da pressão intrapleural negativa

Mecanismo semelhante ao hidrotórax hepático

Líquido pleural tem características semelhantes às do líquido dialisado

Pulmão encarcerado

O encarceramento com tecido fibroso aumenta a pressão intrapleural negativa

Pode ser exsudativo ou limítrofe

Síndrome do extravasamento capilar sistêmico

Rara

Evolui com anasarca e derrame pericárdico

Mixedema no (hipotireoidismo)

Derrame ocorre em cerca de 5%

Geralmente, é transudato se houver também derrame pericárdico, devido a pressões hidrostáticas elevadas; transudato ou exsudato se for derrame pleural isolado

Exsudato

Pneumonia (derrame parapneumônico)

Pode não haver complicação ou ser loculada e/ou também purulenta (empiema)

É necessária toracocentese para a diferenciação

Câncer

Pulmão, linfoma e mama são as neoplasias mais comuns, mas pode haver derrame com qualquer tumor metastático para a pleura

A dor torácica é tipicamente difusa e constante

Derrame em cerca de 30% dos casos:

Quase sempre exsudativo; sanguinolento em mais de 50%

Presume-se embolia pulmonar quando a dispneia for desproporcional ao tamanho do derrame

Infecção viral

Derrame geralmente pequeno, com ou sem infiltrado parenquimatoso

Predominam sintomas sistêmicos em vez de pulmonares

Maior ou somente do lado esquerdo: 73%; bilateral e igual: 20%; maior ou somente do lado direito: 7%

> 25% do hemitórax preenchido com líquido no 30° dia de pós-operatório em 10% dos pacientes

Derrames sanguinolentos relacionados à sangramento pós-operatório provavelmente se resolvem

Derrames não sanguinolentos têm probabilidade de recorrer; etiologia desconhecida, mas provavelmente de causa imunológica

Derrame geralmente unilateral ou ipsolateral aos infiltrados parenquimatosos, se presentes

Derrame decorrente de reação de hipersensibilidade à proteína da tuberculose

Culturas positivas do líquido pleural para tuberculose acima de 20%

Derrame em 1–2%

Pacientes têm sarcoide parenquimatoso extenso e, com frequência, sarcoide extratorácico

Granulomas pleurais em muitos pacientes sem derrame

Líquido pleural é predominantemente linfocítico

Uremia

Derrame em cerca de 3%

Mais de 50% têm sintomas secundários ao derrame: mais comumente febre (50%), dor torácica (30%), tosse (35%) e dispneia (20%)

Diagnóstico por exclusão

Abscesso infradiafragmático

Causa derrame subpulmonar “simpático”

Neutrófilos predominam no líquido pleural

pH e dextrose normais

Derrame com múltiplos fatores etiológicos: Pneumonias (parapneumônico), incluindo pneumonia por Pneumocystis jirovecii, outras infecções oportunistas, tuberculose e sarcoma de Kaposi pulmonar

O paciente é tipicamente um homem idoso com nódulos reumatoides e artrite deformante

Deve-se diferenciar do derrame parapneumônico (ambos caracterizados por baixo nível de glicose e pH e LDH [desidrogenase láctica] alta)

O derrame pode ser a primeira manifestação do lúpus eritematoso sistêmico

Comum no lúpus eritematoso sistêmico induzido por fármaco

Diagnóstico estabelecido por provas sorológicas do sangue e não do líquido pleural

Fármacos

Muitos fármacos, principalmente a bromocriptina, dantroleno, nitrofurantoína, interleucina-2 (para o tratamento de câncer de células renais e melanoma) e metisergida

Síndrome de hiperestimulação ovariana

Síndrome que ocorre como uma complicação da indução da ovulação com gonadotropina coriônica humana (hCG) e, ocasionalmente, clomifeno

Derrame desenvolve-se 7–14 dias após a injeção de hCG

52% no lado direito; 27%, bilateral

Aguda: derrame ocorre em cerca de 50%: bilateral, 77%; do lado esquerdo, 16%; do lado direito, 8%

O derrame decorre da passagem de líquido inflamatório exsudativo do diafragma e inflamação diafragmática

Crônica: derrame decorre de trato sinusal do pseudocisto pancreático através do diafragma até a cavidade pleural

Predomínio dos sintomas torácicos em vez de abdominais

Pacientes com caquexia que se assemelha à do câncer

Síndrome da veia cava superior

Derrame geralmente causado por obstrução do fluxo linfático intratorácico venoso por câncer ou trombose em um cateter central

Pode ser um exsudado ou um quilotórax

Pacientes em estado grave

Emergência médica

Morbidade e mortalidade decorrentes de infecção do mediastino e da cavidade pleural

