Fibrose hepática

Análise completa: mar. 2026 PorTae Hoon Lee, MD, Icahn School of Medicine at Mount Sinai | Colega revisado porMinhhuyen Nguyen, MD, Fox Chase Cancer Center, Temple University
Última atualização: mar. 2026
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Visão Educação para o paciente

Fibrose hepática é uma cicatrização excessivamente exuberante em que excesso de tecido conjuntivo (tecido cicatricial) acumula-se no fígado. Esse processo ocorre em resposta à lesão crônica, especialmente quando há componente inflamatório. A matriz extracelular do fígado é produzida em excesso e insuficientemente degradada. A fibrose não causa sintomas, mas pode provocar hipertensão portal se a cicatrização alterar o fluxo sanguíneo pelo fígado ou cirrose se resultar em desorganização da arquitetura hepática normal e disfunção hepática. O diagnóstico baseia-se em exames de sangue, técnicas de imagem e, algumas vezes, biópsia hepática. O tratamento envolve a correção da causa de base, sempre que possível.

Na fibrose hepática, existe excessivo acúmulo de tecido conjuntivo no fígado; este tecido representa a cicatrização em resposta à lesão celular hepática crônica e repetida. Comumente, a fibrose progride, altera a arquitetura hepática e, por fim, a função hepática, na tentativa de regeneração dos hepatócitos e de reparo ao dano tecidual. Quando essa alteração é difusa, a cirrose é diagnosticada.

Etiologia da fibrose hepática

Vários tipos de lesão hepática crônica podem causar fibrose (ver tabela ). As etiologias comuns em todo o mundo incluem hepatite viral, doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (DHEADM), doença hepática relacionada ao uso de álcool e esquistossomose (1). A lesão hepática aguda autolimitada (p. ex., hepatite viral aguda A), mesmo quando fulminante, não necessariamente distorce a arquitetura do arcabouço e por isso não causa fibrose avançada, a despeito da perda de hepatócitos. Em fases iniciais, a fibrose hepática pode regredir se a causa for reversível (p. ex., nos casos de eliminação viral). Depois de meses a anos de lesão crônica ou recorrente, a fibrose torna-se permanente. O desenvolvimento da fibrose é mais acelerado quando há mecanismos de obstrução biliar.

As causas mais comuns de fibrose hepática são:

  • Doenças virais (p. ex., hepatite B ou C crônica)

  • Esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (EHADM)

  • Doença hepática relacionada ao uso de álcool

Tabela
Tabela

Referência sobre etiologia

  1. 1. Zhang CY, Yuan WG, He P, et al. Liver fibrosis and hepatic stellate cells: Etiology, pathological hallmarks and therapeutic targets. World J Gastroenterol. 2016;22(48):10512-10522. doi:10.3748/wjg.v22.i48.10512

Fisiopatologia da fibrose hepática

A fibrose inicia-se pela ativação de células estelares perivasculares hepáticas (células de Ito, armazenadoras de gordura) (1). Essas e outras células vizinhas proliferam-se, tornando-se células contráteis, denominadas miofibroblastos. Essas células aumentam a produção da matriz extracelular anormal (que consiste em colágeno, outras glicoproteínas e glicanos) e de proteínas da matriz celular. Células de Kupffer (macrófagos residentes), hepatócitos lesionados, plaquetas e agregados leucocitários. Como resultado, liberam espécies reativas de oxigênio e mediadores inflamatórios (p. ex., fator de crescimento derivado das plaquetas, fatores de crescimento transformadores e fator de crescimento de tecido conjuntivo). Assim, a ativação de células estelares resulta na matriz extracelular anormal, tanto em quantidade quanto na composição. Quando se perde o equilíbrio entre a produção e degradação da matriz extracelular, a fibrose progride.

Os miofibroblastos, estimulados pela endotelina 1, contribuem para o aumento da resistência da veia porta e aumentam a densidade da matriz anormal. Tratos fibrosos aglomeram-se nos ramos aferentes portais venosos e nas veias hepáticas aferentes, gerando um bypass pelos hepatócitos e limitando o aporte hepatocitário de sangue. Dessa forma, a fibrose contribui para haver isquemia hepatocitária (causando disfunção hepatocelular) e hipertensão portal. A extensão da isquemia e da hipertensão portal determina quanto o fígado será afetado. Por exemplo, a fibrose hepática congênita afeta os ramos portais, poupando o parênquima. O resultado é hipertensão portal sem disfunção hepatocelular.

