Acidose tubular renal

Análise completa: mar. 2026 PorL. Aimee Hechanova, MD, Texas Tech University Health Sciences Center, El Paso | Colega revisado porNavin Jaipaul, MD, MHS, Loma Linda University School of Medicine
Última atualização: mar. 2026
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Visão Educação para o paciente

A acidose tubular renal (ATR) consiste em acidose e distúrbios de eletrólitos decorrentes do prejuízo da excreção de íons hidrogênio (tipo 1), prejuízo da reabsorção de bicarbonato (tipo 2), ou produção ou resposta anormais de aldosterona (tipo 4). A ATR tipo 3 é extremamente rara, associada à deficiência de anidrase carbônica II e considerada uma ATR mista com elementos dos tipos 1 e 2. Pacientes com acidose tubular renal podem ser assintomáticos, apresentar sinais e sintomas de desequilíbrios eletrolíticos ou evoluir para doença renal crônica. O diagnóstico baseia-se nas alterações características do pH urinário e eletrólitos em resposta aos testes provocadores. O tratamento corrige o pH e os desequilíbrios dos eletrólitos através de agentes alcalinos, eletrólitos e, raramente, medicamentos.

A ATR define uma classe de doenças em que a excreção de íon hidrogênio ou a reabsorção de bicarbonato filtrado estão prejudicadas, provocando acidose metabólica crônica com diferença de ânions (ânion gap) normal. Em geral, há hipercloremia e com frequência ocorrem distúrbios secundários em outros eletrólitos como potássio (frequentemente) e cálcio (raramente — ver tabela ).

A ATR crônica está geralmente associada a lesão estrutural dos túbulos renais e pode evoluir para doença renal crônica.

Tabela
Tabela

ATR tipo 1 (distal)

O tipo 1 é o impedimento da secreção de hidrogênio no túbulo distal, resultando em pH urinário persistentemente elevado (> 5,5) e acidose sistêmica. O bicarbonato plasmático é frequentemente < 15 mEq/L (15 mmol/L), e, geralmente, costuma haver hipopotassemia, hipercalciúria e diminuição da excreção de citrato. Hipercalciúria é a principal alteração em alguns casos familiares, com lesão tubulointersticial induzida por cálcio causando ATR distal. A nefrocalcinose e a nefrolitíase são complicações possíveis de hipercalciúria e hipocitratúria caso a urina seja relativamente alcalina.

Essa síndrome é rara. Ocorrem casos esporádicos mais frequentes em adultos e podem ser primários (quase sempre em mulheres) ou secundários. Casos familiares geralmente manifestam-se inicialmente na infância e são com mais frequência autossômicos dominantes. Casos de ATR secundários tipo 1 podem resultar de medicamentos, transplante de rim ou várias doenças:

O nível de potássio pode ser alto em pacientes com obstrução urinária crônica ou doença falciforme.

ATR tipo 2 (proximal)

O tipo 2 é o prejuízo da reabsorção de bicarbonato nos túbulos proximais, causando um pH urinário > 7 se a concentração plasmática de bicarbonato for normal e um pH urinário < 5,5 se a concentração plasmática de bicarbonato já estiver depletada como resultado das perdas contínuas.

Essa síndrome pode ocorrer como parte de uma disfunção generalizada dos túbulos proximais e os pacientes podem ter aumento da excreção urinária de glicose, ácido úrico, fosfato, aminoácidos, citrato, cálcio, potássio e proteínas. Pode haver osteomalacia ou osteopenia (incluindo raquitismo em crianças). Os mecanismos podem incluir hipercalciúria, hiperfosfatúria, alterações do metabolismo da vitamina D e hiperparatireoidismo secundário.

A ATR tipo 2 é muito rara e na maioria dos casos ocorre em pacientes com as seguintes condições:

Outras etiologias incluem deficiência de vitamina D, hipocalcemia crônica com hiperparatireoidismo secundário, transplante de rim, exposição a metais pesados e outras doenças hereditárias (p. ex., intolerância a frutose, doença de Wilson, síndrome oculocerebrorrenal [síndrome de Lowe], cistinose).

ATR tipo 4 (generalizada)

O tipo 4 resulta da deficiência de aldosterona ou ausência de resposta do túbulo distal à aldosterona. Em razão de a aldosterona desencadear a reabsorção de sódio em troca por potássio e hidrogênio, ocorre redução da excreção de potássio, causando hiperpotassemia e diminuição da excreção de ácido pelos rins. A hiperpotassemia pode reduzir a excreção de amônia, contribuindo para a acidose metabólica. O pH urinário geralmente é apropriado para o pH sérico (em geral, < 5,5 na presença de acidose). O bicarbonato plasmático está, geralmente, > 17 mEq/L (17 mmol/L).

