Anemia hemolítica autoimune

Análise completa: abr. 2026 PorGloria F. Gerber, MD, Johns Hopkins School of Medicine, Division of Hematology | Colega revisado porAshkan Emadi, MD, PhD, West Virginia University School of Medicine, Robert C. Byrd Health Sciences Center
Última atualização: abr. 2026
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Visão Educação para o paciente

É causada por anticorpos que reagem com os eritrócitos em temperaturas 37° C (anemia hemolítica de anticorpos quentes) ou < 37° C (doença por crioaglutininas). A hemólise é predominantemente extravascular. O teste direto da antiglobulina (Coombs direto) firma o diagnóstico e pode sugerir a causa. O tratamento depende da causa e pode incluir glicocorticoides, esplenectomia, imunoglobulina IV, imunossupressores, evitar gatilhos (p. ex., frio) e interrupção dos medicamentos.

Etiologia da anemia hemolítica autoimune

A anemia hemolítica autoimune é causada por anomalias extrínsecas aos eritrócitos.

Anemia hemolítica por anticorpos quentes

A anemia hemolítica por anticorpos quentes é a forma mais comum de anemia hemolítica autoimune (AHAI); é ligeiramente mais comum entre as mulheres (1). Os autoanticorpos nesse tipo de anemia, reagem a temperaturas 37° C. A anemia hemolítica autoimune pode ser classificada como:

Alguns medicamentos (p. ex., metildopa, levodopa — ver tabela ) estimulam a produção de anticorpos contra os antígenos Rh (anemia hemolítica autoimune do tipo metildopa). Outros medicamentos estimulam a produção de autoanticorpos contra o complexo antibiótico-eritrócitos-membrana como parte de um mecanismo de hapteno transitório; o hapteno pode ser estável (p. ex., alta dose de penicilina, cefalosporinas) ou instável (p. ex., quinidina, sulfonamidas).

Na anemia hemolítica por anticorpos quentes, a hemólise é primariamente esplênica e não decorre de lise direta dos eritrócitos. Frequentemente é grave e pode ser fatal. A maioria dos autoanticorpos na anemia hemolítica quente é IgG. A maioria são panaglutininas policlonais contra antígenos comuns dos eritrócitos.

Doença por crioaglutininas

A doença da crioaglutinina (doença dos anticorpos frios) é causada por autoanticorpos que reagem a temperaturas < 37° C, mas alguns autoanticorpos têm maior amplitude térmica (p. ex., > 30° C com maior probabilidade de causar manifestações clínicas). A amplitude térmica dos anticorpos é mais importante que seu título; quanto mais alta a temperatura (isto é, mais próxima da temperatura corporal normal) na qual esses anticorpos reagem com os eritrócitos, maior a hemólise.

As causas incluem:

  • Primária ou idiopática (geralmente associada a uma população monoclonal de células B em indivíduos considerados como portadores de um doenças linfoproliferativas de baixo grau; os anticorpos costumam ser direcionados contra o antígeno I)

  • Síndrome das crioaglutininas secundária (ocorre no contexto de um distúrbio subjacente, como infecções, especialmente pneumonia por micoplasma ou mononucleose infecciosa com anticorpos direcionados contra os antígenos I [micoplasma] ou i [vírus de Epstein-Barr] ou um linfoma manifesto)

As infecções podem causar doença aguda, ao passo que a doença idiopática (a forma comum em idosos) tende a ser crônica. A hemólise crônica acontece, em sua maior parte, no sistema fagocítico mononuclear extravascular hepático e esplênico, mas pode ocorrer hemólise intravascular quando uma condição de amplificação do complemento, como infecção, está presente. Em geral, a anemia não é grave. Autoanticorpos na doença por crioaglutininas são quase sempre IgM clonais.

Hemoglobinúria paroxística ao frio

A hemoglobinúria paroxística ao frio (HPF; síndrome de Donath-Landsteiner) é um tipo raro de anemia hemolítica autoimune reativa ao frio. HPF é mais comum nas crianças. A hemólise resulta da exposição ao frio, podendo até ser localizada (p. ex., ao beber água fria, lavar as mãos em água fria). Um anticorpo IgG liga-se ao antígeno P nos eritrócitos em baixas temperaturas e causa hemólise intravascular e hemoglobinuria após o aquecimento. Isso ocorre, com mais frequência, em doenças virais não específicas ou sob outros aspectos em pacientes saudáveis, embora ocorra em pacientes com sífilis congênita ou adquirida. Gravidade e rapidez do desenvolvimento da anemia variam e podem ser fulminantes. Nas crianças, muitas vezes essa doença desaparece espontaneamente.

