Visão geral do diabetes mellitus em crianças e adolescentes

PorNeha Suresh Patel, DO, University of Pennsylvania School of Medicine
Reviewed ByMichael SD Agus, MD, Harvard Medical School
Revisado/Corrigido: modificado jan. 2026
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Visão Educação para o paciente

O diabetes mellitus envolve uma deficiência absoluta ou relativa de secreção de insulina e resistência periférica à insulina, causando hiperglicemia. Os sintomas iniciais estão relacionados à hiperglicemia e incluem polidipsia, polifagia, poliúria e perda ponderal não intencional. O diagnóstico é obtido a partir dos testes de níveis de glicose plasmática e autoanticorpos. O tratamento depende do tipo, mas inclui medicamentos que reduzem os níveis de glicose no sangue, dieta e exercícios.

(Ver também Diabetes mellitus em adultos.)

Tipos de diabetes em crianças e adolescentes

O diabetes tipo 1 é caracterizado principalmente pela produção inadequada de insulina decorrente de destruição autoimune das células beta pancreáticas. O diabetes tipo 1 é o tipo mais comum em crianças.

O diabetes tipo 2 é caracterizado principalmente por resistência à insulina e obesidade. A crescente prevalência de obesidade infantil levou a um aumento na incidência de diabetes tipo 2 infantil e um aumento na proporção de diabetes tipo 2 em relação ao tipo 1 em crianças (1, 2) (ver obesidade em crianças). O diabetes tipo 2 é geralmente diagnosticado no início da adolescência com o início da puberdade, quando a resistência à insulina aumenta naturalmente e há crescimento rápido e mudanças puberais.

Categoriza-se a maioria dos pacientes como tendo diabetes tipo 1 ou 2; essa distinção é utilizada para orientar o tratamento. A classificação baseia-se na história de saúde (idade, história familiar, hábitos corporais), manifestações clínicas e exames laboratoriais, como anticorpos. Entretanto, esse sistema de classificação não capta completamente a heterogeneidade clínica dos pacientes; alguns pacientes não podem ser claramente classificados como tendo diabetes tipo 1 ou tipo 2 no diagnóstico. Tanto no diabetes tipo 1 como no tipo 2, fatores genéticos e ambientais podem levar à perda progressiva da função das células beta, o que resulta em hiperglicemia. (Ver tabela ). Há, entretanto, sobreposição significativa entre diabetes tipo 1 e tipo 2. Os termos que descrevem a idade de início (juvenil ou adulto) ou o tipo de tratamento (dependente de insulina ou não dependente de insulina) não são mais utilizados por causa da sobreposição das faixas etárias e de tratamentos entre os tipos da doença.

O pré-diabetes é a regulação prejudicada da glicose que resulta em níveis glicêmicos pós-prandiais acima do normal, mas que não atendem aos critérios para diabetes. Pré-diabetes está associado à síndrome metabólica (comprometimento da regulação da glicose, dislipidemia, hipertensão, obesidade). Mudanças no estilo de vida, como melhorar a dieta, aumentar a atividade física e controlar o peso, são essenciais. Muitas vezes, a intervenção precoce pode prevenir ou retardar o início do diabetes em adultos, mas em crianças, as evidências são amplamente circunstanciais e as recomendações baseiam-se em estudos em adultos ou medidas indiretas, como perda de peso (3, 4).

Formas monogênicas de diabetes, não são consideradas tipo 1 nem tipo 2 e são incomuns (5). As formas monogênicas são causadas por defeitos genéticos que afetam a função das células beta, a ação da insulina ou o DNA mitocondrial. As formas monogênicas incluem diabetes mellitus neonatal — início antes dos 6 meses de idade — e diabetes da maturidade com início na juventude (maturity-onset diabetes of the young, MODY) — que geralmente começa na adolescência ou no início da vida adulta. Juntas, representam aproximadamente 1 a 4% dos casos de diabetes pediátrico e frequentemente envolvem mutações em um único gene.

