Lesão da medula espinal em crianças

PorGordon Mao, MD, Indiana University School of Medicine
Reviewed ByDavid A. Spain, MD, Department of Surgery, Stanford University
Revisado/Corrigido: mai. 2025 | modificado jul. 2025
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Visão Educação para o paciente

Embora crianças 5 anos de idade tenham a menor taxa de lesões da medula espinal, essas lesões não são raras (1). A maioria das lesões na coluna em crianças ≤ 15 anos ocorre nos níveis cervicais (2).

Em crianças 12 anos nos Estados Unidos, lesões na coluna cervical ocorrem mais comumente acima de C4 e são mais comumente causadas por colisões de veículos motorizados e quedas (1). Em crianças > 12 anos, lesões em C5 a C7 são mais comuns e, além de quedas e colisões de veículos motorizados, lesões esportivas e por armas de fogo têm um papel cada vez maior com o aumento da faixa etária. Comparados aos adultos, as crianças têm características anatômicas distintas (p. ex., maior proporção entre a cabeça e o corpo, elasticidade das cápsulas dos ligamentos da coluna vertebral) que as predispõem à hipermobilidade da coluna vertebral sem lesão óssea aparente.

Crianças com lesão medular podem ter sintomas transitórios como parestesia e fraqueza. As crianças também podem apresentar dor lancinante na coluna ou nos membros. O início dos sinais neurológicos (como deficits neurológicos parciais, paralisia completa) pode ser tardio, de 30 minutos a 4 dias após a lesão, o que dificulta o diagnóstico imediato.

Lesão medular sem evidências de anormalidade radiológica (LMSEAR) está relacionada à tração medular direta, compressão da medula espinal, concussão da medula espinal e lesão vascular. Esse tipo de lesão ocorre quase exclusivamente em crianças, geralmente na coluna cervical. Na lesão medular sem evidências de anormalidade radiológica, o paciente tem achados neurológicos sugestivos de lesão medular (p. ex., parestesias, fraqueza), mas alinhamento anatômico normal e sem alterações ósseas nos exames de imagem (radiografias simples, TC e/ou RM).

Crianças imobilizadas por LMESAR ou outras lesões medulares têm risco de complicações por causa da imobilidade, como úlceras de decúbito, complicações tromboembólicas, atelectasia, pneumonia, disreflexia autonômica hipertensiva e complicações decorrentes de bexiga neurogênica, inclusive infecção urinária do trato inferior ou superior (secundária a catéter de demora), cálculos ureterais, refluxo vesicouretral e, essencialmente, doença renal crônica.

(Ver também Trauma espinal.)

Referências

  1. 1. Selvarajah S, Schneider EB, Becker D, et al. The epidemiology of childhood and adolescent traumatic spinal cord injury in the United States: 2007-2010. J Neurotrauma. 2014;31(18):1548-1560. doi:10.1089/neu.2014.3332

  2. 2. Jazayeri SB, Kankam SB, Golestani A, et al. A systematic review and meta-analysis of the global epidemiology of pediatric traumatic spinal cord injuries. Eur J Pediatr. 2023;182(12):5245-5257. doi:10.1007/s00431-023-05185-9

Diagnóstico de lesão medular em crianças

  • Radiografias [incidências: em decúbito lateral (cross-table), lateral, ântero-posterior e odontoide pela boca aberta]

  • Em geral, indicação é TC, particularmente para lesão óssea ou ligamentar

  • RM para confirmar o local de lesão e o nível medular

Deve-se suspeitar de lesão na medula espinal em qualquer criança que tenha sofrido acidente de trânsito, caiu de altura 3 m ou tenha tido lesão por submersão.

Suspeita-se de lesão medular sem evidência de anormalidade radiológica (LM SEAR) em crianças que apresentam sintomas transitórios de disfunção neurológica ou dores lancinantes na parte inferior da coluna ou membros e um mecanismo de lesão compatível com lesão medular, mas nenhuma anormalidade óssea é observada em radiografia ou tomografia computadorizada (1). LMSEAR foi originalmente descrita na década de 1980, quando a ressonância magnética não era amplamente disponível; o termo LMSEAR é atualmente menos utilizado porque os aparelhos de RM estão mais acessíveis nos hospitais dos Estados Unidos e, em geral, permitem identificar as anormalidades radiológicas causais (2, 3, 4).

Dependendo da disponibilidade de recursos de imagem local, os primeiros exames de imagem costumam ser radiografias, incluindo as incidências em decúbito lateral (cross-table), ântero-posterior e com a boca aberta para processo odontoide. Se houver suspeita de fratura, deslocamento ou subluxação com base em resultados radiográficos ou em um mecanismo de risco muito alto de lesão, costuma-se fazer a TC. RM costuma ser feita em caso de:

  • Suspeita-se de lesão medular com base em radiografias ou TC

  • Lesão medular sugerida por deficits neurológicos ao exame

  • Lesão medular sugerida por história de deficits neurológicos, até mesmo transitórios

Referências sobre diagnóstico

  1. 1. Pang D, Wilberger JE Jr. Spinal cord injury without radiographic abnormalities in children. J Neurosurg. 1982;57(1):114-129. doi:10.3171/jns.1982.57.1.0114

  2. 2. Mahajan P, Jaffe DM, Olsen CS, et al. Spinal cord injury without radiologic abnormality in children imaged with magnetic resonance imaging. J Trauma Acute Care Surg. 2013;75(5):843-847. doi:10.1097/TA.0b013e3182a74abd

