O transtorno de referência olfativa caracteriza-se por preocupação angustiante ou incapacitante com a emissão de odor corporal fétido ou ofensivo; esse odor é leve ou imperceptível para outras pessoas. O tratamento consiste no uso de inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRSs), clomipramina, neurolépticos e/ou terapia cognitivo-comportamental.
O transtorno de referência olfativa (frequentemente chamado de síndrome de referência olfativa) é um exemplo da categoria "outros transtornos obsessivo-compulsivos e transtornos relacionados" especificada no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição, Texto Revisado (DSM-5-TR) (1). Sua prevalência é provavelmente de cerca de 2%, com leve predominância feminina (2–4).
Referências gerais
1. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. 5th ed, Text Revision. American Psychiatric Association Publishing; 2022:293-294.
2. Phillips KA, Menard W. Olfactory reference syndrome: Demographic and clinical features of imagined body odor. Gen Hosp Psychiatry. 33(4):398-406, 2011. doi: 10.1016/j.genhosppsych.2011.04.004
3. Thomas E, du Plessis S, Chiliza B, Lochner C, Stein D. Olfactory Reference Disorder: Diagnosis, Epidemiology and Management. CNS Drugs. 2015;29(12):999-1007. doi:10.1007/s40263-015-0292-5
4. Zhou X, Schneider SC, Cepeda SL, Storch EA. Olfactory reference syndrome symptoms in Chinese university students: Phenomenology, associated impairment, and clinical correlates. Compr Psychiatry. 2018;86:91-95. doi:10.1016/j.comppsych.2018.06.013
Sinais e sintomas do transtorno de referência olfatório
Pacientes com síndrome de referência olfativa geralmente se preocupam, durante várias horas por dia, com uma convicção angustiante ou comprometedora de que eles emitem um ou mais odores corporais fétidos ou ofensivos, que não são percebidos por outras pessoas ou, na verdade, são só ligeiramente perceptíveis (1, 2). Podem acreditar, por exemplo, que têm mau hálito ou emitem suor fétido pelas axilas ou outras áreas da pele. Outras preocupações incluem emissão de cheiro de urina, flatulência ou odores desagradáveis da área genital. Em alguns casos, os pacientes creem que exalam odores desagradáveis, como lixo ou comida estragada (geralmente somados à percepção de odor corporal normal).
Em geral, a preocupação com o odor corporal é acompanhada de comportamentos repetitivos (p. ex., cheirar a si mesmos, tomar banhos em excesso, trocar de roupa, buscar reafirmação); esses comportamentos tentam aliviar o desconforto substancial causado pela preocupação com o odor corporal (1). A maioria das pessoas com a síndrome de referência olfativa também se esforça para camuflar o odor percebido (p. ex., com perfume, desodorante, enxaguatório bucal, chicletes).
A percepção é geralmente ruim ou ausente (isto é, a maioria das pessoas acha que provavelmente ou definitivamente emite um odor corporal ruim que, na verdade, não existe [1, 3]). Muito poucos reconhecem que sua convicção sobre o odor corporal é imprecisa, provavelmente porque a maioria das pessoas com síndrome de referência olfativa relata que elas próprias realmente sentem o odor. Um transtorno convulsivo como epilepsia do lobo temporal ou aura de enxaqueca deve ser considerado e excluído se os sintomas apresentados sugerirem que um desses transtornos possa estar presente.
O pensamento referencial é comum; por exemplo, os pacientes podem acreditar erroneamente que seu odor corporal é a razão pela qual as pessoas sentam-se longe, abrem uma janela ou cobrem o nariz (1).
A síndrome de referência olfativa geralmente compromete significativamente a funcionalidade e os pacientes costumam evitar situações sociais, frequentemente porque se sentem muito constrangidos e envergonhados em relação a cheirar mal. Muitos também evitam o trabalho ou outras atividades cotidianas importantes. Alguns pacientes permanecem completamente confinados em casa porque se sentem muito angustiados, constrangidos e envergonhados acerca do odor percebido para estar perto de outras pessoas, ou porque temem que seu odor corporal seja ofensivo aos outros. Em casos muito graves, a síndrome de referência olfativa é incapacitante.
Embora os dados sejam limitados, as taxas de suicídio parecem altas (1).
