Colecistite aguda

PorYedidya Saiman, MD, PhD, Lewis Katz School of Medicine, Temple University
Reviewed ByMinhhuyen Nguyen, MD, Fox Chase Cancer Center, Temple University
Revisado/Corrigido: modificado out. 2025
v9109713_pt
Visão Educação para o paciente

É a inflamação aguda da vesícula biliar que se desenvolve em horas, geralmente como resultado da obstrução do ducto cístico por um cálculo. Sintomas incluem dor em hipocôndrio direito do abdome, algumas vezes acompanhada de febre, calafrios, náuseas e vômitos. A ultrassonografia abdominal detecta os cálculos e algumas vezes a inflamação local associada. O tratamento é com colecistectomia precoce quando possível.

(Ver também Visão geral da função biliar.)

A colecistite aguda é a complicação mais comum da colelitíase. Na verdade, 90% dos pacientes com colecistite aguda têm colelitíase (1). Quando um cálculo impacta no ducto cístico e causa obstrução persistente, ocorre um processo inflamatório agudo. A estase biliar provoca liberação de enzimas inflamatórias (p. ex., a fosfolipase A, que converte lecitina em lisolecitina, que pode mediar a inflamação).

A mucosa danificada secreta ainda mais líquidos para dentro da vesícula. A distensão resultante leva à liberação de mais mediadores inflamatórios (p. ex., prostaglandinas), o que piora a lesão de mucosa e resulta em isquemia, perpetuando a inflamação. Pode haver infecção bacteriana. O círculo vicioso de secreção de líquidos e inflamação, quando não controlado, pode levar à necrose e perfuração.

Se a inflamação aguda desaparecer e então continuar a recorrer, a vesícula torna-se fibrótica e contraída e passa a não mais concentrar ou eliminar a bile de forma apropriada — características da colecistite crônica.

Colecistite acalculosa aguda

É a colecistite sem a presença de cálculos. É responsável por 5 a 10% das colecistectomias realizadas por colecistite aguda (1). Os fatores de risco incluem (2, 3):

O mecanismo provavelmente envolve a liberação de mediadores inflamatórios em decorrência de isquemia, infecção ou estase biliar. Algumas vezes, um organismo responsável por um quadro infeccioso é identificado (p. ex., Salmonella spp ou citomegalovírus em pacientes imunodeprimidos). Em crianças, a colecistite acalculosa aguda pode ocorrer após um quadro febril, sem organismo infectante diagnosticado.

Referências gerais

  1. 1. Gallaher JR, Charles A. Acute Cholecystitis: A Review. JAMA. 2022;327(10):965-975. doi:10.1001/jama.2022.2350

  2. 2. Gu MG, Kim TN, Song J, et al. Risk factors and therapeutic outcomes of acute acalculous cholecystitis. Digestion. 2014;90(2):75-80. doi:10.1159/000362444

  3. 3. Barie PS, Eachempati SR. Acute acalculous cholecystitis. Curr Gastroenterol Rep. 2003;5(4):302-309. doi:10.1007/s11894-003-0067-x

Sinais e sintomas da colecistite aguda

A maioria dos pacientes tem antecedentes de cólicas biliares ou colecistite aguda. A dor causada pela colecistite aguda apresenta qualidade e localização similares à da cólica biliar, mas com duração maior (com pico entre 15 a 60 minutos e duração > 6 horas) e é mais intensa. É comum haver vômitos, bem como dor à palpação subcostal. A dor pode irradiar para a escápula direita ou região superior das costas. Após algumas horas, pode surgir o sinal de Murphy (a inspiração profunda exacerba a dor durante a palpação do hipocôndrio direito, interrompendo a inspiração), juntamente com reação de defesa involuntária dos músculos do hipocôndrio direito. Febre, em níveis não elevados, é comum.

Em idosos, pode não haver febre e os primeiros e únicos sinais podem ser sistêmicos e não específicos (p. ex., anorexia, vômitos, mal-estar, fraqueza e febre). Às vezes, não há febre.

A colecistite aguda começa a melhorar em 2 a 3 dias e se resolverá sem tratamento cirúrgico em aproximadamente 85% dos pacientes (1).

Complicações

Sem tratamento, aproximadamente 10% dos pacientes podem desenvolver perfuração e peritonite localizadas ou livres (2). A vesícula biliar perfurada tem uma taxa de mortalidade de até 16%. Dor abdominal crescente, febre alta e calafrios com sensibilidade por rebote ou íleo sugerem empiema na vesícula biliar (pus), gangrena ou perfuração. Se a colecistite aguda for acompanhada de icterícia, fezes acólicas ou colestase, pode haver obstrução parcial do ducto biliar comum, geralmente como resultado de cálculos ou inflamação.