Outros tipos de diabetes incluem diabetes relacionado a fibrose cística (DRFC), diabetes induzido por medicamentos (glicocorticoides, antipsicóticos, imunossupressores), endocrinopatias com excesso de hormônios contrarreguladores e diabetes causado por distúrbios do pâncreas exócrino (p. ex., pancreatite crônica, pancreatectomia).

Referências a tipos de diabetes

  1. 1. Gesuita R, Eckert AJ, Besançon S, et al. Frequency and clinical characteristics of children and young people with type 2 diabetes at diagnosis from five world regions between 2012 and 2021: data from the SWEET Registry. Diabetologia. 2025;68(1):82-93. doi:10.1007/s00125-024-06283-5

  2. 2. Wagenknecht LE, Lawrence JM, Isom S, et al. Trends in incidence of youth-onset type 1 and type 2 diabetes in the USA, 2002-18: results from the population-based SEARCH for Diabetes in Youth study. Lancet Diabetes Endocrinol. 2023;11(4):242-250. doi:10.1016/S2213-8587(23)00025-6

  3. 3. Neyman A, Hannon TS; COMMITTEE ON NUTRITION. Low-Carbohydrate Diets in Children and Adolescents With or at Risk for Diabetes. Pediatrics. 2023;152(4):e2023063755. doi:10.1542/peds.2023-063755

  4. 4. US Preventive Services Task Force, Mangione CM, Barry MJ, et al. Screening for Prediabetes and Type 2 Diabetes in Children and Adolescents: US Preventive Services Task Force Recommendation Statement. JAMA. 2022;328(10):963-967. doi:10.1001/jama.2022.14543

  5. 5. American Diabetes Association Professional Practice Committee. 2. Diagnosis and Classification of Diabetes: Standards of Care in Diabetes-2025. Diabetes Care. 2025;48(1 Suppl 1):S27-S49. doi:10.2337/dc25-S002

Epidemiologia do diabetes em crianças e adolescentes

Tanto o diabetes tipo 1 quanto o tipo 2 estão aumentando em prevalência. Nos Estados Unidos, a prevalência de diabetes tipo 1 em crianças até 19 anos aumentou de 1,48 para 2,15 por 1000, e a prevalência de diabetes tipo 2 de 0,34 para 0,67 por 1000 de 2001 a 2017 (1). Globalmente, a taxa de incidência estimada de diabetes (todos os tipos) em crianças até 15 anos aumentou de 9,3 para 11,6 por 100.000 habitantes de 1990 a 2019, correspondendo a cerca de 227.000 novos casos de diabetes em crianças em 2019 (2).

Apesar da tecnologia no campo do diabetes que melhora a qualidade do cuidado e o controle glicêmico, existem disparidades. Raça, etnia e determinantes sociais da saúde (p. ex., status socioeconômico, ambiente físico e vizinhança, ambiente alimentar, acesso a cuidados de saúde, contexto social) estão associados ao grau de controle glicêmico em crianças com diabetes (3, 4). Nos Estados Unidos, crianças brancas ou não hispânicas têm uma taxa mais baixa de complicações e resultados adversos causados pelo mau controle glicêmico.

Referências sobre epidemiologia

  1. 1. Lawrence JM, Divers J, Isom S, et al. Trends in Prevalence of Type 1 and Type 2 Diabetes in Children and Adolescents in the US, 2001-2017. JAMA. 2021;326(8):717-727. doi:10.1001/jama.2021.11165

  2. 2. Zhang K, Kan C, Han F, et al. Global, Regional, and National Epidemiology of Diabetes in Children From 1990 to 2019. JAMA Pediatr. 2023;177(8):837-846. doi:10.1001/jamapediatrics.2023.2029

