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Poliuria

Por

Anuja P. Shah

, MD, David Geffen School of Medicine at UCLA

Última modificação do conteúdo jun 2019
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A poliúria corresponde a um débito urinário > 3 l/dia; deve ser distinguida da frequência urinária, que corresponde à necessidade de urinar muitas vezes durante o dia ou à noite, mas em volume normal ou inferior ao normal. Ambos os problemas incluem noctúria.

Fisiopatologia

A homeostase da água é controlada por um balanço complexo de ingestão de água (por si só um mecanismo de regulação complexo), perfusão renal, filtração glomerular e reabsorção tubular de solutos, e reabsorção de água pelos tubos coletores renais.

Quando a ingestão hídrica aumenta, o volume sanguíneo aumenta e a osmolalidade do sangue diminui, reduzindo a liberação do hormônio antidiurético (ADH, também chamado arginina vasopressina) do sistema hipotalâmico hipofisário. Como o ADH promove a reabsorção de água nos tubos coletores renais, níveis diminuídos de ADH aumentam o volume de urina, permitindo que a osmolalidade do sangue retorne ao normal.

Ainda, altas quantidades de solutos nos túbulos renais causam diurese passiva osmótica (diurese de solutos) e, portanto, aumento do volume urinário. O exemplo clássico desse processo é a diurese osmótica induzida por glicose no diabetes melito não controlado, quando níveis elevados de glicose na urina (> 250 mg/mL [13,88 mmol/L]) excedem a capacidade de reabsorção tubular, levando a níveis altos de glicose nos túbulos renais; a água flui passivamente, resultando em glicosúria e aumento do volume de urina.

Deste modo, a poliúria resulta de quaisquer processos que envolvam

  • Aumento persistente da ingestão de água (polidipsia)

  • Diminuição da secreção de ADH (diabetes insípido central)

  • Diminuição da sensibilidade periférica de ADH (diabetes insípido nefrogênico)

  • Diurete de solutos

Etiologia

A causa mais comum da poliúria em adultos é

  • Tomar diuréticos.

A causa mais comum da poliúria (ver tabela Algumas causas de poliúria) em adultos e crianças é

Na ausência de diabetes melito, as causas mais comuns são

Tabela
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Algumas causas de poliúria

Causa

Achados sugestivos

Abordagem diagnóstica*

Diurese de água

Diabetes insípido central (parcial ou completo)

  • Hereditária

  • Adquirido (devido à lesão, tumores ou outras lesões)

Início abrupto ou crônico de sede e poliúria

Algumas vezes, após trauma, cirurgia hipofisária ou lesão cerebrovascular hipóxica ou isquêmica, ou durante as primeiras semanas de vida

Exames laboratoriais

Teste de privação de água com prova de ADH

Dosagem de ADH quando o diagnóstico permanece incerto

Diabetes insípido nefrogênico

Início gradual de sede e poliúria em paciente com história de uso de lítio por doença bipolar ou com hipercalcemia relacionada a hiperparatireoidismo, ou em uma criança com membros familiares que bebem quantidades excessivas de água com uma doença paraneoplásica subjacente ou durante os primeiros anos de vida

Exames laboratoriais

Teste de privação de água com prova de ADH

Polidipsia

  • Primária (lesões hipotalâmicas no centro hipotalâmico da sede)

  • Psicogênica

Mulher ansiosa de meia-idade

História de doenças psiquiátricas

Lesões infiltrativas do hipotálamo (em geral sarcoidose)

Exames laboratoriais

Teste de privação de água com prova de ADH

Administração de líquidos hipotônicos por via intravenosa em excesso

Pacientes hospitalizados recebendo líquidos por via intravenosa

Possivelmente edema

Resolução após cessação ou diminuição do fluxo de administração

Uso de diuréticos

Início recente de diuréticos para sobrecarga de volume (p. ex., devido à insuficiência cardíaca ou edema periférico)

Pacientes com probabilidade de uso inadequado de diuréticos para perda ponderal (p. ex., aqueles com distúrbios alimentares ou preocupações com o peso, atletas, adolescentes)

Avaliação clínica

Diabetes insípido adípsico

Poliúria sem sede excessiva

Às vezes, lesões na região do hipotálamo, como um germinoma ou craniofaringioma ou reparo recente da artéria comunicante anterior

Algumas vezes, hiperosmolalidade [p. ex., 300 a 340 mOsm/kg (ou mmol/kg)] e hipernatremia sem sede excessiva

Diabetes insípido gestacional (resultante do aumento de metabolismo do ADH)

Polidipsia (com sede excessiva) e poliúria que se desenvolvem pela primeira vez durante o 3º trimestre

Cálcio plasmático inapropriadamente normal [em geral, diminui em cerca de 5 mEq/L (ou mmol/L)] no final da gestação com a osmolalidade urinária mais baixa que a osmolaridade plasmática

