Considerações gerais sobre problemas sociais que afetam as crianças e suas famílias

PorSteven D. Blatt, MD, State University of New York, Upstate Medical University
Revisado porAlicia R. Pekarsky, MD, State University of New York Upstate Medical University, Upstate Golisano Children's Hospital
Revisado/Corrigido: modificado jul. 2025
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À medida que as crianças crescem e se desenvolvem, elas se deparam tanto com experiências positivas quanto com desafios. Alguns desses desafios são pequenos, mas outros podem causar estresse significativo. Para se desenvolver, a criança deve vivenciar o cuidado consistente e contínuo de um cuidador amoroso e encorajador, quer essa pessoa seja um dos pais ou um cuidador substituto. A segurança e o apoio que esse adulto pode proporcionar oferecem à criança a autoconfiança e a resiliência para lidar de maneira eficaz com o estresse.

Interações com pessoas fora do convívio familiar ajudam as crianças a se desenvolverem emocional e socialmente. Normalmente, essas interações ocorrem com familiares próximos, amigos, vizinhos e pessoas em creches, escolas, santuários e equipes desportivas ou de outras atividades. Ao lidar com os estresses e os conflitos de menor importância inerentes a essas interações, as crianças gradualmente adquirem as habilidades para lidar com fatores estressantes mais significativos. As crianças também aprendem vendo como os adultos lidam com o estresse nas suas vidas.

Tal como os adultos, as crianças são afetadas por eventos que ocorrem fora das suas casas e comunidades. Por exemplo, tiros disparados em escolas e outros locais ou eventos são amplamente cobertos por todos os tipos de mídia. Mesmo que os adultos tentem proteger as crianças para que não saibam sobre essas ocorrências, a maioria das crianças fica sabendo do que aconteceu. Tiros disparados em escolas, em particular, recebem muita cobertura pelas mídias tradicionais, como televisão, rádio e jornais, pelas mídias digitais, como sites de notícias e discussões pelas mídias sociais. Quanto maior a idade da criança, mais acesso ela tende a ter a informações sobre esses eventos. Além disso, notícias de diferenças políticas relacionadas a questões controversas são divulgadas por algumas mídias usando uma linguagem extremamente agressiva e polarizante ou imagens violentas. Isso pode causar ansiedade em qualquer pessoa, mas pode ser particularmente estressante para as crianças. É possível que não consigam ajudar a criança a lidar com esse estresse ou limitar seu impacto, pois talvez eles nem saibam o que a criança tem ouvido fora de casa ou enquanto usa websites ou mídias sociais.

À medida que as crianças se tornam adolescentes e adultos jovens, elas desenvolvem seu próprio senso de independência de opiniões, crenças e ações. Frequentemente, pais, escolas, comunidades e instituições religiosas carregam a responsabilidade de orientar a educação das crianças e ajudá‑las a desenvolver suas crenças. Os pensamentos e as crenças das crianças também são moldados por influências externas. A mídia social é uma das principais influências e a fonte de grande parte das notícias e informações às quais as crianças são expostas. Elas podem ter acesso a informações factuais, bem como a informações incorretas, através de telefones celulares, tablets, laptops, smartwatches e outros aparelhos móveis. Pais e cuidadores muitas vezes desconhecem as fontes de informação às quais seus filhos estão expostos e muitas vezes não têm a oportunidade de controlar essas influências significativas. Muitas crianças conseguem acessar facilmente informações erradas, inadequadas ou inconsistentes com os valores dos pais.

Os pais e cuidadores precisam estar cientes de todas as fontes através das quais seus filhos recebem informações. A conscientização é melhor alcançada por meio de conversas abertas com as crianças, monitoramento dos pais da atividade on-line e, conforme necessário, limitando o acesso a conteúdo impróprio.

Você sabia que...

  • Os pais devem discutir assuntos difíceis com a criança em momentos tranquilos, em um local seguro e confortável e quando a criança demonstrar interesse.

Certos acontecimentos importantes que perturbam a estrutura ou a rotina familiar, como doenças e divórcio, podem desafiar a capacidade de uma criança de lidar com atividades normais. Esses acontecimentos podem interferir também no desenvolvimento emocional e social da criança. Uma doença crônica, por exemplo, pode impedir que uma criança participe de atividades e também prejudicar o desempenho na escola.

Eventos que afetam a criança também podem ter consequências negativas nas pessoas que lhe são próximas. Cuidar de uma criança doente ou de uma criança com problemas comportamentais sérios é estressante para os cuidadores e para qualquer pessoa que faça parte da vida da criança. As consequências desse estresse variam de acordo com a natureza e a gravidade da doença ou problema de comportamento e com os recursos emocionais e outros recursos e apoios da família.