  3. 3. Kahkoska AR, Pokaprakarn T, Alexander GR, et al: The Impact of Racial and Ethnic Health Disparities in Diabetes Management on Clinical Outcomes: A Reinforcement Learning Analysis of Health Inequity Among Youth and Young Adults in the SEARCH for Diabetes in Youth Study. Diabetes Care. 45(1):108-118, 2022. doi: 10.2337/dc21-0496

  4. 4. Redondo MJ, Libman I, Cheng P, et al: Racial/Ethnic Minority Youth With Recent-Onset Type 1 Diabetes Have Poor Prognostic Factors. Diabetes Care. 41(5):1017-1024, 2018. doi: 10.2337/dc17-2335

Sinais e sintomas do diabetes em crianças e adolescentes

No diabetes tipo 1, as manifestações iniciais variam de hiperglicemia assintomática à cetoacidose diabética potencialmente fatal. Mais comumente, as crianças se apresentam com hiperglicemia sintomática sem acidose, com vários dias a semanas de aumento da frequência urinária, poliúria, polidipsia e enurese. Crianças também podem apresentar perda de peso não intencional. Para mais detalhes, ver Diabetes tipo 1 em crianças e adolescentes.

No diabetes tipo 2, a apresentação clínica varia amplamente. As crianças são frequentemente assintomáticas ou minimamente sintomáticas, e a doença só pode ser detectada em testes de rotina. Contudo, algumas crianças apresentarão hiperglicemia sintomática, estado hiperosmolar hiperglicêmico ou cetoacidose diabética. Para mais detalhes, ver Diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes.

Diagnóstico de diabetes em crianças e adolescentes

  • Nível plasmático de glicemia em jejum > 126 mg/dL (> 7,0 mmol/L)

  • Nível aleatório de glicose ≥ 200 mg/dL (≥ 11,1 mmol/L)

  • Hemoglobina glicada (HbA1c) ≥ 6,5% (≥ 48 mmol/mol)

  • Teste oral de tolerância à glicose de duas horas ≥ 200 mg/dL (≥ 11,1 mmol/L)

  • Determinação do tipo de diabetes (p. ex., tipo 1, tipo 2, monogênico)

Critérios diagnósticos para diabetes

O diagnóstico de diabetes e pré-diabetes é semelhante ao dos adultos, geralmente utilizando limiares específicos para níveis de glicemia de jejum ou aleatórios e/ou níveis de HbA1c (ver tabela ). O diabetes mellitus é indicado pelos sinais e sintomas típicos de hiperglicemia e confirmado pela dosagem da glicemia plasmática ≥ 200 mg/dL (≥ 11,1 mmol/L). Costuma ser detectada em triagens. Qualquer resultado anormal deve ser confirmado com um segundo teste.

O diabetes é diagnosticado quando um dos seguintes critérios está presente (1, 2):

  • Hemoglobina glicada (HbA1c) ≥ 6,5% (≥ 48 mmol/mol)

  • Glicemia de jejum (GJ) ≥ 126 mg/dL (≥ 7,0 mmol/L)

  • Teste oral de tolerância à glicose de duas horas (TOTG) ≥ 200 mg/dL (≥ 11,1 mmol/L)

  • Glicemia aleatória ≥ 200 mg/dL (≥ 11,1 mmol/L) com sintomas de hiperglicemia

Um teste de tolerância oral à glicose não é necessário e não deve ser feito se for possível diagnosticar o diabetes por outros critérios. Quando necessário, o teste deve ser feito utilizando glicose, 1,75 g/kg (máximo de 75 g) dissolvida em água; um resultado positivo é um nível de glicemia de 2 horas ≥ 200 mg/dL (11,1 mmol/L). O teste pode ser útil em crianças sem sintomas ou com sintomas leves ou atípicos e pode ser útil em casos suspeitos de diabetes tipo 2 ou diabetes monogênico.

