A traqueíte bacteriana é uma infecção bacteriana da traqueia potencialmente fatal que costuma causar dispneia e estridor. Ocorre principalmente em crianças pequenas. O diagnóstico é feito por laringoscopia direta em um ambiente controlado e radiografias. O tratamento é com controle das vias respiratórias e antibióticos eficazes contra Staphylococcus aureus e espécies estreptocócicas.
A traqueíte bacteriana é uma infecção rara que pode afetar crianças de qualquer idade. Em um estudo com dados de 4 unidades de terapia intensiva pediátrica em centros de atendimento terciário, a incidência de traqueíte bacteriana foi de aproximadamente 0,1 caso por 100.000 crianças por ano (1).
A traqueíte bacteriana geralmente ocorre como uma infecção secundária após uma infecção viral das vias respiratórias superiores, especialmente influenza (2). Ocasionalmente, pode desenvolver-se como complicação do crupe viral ou de intubação endotraqueal. Staphylococcus aureus e estreptococos beta-hemolíticos do grupo A estão envolvidos com maior frequência. A traqueíte decorrente de Streptococcus pneumoniae ou Haemophilus influenzae diminuiu devido às vacinas infantis direcionadas a esses microrganismos.
Referências gerais
1. Tebruegge M, Pantazidou A, Thorburn K, et al. Bacterial tracheitis: a multi-centre perspective. Scand J Infect Dis. 2009;41(8):548-557. doi:10.1080/00365540902913478
2. Dawood FS, Chaves SS, Pérez A, et al. Complications and associated bacterial coinfections among children hospitalized with seasonal or pandemic influenza, United States, 2003-2010. J Infect Dis. 2014;209(5):686-694. doi:10.1093/infdis/jit473
Sinais e sintomas de traqueíte bacteriana
A maioria das crianças apresenta sintomas de infecção respiratória viral por 1 a 3 dias antes do início dos sintomas graves de estridor e dispneia. Em algumas crianças, o início é agudo e caracterizado por tosse, estridor respiratório, febre alta e, frequentemente, secreção purulenta abundante que pode causar asfixia ou obstrução das vias respiratórias com risco de vida.
Como em pacientes com epiglotite, crianças com traqueíte bacteriana podem ter uma aparência marcadamente tóxica e desconforto respiratório que podem progredir rapidamente e exigir intubação. A apresentação clínica parece ter evoluído ao longo do tempo e caracteriza-se por uma idade média mais elevada no momento do diagnóstico e uma redução na incidência de toxicidade acentuada e na necessidade de internação em unidade de terapia intensiva (UTI) (1). Contudo, ainda há uma alta frequência de internações em UTI, sendo necessário monitoramento intensivo e manejo agressivo em muitos casos. A sialorreia é menos comum em crianças com traqueíte do que naquelas com epiglotite.
Complicações da traqueite bacteriana incluem hipotensão, parada cardiorrespiratória, broncopneumonia e sepse. A estenose subglótica secundária à intubação prolongada e subsequente fibrose pós-inflamatória é incomum. A maioria das crianças tratada adequadamente se recupera sem sequelas.
Referência sobre sinais e sintomas
1. Barengo JH, Redmann AJ, Kennedy P, Rutter MJ, Smith MM. Demographic Characteristics of Children Diagnosed with Bacterial Tracheitis. Ann Otol Rhinol Laryngol. 2021;130(12):1378-1382. doi:10.1177/00034894211007250
Diagnóstico da traqueíte bacteriana
Laringoscopia direta
Radiografia com achados característicos
Suspeita-se clinicamente do diagnóstico de traqueíte bacteriana em pacientes com estridor, aparência nitidamente tóxica e piora aguda após uma infecção viral (1). A ausência de resposta clínica à adrenalina nebulizada deve alertar imediatamente o médico sobre a possibilidade de traqueíte.
Pode-se confirmar o diagnóstico por laringoscopia direta — que revela secreção purulenta e inflamação na área subglótica com membrana purulenta de aspecto irregular — ou por radiografia lateral do pescoço, que evidencia estreitamento subglótico de contornos irregulares, em contraste com o estreitamento simétrico típico (sinal da torre) do crupe. Deve-se fazer laringoscopia direta em circunstâncias controladas em que uma via respiratória artificial pode ser rapidamente estabelecida se necessário.
Essa imagem mostra uma incidência endoscópica da traqueia que revela exsudato inflamatório característico da traqueíte bacteriana.
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Esta radiografia lateral do pescoço mostra irregularidade difusa da traqueia (setas) característica de traqueíte bacteriana.
O esôfago é a estrutura tubular posterior à traqueia.
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Referência sobre diagnóstico
1. Casazza G, Graham ME, Nelson D, Chaulk D, Sandweiss D, Meier J. Pediatric Bacterial Tracheitis-A Variable Entity: Case Series with Literature Review. Otolaryngol Head Neck Surg. 2019;160(3):546-549. doi:10.1177/0194599818808774
Tratamento da traqueíte bacteriana
Controle adequado das vias respiratórias
Antibióticos eficazes contra S. aureus e espécies de estreptococos
O tratamento da traqueíte bacteriana nos casos graves é o mesmo que para epiglotite; sempre que possível, a intubação endotraqueal deve ser realizada em ambiente controlado por um médico qualificado no controle das vias respiratórias pediátricas (1). O monitoramento cardiopulmonar pode ser necessário por 2 a 3 dias imediatamente após o diagnóstico (2).
Antibióticos parenterais de amplo espectro que são eficazes contra S. aureus (incluindo S. aureus resistente à meticilina [SARM]) e espécies estreptocócicas devem ser iniciados; vancomicina IV e ceftriaxona podem ser apropriadas empiricamente. Ceftarolina, como monoterapia, é uma alternativa razoável a esse esquema combinado. A terapia para crianças criticamente enfermas deve ser orientada por um consultor que conheça os padrões locais de suscetibilidade antimicrobiana. Uma vez feito o diagnóstico bacteriano definitivo, a cobertura é mantida por um tempo ≥ 10 dias. Após a alta, os pacientes podem passar a receber antibióticos orais por 10 a 14 dias (2).
Referências sobre tratamento
1. Tebruegge M, Pantazidou A, Thorburn K, et al. Bacterial tracheitis: a multi-centre perspective. Scand J Infect Dis. 2009;41(8):548-557. doi:10.1080/00365540902913478
2. Shargorodsky J, Whittemore KR, Lee GS. Bacterial tracheitis: a therapeutic approach. Laryngoscope. 2010;120(12):2498-2501. doi:10.1002/lary.21105
Pontos-chave
A traqueíte bacteriana é rara e pode afetar crianças de qualquer idade.
A maioria das crianças tem sintomas de infecção respiratória por 1 a 3 dias antes de desenvolver estridor e dispneia.
A suspeita clínica de traqueíte bacteriana pode ser confirmada com radiografia lateral do pescoço ou laringoscopia direta; entretanto, a laringoscopia direta deve ser feita em um ambiente controlado onde uma via respiratória artificial possa ser rapidamente estabelecida, se necessário.
O controle adequado das vias respiratórias é fundamental.
Administrar antibióticos iniciais eficazes contra S. aureus e espécies de estreptococos, mas estreitar a cobertura depois que o patógeno específico for identificado.