Derrame pleural benigno da asbestose

Derrame ocorre em menos de 30 anos após a exposição inicial

Frequentemente assintomático

Tende a regredir e reincidir

Deve-se excluir mesotelioma

Tumor ovariano benigno (síndrome de Meigs)

Mecanismo semelhante ao hidrotórax hepático

Cirurgia às vezes indicada para pacientes com massa ovariana, ascite e derrame pleural

O diagnóstico requer o desaparecimento da ascite e do derrame no pós-operatório

Síndrome das unhas amarelas

Tríade de derrame pleural, linfedema e unhas amarelas algumas vezes surgem depois de décadas

Líquido pleural tem teor relativamente elevado de proteína e baixo de desidrogenase láctica

Derrame tende a recorrer

Ausência de dor torácica pleurítica

* As causas estão listadas primeiro em ordem aproximada de maior frequência.

Os derrames sem causa óbvia decorrem com frequência de embolia pulmonar oculta, tuberculose ou doença maligna. A etiologia é desconhecida para cerca de 15% dos derrames, mesmo após estudo extensivo; considera-se que muitos desses derrames decorram de infecção viral.

Sinais e sintomas

Alguns derrames pleurais são assintomáticos e descobertos por acidente no exame físico ou na radiografia de tórax. Muitos causam dispneia e/ou dor torácica pleurítica. Dor torácica pleurítica, desconforto vago ou dor aguda, que piora com a inspiração, indica inflamação da pleura parietal. A dor é habitualmente sentida sobre o ponto inflamado, mas as porções posterior e periférica da pleura diafragmática são supridas pelos seis nervos intercostais inferiores. As porções posterior e periférica da pleura diafragmática são supridas pelos 6 nervos intercostais inferiores, e a irritação aí pode causar dor na parte mais inferior do tórax ou no abdome, o que pode simular doença intra-abdominal. O comprometimento da porção central da pleura diafragmática, inervada pelos nervos frênicos, provoca dor referida no pescoço e no ombro.

O exame físico revela ausência de frêmito tátil, macicez à percussão e diminuição dos sons respiratórios do lado do derrame. Esses achados também podem ser desencadeados por espessamento pleural. Na vigência de derrames de grandes proporções, habitualmente a respiração é rápida e superficial.

O atrito pleural, embora infrequente, é o sinal físico clássico. Esse atrito varia de poucos sons intermitentes, que podem simular estertores crepitantes, a som completamente desenvolvido, áspero, rangente ou semelhante ao atrito de couro, sincronizado à respiração, ou seja, auscultado na inspiração e na expiração. Os sons de atrito adjacentes ao coração (atrito pleuropericárdico) podem variar com o batimento cardíaco e podem ser confundidos com o atrito pericárdico. O atrito pericárdico é mais bem auscultado sobre a borda esquerda do esterno, no 3º e no 4º espaços intercostais, tem caracteristicamente um som de vai-e-vem sincronizado ao batimento cardíaco e não é influenciado de modo significativo pela respiração. A sensibilidade e a especificidade do exame físico para a detecção de derrame são provavelmente baixas.

Diagnóstico

  • Radiografia de tórax

  • Análise do líquido pleural

  • Às vezes, angiografia por TC ou outros testes

Suspeita-se de derrame pleural em pacientes com dor pleurítica, dispneia inexplicável ou sinais sugestivos. Os exames diagnósticos são indicados para documentar a existência de líquido pleural e para determinar sua etiologia (ver figura Diagnóstico do derrame pleural).

Presença de derrame

A radiografia de tórax é o primeiro exame a ser realizado para confirmar a existência de líquido. Deve-se obter radiografia de tórax com incidência lateral e em posição ortostática quando houver presunção de derrame pleural. Na incidência em posição ortostática, 75 mL de líquido provocam velamento do seio costofrênico posterior. O velamento do seio costofrênico lateral geralmente requer cerca de 175 mL, mas pode suportar até 500 mL. Derrames pleurais de maiores proporções opacificam partes do hemitórax e podem causar compressão mediastinal; derrames > 4 L podem provocar opacificação completa e desvio do mediastino para o lado contralateral.

Derrames loculados são coleções de líquido encarceradas por aderências pleurais ou dentro de fissuras pulmonares. Não está claro na radiografia em decúbito lateral, TC ou ultrassonografia de tórax se a densidade de uma radiografia representa infiltrados líquidos ou parenquimatosos ou se o líquido presumido está loculado ou livre; esses exames são mais sensíveis do radiografias em posição vertical e podem detectar volumes de líquido < 10 mL. Os derrames loculados, em particular aqueles na fissura horizontal ou oblíqua, podem ser confundidos com massa pulmonar sólida (pseudotumor). Podem alterar a forma e o tamanho com as modificações da posição do paciente e a quantidade de líquido pleural.

