Displasia broncopulmonar (DBP)

PorArcangela Lattari Balest, MD, University of Pittsburgh, School of Medicine
Reviewed ByAlicia R. Pekarsky, MD, State University of New York Upstate Medical University, Upstate Golisano Children's Hospital
Revisado/Corrigido: modificado set. 2025
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Visão Educação para o paciente

A displasia broncopulmonar é uma doença pulmonar crônica do neonato que normalmente é causada por ventilação prolongada e/ou suplementação de oxigênio em lactentes vulneráveis, principalmente prematuros. O diagnóstico baseia-se na necessidade prolongada de suplementação de oxigênio e suporte respiratório adicional. O tratamento é de suporte e inclui suplementação nutricional, restrição líquida, diuréticos e talvez broncodilatadores inaláveis e, como um último recurso, corticoides sistêmicos ou inaláveis.

(Ver também Visão geral dos distúrbios respiratórios perinatais.)

Considera-se que há displasia broncopulmonar (DBP, doença pulmonar crônica da prematuridade) quando há necessidade prolongada de suplementação de oxigênio em neonatos pré-termo após 28 dias de vida ou 36 semanas de idade pós-menstrual, sem outras condições que exijam oxigênio (p. ex., pneumonia, cardiopatia congênita).

Etiologia da displasia broncopulmonar

A displasia broncopulmonartem etiologia multifatorial. Os pulmões do neonatos pré-termo são mais vulneráveis às alterações inflamatórias que resultam da ventilação mecânica. O desenvolvimento da arquitetura normal do pulmão é interrompido; desenvolvem-se alguns grandes alvéolos e o interstício torna-se espessado. Além disso, a vasculatura pulmonar se desenvolve de forma anormal, com capilares alveolares em menor número e/ou anormalmente distribuídos; resistência pulmonar pode aumentar e hipertensão pulmonar pode se desenvolver (1).

Fatores de risco significativos incluem:

Fatores de risco adicionais incluem

  • Enfisema pulmonar intersticial

  • Pico elevado da pressão inspiratória

  • Grandes volumes de entrada e saída de fluxos

  • Colapso alveolar repetido

  • Aumento da resistência das vias respiratórias

  • Aumento da pressão da artéria pulmonar

  • Sexo masculino

  • Restrição do crescimento intrauterino

  • Susceptibilidade genética

  • Tabagismo materno

Referência sobre etiologia

  1. 1. Kalikkot Thekkeveedu R, Guaman MC, Shivanna B. Bronchopulmonary dysplasia: A review of pathogenesis and pathophysiology. Respir Med. 2017;132:170–177. doi:10.1016/j.rmed.2017.10.014

Sintomas e sinais de displasia broncopulmonar

Sintomas e sinais de displasia broncopulmonar incluem desconforto respiratório, hipóxia ou necessidade de oxigênio e, em lactentes e crianças pequenas, tosse, sibilância, doença das vias respiratórias reativas e crescimento deficiente.

Diagnóstico de displasia broncopulmonar

  • Critérios diagnósticos estabelecidos, baseados no uso de oxigênio ou necessidades de suporte respiratório

  • Achados característicos nos exames de imagem do tórax

Suspeita-se normalmente de displasia broncopulmonar quando um lactente sob ventilação é incapaz de desmamar da terapia com oxigênio, ventilação mecânica (invasiva ou não invasiva) ou ambos. Os lactentes evoluem tipicamente com piora da hipoxemia, hipercapnia e aumento da necessidade de oxigênio. Além disso, quando um lactente não pode ser desmamado dentro do tempo esperado, deve-se considerar a possibilidade de distúrbios subjacentes, incluindo persistência do canal arterial e pneumonia adquirida no berçário.

Para o diagnóstico da DBP, recém-nascidos com > 32 semanas de gestação devem ter necessitado de oxigênio > 21% por pelo menos 28 dias, e recém-nascidos com < 32 semanas de gestação devem apresentar necessidade contínua de suporte respiratório até ≥ 36 semanas de idade pós-menstrual (1, 2). Outros critérios diagnósticos também existem, assim como sistemas de classificação para gravidade da DBP (veja tabela Critérios para Diagnóstico e Grau de Displasia Broncopulmonar em Recém-nascidos < 32 Semanas de Idade Gestacional) (3).

A radiografia de tórax revela inicialmente aspecto turvo difuso devido ao acúmulo de exsudatos; a seguir, o aspecto torna-se multicístico ou espongiforme, alternando áreas de enfisema, cicatrizes pulmonares e atelectasias. O epitélio alveolar pode descamar, podendo-se verificar macrófagos, neutrófilos e mediadores inflamatórios no aspirado traqueal.

