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Hepatite B (aguda)

Por

Sonal Kumar

, MD, MPH, Weill Cornell Medical College

Última modificação do conteúdo dez 2020
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A hepatite B é causada por um vírus de DNA muitas vezes transmitido parentericamente. Ela provoca sintomas típicos de hepatite viral, incluindo anorexia, mal-estar e icterícia. Hepatite fulminante e morte podem ocorrer. Infecção crônica pode levar à cirrose e/ou carcinoma hepatocelular. A sorologia faz o diagnóstico. O tratamento é de suporte. Vacinação é protetora e o uso pós-exposição de imunoglobulina contra hepatite B pode prevenir ou atenuar a doença clínica.

O vírus da hepatite B (HBV) é o vírus da hepatite mais complexo e mais estudado. A partícula infectante consiste em um core viral (núcleo viral) com um envelope proteico de superfície. O core contém ácido desoxirribonucleico (DNA, desoxiribonucleic acid) circular de cadeia dupla e DNA polimerase e replica-se no núcleo de hepatócitos infectados. O envelope proteico adere ao citoplasma e, por motivos desconhecidos, é produzido em grande excesso.

HBV é a 2ª causa mais comum de hepatite viral aguda Visão geral da hepatite viral aguda É a inflamação hepática difusa causada por vírus específicos hepatotrópicos que apresentam diversos modos de transmissão e epidemiologia. Um pródromo viral não específico é seguido de anorexia... leia mais após hepatite A Hepatite A Hepatite A é causada por um vírus de RNA transmitido entericamente que, em crianças mais velhas e adultos, provoca sintomas típicos da hepatite viral, incluindo anorexia, mal-estar e icterícia... leia mais . Infecção prévia não reconhecida é comum, mas muito menos disseminada do que por HAV. Nos EUA, relataram-se 3.322 casos de infecção aguda por hepatite B em 2018 — uma diminuição em relação aos 25.000 casos anuais notificados antes da utilização da vacina contra a hepatite B se tornar generalizada. Entretanto, como muitos casos não são reconhecidos ou não são notificados, os Centers for Disease Control and Prevention (CDC) estimam que o número real de novas infecções foi cerca de 21.600 em 2018 (1 Referências gerais A hepatite B é causada por um vírus de DNA muitas vezes transmitido parentericamente. Ela provoca sintomas típicos de hepatite viral, incluindo anorexia, mal-estar e icterícia. Hepatite fulminante... leia mais ).

Às vezes, ocorre coinfecção por hepatite D.

Transmissão da hepatite B

O HBV é mais frequentemente transmitido por via parenteral, tipicamente por sangue contaminado ou hemoderivados contaminados. Exames de rotina de doadores de sangue para o antígeno de superfície da hepatite B (HBsAg, hepatitis B surface antigen) praticamente eliminaram a transmissão pós-transfusional, entretanto, a transmissão por meio de agulhas compartilhadas por usuários de drogas injetáveis mantém-se frequente. O risco contaminação por HBV é maior em pacientes dialíticos e em unidades de oncologia, bem como profissionais da área de saúde em contato com sangue.

O vírus pode ser transmitido através do contato da mucosa com outros líquidos corporais (p. ex., entre parceiros sexuais, tanto heterossexuais como homossexuais; em instituições fechadas para pacientes mentais e prisões), mas a infecciosidade é muito menor que para o HAV e as formas de transmissão são geralmente desconhecidas.

Picadas de insetos não têm um papel claro na transmissão do HBV. Muitos casos de hepatite B aguda ocorrem esporadicamente sem uma fonte conhecida.

Portadores crônicos do HBV são um reservatório mundial da infecção. A prevalência varia amplamente de acordo com diversos fatores, incluindo geográficos (p. ex., < 0,5% na América do Norte e no norte da Europa; > 10% em algumas regiões do Extremo Oriente e da África).

Referências gerais

  • 1. CDC: Hepatitis B questions and answers for health professionals. Acessado em 29/11/20.

Sinais e sintomas da hepatite B aguda

Infecção por hepatite B causa um amplo espectro de doenças hepáticas, de um estado subclínico portador à hepatite grave ou insuficiência hepática aguda (hepatite fulminante Hepatite fulminante A hepatite fulminante é uma síndrome rara e rápida (em geral, dentro de dias ou semanas), necrose maciça do parênquima hepático e diminuição do volume hepático (atrofia amarela aguda); geralmente... leia mais ), particularmente em idosos, nos quais a mortalidade pode alcançar 10 a 15%.