Tabela
Tabela

Referência sobre etiologia

  1. 1. Brodsky RA. Warm Autoimmune Hemolytic Anemia. N Engl J Med. 2019;381(7):647-654. doi:10.1056/NEJMcp1900554

Sinais e sintomas da anemia hemolítica autoimune

Os sintomas da anemia hemolítica por anticorpos quentes tendem a ser decorrentes da anemia. Se a doença é grave, pode ocorrer febre, dor torácica, síncope ou insuficiência cardíaca ou hepática. Esplenomegalia leve é típica. Eventos tromboembólicos venosos são comuns em pacientes com anemia hemolítica autoimune quente (1).

A doença por crioaglutininas apresenta-se como anemia hemolítica aguda ou crônica. Outros sinais ou sintomas incluem acrocianose, fenômeno de Raynaud e alterações oclusivas associadas ao frio. A doença da crioaglutinina também está associada a risco trombótico elevado (2).

Os sintomas de HPF podem incluir dor forte em costas e pernas, cefaleia, vômito, diarreia e urina de cor marrom-escura; pode haver hepatoesplenomegalia.

Referência sobre sinais e sintomas

  1. 1. Audia S, Bach B, Samson M, et al. Venous thromboembolic events during warm autoimmune hemolytic anemia. PLoS One. 2018;13(11):e0207218. doi:10.1371/journal.pone.0207218

  2. 2. Broome CM, Cunningham JM, Mullins M, et al. Increased risk of thrombotic events in cold agglutinin disease: A 10-year retrospective analysis. Res Pract Thromb Haemost. 2020;4(4):628-635. doi:10.1002/rth2.12333

Diagnóstico da anemia hemolítica autoimune

  • Esfregaço de sangue periférico, contagem de reticulócitos, lactato desidrogenase (LDH), haptoglobina, bilirrubina indireta

  • Teste direto de antiglobulina

  • Título de crioaglutininas e teste de amplitude térmica na doença por crioaglutininas

Suspeitar de anemia hemolítica autoimune em qualquer paciente com anemia hemolítica (como sugerido pela existência de anemia e reticulocitose). Na anemia hemolítica autoimune quente, o esfregaço periférico de sangue geralmente mostra microesferócitos e contagem alta de reticulócitos com poucos ou nenhum esquistócito, indicando hemólise extravascular. Exames laboratoriais geralmente indicam hemólise (p. ex., LDH elevado e bilirrubina indireta e diminuição da haptoglobina). Um volume corpuscular médio (VCM) alto pode ocorrer devido à reticulocitose extrema ou aglutinação na doença por crioaglutininas. A anemia hemolítica com uma baixa contagem de reticulócitos é rara, mas pode ocorrer devido a fatores como insuficiência renal, infecção ou insuficiência da medula óssea e constitui uma emergência médica que requer transfusões imediatas.

Diagnostica-se anemia hemolítica autoimune com o teste direto de antiglobulina (teste direto de Coombs) (ver figura ). A antiglobulina sérica é acrescentada aos eritrócitos lavados do paciente; a aglutinação indica a presença de imunoglobulina ou complemento (C) ligado aos eritrócitos. Na anemia hemolítica por anticorpos quentes, a IgG quase sempre está presente e C3 (C3b e C3d) também pode estar presente. Na doença por anticorpos frios, C3 está presente enquanto IgG geralmente está ausente. O teste é altamente sensível para anemia hemolítica autoimune, com cerca de 5% dos casos de AHAI negativos para teste direto de antiglobulina (1); resultados falso-negativos podem ocorrer se a densidade de anticorpos for muito baixa ou, raramente, se os autoanticorpos forem IgA.