Displasia broncopulmonar (DBP)
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O lactente nesta imagem tem uma história de prematuridade e displasia broncopulmonar. A radiografia frontal do tórax mostra opacidades pulmonares reticulares grosseiras e hiperinsuflação pulmonar em ambos os pulmões.

© Springer Science+Business Media
Tabela

Referências sobre diagnóstico

  1. 1. Jensen EA, Dysart K, Gantz MG, et al. The Diagnosis of Bronchopulmonary Dysplasia in Very Preterm Infants. An Evidence-based Approach. Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(6):751-759. doi:10.1164/rccm.201812-2348OC

  2. 2. Jobe AH, Bancalari E. Bronchopulmonary dysplasia. Am J Respir Crit Care Med. 2001;163(7):1723-1729. doi:10.1164/ajrccm.163.7.2011060

  3. 3. Higgins RD, Jobe AH, Koso-Thomas M, et al. Bronchopulmonary Dysplasia: Executive Summary of a Workshop. J Pediatr. 2018;197:300-308. doi:10.1016/j.jpeds.2018.01.043

Prevenção da displasia broncopulmonar

Práticas baseadas em evidências para prevenir a displasia broncopulmonar incluem (1–4):

  • Administração de glicocorticoides no pré-natal como indicado

  • Estratégias ventilatórias não invasivas precoces (p. ex., pressão positiva contínua das vias respiratórias [CPAP] na sala de parto, ou ventilação com pressão positiva intermitente não invasiva ou nasal [VPPNI] em recém-nascidos com 28 a 32 semanas de idade gestacional) versus intubação

  • Administração seletiva precoce de surfactante, preferencialmente por métodos menos invasivos versus intubação

  • Uso profilático de metilxantinas (cafeína)

  • Uso seletivo de corticoides sistêmicos

  • Ventilação com volume controlado versus ventilação com pressão limitada

  • Hipercarbia permissiva para minimizar as pressões e volumes do ventilador

  • Evitar ingestão ou administração excessiva de líquidos

O uso precoce de corticosteroides sistêmicos (< 7 dias de idade) diminui a probabilidade de morte e DBP, mas está associado a perfurações intestinais e paralisia cerebral e, portanto, não é recomendado (5). O início posterior de corticosteroides (> 7 dias de vida) pode resultar em redução de mortalidade e DBP na 36ª semana de idade pós-menstrual, sem prejuízo neurológico a longo prazo, embora ainda não haja um esquema de dosagem ideal definido. As evidências disponíveis não sustentam o uso de corticosteroides inalados na prevenção da DBP.

Muitas outras terapias, incluindo o uso de óxido nítrico inalado e a suplementação de vitamina A, não são tão bem sustentadas por evidências (1, 2).

Referências sobre prevenção

  1. 1. Durlak W, Thébaud B. BPD: Latest Strategies of Prevention and Treatment. Neonatology. 2024;121(5):596-607. doi:10.1159/000540002

  2. 2. Abiramalatha T, Ramaswamy VV, Bandyopadhyay T, et al. Interventions to Prevent Bronchopulmonary Dysplasia in Preterm Neonates: An Umbrella Review of Systematic Reviews and Meta-analyses. JAMA Pediatr. 2022;176(5):502-516. doi:10.1001/jamapediatrics.2021.6619

  3. 3. McGoldrick E, Stewart F, Parker R, Dalziel SR. Antenatal corticosteroids for accelerating fetal lung maturation for women at risk of preterm birth. Cochrane Database Syst Rev. 2020;12(12):CD004454. Publicado em 2020 Dez 25. doi:10.1002/14651858.CD004454.pub4

  4. 4. Gilfillan M, Bhandari A, Bhandari V. Diagnosis and management of bronchopulmonary dysplasia. BMJ. 2021;375:n1974. Publicado em 2021 Out 20. doi:10.1136/bmj.n1974

  5. 5. van de Loo M, van Kaam A, Offringa M, Doyle LW, Cooper C, Onland W. Corticosteroids for the prevention and treatment of bronchopulmonary dysplasia: an overview of systematic reviews. Cochrane Database Syst Rev. 2024;4(4):CD013271. Publicado em 2024 Abr 10. doi:10.1002/14651858.CD013271.pub2

Tratamento da displasia broncopulmonar

  • Otimização nutricional

  • Restrição de líquidos

  • Diuréticos

  • Suplementação de oxigênio conforme necessário

  • Profilaxia do vírus sincicial respiratório (VSR) e vacina contra influenza

  • Diagnóstico e tratamento da hipertensão pulmonar

O tratamento da DBP em evolução ou estabelecida é de suporte e inclui suplementação nutricional, restrição hídrica, diuréticos, possivelmente broncodilatadores inaláveis e, como último recurso, glicocorticoides inaláveis (1). As infecções respiratórias devem ser diagnosticadas precocemente e tratadas agressivamente. Deve-se alcançar o desmame da ventilação mecânica e a suplementação de oxigênio o mais cedo possível.