Não há indicação rotineira de TC, mas é valiosa para a avaliação do parênquima pulmonar subjacente, com o intuito de identificar infiltrados ou massas quando o pulmão estiver obscurecido pelo derrame e para a distinção entre líquido loculado e massa sólida.

Causa do derrame

Deve-se realizar toracocentese em quase todos os pacientes com líquido pleural e espessura 10 mm nas incidências laterais de ultrassonografia ou radiografia, que seja de desenvolvimento recente ou de etiologia incerta. Em geral, os únicos pacientes que não necessitam de toracocentese são aqueles que têm insuficiência cardíaca com derrame pleural simétrico e sem dor torácica ou febre; nesses pacientes, pode-se tentar a diurese e evitar a toracocentese, a menos que o derrame persista por 3 dias.

Toracocentese e análise subsequente do líquido pleural são frequentemente necessárias para os derrames pleurais que são crônicos, têm causa estabelecida e não desencadeiam sintomas.

Dicas e conselhos

  • Apesar de ser uma prática comum, a radiografia de tórax não precisa ser repetido depois da toracocentese, a menos que os pacientes desenvolvam sintomas sugestivos de pneumotórax (dispneia ou dor torácica) ou a menos que o médico suspeite que possa ter entrado ar no espaço pleural durante o procedimento.

Sempre que possível, faz-se uma toracentese usando orientação ultrassonográfica, o que leva à produção de líquido e diminui o risco de complicações como o pneumotórax ou punção intra-abdominal de um órgão.

Efetua-se a análise do líquido pleural para diagnosticar a causa do derrame pleural. A análise inicia-se pela inspeção visual, que pode:

  • Distinguir sanguinolento e quiloso (ou quiliforme) de outros derrames

  • Identificar derrames purulentos fortemente sugestivos de empiema

  • Identificar líquido viscoso, característico de alguns mesoteliomas

Deve-se enviar sempre o líquido para avaliar proteína total, desidrogenase láctica, contagem diferencial de células, coloração de Gram e cultura de bactérias aeróbias e anaeróbias. Outros exames (glicemia, citologia, marcadores de tuberculose no líquido [ adenosina desaminase ou interferom-gama], amilase, culturas e colorações micobacterianas e fúngicas) são utilizados em condições clínicas apropriadas.

A análise de líquidos ajuda a distinguir transudatos de exsudatos; existem múltiplos critérios, mas nenhum é capaz de discriminar entre os 2 tipos. Ao utilizar os critérios de Light (ver tabela Critérios para identificar derrames pleurais exsudativos), dosar a desidrogenase láctica sérica e os níveis de proteína total o mais perto possível do momento da toracocentese para comparação com os níveis no líquido pleural. Os critérios de Light identificam corretamente quase todos os exsudatos, mas identificam erroneamente cerca de 20% de transudatos como exsudatos. Se houver presunção de derrame exsudativo (p. ex., decorrente de insuficiência cardíaca ou cirrose) e nenhuma das avaliações bioquímicas for > 15% dos valores limítrofes dos critérios de Light, mede-se, assim, a diferença entre a proteína no líquido pleural e no soro. Se a diferença for > 3,1 g/dL (> 31 g/L), é provável que o paciente tenha derrame transudativo.

Testes por imagem também podem ajudar. Se o diagnóstico permanecer incerto após a análise do líquido pleural, indica-se angiografia por TC para a identificação de embolia pulmonar, infiltrados pulmonares ou lesões mediastinais. Os achados de embolia pulmonar indicam a necessidade de anticoagulação a longo prazo; os infiltrados parenquimatosos, a necessidade de broncoscopia; e as lesões mediastinais, a necessidade de aspiração transtorácica com agulha ou mediastinoscopia. Entretanto, angiografia por TC exige que o paciente mantenha a respiração por 24 segundos e nem todos os pacientes podem fazer isso. Se a angiografia por TC não for esclarecedora, a observação é a melhor conduta, a não ser que o paciente tenha história de doença maligna, perda ponderal, febre persistente ou outros achados sugestivos de doença maligna ou tuberculose e, neste caso, pode-se indicar a toracoscopia. Pode-se efetuar biópsia com agulha da pleura quando não houver disponibilidade de toracoscopia. Se houver espessamento pleural ou nódulos pleurais, TC ou a biópsia guiada por ultrassonografia é útil para o diagnóstico.

Quando há suspeita de pleurite tuberculosa, mede-se o nível de adenosina desaminase no líquido pleural. Um nível acima de 40 U/L tem sensibilidade e especificidade de 95% para o diagnóstico de pleurite tuberculosa.

Diagnóstico do derrame pleural

Diagnóstico do derrame pleural

*De acordo com a presença de febre, perda ponderal, história de câncer ou outros sintomas sugestivos.

