A qualidade de vida (QV) é a percepção de uma pessoa sobre sua capacidade de desfrutar da participação em atividades físicas, mentais, sociais e espirituais no contexto de suas próprias expectativas e habilidades; contudo, não existe uma definição única de QV (1). A manutenção de um senso de propósito e o envolvimento significativo em atividades que se alinham com os valores pessoais são reconhecidos como contribuintes fundamentais tanto para o bem-estar subjetivo quanto para os desfechos objetivos de saúde em idosos (2). É fundamental que os profissionais de saúde levem em conta a qualidade de vida ao estabelecer os objetivos do cuidado de cada paciente e a utilizem como um guia para todas as decisões de tratamento.
Ao discutir a QV com pacientes, cuidadores (formais e informais), outros profissionais de saúde e formuladores de políticas, os profissionais de saúde precisam evitar conscientemente o uso da linguagem e assumir atitudes que sugiram viés de idade, que afeta negativamente a percepção do paciente sobre o que a QV poderia ou deveria ser.
Referências gerais
1. Costa DSJ, Mercieca-Bebber R, Rutherford C, et al. How is quality of life defined and assessed in published research?. Qual Life Res. 2021;30(8):2109-2121. doi:10.1007/s11136-021-02826-0
2. Steptoe A, Deaton A, Stone AA. Subjective wellbeing, health, and ageing. Lancet. 2015;385(9968):640-648. doi:10.1016/S0140-6736(13)61489-0
Qualidade de vida relacionada à saúde
A maneira que a saúde afeta a qualidade de vida é variável e subjetiva. A qualidade de vida relacionada à saúde tem múltiplas dimensões e geralmente inclui o seguinte:
Ausência ou presença de sintomas físicos desconfortáveis (p. ex., dor, dispneia, náuseas e constipação)
Qualidade do bem-estar emocional (p. ex., felicidade, ausência de ansiedade)
Status funcional cognitivo e físico (p. ex., capacidade de realizar atividades de vida diária e funções superiores, como atividades agradáveis)
Natureza e qualidade dos relacionamentos interpessoais íntimos (p. ex., com familiares e amigos)
Capacidade de participar e desfrutar de atividades sociais
Grau de satisfação com aspectos médicos e arranjos financeiros para os cuidados de saúde
Sexualidade, imagem corporal e intimidade
Tem sido sugerido que a interação desses conceitos aumente a qualidade de vida em idosos (1).
Influências
Alguns fatores que influenciam a qualidade de vida relacionada à saúde (p. ex., expectativa de vida reduzida, comprometimento cognitivo, deficiência, dor crônica, estado funcional, dependência de cuidadores) podem ser evidentes para os médicos ao avaliar um paciente; contudo, outros podem não sê-lo, e os médicos podem precisar questionar os pacientes ou seus cuidadores sobre esses fatores, especialmente os determinantes sociais da saúde (2). Determinantes sociais de saúde (DSS) são as condições nos locais onde as pessoas vivem, aprendem, trabalham, se divertem, cultuam e envelhecem que afetam uma ampla gama de riscos e desfechos de saúde e qualidade de vida (3). As iniciativas globais de cuidados de saúde refletem um reconhecimento crescente de como os fatores sociais e ambientais impactam os desfechos de saúde e a qualidade de vida em todas as pessoas, incluindo populações idosas (4). Nem sempre é possível prever o efeito de um ou mais fatores na qualidade de vida, e alguns fatores imprevistos podem ter efeitos.
As perspectivas sobre a qualidade de vida podem mudar. Por exemplo, após a morte do cônjuge, a qualidade de vida de uma pessoa pode mudar e afetar os objetivos do tratamento.
Referências sobre qualidade de vida relacionada à saúde
1. Marzo RR, Khanal P, Shrestha S, et al. Determinants of active aging and quality of life among older adults: systematic review. Front Public Health. 2023;11:1193789. Published 2023 Jun 26. doi:10.3389/fpubh.2023.1193789
2. World Health Organization (WHO). Social Determinants of Health. May 6, 2026. Accessed January 26, 20206.
3. U.S. Department of Health and Human Services: Office of Disease Prevention and Health Promotion. Social Determinants of Health and Older Adults. Accessed January 26, 2026.
4. Marmot M. Global action on social determinants of health. Bull World Health Organ. 2011;89(10):702. doi:10.2471/BLT.11.094862
Avaliação da qualidade de vida
Barreiras à avaliação
Avaliar a perspectiva de um paciente sobre qualidade de vida pode ser difícil por várias razões, incluindo:
A qualidade de vida é uma experiência subjetiva e individual, portanto a importância relativa de vários fatores varia entre os pacientes.
A qualidade de vida é influenciada por fatores culturais que podem impactar os valores e preferências de um paciente.
Os pacientes podem não discutir fatores culturais e outros fatores pessoais e, mesmo quando o fazem, os médicos podem não compreender o impacto de um fator específico.
Métodos clínicos de avaliação nem sempre são incluídos ou enfatizados o suficiente na educação médica, que tende a focalizar o diagnóstico e o prolongamento da vida.
A avaliação e a comunicação da qualidade de vida devem levar em conta o letramento em saúde do paciente e sua fluência no idioma falado pelo clínico.
Avaliar as perspectivas do paciente sobre qualidade de vida demanda tempo, pois requer um diálogo aprofundado entre paciente e profissional de saúde, e os médicos frequentemente não dispõem de tempo suficiente durante uma consulta de rotina.