Nutrição enteral, de preferência com leite humano, deve fornecer energia adequada (150 calorias/kg/dia) e proteínas (3,5 a 4 g/kg/dia); as necessidades calóricas aumentam por causa do aumento do trabalho respiratório e para auxiliar a cicatrização e o crescimento dos pulmões.

Como podem surgir congestão e edema pulmonar, a ingestão de líquidos costuma ser limitada para 120 a 140 mL/kg/dia. A terapia diurética melhora momentaneamente a mecânica pulmonar, mas não o desfecho clínico a longo prazo (1). Tiazídicos ou diuréticos de alça podem ser utilizados para benefícios a curto prazo em pacientes que não respondem adequadamente ou não são capazes de tolerar a restrição de líquidos. Clorotiazida oral com ou sem espironolactona oral é frequentemente tentada primeiro. Furosemida pode ser utilizada por períodos curtos, uma vez que o uso prolongado causa hipercalciúria, que leva a osteoporose, fraturas e cálculos renais. Se for necessário o uso do diurético a longo prazo, deve-se preferir a clorotiazida, porque tem poucos efeitos adversos. Durante o uso terapêutico com diuréticos, a hidratação e os eletrólitos do soro devem ser monitorados de perto.

Broncodilatadores inaláveis (p. ex., salbutamol) não parecem melhorar os desfechos a longo prazo e não são utilizados rotineiramente. Mas eles podem ser úteis para episódios agudos de broncoconstrição (1).

As evidências não sustentam o uso de corticosteroides inalados para prevenir DBP quando administrados precocemente, mas podem ajudar a tratar sintomas quando administrados mais tarde (2). Embora corticoides sistêmicos possam resultar em melhora clínica da DBP ao diminuir a inflamação, as preocupações sobre os resultados adversos do neurodesenvolvimento decorrentes de cursos repetidos e/ou prolongados de dexametasona para DBP (3) levaram à reafirmação da declaração de política da Academia Americana de Pediatria de 2014 desencorajando o uso rotineiro de dexametasona para DBP (4). Estudos mais recentes sobre a hidrocortisona e a budesonida inalável na DBP determinaram que não há desfechos adversos significativos a longo prazo no desenvolvimento neurológico (5); entretanto, porque outros possíveis efeitos adversos (p. ex., hipertensão, cardiomiopatia, agravamento da retinopatia da prematuridade) são uma preocupação, corticoides sistêmicos e inaláveis são utilizados apenas nos casos em que se considera não haver outra alternativa.

Nos casos avançados de displasia broncopulmonar, pode ser necessária a suplementação adicional de oxigênio e/ou suporte ventilatório durante semanas ou meses. Deve-se reduzir as pressões ou volumes ventilatórios e fração do oxigênio inspirado (FiO2) assim que tolerado, mas o lactente não pode tornar-se hipoxêmico. O grau de insuflação pulmonar (volume corrente medido em mL/kg) apresenta maior risco de causar ou agravar a DBP do que a pressão das vias respiratórias considerada como valor absoluto em cm de H2O (6). A oxigenação arterial deve ser monitorada continuamente com um oxímetro de pulso e mantida uma saturação 89%. A acidose respiratória pode ocorrer durante o desmame ventilatório e é considerada aceitável desde que o pH permaneça > 7,25 e o lactente não apresente desconforto respiratório grave.

Dois anticorpos monoclonais utilizados para profilaxia contra VSR em lactentes e crianças pequenas estão disponíveis nos Estados Unidos. O nirsevimabe é preferido, mas pode não estar disponível para alguns lactentes (7, 8); se não estiver disponível, lactentes e crianças elegíveis de alto risco devem receber palivizumabe (ver também Prevenção de VSR para indicações).

Lactentes > 6 meses também devem ser vacinados contra influenza.

A hipertensão pulmonar deve ser identificada e tratada como apropriado.

Referências sobre o tratamento

  1. 1. Gilfillan M, Bhandari A, Bhandari V. Diagnosis and management of bronchopulmonary dysplasia. BMJ. 2021;375:n1974. Publicado em 2021 Out 20. doi:10.1136/bmj.n1974

  2. 2. van de Loo M, van Kaam A, Offringa M, Doyle LW, Cooper C, Onland W. Corticosteroids for the prevention and treatment of bronchopulmonary dysplasia: an overview of systematic reviews. Cochrane Database Syst Rev. 2024;4(4):CD013271. Publicado em 2024 Abr 10. doi:10.1002/14651858.CD013271.pub2

  3. 3. Filippone M, Nardo D, Bonadies L, et al. Update on postnatal corticosteroids to prevent or treat bronchopulmonary dysplasia. Am J Perinatol. 2019;36(S 02):S58–S62. doi:10.1055/s-0039-1691802

  4. 4. Watterberg KL; American Academy of Pediatrics. Committee on Fetus and Newborn. Policy statement--postnatal corticosteroids to prevent or treat bronchopulmonary dysplasia. Pediatrics. 2010;126(4):800-808. doi:10.1542/peds.2010-1534. Reaffirmed 2014 and 2020.