Desaparecimento 2–3 semanas após o parto

Diurese de solutos†

Diabetes melito não controlado

Sede e poliúria em criança jovem ou em adulto obeso com história familiar de diabetes tipo 2

Dosagem de glicemia na ponta do dedo

Infusão isotônica ou de salina hipertônica

Pacientes hospitalizados recebendo líquidos por via intravenosa

Testes laboratoriais (p. ex., coleta de urina de 24 horas mostrando excreção osmol total [osmolaridade × volume de urina])

Cessar ou diminuir a taxa de administração (para confirmar a resolução da poliúria)

Alimentação por sonda com alto teor de proteínas

Qualquer paciente que estiver recebendo dieta por sonda

Trocar a dieta enteral por outra com menor conteúdo de proteínas (para confirmar a cessação da poliúria)

Poliúria após cateterização vesical de paciente com obstrução do colo vesical

Avaliação clínica

*Deve-se dosar a osmolaridade da urina e do plasma e o sódio sérico na maioria dos pacientes.

†A osmolalidade urinária tipicamente é < 300 mOsm/kg (300 mmol/kg) na diurese de água e > 300 mOsm/kg (300 mmol/kg) na diurese de solutos

ADH = hormônio antidiurético.

Avaliação

História

História da doença atual deve incluir a quantidade de líquidos consumidos e eliminados para distinguir poliúria de frequência urinária. Caso a poliúria seja confirmada, deve-se perguntar ao paciente sobre a idade de início, a velocidade do início (se abrupta ou gradual) e quaisquer fatores clínicos recentes que possam causar poliúria (p. ex., líquidos IV sondas de alimentação, resolução de obstrução urinária, derrame, trauma craniano, cirurgia). Deve-se perguntar aos pacientes sobre o grau de sede.

Arevisão dos sistemas deve buscar sintomas que sugiram possíveis causas, incluindo olhos secos e boca seca (síndrome de Sjögren), perda ponderal e suores noturnos (câncer).

A história clínica deve ser revisada quanto a condições associadas à poliúria, incluindo diabetes melito, doenças psiquiátricas, anemia falciforme, sarcoidose, amiloidose e hiperparatireoidismo. A história familiar de poliúria e ingestão excessiva de água devem ser observados. Deve-se pesquisar o uso de quaisquer fármacos associados a diabetes insípido nefrogênico (ver tabela Algumas causas de poliúria) e agentes que aumentam o débito urinário (p. ex., diuréticos, álcool, bebidas cafeinadas).

Exame físico

O exame geral deve observar sinais de obesidade (como fator de risco de diabetes melito tipo 2), desnutrição ou caquexia, os quais podem refletir câncer subjacente ou distúrbio alimentar além de uso inadequado de diuréticos.

O exame da cabeça e pescoço deve notar olhos secos, boca seca (síndrome de Sjögren). O exame da pele deve observar a presença de qualquer hiperpigmentação ou lesão hipopigmentada, úlceras ou nódulos subcutâneos que possam sugerir sarcoidose. O exame neurológico completo deve notar quaisquer deficits focais que sugiram doença neurológica de base e avaliar o status mental quanto a presença de alterações do pensamento. Deve-se avaliar a volemia. Deve-se examinar edema nos membros.

Sinais de alerta

Os achados a seguir são particularmente preocupantes:

  • Início abrupto ou início durante as primeiras semanas de vida

  • Suores noturnos, tosse ou perda ponderal, especialmente quando existe história de tabagismo em excesso

  • Doença psiquiátrica

Interpretação dos achados

Em geral, a história pode distinguir poliúria de frequência, e raramente é necessária a coleta de urina de 24 horas.

A avaliação clínica pode sugerir uma causa (ver tabela Algumas causas de poliúria), mas exames geralmente são necessários. Sugere-se diabetes insípido por história de câncer ou doença granulomatosa crônica (devido à hipercalcemia), uso de certos fármacos (lítio, cidofovir, foscarnete, ifosfamida) e condições menos comuns (p. ex., anemia falciforme, amiloidose renal, sarcoidose, síndrome de Sjögren), que apresentam manifestações, em geral, mais proeminentes e precedem a poliúria.

O início abrupto da poliúria em época precisa sugere diabetes insípido, assim como a preferência por água extremamente fria ou gelada. O início durante os primeiros anos de vida tipicamente está relacionado com diabetes insípido hereditário central ou diabetes insípido nefrogênico ou diabetes melito tipo 1 descontrolado. A poliúria causada por diurese de solutos é sugerida pela história de diabetes melito. A polidipsia psicogênica é mais comum em pacientes com história de doença psiquiátrica (em especial, doença bipolar ou esquizofrenia), ao invés de uma manifestação inicial.

Exames

Uma vez detectado o excesso de débito urinário através da história ou dosagem, deve-se realizar a dosagem de glicemia para descartar diabetes descontrolado.