Referência sobre fisiopatologia

  1. 1. Hammerich L, Tacke F. Hepatic inflammatory responses in liver fibrosis. Nat Rev Gastroenterol Hepatol. 2023;20(10):633-646. doi: 10.1038/s41575-023-00807-x

Sinais e sintomas da fibrose hepática

A fibrose hepática não causa sintomas. Os sintomas podem resultar de doença que causa fibrose ou, depois que a fibrose progride para cirrose, de complicações da hipertensão portal. Esses sintomas são icterícia, sangramento varicoso, ascite e encefalopatia portossistêmica. Cirrose pode resultar em insuficiência hepática e insuficiência hepática potencialmente fatal.

Diagnóstico da fibrose hepática

  • História e exame físico

  • Às vezes, exames sanguíneos e/ou exames de imagem não invasivos

  • Elastografia por ultrassonografia ou ressonância magnética (ERM)

  • Algumas vezes, biópsia hepática

Suspeita-se de fibrose hepática se os pacientes têm doença hepática crônica conhecida (p. ex., hepatite crônica C [VHC] ou hepatite B crônica [VHB], doença hepática alcoólica, esteato-hepatite associada à disfunção metabólica [EHADM, anteriormente conhecida como esteato-hepatite não alcoólica (EHNA)]) ou se os resultados dos testes hepáticos são anormais. Nesses casos, realizam-se exames para verificar a presença de fibrose e, se confirmada, determinar sua gravidade (estágio) para orientar as decisões médicas subsequentes. Por exemplo, triagem para carcinoma hepatocelular e para varizes gastroesofágicas é indicada se fibrose avançada com cirrose está confirmada, mas geralmente não é indicada para fibrose leve ou moderada. A avaliação do grau de fibrose hepática ajuda a prever o prognóstico dos pacientes com hepatite viral crônica. No entanto, desde a ampla disponibilidade dos antivirais de ação direta, saber o grau de fibrose tornou-se muito menos importante para decidir quando iniciar a terapia antiviral.

Os testes utilizados para estadiar a fibrose incluem exames de imagem convencionais, exames de sangue, biópsia hepática e exames de imagem não invasivos que avaliam a rigidez do fígado.

O sistema de estadiamento METAVIR (metanálise dos dados histológicos na hepatite viral) avalia as alterações inflamatórias (atividade histológica) e o nível de fibrose da seguinte forma (1):

O parâmetro de atividade histológica fornece informações sobre o estado inflamatório atual do fígado:

  • A0 = nenhuma atividade

  • A1 = atividade leve

  • A2 = atividade moderada

  • A3 = atividade grave

O parâmetro de fibrose fornece informações sobre alterações na arquitetura hepática:

  • F0 = sem fibrose

  • F1 = fibrose portal sem septos

  • F2 = fibrose portal com septos raros

  • F3 = múltiplos septos sem cirrose

  • F4 = cirrose

Exames de imagem convencionais: os exames de imagem convencionais incluem ultrassonografia, TC e RM. Esses testes podem detectar evidências de cirrose e hipertensão portal, como nodularidade na superfície hepática, esplenomegalia, dilatação e colateralização da veia porta, ascite e varizes (2). No entanto, não são sensíveis para a fibrose moderada ou mesmo avançada e podem falhar em detectar algumas causas de cirrose se esplenomegalia e varizes estão ausentes. Embora a fibrose possa aparecer como ecogenicidade alterada na ultrassonografia ou heterogeneidade do sinal no TC, esses resultados são inespecíficos e podem indicar somente gordura do parênquima hepático.

Avaliação não invasiva de doença hepática com base em exames de imagem: as técnicas de elastografia baseada em imagem são validadas para a detecção de fibrose ou cirrose precoce (2); elas incluem:

Para esses testes, as vibrações acústicas são aplicadas ao abdome com uma sonda. A rapidez com que essas vibrações são transmitidas ao longo do tecido hepático indica a rigidez (isto é, fibrose) do fígado. Entretanto, algumas outras condições além da fibrose também aumentam a rigidez hepática, incluindo hepatite ativa grave, aumento da pressão cardíaca direita e estado pós-prandial. Além disso, a interpretação não foi devidamente validada durante a gestação. Portanto, normalmente não se recomenda o uso dessas técnicas em pacientes com uma dessas doenças.