A hiperglicemia sugerida pela HbA1c elevada deve ser confirmada pela medição da glicemia de jejum ou aleatória. Embora o teste de triagem HbA1c seja comumente utilizado e seja recomendado especificamente para o diagnóstico de diabetes tipo 2 em crianças (3), os resultados devem ser interpretados com cautela, pois podem ser afetados por condições que causam alteração da turnover eritrocitário (p. ex., hemoglobinopatias como doença falciforme) (4). Por exemplo, em crianças com fibrose cística, a HbA1c pode estar falsamente baixa devido à inflamação crônica e ao turnover eritrocitário anormal (1). Da mesma forma, o aumento do turnover eritrocitário decorrente de anemia hemolítica pode reduzir falsamente a HbA1c, enquanto a anemia por deficiência de ferro pode elevá-la falsamente.

Tabela
Tabela

Avaliação inicial

Para pacientes com suspeita de diabetes, mas que não parecem enfermos, os testes iniciais para estabelecer o diagnóstico devem incluir um painel metabólico básico, incluindo eletrólitos e glicose, e urinálise para testar cetonas.

Para pacientes com suspeita de diabetes e que estão enfermos, os testes também incluem análise de gasometria venosa ou arterial, testes hepáticos e níveis de cálcio, magnésio, fósforo e hematócrito. A cetoacidose diabética pode causar estresse metabólico e hipoperfusão, que podem prejudicar a função hepática. O hematócrito reflete a hemoconcentração decorrente da desidratação, que é comum na cetoacidose diabética; hematócrito elevado sugere perda grave de líquidos e orienta a reanimação volêmica.

Avaliação para tipo de diabetes

Uma avaliação abrangente das características clínicas deve ser realizada para ajudar a distinguir diabetes tipo 1 do tipo 2 (ou outros tipos) e interpretada no contexto de estudos laboratoriais adicionais. O diabetes tipo 1 é sugerido por características como idade mais jovem no diagnóstico (< 35 anos), menor índice de massa corporal (IMC) (< 25 kg/m²), perda de peso não intencional, presença de cetoacidose e hiperglicemia acentuada na apresentação. O diabetes tipo 2 é sugerido pelo IMC aumentado, a ausência de perda de peso e a hiperglicemia mais leve.

Testes adicionais que devem ser realizados incluem:

  • Níveis de peptídeos C e insulina (se ainda não tratado com insulina)

  • Testes para os 5 autoanticorpos contra proteínas das células das ilhotas pancreáticas

O peptídeo C é um marcador da produção endógena de insulina, e níveis baixos ou indetectáveis de peptídeo C indicam deficiência grave de insulina, característica do diabetes tipo 1. Níveis mais elevados de peptídeo C são fortemente sugestivos de diabetes tipo 2, no qual a produção endógena de insulina é preservada. Em crianças com diabetes tipo 1, os níveis de insulina em jejum são inadequadamente baixos em relação à concentração de glicose plasmática, enquanto insulina em jejum elevada sugere diabetes tipo 2. Os painéis de autoanticorpos são caros; portanto, em países com poucos recursos, o diagnóstico frequentemente se baseia na apresentação clínica e nos níveis de peptídeo C, em vez da confirmação imunológica.

Os autoanticorpos incluem os dirigidos contra a descarboxilase do ácido glutâmico (GAD65A), a insulina (IAA), o transportador de zinco 8 (ZnT8A), as células das ilhotas (ICA) e a tirosina fosfatase de ilhotas 2 (IA-2A). Pelo menos 90% dos pacientes com diagnóstico recente de diabetes tipo 1 têm ≥ 1 desses autoanticorpos, enquanto a ausência de anticorpos sugere fortemente um diabetes tipo 2 (5, 6).

Contudo, aproximadamente 10 a 20% das crianças e adultos jovens com fenótipo de diabetes tipo 2 apresentam autoanticorpos e são reclassificados como tendo diabetes tipo 1; esses pacientes têm maior probabilidade de progressão rápida para tratamento com insulina e apresentam maior risco de desenvolver outras doenças autoimunes (7, 8, 9) do que pacientes com fenótipo tipo 2 e sem anticorpos.