  5. 5. Aschner JL, Bancalari EH, McEvoy CT. Can we prevent bronchopulmonary dysplasia? J Pediatr. 2017;189:26–30. doi:10.1016/j.jpeds.2017.08.005

  6. 6. Kalikkot Thekkeveedu R, Guaman MC, Shivanna B. Bronchopulmonary dysplasia: A review of pathogenesis and pathophysiology. Respir Med. 2017;132:170–177. doi:10.1016/j.rmed.2017.10.014

  7. 7. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). RSV Immunization Guidance for Infants and Young Children. August 30, 2024.

  8. 8. American Academy of Pediatrics. AAP Recommendations for the Prevention of RSV Disease in Infants and Children. July 8, 2025.

Prognóstico para displasia broncopulmonar

As taxas de mortalidade da DBP variam por gravidade, de aproximadamente 1 a 2% em estudos de coorte de pacientes ambulatoriais a 16% em estudos de lactentes com doença potencialmente fatal (1–3).

Lactentes com DBP têm maior risco de desenvolver asma mais tarde na vida e também infecções do trato respiratório inferior (particularmente pneumonia ou bronquiolite) e podem desenvolver descompensação respiratória se infecção pulmonar ocorrer (4, 5). O limiar para hospitalização deve ser baixo se surgirem sinais de desconforto respiratório.

Além da doença pulmonar crônica e outras complicações pulmonares, lactentes com DBP têm risco aumentado de insuficiência de crescimento, paralisia cerebral e deficiência intelectual (6).

Referências sobre prognóstico

  1. 1. Dassios T, Williams E, Hickey A, Bhat R, Greenough A. Mortality after 36 weeks postmenstrual age of extremely preterm infants in neonatal care: The impact of growth impairment and bronchopulmonary dysplasia. Early Hum Dev. 2022;171:105618. doi:10.1016/j.earlhumdev.2022.105618

  2. 2. Naples R, Ramaiah S, Rankin J, Berrington J, Harigopal S. Life-threatening bronchopulmonary dysplasia: a British Paediatric Surveillance Unit Study. Arch Dis Child Fetal Neonatal Ed. 2022;107(1):13-19. doi:10.1136/archdischild-2021-322001

  3. 3. Aoyama BC, Rice JL, McGrath-Morrow SA, Collaco JM. Mortality in Outpatients with Bronchopulmonary Dysplasia. J Pediatr. 2022;241:48-53.e1. doi:10.1016/j.jpeds.2021.09.055

  4. 4. Cheong JLY, Doyle LW. An update on pulmonary and neurodevelopmental outcomes of bronchopulmonary dysplasia. Semin Perinatol. 2018;42(7):478-484. doi:10.1053/j.semperi.2018.09.013

  5. 5. Sillers L, Alexiou S, Jensen EA. Lifelong pulmonary sequelae of bronchopulmonary dysplasia. Curr Opin Pediatr. 2020;32(2):252-260. doi:10.1097/MOP.0000000000000884

  6. 6. Homan TD, Nayak RP. Short- and Long-Term Complications of Bronchopulmonary Dysplasia. Respir Care. 2021;66(10):1618-1629. doi:10.4187/respcare.08401

Pontos-chave

  • Displasia broncopulmonar (DBP) é a doença pulmonar crônica do neonatos pré-termo.

  • A DBP se desenvolve em lactentes que necessitaram de ventilação mecânica prolongada e/ou suplementação de oxigênio, o que pode prejudicar o desenvolvimento normal do pulmão.

  • O diagnóstico baseia-se na necessidade prolongada (≥ 28 dias ou ≥ 36 semanas da idade pós-menstrual) de suplementação de oxigênio e, às vezes, suporte ventilatório.

  • Prevenir utilizando glicocorticoides pré-natais, estratégias ventilatórias não invasivas, surfactante e cafeína, além de usar a menor fração inspirada de oxigênio (FIO2), os menores volumes correntes e as menores pressões das vias respiratórias possíveis.

  • Retirar o suporte respiratório assim que possível e utilizar suplementação nutricional, restrição de líquidos e algumas vezes diuréticos.

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