Na maioria dos casos da anemia hemolítica autoimune quente, o anticorpo é uma IgG identificada apenas como panaglutinina, significando que não é possível determinar a especificidade do antígeno ao anticorpo. Na doença de anticorpos frios, o anticorpo geralmente é uma IgM direcionada contra o carboidrato I/i na superfície dos eritrócitos. Normalmente pode-se determinar as titulações dos anticorpos, mas estas nem sempre se correlacionam com a atividade da doença. O teste direto de antiglobulina (Coombs direto) pode ser positivo na ausência de anemia hemolítica autoimune e, portanto, deve-se solicitá-lo apenas no contexto clínico adequado. Um teste direto de antiglobulina falso-positivo pode resultar da presença de anticorpos clinicamente insignificantes ou paraproteínas elevadas, devido à imunoglobulina IV, imunoglobulina RhD ou terapia com daratumumabe (2). O teste direto de antiglobulina também pode ser positivo devido a aloanticorpos após transfusão recente e reação transfusional hemolítica tardia.

O teste indireto da antiglobulina (Coombs indireto) é um exame complementar que consiste em misturar o soro ou plasma do paciente com eritrócitos normais para determinar se esses anticorpos estão livres no soro ou plasma (ver figura ). Um resultado positivo em um teste indireto de antiglobulina e um resultado negativo em um teste direto geralmente indicam um anticorpo reagente causado por gestação, transfusões anteriores ou reatividade cruzada de lectinas em vez de hemólise imunitária. Mesmo a identificação de um anticorpo quente não define a hemólise, porque aproximadamente 1/10.000 dos doadores saudáveis de sangue apresentam exame com resultado positivo (3).

Depois de identificar a anemia hemolítica autoimune pelo teste de antiglobulina, o teste deve diferenciar entre anemia hemolítica de anticorpos quentes e doença por crioaglutininas, assim como os mecanismos responsáveis pela anemia hemolítica de anticorpos quentes. Essa determinação pode ser, muitas vezes, feita pelo padrão de reação direta da antiglobulina. Três padrões são possíveis:

  • A reação é positiva com anti-IgG e negativa com anti-C3. Esse padrão é comum na AHAI idiopática e na AHAI farmacológica ou do tipo metildopa, normalmente anemia hemolítica de anticorpos quentes.

  • A reação é positiva com anti-IgG e anti-C3. Esse padrão é comum em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico (LES) e AHAI idiopática, quase sempre anemia hemolítica de anticorpos quentes, e raro em casos associados a fármacos.

  • A reação é positiva com anti-C3 e negativa com anti-IgG. Esse padrão ocorre na doença por crioaglutininas (na qual os anticorpos mais comuns são IgM). Também pode ocorrer na anemia hemolítica de anticorpos quentes quando os anticorpos IgG têm baixa afinidade, em alguns casos medicamentosos e na HPF.

Outros testes podem sugerir a causa da AHAI, mas não são conclusivos. Por exemplo, na doença por crioaglutininas com sangue não aquecido, os eritrócitos acumulam-se no esfregaço periférico e a contagem automatizada das células revela, com frequência, aumento de volume corpuscular médio e hemoglobina falsamente baixa em decorrência desse acúmulo; o aquecimento do tubo com as mãos e a recontagem resultam em valores significativamente mais próximos do normal.

O teste de amplitude térmica na doença por crioaglutininas mede a faixa de temperatura na qual um autoanticorpo frio se liga ao seu antígeno. Anticorpos frios que podem se ligar ao antígeno acima de 28 a 30° C são considerados potencialmente clinicamente significativos, e quanto mais próximo da temperatura corporal central, maior a probabilidade de que o anticorpo cause sintomas e hemólise mais significativa.

O título de crioaglutininas é determinado pela diluição mais alta do soro do paciente capaz de aglutinar os eritrócitos a 4° C. Um título de 1:64 geralmente é considerado parte do diagnóstico, embora os títulos costumem ser mais altos e, ocasionalmente, a doença seja diagnosticada com títulos mais baixos.

Se houver suspeita de hemoglobinúria paroxística ao frio (HPF), deve-se fazer o teste de Donath-Landsteiner, específico para HPF (4). Nesse teste, incuba-se o soro do paciente com eritrócitos normais a 4° C por 30 minutos a fim de permitir a fixação do complemento que então é aquecido à temperatura corporal. A ocorrência de hemólise eritrocitária durante esse teste é indicativa de HPF. Como o anticorpo na HPF se fixa no complemento a baixas temperaturas, o teste direto de antiglobulina (Coombs direto) é positivo para C3 e negativo para IgG. Mas o anticorpo na HPF é uma IgG contra o antígeno P.