De 5 a 10% de todos os pacientes com infecção aguda por HBV desenvolvem hepatite B crônica Hepatite B (crônica) A hepatite B é uma causa comum da hepatite crônica. Pacientes podem ser assintomáticos ou ter manifestações inespecíficas como fadiga e mal-estar. A sorologia faz o diagnóstico. Sem tratamento... leia mais . Quanto menor a faixa etária em que a hepatite B aguda ocorre, maior o risco de desenvolver hepatite B crônica. Para pessoas imunocompetentes, o risco de desenvolver infecção crônica por hepatite B é:

  • Para recém-nascidos: 90%

  • Para crianças com 1 a 5 anos: 25 a 50%

  • Para adultos: cerca de 5%

Diagnóstico da hepatite B aguda

  • Exames sorológicos

Se há suspeita de hepatite viral aguda, os seguintes testes são realizados para triagem das hepatites virais A, B e C:

  • Anticorpo IgM para HAV (IgM anti-HAV)

  • Antígeno de superfície da hepatite B (HBsAg)

  • Anticorpo central da hepatite B (IgM anti-HBc)

  • Anticorpo contra o vírus da hepatite C (anti-VHC) e PCR para RNA da hepatite C (HCV-RNA)

Se qualquer um dos testes para Hepatite B for positivo, podem ser necessárias outras sorologias para diferenciar infecção aguda de infecções passadas ou crônicas (ver tabela Sorologia para hepatite B Sorologia para hepatite B* Sorologia para hepatite B* ). Se as sorologias sugerirem hepatite B, realizar testes para antígeno e da hepatite B (HBeAg) e anticorpo para antígeno e da hepatite B (anti-HBe) pode ajudar a determinar o prognóstico e guiar a terapia antiviral. Se infecção por HBV confirmada sorologicamente é grave, deve-se medir anticorpos para vírus da hepatite D (anti-HDV).

O HBV tem pelo menos 3 sistemas distintos de antígeno-anticorpo que podem ser testados:

  • HBsAg

  • Anticorpo c (core) do vírus da hepatite B (HBcAb)

  • HBeAg

HBsAgaparece, caracteristicamente, durante o período de incubação, 1 a 6 semanas antes do início dos sintomas e alterações laboratoriais, e implica em estado de infecciosidade sanguínea. Desaparece durante a fase de convalescença. Entretanto, o HBsAg pode aparecer de forma transitória. Seu anticorpo protetor correspondente (anti-HBs) surge semanas ou meses depois, após a recuperação clínica, e geralmente persiste por toda a vida; portanto, sua detecção indica infecção prévia por HBV e imunidade relativa. Em cerca de 5 a 10% dos pacientes, o HBsAg persiste e não são desenvolvidos os anticorpos: esses pacientes tornam-se portadores assintomáticos do vírus ou desenvolvem quadro de hepatite crônica.

O HBcAb reflete o núcleo viral. O antígeno c (core) do vírus da hepatite B (HBcAg) é detectável nas células hepáticas infectadas, mas não no soro, exceto por meio de técnicas especiais. Anticorpos contra o HBcAg (anti-HBc ou HBcAb) normalmente são detectados no início da doença; então, seus títulos diminuem de maneira gradual, geralmente durante anos ou por toda a vida. Sua detecção, somada ao anti-HBs, indica recuperação de infecção prévia por HBV. O anti-HBc também está presente nos portadores crônicos de HBsAg, que não expressam uma resposta contra o antígeno de superfície (anti-HBs). Na infecção aguda, o anti-HBc é, em grande parte, da classe IgM; já na infecção crônica, predomina o IgG anti-HBc. O IgM anti-HBc é um marcador sensível de infecção aguda pelo HBV e, muitas vezes, o único marcador de infecção recente por este vírus, refletindo uma janela entre o desaparecimento do HBsAg e o surgimento do anti-HBs.

HBeAg é uma proteína derivada do núcleo viral (não confundir com vírus da hepatite E). Presente apenas em pacientes com HBsAg positivo, indica um estado aumentado de replicação e infecciosidade viral. Em contraste, a presença do anticorpo correspondente (anti-HBe) indica infecciosidade reduzida. Assim, os marcadores sorológicos relacionados com o antígeno-e são mais úteis para prognóstico do que para diagnóstico. O desenvolvimento de hepatopatia crônica ocorre de forma mais frequente em portadores do HBeAg e de forma menos frequente em pacientes com anti-HBe.

VHB-DNA pode ser detectado no soro de pacientes com infecção ativa por HBV.

Tabela

Outros testes

Testes hepáticos são necessários se ainda não tiverem sido feitos; incluem níveis séricos de alanina aminotransferase (ALT), aspartato aminotransferase (AST), fosfatase alcalina.

Deve-se realizar outros testes para avaliar a função hepática; incluem níveis séricos de albumina, bilirrubina, e tempo de protrombina (TP)/quociente internacional normatizado (INR).

Tratamento da hepatite B aguda

  • Cuidados de suporte

  • Para hepatite B fulminante, fármacos antivirais e transplante de fígado

Nenhum tratamento atenua a hepatite viral aguda, incluindo hepatite B. Deve-se evitar a ingestão de álcool, pois pode haver piora da lesão hepática. Não existem evidências científicas que apoiem o uso de restrições dietéticas ou de atividades, incluindo o repouso no leito habitualmente prescrito.