Métodos de avaliação
Métodos de autoavaliação estão disponíveis para a avaliação da qualidade de vida. Uma medida é a autoavaliação da saúde (AAS), também conhecida como saúde autoavaliada ou saúde autopercebida, que consiste em uma única pergunta na qual as pessoas avaliam o estado atual da própria saúde em escalas que variam de excelente a ruim. Verificou-se que a AAS está associada a escores em medidas de qualidade de vida relacionada à saúde e constitui preditor confiável de mortalidade (1, 2).
Tecnologias digitais de saúde vestíveis (smartwatches, rastreadores de atividade física, acessórios de monitoramento [p. ex., óculos, anéis], sistemas de monitoramento remoto e dispositivos médicos especializados) estão fornecendo métricas objetivas e contínuas cada vez mais valiosas, que complementam as avaliações tradicionais de qualidade de vida autorrelatada e permitem intervenções mais oportunas (3). Contudo, a tecnologia deve ser fácil de usar; o custo, o acesso, o letramento digital, a visão, a audição, a destreza manual e a capacidade de seguir instruções de uso são fatores relevantes.
Muitos métodos de avaliação são aplicados por um médico. Durante a avaliação da qualidade de vida, os médicos não devem permitir que seus próprios vieses sobre a saúde do paciente influenciem inadvertidamente a resposta do paciente. Em geral, é possível determinar as preferências de um paciente. Muitos pacientes com demência ou comprometimento cognitivo podem expressar suas preferências quando os clínicos utilizam explicações e perguntas simples; no entanto, recomenda-se que membros da família estejam presentes ao discutir as preferências de um paciente com comprometimento cognitivo.
Algumas das ferramentas de avaliação da qualidade de vida mais comumente utilizadas e bem validadas, relatadas pelos pacientes, incluem as seguintes:
EQ-5D (EuroQol [4]): esse instrumento padronizado mede mobilidade, autocuidado, atividades habituais, dor/desconforto e ansiedade/depressão (5). Também pode ser utilizado para calcular anos de vida ajustados pela qualidade para análise de custos a fim de ajudar a avaliar intervenções e políticas de cuidados de saúde.
SF-36 (Short Form Health Survey [6]): essa ferramenta consiste em 36 questões para avaliar a saúde física, mental e social (p. ex., vitalidade, dor, função física) (7). São gerados um escore sumário do componente físico e um escore sumário do componente mental, o que permite a comparação em uma população selecionada.
PROMIS (Patient Reported Outcomes Measurement Information System): os instrumentos PROMIS consistem em questionários para pacientes gerados por algoritmos que coletam e quantificam domínios de saúde relevantes para os pacientes (p. ex., dor, fadiga, função física, distúrbio do sono, sofrimento emocional, ansiedade, função cognitiva, depressão, capacidade de participar em papéis sociais) (8).
FACIT (Functional Assessment of Chronic Illness Therapy [9]): essa coleção de questionários de qualidade de vida para certas condições crônicas (p. ex., câncer, HIV, esclerose múltipla) pode ser utilizada para ajudar a avaliar o bem-estar físico, social, emocional e funcional.
WHOQOL-BREF (10): essa ferramenta é uma versão abreviada de 26 itens da avaliação da qualidade de vida da Organização Mundial da Saúde (OMS), que inclui saúde física/psicológica, relações sociais, meio ambiente, qualidade de vida geral e saúde geral. Essas pesquisas foram validadas internacionalmente, traduzidas para vários idiomas e implementadas com sucesso em vários ambientes clínicos e populações de pacientes.
Essas ferramentas de avaliação podem ser aplicadas periodicamente para monitorar a qualidade de vida de cada paciente à medida que seu curso clínico evolui, embora não existam diretrizes estabelecidas quanto à frequência dessas avaliações. Algumas ferramentas de avaliação (p. ex., PROMIS+Heart Failure-27 Profile v1.0 [8], o FACIT-Fatigue [11]) dispõem de questionários específicos de determinadas doenças ou condições que podem auxiliar no monitoramento da resposta ao tratamento e facilitar discussões contínuas sobre metas de cuidado centradas no paciente.
Referências sobre avaliação
1. DeSalvo KB, Bloser N, Reynolds K, et al. Mortality prediction with a single general self-rated health question. A meta-analysis. J Gen Intern Med. 2006;21(3):267-275. doi:10.1111/j.1525-1497.2005.00291.x
2. Dumas SE, Dongchung TY, Sanderson ML, et al. A comparison of the four healthy days measures (HRQOL-4) with a single measure of self-rated general health in a population-based health survey in New York City. Health Qual Life Outcomes. 2020;18(1):315. Published 2020 Sep 24. doi:10.1186/s12955-020-01560-4
3. S Oliveira J, Sherrington C, R Y Zheng E, et al. Effect of interventions using physical activity trackers on physical activity in people aged 60 years and over: a systematic review and meta-analysis. Br J Sports Med. 2020;54(20):1188-1194. doi:10.1136/bjsports-2018-100324
4. EuroQol. EuroQol instruments. Accessed February 3, 2026.
5. Devlin NJ, Brooks R. EQ-5D and the EuroQol Group: Past, Present and Future. Appl Health Econ Health Policy. 2017;15(2):127-137. doi:10.1007/s40258-017-0310-5
6. RAND. 36-Item Short Form Survey (SF-36). Accessed February 3, 2026.
7. Ware JE Jr, Sherbourne CD. The MOS 36-item short-form health survey (SF-36). I. Conceptual framework and item selection. Med Care. 1992 Jun;30(6):473-83.
8. Health Measures. PROMIS. Accessed February 3, 2026.
9. FACIT. Measures & Searchable Library: Overview. Accessed February 3, 2026.
10. World Health Organization (WHO). WHOQOL: Measuring Quality of Life. Accessed February 3, 2026.
11. FACIT. Functional Assessment of Chronic Illness Therapy and Fatigue Scale. Accessed February 3, 2026.