A diferenciação fenotípica adicional entre diabetes tipo 1 e tipo 2 em crianças desempenha um papel fundamental, pois a apresentação clínica isolada pode ser enganosa. Embora a pesquisa de autoanticorpos e a medição do peptídeo C sejam padrão-ouro, o fenótipo ajuda a orientar o manejo inicial quando esses testes não estão disponíveis ou seus resultados demoram (ver tabela ). As principais características distintivas incluem idade, estágio puberal e gravidade na apresentação inicial, constituição corporal, sinais de resistência à insulina e condições associadas. Essa avaliação fenotípica ajuda os médicos a escolher a terapia inicial apropriada (p. ex., insulina quando se suspeita diabetes tipo 1 vs. metformina para tipo 2) e priorizar testes confirmatórios.

Diabetes monogênico deve ser considerado em todos os lactentes com 6 meses de idade diagnosticados com diabetes, e em crianças e adultos jovens (≤ 25 anos) com forte histórico familiar de diabetes e apenas hiperglicemia leve e estável (HbA1c < 7,5% [58 mmol/mol]) que não apresentam obesidade, evidência de resistência à insulina ou autoanticorpos. O diagnóstico definitivo é por testes genéticos.

Tabela
Tabela

Referências sobre diagnóstico

  1. 1. American Diabetes Association Professional Practice Committee. 2. Diagnosis and Classification of Diabetes: Standards of Care in Diabetes-2025. Diabetes Care. 2025;48(1 Suppl 1):S27-S49. doi:10.2337/dc25-S002

  2. 2. Libman I, Haynes A, Lyons S, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Definition, epidemiology, and classification of diabetes in children and adolescents. Pediatr Diabetes. 2022;23(8):1160-1174. doi: 10.1111/pedi.13454

  3. 3. Wallace AS, Wang D, Shin JI, Selvin E. Screening and Diagnosis of Prediabetes and Diabetes in US Children and Adolescents. Pediatrics. 2020;146(3):e20200265. doi: 10.1542/peds.2020-0265

  4. 4. Sacks DB, Arnold M, Bakris GL, et al. Guidelines and Recommendations for Laboratory Analysis in the Diagnosis and Management of Diabetes Mellitus. Diabetes Care. 2023;46(10):e151-e199. doi:10.2337/dci23-0036

  5. 5. Cheng BW, Lo FS, Wang AM, et al. Autoantibodies against islet cell antigens in children with type 1 diabetes mellitus. Oncotarget. 2018;9(23):16275-16283. doi:10.18632/oncotarget.24527

  6. 6. Kawasaki E. Anti-Islet Autoantibodies in Type 1 Diabetes. Int J Mol Sci. 2023;24(12):10012. doi:10.3390/ijms241210012

  7. 7. Turner R, Stratton I, Horton V, et al. UKPDS 25: autoantibodies to islet-cell cytoplasm and glutamic acid decarboxylase for prediction of insulin requirement in type 2 diabetes. UK Prospective Diabetes Study Group. Lancet. 1997;350(9087):1288-1293. doi: 10.1016/s0140-6736(97)03062-6

  8. 8. Klingensmith GJ, Pyle L, Arslanian S, et al. The presence of GAD and IA-2 antibodies in youth with a type 2 diabetes phenotype: results from the TODAY study. Diabetes Care. 2010;33(9):1970-1975. doi: 10.2337/dc10-0373

  9. 9. Shah AS, Barrientos-Pérez M, Chang N, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2024: Type 2 Diabetes in Children and Adolescents. Horm Res Paediatr. 2024;97(6):555-583. doi:10.1159/000543033

Tratamento do diabetes em crianças e adolescentes

  • Educação sobre diabetes

  • Escolhas alimentares saudáveis e exercícios

  • Para diabetes mellitus tipo 1, insulina

  • Para diabetes tipo 2, metformina e às vezes insulina, agonistas do receptor de peptídeo semelhante ao glucagon 1 (GLP-1) ou inibidores do cotransportador de sódio-glicose 2 (SGLT2)