O tipo 4 é o tipo mais comum de ATR. Tipicamente, se dá de modo esporádico, secundária à alteração do eixo renina-aldosterona-túbulo renal (hipoaldosteronismo hiporreninêmico), que ocorre em pacientes com:

Outros fatores que podem contribuir com a ATR tipo 4 incluem:

Sinais e sintomas da acidose tubular renal

A ATR é geralmente assintomática. As anormalidades graves de eletrólitos são raras, mas podem ameaçar a vida.

A nefrolitíase e a nefrocalcinose são possíveis, particularmente na ATR tipo 1.

Os sinais de depleção de volume extracelular podem se desenvolver devido à perda de água na urina que acompanha a excreção de eletrólitos na ATR tipo 2.

Pacientes com ATR tipos 1 ou 2 podem apresentar sinais e sintomas de hipopotassemia, incluindo fraqueza muscular, hiporreflexia e paralisia. O envolvimento ósseo (p. ex., dor óssea e osteomalacia em adultos e raquitismo em crianças) pode ocorrer no tipo 2 e, algumas vezes, na ATR tipo 1. Doença renal crônica é comum em pessoas com ATR tipo 1 (1).

A ATR tipo 4 geralmente é assintomática, somente com acidose leve, mas podem haver arritmias cardíacas ou paralisia caso a hiperpotassemia seja grave.

Referência sobre sinais e sintomas

  1. 1. Lopez-Garcia SC, Emma F, Walsh SB, et al. Treatment and long-term outcome in primary distal renal tubular acidosis. Nephrol Dial Transplant. 34(6):981-991, 2019. doi: 10.1093/ndt/gfy409

Diagnóstico da acidose tubular renal

  • Suspeito em pacientes com acidose metabólica e hiato aniônico normal, ou com hipopotassemia inexplicada ou hiperpotassemia inexplicada

  • pH urinário e sérico, níveis de eletrólitos e osmolalidades

  • Em geral, teste após estímulo (p. ex., com cloreto de amônia, bicarbonato ou diurético de alça)

Suspeita-se de ATR em qualquer paciente com acidose metabólica inexplicada (nível plasmático baixo de bicarbonato e pH sanguíneo baixo) com ânion gap normal. A ATR tipo 4 deve ser suspeitada em pacientes com hiperpotassemia persistente sem causas óbvias, tais como suplementos de potássio, diuréticos poupadores de potássio ou insuficiência renal crônica. A GA é feita para confirmar a ATR e excluir a alcalose respiratória como causa de acidose metabólica compensatória. Eletrólitos séricos, ureia, creatinina e pH urinário são dosados em todos os pacientes. Outros testes e algumas vezes testes provocativos são realizados dependendo do tipo de ATR de que se suspeita:

  • A ATR tipo 1 é confirmada quando o pH urinário permanece > 5,5 durante a acidose sistêmica. A acidose pode ocorrer espontaneamente ou ser induzida por um teste de sobrecarga de ácido (administração de cloreto de amônia, 100 mg/kg, por via oral). Os rins normais reduzem o pH urinário para < 5,2 em 6 horas de acidose.

  • Diagnostica-se ATR tipo 2 pela medição do pH urinário e excreção fracionária de bicarbonato durante uma infusão de bicarbonato [bicarbonato de sódio, 0,5 a 1,0 mEq/kg/hora (0,5 to 1,0 mmol/L) IV]. No tipo 2, o pH urinário se eleva acima de 7,5 e a fração de excreção de bicarbonato é > 15%. Como o bicarbonato intravenoso pode contribuir para a hipopotassemia, devem-se administrar suplementos de potássio em quantidades adequadas antes da infusão.

  • ATR tipo 4 é confirmada pela história de uma condição que pode estar associada com a ATR tipo 4, potássio cronicamente elevado e bicarbonato normal ou levemente diminuído. Na maioria dos casos, a atividade da renina plasmática é baixa, a concentração de aldosterona é baixa e o cortisol é normal.

Tratamento da acidose tubular renal

  • Varia conforme o tipo

  • Em geral, tratamento alcalinizante

  • Tratamento de anormalidades concomitantes relacionadas com o metabolismo de potássio, cálcio e fosfato

O tratamento consiste na correção do pH e do equilíbrio de eletrólitos com terapia com álcalis. A falha no tratamento da ATR em crianças causa lentidão do crescimento.