Como o insight é geralmente precário ou inexistente, muitos pacientes buscam tratamento médico geral, cirúrgico ou odontológico, em vez de tratamento psiquiátrico (p. ex., amigdalectomia para a halitose percebida, proctectomia [remoção do ânus] para o odor anal/flatulência percebido), o que não parece ser eficaz.
Referência sobre sinais e sintomas
1. Thomas E, du Plessis S, Chiliza B, Lochner C, Stein D. Olfactory Reference Disorder: Diagnosis, Epidemiology and Management. CNS Drugs. 2015;29(12):999-1007. doi:10.1007/s40263-015-0292-5
2. Pryse-Phillips W. An olfactory reference syndrome. Acta Psychiatr Scand. 147:484-509, 1971. doi: 10.1111/j.1600-0447.1971.tb03705.x
3. Phillips KA, Menard W. Olfactory reference syndrome: Demographic and clinical features of imagined body odor. Gen Hosp Psychiatry. 33(4):398-406, 2011. doi: 10.1016/j.genhosppsych.2011.04.004
Diagnóstico do transtorno de referência olfatório
Avaliação psiquiátrica
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição, Texto Revisado (DSM-5-TR) descreve o transtorno de referência olfativa da seguinte forma (1):
Preocupação do paciente com a emissão de odor corporal fétido, desagradável ou ofensivo que não é percebido por outros ou é considerado apenas leve
Comportamentos repetitivos (p. ex., cheirar-se para verificar o odor corporal, tomar banhos em excesso, trocar de roupa) em resposta às preocupações com odores e/ou tentativas de camuflar o odor percebido
A preocupação causa sofrimento significativo ou comprometimento significativo do funcionamento social, ocupacional ou de outras áreas
Referência sobre diagnóstico
1. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. 5th ed, Text Revision. American Psychiatric Association Publishing; 2022:293-294.
Tratamento do transtorno de referência olfatório
Inibidores seletivos de recaptação de serotonina ou clomipramina
Às vezes, um agente antipsicótico (geralmente atípico) (em associação a um ISRS ou clomipramina)
Terapia cognitivo-comportamental
Os estudos sobre tratamento do transtorno de referência olfativa são limitados. Contudo, a experiência clínica e as evidências disponíveis sugerem que ISRSs ou clomipramina (um antidepressivo tricíclico com potentes efeitos serotonérgicos), frequentemente em doses altas, podem ser úteis (1–3). Podem ser utilizados isoladamente ou com um neuroléptico (um atípico é preferido) se necessário. Pode ser útil a terapia cognitivo-comportamental que inclui terapia cognitiva (p. ex., reestruturação cognitiva), e exposição e prevenção de rituais (semelhante à terapia para transtorno dismórfico corporal). A farmacoterapia associada à terapia cognitivo-comportamental pode ser utilizada, especialmente em casos graves.
Referências sobre o tratamento
1. Begum M, McKenna PJ. Olfactory reference syndrome: a systematic review of the world literature. Psychol Med. 41(3):453-461, 2011. doi: 10.1017/S0033291710001091
2. Thomas E, du Plessis S, Chiliza B, Lochner C, Stein D. Olfactory Reference Disorder: Diagnosis, Epidemiology and Management. CNS Drugs. 2015;29(12):999-1007. doi:10.1007/s40263-015-0292-5
3. Prazeres AM, Fontenelle LF, Mendlowicz MV, et al. Olfactory reference syndrome as a subtype of body dysmorphic disorder. J Clin Psychiatry. 71:87, 2010. doi: 10.4088/JCP.09l05040
Pontos-chave
Os pacientes estão preocupados em emitir odor(es) corporal(is) percebido(s) que não são aparentes ou aparecem apenas ligeiramente para outras pessoas.
Os pacientes respondem à preocupação com os odores corporais realizando comportamentos repetitivos excessivos (p. ex., tomar banhos em excesso, escovar de dentes, lavar roupas) e/ou tentativas de camuflar o odor percebido (p. ex., utilizar perfume ou desodorante em excesso).
Em geral, os pacientes têm uma má percepção ou mesmo nenhuma.
Tratar com terapia cognitivo-comportamental similar àquela para transtorno dismórfico e/ou tratamento farmacológico com um ISRS ou clomipramina, mais um antipsicótico atípico se necessário.