Caso não se detecte hiperglicemia, são necessários outros exames:

  • Bioquímica sanguínea e urinária (eletrólitos, incluindo cálcio)

  • Osmolalidade sérica sanguínea e urinária e, algumas vezes, nível plasmático do hormônio antidiurético (ADH)

Este exames pesquisam hipercalcemia, hipopotassemia (devido a uso inadequado de diuréticos) e hipernatremia ou hiponatremia:

  • Hipernatremia (sódio > 142 mEq/L [142 mmol/L]) sugere perda de água livre em excesso por diabetes insípido central ou nefrogênico

  • Hiponatremia [sódio < 137 mEq/L (137 mmol/L)] sugere ingestão de água livre em excesso secundária à polidipsia.

  • A osmolalidade urinária é tipicamente < 300 mOsm/kg (300 mmol/kg) em diurese de água e > 300 mOsm/kg (300 mmol/kg) na diurese de solutos.

Se o diagnóstico permanecer incerto, deve-se dosar o sódio sérico e o urinário e a osmolalidade em resposta ao teste de privação de água, com administração exógena de ADH. Tendo em vista o fato de que pode haver desidratação grave como resultado deste teste, ele somente deve ser realizado sob supervisão constante dos pacientes; geralmente é necessária hospitalização. Ainda, os pacientes com suspeita de polidipsia psicogênica devem ser observados para impedir o consumo escondido de água.

Vários protocolos podem ser utilizados em testes de privação de água. Cada protocolo tem algumas limitações. Tipicamente, o teste é iniciado pela manhã pesando o paciente, obtendo sangue venoso para determinar a concentração de eletrólitos séricos e osmolalidade e medindo a osmolalidade urinária. Colhe-se a urina eliminada a cada hora, e mede-se a osmolalidade. Mantém-se a desidratação até que surja hipotensão ortostática e taquicardia postural, quando há perda de 5% do peso corpóreo inicial ou quando a concentração urinária não aumente > 30 mOsm/kg (30 mmol/kg) nas amostras de urina sequenciais. Os eletrólitos séricos e a osmolalidade são determinados novamente e injetam-se 5 unidades, por via subcutânea, de vasopressina aquosa. Colhe-se a urina para medida da osmolalidade no tempo final de 60 minutos após a injeção e o teste é terminado.

Uma resposta normal produz uma osmolalidade urinária máxima após desidratação (> 700 mOsm/kg [700 mmol/kg]), e a osmolalidade não aumenta mais do que 5% adicionais após a injeção de vasopressina.

No diabetes insípido central, os pacientes tipicamente não são conseguirem concentrar a urina acima dos níveis da osmolalidade plasmática, mas puderem aumentar a osmolalidade urinária após a administração de vasopressina. O aumento da osmolalidade urinária é de 50 a 100% no diabetes insípido central versus 15 a 45% no diabetes insípido central parcial.

No diabetes insípido nefrogênico, os pacientes são incapazes de concentrar a urina mais do que a osmolalidade plasmática e não mostram resposta adicional a administração de vasopressina. Ocasionalmente, no diabetes insípido nefrogênico parcial, o aumento da osmolalidade urinária pode ser de até 45%, mas os números globais são muito menores do que aqueles observados no diabetes insípido central parcial (geralmente < 300 mOsm/kg [300 mmol/kg]).

Na polidipsia psicogênica, a osmolalidade urinária é < 100 mOsm/kg (100 mmol/kg). A diminuição da ingestão de água levará gradualmente à diminuição do débito urinário, aumentando a osmolalidade plasmática e urinária e a concentração sérica de sódio.

A medida do ADH circulante é o método mais direto para diagnosticar diabetes insípido central. Os níveis ao final do teste de privação de água (antes da injeção da vasopressina) são baixos no diabetes insípido central e adequadamente elevados no diabetes insípido nefrogênico. Entretanto, os níveis de ADH não são dosados rotineiramente. Ainda, a privação de água é tão precisa que a medida de ADH raramente é necessária. Se medidos, os níveis de ADH devem ser verificados no início do teste de privação de água, quando o paciente está bem hidratado; os níveis de ADH devem aumentar à medida que o volume intravascular diminui.

Tratamento

O tratamento varia de acordo com a causa. Pode-se tratar a noctúria preocupante com medidas como redução da ingestão de líquidos antes de dormir, uso de desmopressina e/ou melhora da higiene do sono.

Pontos-chave

  • Uso de diuréticos e diabetes mellitus não controlado são causas comuns de poliúria.

  • Na ausência de diabetes melito e uso de diuréticos, as causas mais comuns de poliúria crônica são polidipsia primária, diabetes insípido central e diabetes insípido nefrogênico.

  • A hipernatremia pode indicar diabetes insípido central ou nefrogênico.

  • A hiponatremia é a principal característica da polidipsia.

  • O início abrupto de poliúria sugere diabetes insípido central.

  • O teste de privação de água pode auxiliar o diagnóstico, mas somente deve ser realizado sob supervisão estrita do paciente.

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