Outras complicações incluem:

  • Síndrome de Mirizzi: complicação rara em que um cálculo torna-se impactado no ducto cístico e comprime e obstrui o ducto biliar comum, causando colestase.

  • Pancreatite biliar: cálculos biliares no ducto hepático comum originados da vesícula biliar podem obstruir, estreitar, ou inflamar o ducto pancreático, provocando pancreatite.

  • Fístula colecistoentérica: algumas vezes, um cálculo grande perfura a parede da vesícula, criando uma fístula colecistoentérica; o cálculo pode migrar íntegro para o intestino delgado ou obstruí-lo (íleo biliar).

Colecistite acalculosa aguda

Os sintomas são semelhantes aos da colecistite aguda com cálculos, mas pode ser difícil de identificar porque os pacientes tendem a estar gravemente enfermos (p. ex., em unidade de terapia intensiva) e podem não conseguir se comunicar de modo claro. Distensão abdominal ou febre inexplicada pode ser a única pista. Sem tratamento, a doença pode progredir rapidamente para gangrena e perfuração da vesícula biliar, provocando sepse, choque e peritonite.

Dicas e conselhos

  • Monitorar atentamente os pacientes com risco de colecistite acalculosa (p. ex., pacientes gravemente enfermos, em jejum ou imunocomprometidos) quanto a sinais sutis da doença (p. ex., distensão abdominal, febre inexplicável).

Referência sobre sinais e sintomas

  1. 1. Loozen CS, Oor JE, van Ramshorst B, et al. Conservative treatment of acute cholecystitis: a systematic review and pooled analysis. Surg Endosc. 2017;31(2):504-515. doi:10.1007/s00464-016-5011-x

  2. 2. Sartelli M, Chichom-Mefire A, Labricciosa FM, et al. The management of intra-abdominal infections from a global perspective: 2017 WSES guidelines for management of intra-abdominal infections. World J Emerg Surg. 2017;12:29. doi:10.1186/s13017-017-0141-6

Diagnóstico da colecistite aguda

  • Ultrassom

  • Cintilografia biliar se os resultados da ultrassonografia forem inconclusivos ou se houver suspeita de colecistite acalculosa

  • Às vezes, TC ou RM com colangiopancreatografia por ressonância magnética (CPRM) se a ultrassonografia/colecintilografia forem inconclusivas e houver alta suspeita de perfuração, abscesso ou coledocolitíase.

  • Exames laboratoriais

A colecistite aguda deve ser suspeitada em pacientes com sinais e sintomas sugestivos.

Ultrassonografia transabdominal é o melhor teste para detectar cálculos biliares. O teste também pode provocar dor abdominal local ao longo da vesícula biliar (sinal ultrassonográfico de Murphy). Líquido ao redor da vesícula ou espessamento de sua parede indica inflamação aguda.

A cintilografia biliar é útil quando os resultados são ruins; o insucesso no preenchimento da vesícula com o isótopo indica obstrução do ducto cístico (isto é, um cálculo impactado). O uso da colecintilografia é às vezes limitado devido a considerações práticas, particularmente em pacientes com instabilidade hemodinâmica (p. ex., na unidade de terapia intensiva) que não podem ser transportados e tolerar a duração do exame. Resultados falso-positivos podem ocorrer em:

  • Pacientes em estado crítico

  • Nutrição parenteral (porque a estase biliar impede o enchimento)

  • Pacientes com doenças hepáticas graves (porque o fígado não secreta o radionuclídeo)

  • Esfincterotomia prévia (que facilita o fluxo para o duodeno em vez da vesícula biliar)

O uso de morfina como “agente provocador”, por aumentar o tônus do esfíncter da ampola hepatopancreática, ajuda a eliminar os resultados falso-positivos.

A TC e RM abdominal identificam complicações como perfuração da vesícula biliar ou pancreatite, bem como coledocolitíase e outros envolvimentos extra-biliares.

Testes laboratoriais são realizados, mas não são diagnósticos. É comum haver leucocitose com desvio à esquerda. Na colecistite aguda não complicada, não costuma haver alterações nos testes hepáticos ou na lipase. Anormalidades colestáticas leves (bilirrubina até 4 mg/dL [68,4 micromol/L] e fosfatase alcalina levemente elevada) são comuns, provavelmente indicando mediadores inflamatórios que afetam o fígado em vez de obstrução mecânica. Aumentos mais acentuados, especialmente lipase (se > 3 vezes o normal), sugerem obstrução biliar. A passagem de cálculos pela via biliar aumenta os níveis séricos de aminotransferases (alanina, aspartato).

Colecistite acalculosa aguda

É o diagnóstico sugerido na ausência de cálculos e na presença de sinal de Murphy ultrassonográfico ou um espessamento da parede vesicular associado à presença de líquido perivesicular. Vesícula biliar distendida, sedimento biliar e parede da vesícula biliar grossa sem líquido pericolecístico (por causa do baixo nível de albumina ou ascite) podem simplesmente resultar de uma doença crítica.