A avaliação não invasiva da doença hepática com base em sangue está incluída em modelos clínicos (p. ex., Índice da Relação AST para Plaquetas (APRI), escore BARD, escore Fibrose-4 (FIB-4), escore de fibrose da doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica [DHEADM]), que combinam testes comumente disponíveis (AST, ALT, contagem de plaquetas, albumina, RNI) com informações demográficas e clínicas (p. ex., idade, índice de massa corporal [IMC], diabetes/glicemia de jejum alterada). Alguns painéis comercialmente disponíveis (p. ex., FibroTestTM [conhecido como Fibrosure® nos Estados Unidos], Hepascore, European Liver Fibrosis Panel [ELF]) combinam marcadores indiretos (p. ex., bilirrubina sérica) e marcadores diretos (p. ex., pró-colágeno tipos I e III, ácido hialurônico) da função hepática. Marcadores diretos são substâncias envolvidas na patogênese da deposição de matriz extracelular ou citocinas que induzem a deposição de matriz extracelular. Esses painéis são mais bem utilizados para distinguir entre 2 níveis de fibrose: ausente a mínimo versus moderado a grave; eles não diferenciam com precisão os graus de fibrose moderada a grave.

Calculadora clínica

Combinações de exames de sangue e exames de imagem podem melhorar a avaliação da fibrose e são recomendadas para a maioria dos pacientes com doença hepática crônica (2, 3). Exemplos incluem o FAST (FibroScan e níveis séricos de AST); Agile 3+ (AST, ALT, plaquetas e FibroScan), MAST (fração de gordura por densidade de prótons baseada em RM, elastografia por ressonância magnética [ERM] e níveis séricos de AST) e o MEFIB (ERM e o índice FIB-4) (4). Essas ferramentas foram desenvolvidas para avaliação da fibrose hepática na esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (EHADM, previamente conhecida como doença do fígado gorduroso não alcoólica [EHNA]).

A biópsia hepática continua sendo o padrão ouro para o diagnóstico e estadiamento da fibrose hepática e para o diagnóstico da doença hepática subjacente que causa fibrose. No entanto, a biópsia hepática é invasiva, o que resulta em um risco de aproximadamente 10% de complicações menores (p. ex., dor pós-procedimento) e um risco de aproximadamente 2% de complicações graves (p. ex., sangramento significativo, morte, hospitalização, dor intensa) (5). Além disso, a biópsia hepática é limitada pelo erro de amostragem e concordância imperfeita entre observadores na interpretação dos resultados histológicos. Assim, a biópsia hepática nem sempre pode ser realizada (3). Em geral, a biópsia hepática não é realizada apenas para o estadiamento da fibrose hepática, a menos que exames não invasivos não ajudem a estabelecer o diagnóstico (p. ex., porque diferentes exames não invasivos produzem resultados discordantes) ou para ensaios clínicos.

Referências sobre diagnóstico

  1. 1. Bedossa P, Poynard T. An algorithm for the grading of activity in chronic hepatitis C. The METAVIR Cooperative Study Group. Hepatology. 1996;24(2):289-293. doi: 10.1002/hep.510240201

  2. 2. Sterling RK, Duarte-Rojo A, Patel K, et al. AASLD Practice Guideline on imaging-based noninvasive liver disease assessment of hepatic fibrosis and steatosis. Hepatology. 2025;81(2):672-724. doi: 10.1097/HEP.0000000000000843

  3. 3. Tapper EB, Parikh ND. Diagnosis and Management of Cirrhosis and Its Complications: A Review. JAMA. 2023;329(18):1589-1602. doi:10.1001/jama.2023.5997

  4. 4. Kim BK, Tamaki N, Imajo K, et al. Head-to-head comparison between MEFIB, MAST, and FAST for detecting stage 2 fibrosis or higher among patients with NAFLD. J Hepatol. 2022;77(6):1482-1490. doi: 10.1016/j.jhep.2022.07.020

  5. 5. Thomaides-Brears HB, Alkhouri N, Allende D, et al. Incidence of complications from percutaneous biopsy in chronic liver disease: A systematic review and meta-analysis. Dig Dis Sci. 2022;67(7):3366-3394. doi: 10.1007/s10620-021-07089-w

Tratamento da fibrose hepática

  • Tratamento da causa

Uma vez que a fibrose representa uma resposta ao dano hepático, o tratamento primário deve focar na causa (removendo a base da lesão hepática) (1). Esse tratamento pode incluir medicamentos antivirais para eliminar o vírus da hepatite B ou o vírus da hepatite C na hepatite viral crônica, abstinência de álcool ou redução da ingestão alcoólica, perda ponderal em pacientes com esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (EHADM, anteriormente conhecida como esteato-hepatite não alcoólica [EHNA]), remoção de metais pesados, como ferro na hemocromatose ou cobre na doença de Wilson, e descompressão das vias biliares na obstrução biliar. Esses tratamentos podem evitar a progressão da fibrose e, em alguns pacientes, também inverter algumas das alterações fibróticas.

