Síndromes de Ehlers-Danlos

PorEsra Meidan, MD, Boston Children's Hospital
Reviewed ByMichael SD Agus, MD, Harvard Medical School
Revisado/Corrigido: modificado out. 2025
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Visão Educação para o paciente

As síndromes de Ehlers-Danlos são doenças hereditárias do colágeno caracterizadas por hipermobilidade articular, pele hiperextensível e fragilidade tecidual generalizada com cicatrização retardada e hematomas fáceis. Certas formas afetam os grandes vasos ou as valvas cardíacas. O diagnóstico é baseado na apresentação clínica e em testes genéticos. O tratamento é de suporte.

As síndromes de Ehlers-Danlos são heterogêneas. O atual sistema de classificação das síndromes de Ehlers-Danlos reconhece 14 tipos clínicos causados por variantes em 20 genes (1, 2). Os pacientes com síndromes de Ehlers-Danlos apresentam variantes patogênicas em genes que codificam os colágenos fibrilares tipos I, III e V; em genes que codificam enzimas modificadoras ou de processamento (p. ex., lisil hidroxilase, uma protease que cliva o colágeno); em genes envolvidos na biossíntese de glicosaminoglicanos; na via do complemento; ou em outros processos intracelulares.

Existem 14 tipos clínicos. Consulte a tabela .

Os tipos hipermóvel, clássico e vascular são os mais comuns; o tipo hipermóvel não possui uma mutação genética conhecida.

Tabela
Tabela

Referências gerais

  1. 1. Malfait F, Francomano C, Byers P, et al. The 2017 international classification of the Ehlers-Danlos syndromes. Am J Med Genet C Semin Med Genet. 2017;175(1):8-26. doi:10.1002/ajmg.c.31552

  2. 2. Malfait F, Castori M, Francomano CA, Giunta C, Kosho T, Byers PH. The Ehlers-Danlos syndromes. Nat Rev Dis Primers. 2020;6(1):64. Published 2020 Jul 30. doi:10.1038/s41572-020-0194-9

Sinais e sintomas das síndromes de Ehlers-Danlos

Os sinais e sintomas variam consideravelmente de acordo com o tipo e o paciente; algumas manifestações são comuns a diversos tipos, ao passo que outras características são mais específicas de um tipo particular.

Sintomas comuns, mas não universais, incluem hipermobilidade das articulações, formação anormal de cicatrizes e cicatrização de feridas, vasos frágeis e pele macia hiperextensível. A pele pode ser esticada vários centímetros, mas volta ao normal quando liberada. Cicatrizes papiráceas largas frequentemente recobrem as proeminências ósseas, sobretudo cotovelos, joelhos e tíbias; a cicatrização é menos grave no tipo hipermóvel. Pseudotumores moluscoides (crescimentos carnosos) frequentemente se formam sobre as cicatrizes ou nos pontos sob pressão.

A extensão da hipermobilidade articular varia, mas pode ser acentuada nos tipos de artrocalasia, clássico e hipermóvel. Outras manifestações articulares abrangem cifoescoliose vertebral (principalmente em indivíduos com o tipo cifoscoliótico), deformidade torácica, talipes equinovarus (pé torto), pé chato, e displasia do desenvolvimento do quadril (anteriormente conhecida como luxação congênita do quadril). O tipo artrocalasia é caracterizado por displasia bilateral do desenvolvimento da articulação do quadril.

O tipo hipermóvel pode estar associado a disfunção autonômica, que inclui síndrome da taquicardia ortostática postural e distúrbios da interação cérebro-intestino.

A tendência ao sangramento é rara, embora o tipo vascular seja caracterizado por ruptura de aneurismas e propensão a equimoses.

Esférulas calcificadas no subcutâneo podem ser palpadas ou vistas à radiografia.

Síndromes de Ehlers-Danlos
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Elasticidade anormal da pele é vista neste paciente com um tipo de síndrome de Ehlers-Danlos.

ST MARYS HOSPITAL MEDICAL SCHOOL/SCIENCE PHOTO LIBRARY

Complicações das síndromes de Ehlers-Danlos

As síndromes de Ehlers-Danlos podem incluir disfunção de qualquer órgão ou tecido (1):

  • Pele: traumas menores podem causar ferimentos extensos, mas pouco sangramento; o fechamento cirúrgico das feridas pode ser difícil porque as suturas tendem a se soltar dos tecidos frágeis. As complicações cirúrgicas ocorrem devido à fragilidade dos tecidos profundos.