A colecintilografia é o teste diagnóstico mais confiável para colecistite acalculosa aguda (1). Quanto a outras causas de colecistite, a TC e a RM são geralmente consideradas modalidades de imagem adjuvantes, particularmente quando a ultrassonografia é inconclusiva, complicações são suspeitas ou fatores específicos do paciente limitam o uso de outros exames de imagem.

Referência sobre diagnóstico

  1. 1. Gallaher JR, Charles A. Acute Cholecystitis: A Review. JAMA. 2022;327(10):965-975. doi:10.1001/jama.2022.2350

Tratamento da colecistite aguda

  • Tratamento de suporte (hidratação, analgésicos)

  • Geralmente antibióticos

  • Colecistectomia, geralmente laparoscópica

O tratamento inclui internação hospitalar, líquidos IV e analgésicos (p. ex., um anti-inflamatório não esteroide [AINE] como cetorolaco ou um opioide). Nada é administrado por via oral e institui-se passagem de sonda nasogástrica e aspiração gástrica se houver vômitos intensos. Antibióticos parenterais geralmente são iniciados para tratar possível infecção, mas não há evidências de benefício em casos de colecistite aguda leve (1). A cobertura empírica, direcionada a organismos entéricos gram-negativos, envolve esquemas IV como ampicilina/sulbactam ou piperacilina/tazobactam (2).

Embora a resolução sem cirurgia possa ocorrer, a colecistectomia precoce é preferida ao tratamento conservador, dadas as taxas relativamente altas de complicação e recorrência. A colecistectomia cura a colecistite aguda e a cólica biliar. A colecistectomia para colecistite calculosa e acalculosa é recomendada dentro de 7 dias da admissão hospitalar e dentro de 10 dias do início dos sintomas (1). Múltiplos estudos demonstram benefício se a colecistectomia for realizada nas primeiras 24 a 48 horas nas seguintes situações (2):

  • Quando o diagnóstico for claro e o paciente apresentar baixo risco clínico cirúrgico.

  • Pacientes idosos e/ou diabéticos e, portanto, mais suscetíveis a complicações infecciosas.

  • Presença de empiema, gangrena, ou perfuração, ou, ainda, colecistite acalculosa.

A cirurgia pode ser adiada quando os pacientes apresentam doença crônica grave subjacente (p. ex., doença cardiopulmonar ou doença hepática grave) que aumenta os riscos cirúrgicos (1, 2). Nesses pacientes, a colecistectomia é adiada até que o tratamento médico estabilize os distúrbios comórbidos ou até que a colecistite se resolva. Se a colecistite desaparecer, a colecistectomia pode ser feita 6 semanas mais tarde. Cirurgia retardada tem o risco de complicações biliares recorrentes. A colecistectomia precoce é geralmente preferida para pacientes com mais de 80 anos, pacientes grávidas e pacientes com cirrose.

A colecistectomia é geralmente realizada por via laparoscópica, embora a colecistectomia aberta possa ser realizada em casos de dificuldade técnica ou inflamação grave (1).

A colecistostomia percutânea é uma alternativa à colecistostomia para pacientes com alto risco cirúrgico, como idosos, aqueles com colecistite acalculosa, aqueles com doença hepática grave e aqueles em uma unidade de terapia intensiva por causa de queimaduras, trauma ou insuficiência respiratória.

Referências sobre tratamento

  1. 1. Pisano M, Allievi N, Gurusamy K, et al. 2020 World Society of Emergency Surgery updated guidelines for the diagnosis and treatment of acute calculus cholecystitis. World J Emerg Surg. 2020;15(1):61. doi:10.1186/s13017-020-00336-x

  2. 2. Gallaher JR, Charles A. Acute Cholecystitis: A Review. JAMA. 2022;327(10):965-975. doi:10.1001/jama.2022.2350

Pontos-chave

  • A maioria dos pacientes ( 90%) com colecistite aguda tem colelitíase.

  • Em idosos, os sintomas de colecistite podem ser inespecíficos (p. ex., anorexia, vômitos, mal-estar, fraqueza e febre), e febre pode estar ausente.

  • Embora a colecistite aguda desapareça espontaneamente em 85% dos pacientes, perfuração localizada ou outra complicação se desenvolve em 10%.

  • Diagnosticar por ultrassonografia e, se os resultados forem ambíguos, cintilografia biliar.

  • Tratar pacientes com líquidos IV, antibióticos e analgésicos; favorecer colecistectomia precoce quando os pacientes estão estáveis.

quizzes_lightbulb_red
Test your KnowledgeTake a Quiz!
iOS ANDROID
iOS ANDROID
iOS ANDROID