Deve-se relatar a ocorrência de hepatite viral às autoridades de saúde locais.

Prevenção da hepatite B aguda

Os pacientes devem ser aconselhados a evitar comportamentos de alto risco (p. ex., compartilhar agulhas para injetar drogas, ter múltiplos parceiros sexuais).

Sangue e outros líquidos orgânicos (p. ex., saliva, sêmen) são considerados infecciosos. Líquidos derramados devem ser limpos com água sanitária diluída. Recomenda-se proteção de contato, mas o isolamento dos pacientes não tem nenhum valor.

A transmissão por hemoderivados pode ser minimizada evitando-se qualquer transfusão desnecessária e testando-se todos os doadores para a presença de hepatite B e C. O rastreamento diminuiu a incidência das hepatites B e C pós-transfusão, que agora são extremamente raras nos EUA.

Vacinação

A imunização pré-exposição há tempos é recomendada para indivíduos com alto risco. Entretanto, a vacinação seletiva de grupos de risco nos EUA e em outras áreas não endêmicas não causou redução significativa da incidência da infecção pelo HBV; assim, atualmente recomenda-se a vacinação de todos os norte-americanos 18 anos de idade (ver tabela Cronograma de imunização recomendado para idades de 0–6 anos Cronograma de imunização recomendado para idades de 0–6 anos Cronograma de imunização recomendado para idades de 0–6 anos ). É desejável a vacinação universal para todos os indivíduos; entretanto, seria demasiado cara para ser realizada.

Adultos com alto risco de infecção por HBV devem ser examinados e vacinados se ainda não forem imunes ou infectados (ver também CDC's Adult Immunization Schedule). Esses grupos de alto risco incluem

  • Homens que fazem sexo com homens

  • Pessoas com infecção sexualmente transmissível

  • Pessoas que tiveram > 1 parceiro sexual durante os 6 meses anteriores

  • Profissionais de saúde e de segurança pública potencialmente expostos a sangue ou outros líquidos corporais infecciosos

  • Pessoas que usam drogas ilícitas injetáveis atual ou recentemente

  • Pessoas com diabetes e que têm < 60 anos (ou ≥ 60 anos se seu risco de contrair HBV é maior)

  • Pessoas com doença renal em estágio terminal em diálise, infecção por HIV, doença hepática crônica ou hepatite C

  • Contatos domiciliares e parceiros sexuais de pessoas que são positivas para HBsAg

  • Clientes e funcionários de instituições e creches não residenciais para pessoas com deficiências de desenvolvimento

  • Pessoas em instituições correcionais ou que atendem usuários de drogas injetáveis

  • Viajantes internacionais para regiões com endemicidade alta ou intermediária de HBV

Profilaxia pós-exposição

A imunoprofilaxia pós-exposição à HBV combina vacinação e administração de imunoglobulina anti-hepatite B (HBIG), um produto com altos títulos de anti-HBs. A eficácia da HBIG pós-exposição é cerca de 75%.

Em crianças nascidas de mães HBsAg-positivas, devem-se administrar, IM uma dose inicial de vacina e 0,5 mL de HBIG, logo após o nascimento.

Qualquer pessoa que tenha mantido relação sexual com indivíduo HBsAg-positivo ou com exposição percutânea ou de mucosas a sangue HBsAg-positivo deve receber, dentro de poucos dias, uma dose de 0,06 mL/kg de HBIG, IM associadamente à vacina.

Qualquer pessoa previamente vacinada, exposta por via percutânea a sangue HBsAg positivo, deve ser testada para anti-HBs; se os títulos estão < 10 mUI/mL, deve-se realizar uma nova dose de reforço da vacina.

Pontos-chave

  • A hepatite B é muitas vezes transmitida por contato com sangue contaminado parentérico, mas pode resultar de contato da mucosa com outros líquidos corporais.

  • Bebés nascidos de mães com hepatite B têm risco 70 a 90% de contrair a infecção durante o parto, a menos que eles sejam tratados com imunoglobulina contra hepatite B (IGHB) e sejam vacinados após o parto.

  • A infecção crônica se desenvolve em 5 a 10% dos pacientes com hepatite B aguda e muitas vezes leva à cirrose e/ou carcinoma hepatocelular.

  • Diagnosticar testando para antígeno de superfície da hepatite B.

  • Tratamento de suporte.

  • Vacinação de rotina no nascimento é recomendada para todos.

  • A profilaxia pós-exposição consiste em HBIG e vacina; HBIG provavelmente não previne a infecção, mas previne ou atenua a evolução da hepatite clínica.

Informações adicionais

  • CDC: Hepatitis B questions and answers for health professionals: This web site provides an overview of hepatitis B (including statistics, transmission, risk factors, screening, symptoms, diagnosis, and treatment), as well as information about the hepatitis B vaccine and hepatitis B and international travel. Acessado em 29/11/20.

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