Educação sobre diabetes

Orientações intensivas e tratamento na infância e adolescência podem ajudar a alcançar os objetivos do tratamento, que são normalizar os níveis de glicose no sangue, minimizar o número de episódios de hipoglicemia e prevenir ou retardar o aparecimento e a progressão das complicações. A American Diabetes Association recomenda educação e apoio formais e multidisciplinares para o autocontrole do diabetes para todos os jovens com diabetes, tanto tipo 1 quanto tipo 2 (1).

Nutrição e exercício

As modificações do estilo de vida que beneficiam todos os pacientes incluem:

  • Comer regularmente e em quantidades consistentes

  • Limitar a ingestão de carboidratos refinados e gorduras saturadas

  • Aumentar as atividades físicas

Em geral, o termo dieta deve ser evitado em favor de um plano de refeição ou escolhas alimentares saudáveis. O foco principal é incentivar as crianças a fazerem refeições saudáveis para o coração com baixo teor de colesterol e de gorduras saturadas e que sejam adequadas para todos os jovens e suas famílias. O objetivo é melhorar os desfechos do diabetes e reduzir o risco cardiovascular. A terapia nutricional, incluindo acompanhamento por nutricionista quando possível, deve ser oferecida a todos os pacientes, e os profissionais de saúde devem trabalhar com crianças com diabetes e seus cuidadores para elaborar um plano alimentar individualizado (1, 2). Para otimizar o controle glicêmico, os pacientes que utilizam insulina devem ser orientados sobre como ajustar adequadamente as doses de insulina prandial. O estabelecimento de rotinas nos horários das refeições também é importante para atingir as metas glicêmicas.

Farmacoterapia

O pilar da farmacoterapia para diabetes tipo 1 é insulina. Para discussão adicional, ver Tratamento de diabetes tipo 1 em crianças e adolescentes.

Medicamentos antihiperglicemiantes orais e injetáveis (como metformina e agonistas do receptor GLP-1), bem como insulina, são utilizados para controle glicêmico em crianças com diabetes tipo 2. Pacientes com hipertensão, doença renal crônica ou outras comorbidades que aumentam o risco cardiovascular também podem ser tratados com outros medicamentos, como inibidores da enzima conversora de angiotensina ou bloqueadores dos receptores de angiotensina II. Para discussão adicional, consulte Tratamento de diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes.

Métodos para monitorar o controle glicêmico

O monitoramento de rotina envolve 1 ou mais dos seguintes:

  • Múltiplas verificações diárias de glicose por punção digital

  • Monitoramento contínuo da glicose

  • Medições dos níveis de HbA1c a cada 3 meses

Automonitoramento da glicemia

O automonitoramento da glicemia envolve punção digital intermitente para testar a glicemia capilar utilizando um monitor de glicose (glicosímetro).

O automonitoramento é a abordagem tradicional. Os níveis de glicose são verificados antes de todas as refeições, antes de um lanche na hora de dormir e se as crianças têm sintomas de hipoglicemia (3). Deve-se também verificar os níveis à noite (por volta das 2 a 3 da manhã) se hipoglicemia noturna é uma preocupação (p. ex., devido à hipoglicemia ou exercício extenuante durante o dia, ou quando a dose de insulina é aumentada). Pode ser necessário fazer 6 a 10 leituras por dia ao otimizar o controle glicêmico.

Ajustes temporários são feitos se alterações na regulação da glicose são esperadas por causa de exercício ou doença. Como exercícios podem diminuir os níveis de glicose por até 24 horas após a atividade, os níveis devem ser verificados com mais frequência nos dias em que as crianças fazem exercícios ou são mais ativas. Para evitar a hipoglicemia, recomenda-se aumentar a ingestão de carboidratos ou diminuir a dose de insulina quando as crianças estão mais ativas. Manejo em dias de doença (medição de cetonas e administração de líquidos e insulina se necessário) deve ser utilizado para episódios de doença e/ou hiperglicemia.