Referências sobre diagnóstico

  1. 1. Sachs UJ, Röder L, Santoso S, Bein G. Does a negative direct antiglobulin test exclude warm autoimmune haemolytic anaemia? A prospective study of 504 cases. Br J Haematol. 2006;132(5):655-656. doi:10.1111/j.1365-2141.2005.05955.x

  2. 2. Murphy MF, Dumont LJ, Greinacher A; BEST Collaborative. Interference of New Drugs with Compatibility Testing for Blood Transfusion. N Engl J Med. 2016;375(3):295-296. doi:10.1056/NEJMc1515969

  3. 3. Hannon JL. Management of blood donors and blood donations from individuals found to have a positive direct antiglobulin test. Transfus Med Rev. 2012;26(2):142-152. doi:10.1016/j.tmrv.2011.08.004

  4. 4. Tiwari AK, Aggarwal G, Mitra S, et al. Applying Donath-Landsteiner test for the diagnosis of paroxysmal cold hemoglobinuria. Asian J Transfus Sci. 2020;14(1):57-59. doi:10.4103/ajts.AJTS_132_17

Tratamento da anemia hemolítica autoimune

  • Transfusão de sangue para anemia grave (geralmente com resposta inadequada ao reticulócito)

  • Para anemia hemolítica de anticorpos quentes induzida por fármacos, suspensão do fármaco e, algumas vezes, imunoglobulina IV (IgIV)

  • Para anemia hemolítica idiopática por anticorpos quentes, glicocorticoides e, em casos refratários, rituximabe, imunoglobulina IV, imunossupressão (p. ex., com azatioprina, micofenolato de mofetila ou ciclofosfamida) ou esplenectomia

  • Na doença por crioaglutininas, evitar o frio e tratar a doença subjacente; às vezes rituximabe com ou sem quimioterapia, ou inibidores do complemento

  • Na HPF, evitar o frio, imunossupressores e, em caso de sífilis, tratar. Nas crianças, muitas vezes essa doença desaparece espontaneamente.

A transfusão sanguínea é o tratamento mais importante para pacientes com sintomas e que rapidamente desenvolvem anemia grave potencialmente fatal. Nesses casos, nunca se deve postegar a transfusão por falta de unidades "compatíveis". Em geral, os pacientes sem história de hemotransfusão, nem gestação têm baixo risco de hemólise com sangue com compatibilidade ABO. Mesmo que as células transfundidas sejam hemolisadas, a transfusão de sangue pode salvar vidas até que uma terapia mais definitiva possa ser feita. Eritropoietina pode ser administrada se a resposta do reticulócito for inadequada.

Um tratamento mais específico depende do mecanismo da hemólise.

Anemias hemolíticas por anticorpos quentes

Em anemias hemolíticas de anticorpos quentes induzidas por medicamentos, a suspensão do medicamento diminui a taxa de hemólise. Na AHAI tipo metildopa, a hemólise normalmente cessa em 3 semanas; no entanto, um teste positivo de antiglobulina pode persistir por > 1 ano. Na AHAI mediada por hapteno, a hemólise cessa quando o medicamento é retirado do plasma. Podem-se utilizar glicocorticoides e/ou infusões de imunoglobulina como terapias de segunda linha (1, 2).