  • Olhos: a esclera e a córnea podem ser frágeis, resultando em perfuração do globo ocular.

  • Articulações: derrames sinoviais não inflamatórios, entorses e luxações ocorrem com frequência.

  • Trato gastrointestinal (GI): hérnias GI e divertículos são comuns. Raramente há sangramentos e perfurações espontâneas em partes do trato gastrointestinal.

  • Sistema cardiovascular: prolapso da válvula mitral é uma complicação comum no tipo mais grave (tipo vascular) e pode ser observado em outros tipos. Os pacientes podem apresentar aneurismas aórticos dissecantes e ruptura espontânea de artérias de grande calibre.

Em gestantes, a extensibilidade dos tecidos agrava-se em virtude de níveis elevados de ocitocina, podendo ocasionar parto prematuro, incompetência do colo do útero e, possivelmente, ruptura uterina. Se o feto é afetado, a membrana fetal torna-se frágil, às vezes resultando em ruptura precoce. A fragilidade tecidual materna pode complicar a episiotomia ou a incisão cesárea. Pode ocorrer sangramento pré, peri e pós-natal.

Outras complicações potencialmente graves incluem fístula arteriovenosa, ruptura visceral e pneumotórax ou pneumo-hemotórax.

Referência sobre sinais e sintomas

  1. 1. Malfait F, Castori M, Francomano CA, Giunta C, Kosho T, Byers PH. The Ehlers-Danlos syndromes. Nat Rev Dis Primers. 2020;6(1):64. Published 2020 Jul 30. doi:10.1038/s41572-020-0194-9

Diagnóstico das síndromes de Ehlers-Danlos

  • Critérios clínicos

  • Teste genético confirmatório

  • Ecocardiografia e/ou outras exames de imagem vasculares para procurar complicações cardiovasculares

A maioria, mas não todos os tipos da síndrome de Ehlers-Danlos, envolve um ou ambos dos seguintes:

  • Hipermobilidade articular

  • Hiperextensibilidade da pele (hiperelas­ticidade)

Portanto, pode haver suspeita diagnóstica em pacientes que apresentam luxações articulares frequentes, má cicatrização de feridas e/ou tendência a cicatrizes frequentes ou incomuns. Contudo, a hipermobilidade articular é comum na população em geral. Além disso, deve-se considerar outras doenças do tecido conjuntivo com manifestações articulares e/ou cutâneas semelhantes (p. ex., síndrome de Marfan, cútis laxa).

A triagem de pacientes com perguntas simples sobre a hipermobilidade articular pode ser útil (1):

  • Você é ou era capaz de colocar as mãos no chão sem dobrar os joelhos?

  • Você é ou era capaz de dobrar o polegar até tocar o antebraço?

  • Quando criança, você divertia seus amigos contorcendo o corpo em formas estranhas ou conseguia fazer espacates?

  • Quando criança ou adolescente, você luxou a patela ou o ombro mais de uma vez?

  • Você se considera flexível?

Uma resposta positiva em 2 ou mais dessas perguntas sugere fortemente hipermobilidade, que pode ser avaliada por exame físico utilizando o sistema de classificação de Beighton (2). Essa ferramenta avalia a hipermobilidade em 4 pares de articulações (5º dígito, polegar, cotovelo, joelho) e coluna vertebral. Um ponto é atribuído para cada articulação que manifesta o critério de hipermobilidade definido; um escore de ≥ 6 em crianças pré-púberes, ≥ 5 em crianças pós-púberes e adultos ≤ 50 anos, e ≥ 4 em adultos acima de 50 anos é positiva para hipermobilidade (2).

Avalia-se à procura de hiperextensibilidade cutânea em áreas padronizadas. Considera-se pele hiperextensível se for possível esticá-la > 1,5 cm no antebraço distal e dorso das mãos, > 3 cm no pescoço, cotovelo e joelhos e > 1 cm na palma da mão (2).