Os pais devem utilizar um diário, aplicativo, planilha eletrônica, medidor inteligente ou programa em nuvem para manter registros diários detalhados de todos os fatores que podem afetar o controle glicêmico, incluindo os níveis de glicose no sangue, momento e quantidade das doses de insulina, ingestão de carboidratos, atividade física e quaisquer outros fatores relevantes (p. ex., doença, lanche tardio, dose de insulina). A transição para que crianças e adolescentes monitorem seus próprios níveis de glicose, inicialmente sob supervisão e depois de forma independente, deve ser orientada pela maturidade e pelo nível de habilidade da criança.

Sistemas de monitoramento contínuo da glicose

Sistemas de monitoramento contínuo de glicose (MCG) também são um método comum para monitorar os níveis glicêmicos e, para muitas crianças, substituem o automonitoramento rotineiro da glicemia por punção capilar (3).

Os sistemas de MCG são uma abordagem mais sofisticada e eficaz para o monitoramento da glicose. Utilizam um sensor subcutâneo para medir os níveis de glicose no líquido intersticial a cada 1 a 5 minutos e, em seguida, converter essas medições em valores de glicemia, permitindo detectar com maior precisão as flutuações da glicemia sobre as quais se pode intervir em tempo real. Os resultados são transmitidos por rede sem fio para um dispositivo de monitoramento e exibição, que pode estar integrado a uma bomba de insulina ou pode ser um dispositivo independente (ou seja, um receptor ou um celular). Identificando os períodos de hiperglicemia consistente e os períodos de maior risco de hipoglicemia, os sistemas MCG podem ajudar os pacientes com diabetes tipo 1 a alcançar as metas glicêmicas com mais segurança.

Dadas as cargas significativas dos requisitos de monitoramento, deve-se oferecer um MCG se disponível e se o paciente e/ou a família puderem utilizar o dispositivo com segurança. A maioria dos dispositivos MCG agora fornece feedback em tempo real sobre as leituras e tendências atuais da glicose com alarmes para limiares altos e baixos e pode substituir o automonitoramento da glicemia. Em comparação ao monitoramento intermitente por punção digital, os sistemas de MCG podem diminuir os níveis de HbA1C, aumentar a porcentagem de tempo no intervalo adequado e diminuir o risco de hipoglicemia (3).

Crianças que utilizam aparelhos de MCG precisam ser capazes de medir a glicemia por punção digital para calibrar o monitor e/ou checar as leituras se elas forem discordantes dos sintomas, mas, após um breve período de aquecimento (30 minutos a 2 horas), muitos sistemas não exigem calibração regular com a punção digital.

Dois tipos de sistemas MCG estão atualmente disponíveis para uso doméstico diário: MCG em tempo real e MCG com leitura intermitente.

O MCG em tempo real (aprovado nos Estados Unidos para uso em crianças ≥ 2 anos de idade) transmite automaticamente um fluxo contínuo de dados glicêmicos ao usuário, fornece alertas e alarmes ativos e também transmite esses dados para um receptor, relógio inteligente ou celular. Deve-se utilizar a MCG em tempo real pelo maior tempo possível para benefício máximo.

O MCG de visualização intermitente (nos Estados Unidos aprovado para uso em crianças ≥ 4 anos de idade) fornece o mesmo tipo de dados de glicose que a monitorização contínua da glicose em tempo real, mas requer que o usuário escaneie o sensor intencionalmente com um leitor ou smartphone habilitado para obter informações. Semelhante à MCG em tempo real, os dados de glicose podem ser transferidos remotamente para revisão pelos pais ou profissionais de saúde. Muitos sistemas MCG com varredura intermitente têm alertas e alarmes opcionais. Deve-se realizar frequentemente a leitura da MCG de visualização intermitente, no mínimo 1 vez a cada 8 horas. Crianças que usam um dispositivo MCG precisam ser capazes de medir a glicemia com punção digital para calibrar o monitor e verificar as leituras de glicose se não coincidirem com seus sintomas.