Como conversar com crianças sobre assuntos difíceis

Muitos acontecimentos da vida, inclusive doença ou morte de um ente querido, divórcio e bullying são assustadores ou desagradáveis para as crianças. Até mesmo fenômenos que não afetam diretamente a criança, como desastres naturais, guerra ou terrorismo, podem provocar ansiedade. Os medos perante todas estas situações, racionais ou irracionais, podem preocupar a criança. Os pais podem evitar discutir eventos que provocam ansiedade, como um tiroteio em uma escola em outra comunidade, com seu filho na esperança da criança não estar ciente do evento. Pode ser melhor que os pais partam do pressuposto que a criança está ciente do evento e explorem calmamente como a criança entende esse evento e a ansiedade causada por ele. Para a criança é melhor que ela fique sabendo ou pelo menos discuta um evento causador de ansiedade com seu pai ou mãe.

As crianças tendem a sentir dificuldade em falar sobre assuntos desagradáveis. No entanto, a discussão aberta pode ajudar a criança a enfrentar assuntos difíceis ou embaraçosos e dissipar temores irracionais. Uma criança precisa saber que a ansiedade é normal e que, geralmente, os sentimentos de ansiedade diminuem com o tempo. Os pais que rotineiramente discutem assuntos difíceis com seus filhos desde pequenos com frequência percebem que eles são mais receptivos à discussão de assuntos complexos que eles encaram quando são adolescentes.

Os pais devem discutir assuntos difíceis durante um período tranquilo, em um local seguro e confortável e quando a criança demonstrar interesse. Os pais devem permanecer calmos, apresentar fatos e dar toda atenção à criança. Reconhecer o que a criança diz com frases tais como “Entendo” ou com um aceno silencioso encoraja a criança a confiar nos pais. Reagir ao que a criança diz também é importante. Caso a criança mencione, por exemplo, raiva sobre um divórcio, um pai ou mãe pode dizer “Então o divórcio faz você ficar com raiva”, ou “Fale mais sobre isso”. Perguntar como a criança se sente também pode encorajar a discussão de emoções sensíveis ou medos, por exemplo, medo de abandono pelo pai ou mãe que não detém a custódia durante um divórcio ou o sentimento de culpa pelo divórcio.

Ao conversar sobre seus próprios sentimentos, os pais incentivam as crianças a reconhecer os seus temores e preocupações. Sobre um divórcio, um pai ou mãe pode dizer, por exemplo, “Também estou triste com o divórcio. Eu também sei que essa é a coisa certa para fazermos. Mesmo que não dê mais para vivermos juntos, vamos sempre amar você e cuidar de você”. Agindo assim, os pais podem falar dos seus próprios sentimentos, inspirar confiança e explicar por que o divórcio é a escolha certa para eles. Muitas crianças, especialmente as mais jovens, precisam ouvir a mesma mensagem repetidamente. Os pais não devem subestimar o valor da tranquilização oferecida por essas mensagens.

Também é possível que os pais precisem falar sobre um aspecto difícil do comportamento da própria criança. Pais que suspeitem que a criança ou adolescente está usando drogas ilícitas ou álcool, por exemplo, devem abordar o assunto diretamente com ela. Os pais podem dizer “Estou com medo de você estar usando drogas. Sinto isso porque…” É importante que o pai/mãe converse de maneira clara e calma, expressando tanto as preocupações sobre o comportamento da criança como seu apoio e amor. Depois que as preocupações do pai/mãe foram informadas, a criança deve receber uma oportunidade para falar. A criança e o pai/mãe devem desenvolver um plano de ação que pode incluir uma consulta com um pediatra ou psicólogo.

Da mesma forma, questões sociais, como orientação sexual e gênero, direitos reprodutivos, racismo e outros tipos de discursos ou ações de ódio, abuso de substâncias e restrições sobre o que pode e não pode ser ensinado na escola, têm um lugar proeminente em notícias nacionais e locais nos Estados Unidos e em muitos outros países. Questões controversas podem ter um impacto direto nas crianças. As crianças que anteriormente pareciam alheias a muitas dessas questões agora podem ficar cientes delas e sentirem confusão e desconforto em relação às discussões que ocorrem ao seu redor. Os pais devem estar cientes de que, independentemente de como se sentem sobre esses problemas, essas discussões podem causar ansiedade nos filhos. Os pais devem estar cientes de que seus filhos podem ter amigos com diferentes formações e que podem ter diferentes experiências e opiniões sobre essas e outras questões importantes. Ensinar e modelar comportamentos e linguagem respeitosos em relação àquelas com visões diferentes são lições importantes para as crianças aprenderem.

Dada a disponibilidade imediata das mídias sociais e da internet, os pais devem reconhecer que seus filhos sabem ou saberão sobre essas questões sociais. Crianças de todas as idades são mais capazes de lidar com essas questões quando recebem orientação dos pais.

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