Existem critérios clínicos maiores e menores para cada tipo da síndrome de Ehlers-Danlos (2, 3), tipicamente incluindo a presença ou ausência de hipermobilidade articular e hiperextensibilidade cutânea. Entretanto, existe muita variabilidade entre e dentro dos diferentes tipos, e deve-se confirmar o diagnóstico por teste genético, que agora está disponível para todos os subtipos exceto o tipo hipermóvel.

O exame ultraestrutural da biópsia cutânea pode ajudar a diagnosticar os tipos clássico, hipermóvel e vascular.

Realiza-se ecocardiograma e outros exames de imagem vasculares para verificar doenças cardíacas (p. ex., prolapso de válvula, aneurisma arterial) que estão associadas a alguns tipos.

Referências sobre diagnóstico

  1. 1. Hakim AJ, Grahame R. A simple questionnaire to detect hypermobility: An adjunct to the assessment of patients with diffuse musculoskeletal pain. Int J Clin Pract. 2003;57(3):163–166.

  2. 2. Malfait F, Francomano C, Byers P, et al. The 2017 international classification of the Ehlers-Danlos syndromes. Am J Med Genet C Semin Med Genet. 2017;175(1):8-26. doi:10.1002/ajmg.c.31552

  3. 3. The Ehlers-Danlos Society. Tipos: Accessed May 12, 2025.

Tratamento das síndromes de Ehlers-Danlos

  • Reconhecimento precoce e tratamento das complicações

Não há tratamento específico para muitos subtipos das síndromes de Ehlers-Danlos.

Traumas devem ser minimizados. Roupas protetoras e coxins podem ajudar.

A fisioterapia com fortalecimento muscular melhora a estabilidade articular.

Para os subtipos com elevado risco de comprometimento vascular, o monitoramento das condições vasculares é crucial, mas não existe uma abordagem padronizada (1). Caso seja realizada cirurgia, seja por motivos articulares ou vasculares, a hemostasia precisa ser minuciosa. Feridas devem ser cuidadosamente suturadas e a tensão tissular evitada.

Durante a gestação, é obrigatória a supervisão da gestação e do parto. Aconselhamento genético deve ser realizado.

Referência sobre tratamento

  1. 1. Byers PH, Belmont J, Black J, et al. Diagnosis, natural history, and management in vascular Ehlers-Danlos syndrome. Am J Med Genet C Semin Med Genet. 2017;175(1):40-47. doi:10.1002/ajmg.c.31553

Prognóstico para as síndromes de Ehlers-Danlos

A expectativa de vida é habitualmente normal na maioria dos tipos, com uma taxa reduzida (2%) de óbitos por complicações vasculares nos tipos não vasculares (1). A qualidade de vida, porém, pode ser significativamente reduzida, particularmente pelo envolvimento articular (2).

Complicações letais (p. ex., ruptura arterial) são muito mais comuns no tipo vascular. Em um estudo, a sobrevida de 5 anos após o diagnóstico para pacientes com o tipo vascular foi estimada em 72%; a expectativa de vida em pacientes com esse tipo é de aproximadamente 50 anos (3).

Referências sobre prognóstico

  1. 1. D'hondt S, Van Damme T, Malfait F. Vascular phenotypes in nonvascular subtypes of the Ehlers-Danlos syndrome: a systematic review. Genet Med. 2018;20(6):562-573. doi:10.1038/gim.2017.138

  2. 2. Malfait F, Castori M, Francomano CA, Giunta C, Kosho T, Byers PH. The Ehlers-Danlos syndromes. Nat Rev Dis Primers. 2020;6(1):64. Published 2020 Jul 30. doi:10.1038/s41572-020-0194-9

  3. 3. Frank M, Adham S, Seigle S, et al. Vascular Ehlers-Danlos Syndrome: Long-Term Observational Study. J Am Coll Cardiol. 2019;73(15):1948-1957. doi:10.1016/j.jacc.2019.01.058

Pontos-chave

  • As síndromes de Ehlers-Danlos consistem em doenças genéticas do tecido conjuntivo com 14 tipos clínicos identificados.

  • Os pacientes costumam apresentar articulações hipermóveis, pele hiperextensível e pele e tecido conjuntivo frágeis.

  • O tecido conjuntivo frágil pode predispor a insuficiência de valva cardíaca, ruptura escleral, dissecção ou ruptura arterial, ruptura uterina e outras complicações.

  • Realiza-se o diagnóstico utilizando critérios clínicos e costuma ser confirmado por teste genético.

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