Na AHAI idiopática por anticorpos quentes, os glicocorticoides (p. ex., prednisona 1 mg/kg, por via oral uma vez ao dia) são o tratamento convencional de primeira linha. Ao estabilizar os níveis de eritrócitos, diminuir gradualmente os glicocorticoides com monitoramento laboratorial da hemólise (p. ex., hemoglobina e contagem de reticulócitos). O objetivo é desmamar completamente o paciente dos glicocorticoides ou manter a remissão com a menor dose possível de glicocorticoides. Aproximadamente dois terços a 80% dos pacientes respondem ao tratamento inicial com glucocorticoides, mas recidiva ou dependência de glucocorticoides é comum (3, 4, 5). Nos pacientes que recidivam após a suspensão dos corticoides ou que têm doença refratária aos corticoides, geralmente é utilizado rituximabe como tratamento de segunda linha. Muitos especialistas também acrescentam rituximabe ao tratamento de primeira linha, especialmente em casos graves (6). Três esquemas posológicos de rituximabe são utilizados na prática clínica. A dose padrão é de 375 mg/m² IV, uma vez por semana, por 4 semanas; esse é o esquema mais utilizado e mais bem estudado. As alternativas incluem uma dose alta e fixa de 1.000 mg IV no dia 1 e no dia 15 (2 doses, com 2 semanas de intervalo), a qual tem sido utilizada em alguns ensaios clínicos randomizados, e uma dose baixa e fixa de 100 mg IV, uma vez por semana, por 4 semanas. Ambas as doses fixas parecem igualmente eficazes na AHAI a quente, mas não na doença por crioaglutininas; entretanto, não há relatos de ensaios clínicos comparativos.

Outros tratamentos são feitos com imunossupressores, ácido fólico e/ou esplenectomia. Cerca de um terço a metade dos pacientes têm uma resposta sustentada após a esplenectomia (7).

Nos casos de hemólise fulminante, pode-se utilizar imunossupressão com pulsoterapia em altas doses de glicocorticoides ou ciclofosfamida. Para hemólise menos grave, mas incontrolada, infusões de imunoglobulina intravenosa têm proporcionado controle temporário.

O tratamento de longo prazo com imunossupressores (incluindo ciclofosfamida, micofenolato de mofetila, azatioprina, sirolimo, ciclosporina e fostamatinibe) tem se mostrado eficaz em pacientes nos quais os glicocorticoides e a esplenectomia foram ineficazes (6, 8).

Anticorpos pan-aglutinantes na anemia hemolítica por anticorpos quentes faz com que os testes de compatibilidade do sangue doado sejam difíceis. Além disso, as transfusões podem sobrepor um aloanticorpo sobre o autoanticorpo, acelerando a hemólise. Assim, as transfusões devem ser administradas criteriosamente quando a anemia não é grave, mas não devem ser suspensas em pacientes com anemia hemolítica autoimune grave ou progressiva, particularmente quando a contagem de reticulócitos é insuficiente para compensar.

Como as taxas de tromboembolismo venoso são aumentadas em pacientes com AHAI quente, os pacientes devem ser mantidos sob profilaxia farmacológica enquanto estiverem hospitalizados (6, 9).

Doença por crioaglutininas

Em muitos casos, evitar ambientes frios e outros gatilhos da hemólise pode ser suficiente para prevenir um quadro de anemia sintomática.

Nos casos que ocorrem em um paciente com linfoma, o tratamento é direcionado à doença subjacente. Para a doença de crioaglutininas primária, o rituximabe, às vezes com bendamustina, é comumente utilizado, e os esquemas de quimioterapia utilizados para tratar as doenças linfoproliferativas de células B podem ser eficazes.

Pode-se utilizar a inibição do complemento com sutinlimabe em pacientes com anemia grave que necessitem de resposta mais rápida ao tratamento ou em pacientes com anemia sintomática, para permitir que o rituximabe ou outras terapias depletoras de células B exerçam seu efeito. Também se utiliza o sutinlimabe em pacientes com anemia sintomática sem resposta a terapias depletoras de células B ou naqueles com contraindicação ou preferência por evitar essas terapias. Em um ensaio clínico, o sutimlimabe, um inibidor da via clássica do complemento, mostrou aumentar os níveis de hemoglobina e diminuir as necessidades de transfusão em cerca de metade dos pacientes com doença por crioaglutininas (10). Contudo, o sutinlimabe não melhora os sintomas induzidos pelo frio, como o fenômeno de Raynaud ou a acrocianose. Recomenda-se vacinação contra agentes infecciosos, especialmente bactérias encapsuladas, pelo menos 2 semanas antes do tratamento com sutimlimabe, ou profilaxia antimicrobiana.

Nos casos graves, a plasmaférese é um tratamento temporário eficaz. Devem-se administrar transfusões para anemia grave, com o sangue e os líquidos aquecidos por meio de um aquecedor em linha.

A esplenectomia geralmente não tem utilidade, e os glicocorticoides apresentam eficácia limitada, não devendo ser utilizados como tratamento.