  3. 3. Boese CK, Nerlich M, Klein SM, et al. Early magnetic resonance imaging in spinal cord injury without radiological abnormality in adults: a retrospective study. J Trauma Acute Care Surg. 2013;74(3):845-848. doi:10.1097/TA.0b013e31828272e9

  4. 4. Boese CK, Oppermann J, Siewe J, et al. Spinal cord injury without radiologic abnormality in children: a systematic review and meta-analysis. J Trauma Acute Care Surg. 2015;78(4):874-882. doi:10.1097/TA.0000000000000579

Tratamento de lesão medular em crianças

  • Imobilização

  • Manutenção de oxigenação e perfusão da medula espinal

  • Cuidados de suporte

  • Estabilização cirúrgica quando apropriado

  • Cuidado sintomático a longo prazo e reabilitação

Crianças com lesão espinal devem ser transferidas para um centro de trauma pediátrico.

A terapia aguda é semelhante ao tratamento em adultos, com imobilização e atenção à adequação da oxigenação, ventilação e circulação (1). A estabilização cirúrgica em crianças não é tão frequentemente indicada como em adultos com lesão medular; como os ligamentos espinais tendem a ser mais frouxos na lesão medular sem evidência de anormalidade radiológica (LM SEAR) e na ausência de fraturas ósseas e avulsão ligamentar completa, pode não haver estrutura alvo adequada para a estabilização (2). Outra vantagem da órtese é a preservação da mobilidade da coluna, evitando a cirurgia de fusão; a cirurgia de fusão aumenta o risco de espondilose em longo prazo.

Historicamente, altas doses de corticoides tem sido utilizada em vários cronogramas e esquemas de dosagem, mas vários ensaios clínicos com adultos não conseguiram demonstrar nenhum benefício clínico adicional, mas mostraram maior risco de infecção da ferida, embolia pulmonar, sepse e morte (1). Assim, para crianças com lesão medular, os centros nos Estados Unidos tendem a evitar o uso de longo prazo de corticoides, embora alguns médicos usem ciclos curtos de altas doses de esteroides apenas no ambiente perioperatório (3).

Os tratamentos prolongados para lesão medular pediátrica são semelhantes aos tratamentos da lesão medular em adultos, direcionados à reabilitação física intensiva dos membros comprometidos neurologicamente e suporte clínico para as várias complicações clínicas comuns que ocorrem na imobilização ou fraqueza prolongada. A reabilitação é multidisciplinar com a participação de fisioterapeutas para o treinamento da marcha e fortalecimento dos membros inferiores, terapeutas ocupacionais para as lesões da medula cervical que comprometem a função motora dos membros superiores que podem resultar em contraturas, e até fonoaudiólogos para ajudar nas dificuldades de deglutição e limpeza das secreções que ocorrerm nas lesões cervicais altas. Pacientes com lesão medular grave que não deambulam precisam de consultas e atendimento médico regulares por causa do alto risco de desenvolver complicações resultantes da imobilidade.

O prognóstico está diretamente relacionado com a função neurológica inicial após a lesão. As crianças obtêm melhores resultados neurológicos do que os adultos com lesão medular (4, 5).

Referências sobre o tratamento

  1. 1. Walters BC, Hadley MN, Hurlbert RJ, et al. Guidelines for the management of acute cervical spine and spinal cord injuries: 2013 update. Neurosurgery. 2013;60(CN_suppl_1):82-91. doi:10.1227/01.neu.0000430319.32247.7f

  2. 2. Atesok K, Tanaka N, O'Brien A, et al. Posttraumatic Spinal Cord Injury without Radiographic Abnormality. Adv Orthop. 2018;2018:7060654. Publicado em 2018 Jan 4. doi:10.1155/2018/7060654

  3. 3. CreveCoeur TS, Alexiades NG, Bonfield CM, et al. Building consensus for the medical management of children with moderate and severe acute spinal cord injury: a modified Delphi study. J Neurosurg Spine. Publicado online 17 de março de 2023. doi:10.3171/2023.1.SPINE221188

  4. 4. Pang D, Pollack IF. Spinal cord injury without radiographic abnormality in children—the SCIWORA syndrome. J Trauma. 29:654–664, 1989. doi: 10.1097/00005373-198905000-00021

  5. 5.Wang MY, Hoh DJ, Leary SP, et al. High rates of neurological improvement following severe traumatic pediatric spinal cord injury. Spine. 29:1493–1497, 2004. doi: 10.1097/01.BRS.0000129026.03194.0

Pontos-chave

  • A maioria das lesões na coluna vertebral em crianças envolve o pescoço.

  • Os sinais e sintomas neurológicos podem aparecer 30 minutos a 4 dias após a lesão.

  • Crianças podem ter lesão medular sem evidência de anormalidade radiológica (LMSEAR).

  • Deve-se suspeitar de LMESAR mesmo em caso de sintomas transitórios de disfunção neurológica ou dores lancinantes na região inferior da coluna ou membros.

  • Fazer RM em todos os pacientes que tiveram sintomas neurológicos, deficits neurológicos ao exame ou lesão medular detectada em outros exames de imagem.

  • Indica-se com menos frequência a estabilização cirúrgica em crianças do que em adultos com lesão medular.

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