Embora os dispositivos MCG possam ser utilizados com qualquer regime de tratamento, eles normalmente são utilizados por pacientes que usam bombas de insulina. Quando utilizada em conjunto com uma bomba de insulina, a combinação é conhecida como terapia com bomba aumentada por sensor.

Outros sistemas de MCG são integrados a uma bomba e também podem suspender a taxa basal por até 2 horas quando os níveis de glicose caem abaixo de um limiar predefinido (sistema de suspensão com baixo nível de glicose) ou quando se prevê que caiam abaixo de um limiar estabelecido (sistema de suspensão com baixo nível de glicose preditivo). Essa integração pode reduzir a quantidade de episódios de hipoglicemia, mesmo em comparação à terapia com bomba aumentada por sensor.

Pode-se utilizar bombas de insulina de circuito fechado em crianças com ≥ 2 anos. Esses sistemas híbridos de circuito fechado automatizam o controle da glicemia por meio de algoritmos sofisticados de computador que estão em um smartphone ou dispositivo semelhante e conectam um sensor de MCG a uma bomba de insulina para determinar os níveis de glicose no sangue e controlar o fornecimento de insulina. Controla-se o fornecimento suspendendo, aumentando ou diminuindo a insulina basal em resposta aos valores dados pela MCG. Alguns sistemas híbridos de circuito fechado permitem uma maior automação, mas ainda requerem que o usuário insira informações para cálculo do bolus prandial. Esses sistemas ajudam a controlar mais rigidamente a dosagem de insulina, limitam os episódios de hiperglicemia e hipoglicemia, e têm configurações opcionais para períodos de sono e exercícios. Um sistema de circuito fechado totalmente automatizado, às vezes conhecido como pâncreas artificial bi-hormonal (insulina e glucagon), ainda não está comercialmente disponível.

Controle do diabetes monogênico

O manejo do diabetes monogênico é individualizado, com base no subtipo e no risco de complicações ou progressão. Para mais detalhes, ver Formas monogênicas de diabetes.

Referências sobre tratamento

  1. 1. American Diabetes Association Professional Practice Committee. 14. Children and Adolescents: Standards of Care in Diabetes-2025. Diabetes Care. 2025;48(1 Suppl 1):S283-S305. doi:10.2337/dc25-S014

  2. 2. Annan SF, Higgins LA, Jelleryd E, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2022: Nutritional management in children and adolescents with diabetes. Pediatr Diabetes. 2022;23(8):1297-1321. doi: 10.1111/pedi.13429

  3. 3. Tauschmann M, Cardona-Hernandez R, DeSalvo DJ, et al. International Society for Pediatric and Adolescent Diabetes Clinical Practice Consensus Guidelines 2024 Diabetes Technologies: Glucose Monitoring. Horm Res Paediatr. 2024;97(6):615-635. doi:10.1159/000543156

Pontos-chave

  • A maioria das crianças tem hiperglicemia sintomática sem acidose, com vários dias a semanas de aumento na frequência urinária, polidipsia e poliúria; crianças com diabetes tipo 1 e raramente diabetes tipo 2 podem apresentar cetoacidose diabética.

  • Crianças com diabetes tipo 1 requerem tratamento com insulina; o controle glicêmico intensivo ajuda a prevenir complicações a longo prazo, mas aumenta o risco de episódios de hipoglicemia.

  • Crianças com diabetes tipo 2 podem ser tratadas com agentes antihiperglicemiantes orais (metformina), insulina e/ou agentes antihiperglicemiantes injetáveis não insulina.

  • Avanços na tecnologia do diabetes, como sistemas de monitoramento contínuo da glicose, visam melhorar o controle glicêmico e reduzir os episódios hipoglicêmicos.

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