Os agentes alcalinos como bicarbonato de sódio, bicarbonato de potássio ou citrato de sódio ajudam a atingir concentrações plasmáticas relativamente normais de bicarbonato (22 a 24 mEq/L [22 a 24 mmol/L]). O citrato de potássio pode ser substituído quando houver hipopotassemia persistente ou, como o sódio diminui a excreção de cálcio, cálculos de cálcio estiverem presentes.

Vitamina D (p. ex., ergocalciferol 800 UI por via oral uma vez ao dia) e os suplementos orais de cálcio (cálcio elementar 500 mg por via oral 3 vezes/dia, p. ex., como carbonato de cálcio 1250 mg por via oral 3 vezes/dia) também podem ser necessários para ajudar a reduzir as deformidades esqueléticas resultantes da osteomalacia e do raquitismo.

ATR tipo 1

Administrar para adultos bicarbonato de sódio ou citrato de sódio 0,25 a 0,5 mEq/kg (0,25 a 0,5 mmol/L) por via oral a cada 6 horas. Em crianças, a dose diária total pode ser de até 2 mEq/kg (2 mmol/L) a cada 8 horas; esta dose pode ser ajustada na medida em que a criança cresce. A suplementação de potássio geralmente não é necessária quando a desidratação e aldosteronismo secundário são corrigidos por meio de terapia com bicarbonato.

ATR tipo 2

O bicarbonato plasmático não pode ser restaurado ao intervalo normal, mas a reposição de bicarbonato deve exceder a carga ácida da dieta (p. ex., bicarbonato de sódio ou citrato de sódio, 10 a 15 mEq/kg/dia por via oral em até 4 doses fracionadas em adultos) para manter o bicarbonato sérico em aproximadamente 22 a 24 mEq/L (22 a 24 mmol/L), pois níveis mais baixos acarretam risco de insuficiência de crescimento. Entretanto, a reposição excessiva de bicarbonato aumenta as perdas urinárias de bicarbonato de potássio. Assim, sais de citrato podem substituir o bicarbonato de sódio e podem ser mais bem tolerados.

Suplementos de potássio ou citrato de potássio podem ser necessários para pacientes que tornam-se hipopotassêmicos ao administrar bicarbonato de sódio, mas não são recomendados para pacientes com níveis normais ou altos de potássio. Em casos difíceis, o tratamento com doses baixas de hidroclorotiazida, 25 mg por via oral 2 vezes/dia pode estimular as funções reabsortivas do túbulo proximal. Em casos de distúrbio tubular proximal generalizado, a hipofosfatemia e a doença óssea são tratadas com suplementação de fosfato e vitamina D para normalizar a concentração plasmática de fosfato.

ATR tipo 4

Hiperpotassemia é tratada com expansão de volume, restrição de potássio da dieta e diuréticos perdedores de potássio (p. ex., furosemida, 20 a 40 mg por via oral 1 ou 2 vezes/dia titulada para obtenção do efeito). Em geral, a alcalinização é desnecessária. Alguns pacientes necessitam de tratamento com reposição de mineralocorticoides (fludrocortisona, 0,05 a 0,2 mg por via oral uma vez ao dia, frequentemente, dose maior no hipoaldosteronismo hiporeninêmico); a reposição com mineralocorticoide deve ser utilizada com cautela, em razão da possibilidade de exacerbar hipertensão subjacente, insuficiência cardíaca ou edema.

Pontos-chave

  • A acidose tubular renal é uma classe de doenças em que a excreção de íon hidrogênio ou a reabsorção de bicarbonato filtrado estão prejudicadas, provocando acidose metabólica crônica com diferença de ânions (ânion gap) normal.

  • A ATR geralmente ocorre devido à produção ou resposta anormal de aldosterona (tipo 4) ou, menos frequentemente, devido à excreção prejudicada de íons de hidrogênio (tipo 1) ou reabsorção de bicarbonato prejudicada (tipo 2).

  • Considerar ATR se os pacientes têm acidose metabólica com ânion gap normal ou hiperpotassemia inexplicada.

  • Verificar a gasometria arterial, eletrólitos, ureia e creatinina séricos e pH urinário.

  • Fazer outros testes para confirmar o tipo de ATR (p. ex., teste de sobrecarga de ácido para o tipo 1, infusão de bicarbonato para o tipo 2).

  • Tratar com terapia alcaloide e medidas para corrigir o potássio sérico baixo no tipo 2 e, às vezes, na ATR tipo 1, e utilizar restrição de potássio ou diuréticos que perdem potássio na ART tipo 4; administrar outros eletrólitos conforme necessário.

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