Tratamento

  • Tratamento dos sintomas e da doença subjacente

  • Drenagem de alguns derrames sintomáticos

  • Outros tratamentos para derrames parapneumônicos e malignos

O derrame em si geralmente não requer tratamento se ele é assintomático porque muitos derrames são resabsorvidos de modo espontâneo quando a doença subjacente é tratada, em especial derrames decorrentes de pneumonias sem complicações, embolia pulmonar ou cirurgia. Geralmente, a dor pleurítica pode ser tratada com anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) ou outros analgésicos orais. Às vezes, é necessário um curto período de opioides orais.

A toracocentese constitui tratamento suficiente para muitos derrames sintomáticos e pode ser repetida para os derrames que se acumulam novamente. Não há limites arbitrários quanto à quantidade de líquido que pode ser removido (1). A remoção do líquido pode ser continuada até que o derrame seja drenado ou o paciente desenvolva opressão torácica, dor torácica ou tosse grave.

Os derrames crônicos, recorrentes e que desencadeiam sintomas podem ser tratados com pleurodese ou pela drenagem intermitente com cateter de demora. Os derrames causados por pneumonia e doença maligna podem exigir medidas adicionais específicas.

Derrame parapneumônico e empiema

Na vigência de fatores prognósticos adversos (pH < 7,20, glicose < 60 mg/dL (< 3,33 mmol/L), cultura ou coloração de Gram positivas, loculações), o derrame deve ser drenado completamente por toracocentese ou toracostomia com dreno. Se a drenagem completa é impossível, um fármaco trombolítico (fibrinolítico) (p. ex., 10 mg de ativador do plasminogênio de tecido) juntamente com uma DNAse (p. ex., 5 mg de dornase alfa) em 100 mL de solução fisiológica podem ser administrados intrapleuralmente 2 vezes ao dia por 3 dias. Se as tentativas de drenagem não forem bem-sucedidas, pode-se realizar toracoscopia para lisar aderências e remover o revestimento de tecido fibroso do pulmão para permitir que este se expanda. Se a toracoscopia não for bem-sucedida, é necessário efetuar toracotomia com descorticação cirúrgica (p. ex., remoção de cicatrizes, coágulos, ou membrana fibrosa em torno dos pulmões).

Derrame pleural maligno

Se a dispneia desencadeada por derrame pleural maligno for aliviada por toracocentese, mas ocorrer novamente dispneia e acúmulo de líquido, indica-se drenagem crônica (intermitente) ou pleurodese. Os derrames assintomáticos e aqueles que não respondem à toracocentese não exigem procedimentos adicionais.

A drenagem com cateter de demora é a abordagem preferível para pacientes ambulatoriais, porque o cateter pode ser inserido em esquema ambulatorial e o líquido pleural drenado intermitentemente em frascos a vácuo. Cria-se a pleurodese pela instilação de agente esclerosante na cavidade pleural para fundir as pleuras parietal e visceral, eliminando a cavidade. Os agentes mais efetivos e mais comumente utilizados são talco, doxiciclina e bleomicina instilados por dreno de tórax ou toracoscopia. A pleurodese está contraindicada se o mediastino for desviado para o lado do derrame ou se o pulmão não se expandir após a inserção do dreno de tórax.

A derivação de líquido pleural para o peritônio (derivação pleuroperitoneal) é útil para pacientes com derrame maligno que não respondem à pleurodese ou que possuem encarceramento pulmonar.

Referência sobre o tratamento

Pontos-chave

  • Os derrames transudativos são provocados por alguma combinação de aumento da pressão hidrostática e diminuição da pressão oncótica na circulação pulmonar ou sistêmica.

  • Os derrames exsudativos resultam de maior permeabilidade capilar, levando à perda de proteínas, células e outros constituintes séricos.

  • As causas mais comuns de derrames transudativos são insuficiência cardíaca, cirrose com ascite e hipoalbuminemia (geralmente em decorrência da síndrome nefrótica).

  • As causas mais frequentes do derrames exsudativos são pneumonia, câncer, embolia pulmonar e tuberculose.

  • A avaliação requer exames de imagem (geralmente uma radiografia de tórax) para confirmar a presença de líquido e a análise do líquido pleural a fim de ajudar a determinar a causa.

  • Deve-se fazer radiografias em decúbito lateral, TC do tórax ou ultrassonografia se não estiver claro se uma densidade radiográfica representa líquidos ou infiltrados parenquimais ou se o líquido suspeito está loculado ou fluindo livremente.

  • Os derrames crônicos ou recorrentes e que desencadeiam sintomas podem ser tratados com pleurodese ou por drenagem intermitente com cateter de demora.

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