O resmetirom (agonista beta do receptor do hormônio tireoideo) pode ser eficaz para a EHADM e para a fibrose em pacientes que apresentam ambas as condições (2). Entre os agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon-1 (GLP-1), a semaglutida, a tirzepatida e a liraglutida demonstraram, em ensaios clínicos, melhorar a EHADM sem agravar a fibrose (3, 4, 5), e a tirzepatida também pode melhorar a fibrose. Muitos outros tratamentos antifibróticos estão em estudo (p. ex., glitazona, vitamina E, agonista do receptor ativado por proliferador de peroxissoma [PPAR], agonista do receptor X farnesoide [FXR], inibidor de caspase, inibidores da esfingosina quinase 1 [SK1]) (5, 6, 7). O café foi associado a um menor risco de cirrose em metanálises (8, 9).

Referências sobre tratamento

  1. 1. Tapper EB, Parikh ND. Diagnosis and Management of Cirrhosis and Its Complications: A Review. JAMA. 2023;329(18):1589-1602. doi:10.1001/jama.2023.5997

  2. 2. Chen VL, Morgan TR, Rotman Y, et al. Resmetirom therapy for metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease: October 2024 updates to AASLD Practice Guidance. Hepatology. 2025;81(1):312-320. doi:10.1097/HEP.0000000000001112

  3. 3. Newsome PN, Buchholtz K, Cusi K, et al. A Placebo-Controlled Trial of Subcutaneous Semaglutide in Nonalcoholic Steatohepatitis. N Engl J Med. 2021;384(12):1113-1124. doi:10.1056/NEJMoa2028395

  4. 4. Armstrong MJ, Gaunt P, Aithal GP, et al. Liraglutide safety and efficacy in patients with non-alcoholic steatohepatitis (LEAN): a multicentre, double-blind, randomised, placebo-controlled phase 2 study. Lancet. 2016;387(10019):679-690. doi:10.1016/S0140-6736(15)00803-X

  5. 5. Loomba R, Hartman ML, Lawitz EJ, et al. Tirzepatide for Metabolic Dysfunction-Associated Steatohepatitis with Liver Fibrosis. N Engl J Med. 2024;391(4):299-310. doi:10.1056/NEJMoa2401943

  6. 6. Damiris K, Tafesh ZH, Pyrsopoulos N. Efficacy and safety of anti-hepatic fibrosis drugs. World J Gastroenterol. 2020;26(41):6304-6321. doi:10.3748/wjg.v26.i41.6304

  7. 7. Sumida Y, Yoneda M, Ogawa Y, et al. Current and new pharmacotherapy options for non-alcoholic steatohepatitis. Expert Opin Pharmacother. 2020;21(8):953-967. doi:10.1080/14656566.2020.1744564

  8. 8. Liu F, Wang X, Wu G, et al. Coffee Consumption Decreases Risks for Hepatic Fibrosis and Cirrhosis: A Meta-Analysis. PLoS One. 2015;10(11):e0142457. Published 2015 Nov 10. doi:10.1371/journal.pone.0142457

  9. 9. Kennedy OJ, Roderick P, Buchanan R, et al. Systematic review with meta-analysis: coffee consumption and the risk of cirrhosis. Aliment Pharmacol Ther. 2016;43(5):562-574. doi:10.1111/apt.13523

Pontos-chave

  • Lesão hepática aguda autolimitada (p. ex., devido à hepatite A viral aguda), mesmo quando fulminante, tende a não causar fibrose.

  • As causas mais comuns de fibrose hepática são hepatites B e C, esteato-hepatite associada à disfunção metabólica, doença hepática relacionada ao uso de álcool e esquistossomose.

  • A fibrose só causa sintomas se progredir para cirrose.

  • Testes não invasivos, incluindo elastografia transitória e elastografia por ressonância magnética, frequentemente combinados com exames sanguíneos, são o método recomendado para diagnosticar e estadiar fibrose hepática.

  • A biópsia hepática, embora imperfeita, ainda é o teste diagnóstico padrão-ouro, mas frequentemente pode ser evitada.

  • Tratar a causa da fibrose.

  • Resmetirom e agonistas do receptor GLP-1 são utilizados para tratar pacientes com EHADM e fibrose.

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