Hemoglobinúria paroxística ao frio

Na hemoglobinúria paroxística ao frio (HPF), a terapia consiste em evitar estritamente a exposição ao frio. Os glicocorticoides têm se mostrado eficazes, mas seu uso deve ser restrito a pacientes com doença progressiva ou idiopática, e seus efeitos não foram estudados sistematicamente em ensaios clínicos randomizados.

A esplenectomia não tem valor nenhum.

O tratamento concomitante de sífilis pode curar HPF.

Referências sobre tratamento

  1. 1. Garratty G. Immune hemolytic anemia associated with drug therapy. Blood Rev. 2010;24(4-5):143-150. doi:10.1016/j.blre.2010.06.004

  2. 2. Maquet J, Lafaurie M, Michel M, Lapeyre-Mestre M, Moulis G. Drug-induced immune hemolytic anemia: detection of new signals and risk assessment in a nationwide cohort study. Blood Adv. 2024;8(3):817-826. doi:10.1182/bloodadvances.2023009801

  3. 3. Abdallah GEM, Abbas WA, Elbeih EAS, Abdelmenam E, Mohammed Saleh MF. Systemic corticosteroids in the treatment of warm autoimmune hemolytic anemia: A clinical setting perspective. Blood Cells Mol Dis. 2021;92:102621. doi:10.1016/j.bcmd.2021.102621

  4. 4. Birgens H, Frederiksen H, Hasselbalch HC, et al. A phase III randomized trial comparing glucocorticoid monotherapy versus glucocorticoid and rituximab in patients with autoimmune haemolytic anaemia. Br J Haematol. 2013;163(3):393-399. doi:10.1111/bjh.12541

  5. 5. Zupańska B, Sylwestrowicz T, Pawelski S. The results of prolonged treatment of autoimmune haemolytic anaemia. Haematologia (Budap). 1981;14(4):425-433.

  6. 6. Berentsen S, Barcellini W. Autoimmune Hemolytic Anemias. N Engl J Med. 2021;385(15):1407-1419. doi:10.1056/NEJMra2033982

  7. 7. Maskal S, Al Marzooqi R, Fafaj A, et al. Clinical and surgical outcomes of splenectomy for autoimmune hemolytic anemia. Surg Endosc. 2022;36(8):5863-5872. doi:10.1007/s00464-022-09116-x

  8. 8. Kuter DJ, Piatek C, Röth A, et al. Fostamatinib for warm antibody autoimmune hemolytic anemia: Phase 3, randomized, double-blind, placebo-controlled, global study (FORWARD). Am J Hematol. 2024;99(1):79-87. doi:10.1002/ajh.27144

  9. 9. Fattizzo B, Bortolotti M, Giannotta JA, Zaninoni A, Consonni D, Barcellini W. Intravascular hemolysis and multitreatment predict thrombosis in patients with autoimmune hemolytic anemia. J Thromb Haemost. 2022;20(8):1852-1858. doi:10.1111/jth.15757

  10. 10. Roth A, Barcellini W, D'Sa S, et al. Sutimlimab in cold agglutinin disease. N Engl J Med. 2021;384(14):1323-1334. doi: 10.1056/NEJMoa2027760

Pontos-chave

  • Divide-se a anemia hemolítica autoimune em anemia hemolítica de anticorpos quentes e doença por crioaglutininas com base na temperatura em que os autoanticorpos reagem aos eritrócitos.

  • A hemólise tende a ser mais grave na anemia hemolítica por anticorpos quentes e pode ser fatal se reticulocitopenia também está presente.

  • Demonstra-se imunoglobulina e/ou complemento ligado aos eritrócitos do paciente pela ocorrência de aglutinação depois que antiglobulina sérica é acrescentada aos eritrócitos lavados (teste direto de antiglobulina positivo).

  • O padrão da reação à antiglobulina direta pode ajudar a diferenciar anemia hemolítica por anticorpos quentes de doença por crioaglutininas.

  • O tratamento é direcionado à causa (incluindo suspender os medicamentos, evitar a exposição ao frio e tratar a doença subjacente); agentes farmacológicos adicionais dependem do tipo de anemia hemolítica.

  • Glicocorticoides continuam sendo o tratamento de primeira linha para doença hemolítica por anticorpos quentes de origem idiopática, muitas vezes com rituximabe.

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