Mucormicose é uma infecção causada por diversas organismos fúngicos na ordem Mucorales, como aqueles nos gêneros Rhizopus, Rhizomucor e Mucor. Os sintomas da infecção rino-orbital-cerebral resultam mais frequentemente de lesões necróticas invasivas no nariz e no palato, causando dor, febre, celulite orbitária, proptose e secreção nasal purulenta. Podem ocorrer sintomas do sistema nervoso central. Os sintomas pulmonares incluem tosse produtiva, febre e dispneia. A infecção disseminada pode ocorrer em pacientes gravemente imunocomprometidos. O diagnóstico é principalmente clínico, requer um alto grau de suspeita e é confirmado por meio de histopatologia e cultura. O tratamento é feito com anfotericina B lipossomal e cirurgia para remover o tecido necrosado. Mesmo com tratamento agressivo, a taxa de mortalidade é alta.
(Ver também Visão geral das infecções fúngicas.)
Muitas diferentes espécies de fungos podem causar mucormicose. Esses fungos são comumente encontrados no solo, folhas caídas, composto, resíduos animais e ar (1) e incluem muitos bolores de pão comuns. Cada espécie causa sintomas semelhantes.
A mucormicose é mais comum entre pacientes imunocomprometidos (isto é, aqueles com neutropenia, leucemia, linfoma, infecção avançada por HIV ou transplante de órgão sólido), pacientes com diabetes mellitus mal controlado (particularmente aqueles com cetoacidose diabética) e pacientes em uso do medicamento quelante de ferro desferroxamina (porque os fungos se ligam ao medicamento e utilizam o ferro a ele ligado para crescer) (2). A infecção por covid-19 é um fator de risco significativo para mucormicose. Durante a pandemia, observou-se um aumento do número de casos de mucormicose, especialmente na Índia (3). A maioria dos casos ocorreu em pacientes com diabetes mal controlado e naqueles em uso de glicocorticoides adjuvantes para o tratamento da infecção por covid-19.
A forma mais comum de mucormicose é rino-orbital. A doença pode se disseminar para o cérebro (mucormicose rino-órbito-cerebral).
Infecções cutâneas por Rhizopus se desenvolveram sob curativos oclusivos, mas muitas vezes resultam de trauma quando as áreas lesionadas são contaminadas pelo solo contendo esporos, como pode ocorrer em desastres naturais ou em lesões relacionadas a explosões em combates. Infecções cutâneas podem se desenvolver em hospedeiros imunocompetentes se a ferida for contaminada com esporos fúngicos.
Outras formas da doença incluem mucormicose pulmonar e gastrointestinal. Disseminação hematogênica pode ocorrer.
Referências gerais
1. World Health Organization (WHO). Mucormicose. Accessed August 26, 2025.
2. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Overview of Mucormycosis. April 24, 2024.
3. Skiada A, Drogari-Apiranthitou M, Roilides E, et al. A Global Analysis of Cases of Mucormycosis Recorded in the European Confederation of Medical Mycology / International Society for Human and Animal Mycology (ECMM / ISHAM) Zygomyco.net Registry from 2009 to 2022. Mycopathologia. 2025;190(4):53. Published 2025 Jun 10. doi:10.1007/s11046-025-00954-6
Sinais e sintomas da mucormicose
Mucormicose rino-órbito-cerebral é grave e frequentemente fatal, a menos que diagnosticada precocemente e tratada de maneira agressiva.
Lesões necróticas aparecem na mucosa nasal ou, algumas vezes, no palato. A invasão vascular por hifas leva à trombose e necrose tecidual progressiva, que pode envolver o septo nasal, o palato e os ossos que circundam a órbita ou os seios paranasais. Manifestações podem incluir dor, febre, celulite orbitária, proptose, oftalmoplegia, perda da visão secreção nasal purulenta e necrose da mucosa.
A extensão progressiva da necrose para o cérebro pode causar sinais de trombose do seio cavernoso, convulsões, afasia, hemiplegia e coma.
Esta foto mostra necrose tecidual da órbita nesta pessoa com mucormicose rino-orbital.
Mucormicose pulmonar lembra a aspergilose invasiva. Os sintomas incluem tosse produtiva, dispneia e febre. Se não diagnosticada e tratada prontamente, a doença pode progredir rapidamente, invadindo a pleura e a parede torácica.
Mucormicose cutânea geralmente se apresenta como lesões cutâneas eritematosas ou violáceas, rapidamente progressivas e dolorosas, que podem evoluir para úlceras necróticas com escara negra, frequentemente após trauma ou inoculação direta. Pode ocorrer doença angioinvasiva, levando à necrose tecidual profunda e, em casos graves, à disseminação.
Mucormicose gastrointestinal mais comumente se manifesta com sintomas inespecíficos como dor abdominal, febre, sangramento gastrointestinal e, em casos avançados, perfuração ou infarto intestinal. É mais comum entre pacientes imunocomprometidos ou com estado nutricional deficiente e pode progredir rapidamente. A mucormicose gastrointestinal pode estar associada a elevada taxa de letalidade.
Diagnóstico da mucormicose
Exame de amostras de tecido para hifas amplas, não septadas semelhantes à tira
Cultura
Detecção de DNA microbiano (reação em cadeia da polimerase [PCR] ou sequenciamento de nova geração de DNA livre de células)
O diagnóstico de mucormicose requer alto índice de suspeita clínica e, sobretudo, a demonstração direta, em amostras de tecido, de hifas grandes não septadas, com diâmetros irregulares e padrão de ramificação em ângulo reto; o exame deve ser minucioso, pois os elementos fúngicos podem não estar claramente visíveis, especialmente em meio a detritos necróticos (1). Por motivos não evidentes, com frequência as culturas podem ser negativas, até mesmo quando hifas são claramente visíveis nos tecidos.
Os ensaios de PCR quantitativa são o teste mais amplamente utilizado para detectar DNA fúngico em amostras clínicas (2). O sequenciamento de nova geração do DNA microbiano livre circulante em amostras de plasma pode auxiliar no diagnóstico.
A imagem radiográfica frequentemente revela nódulos pulmonares, consolidações ou massas, às vezes acompanhados por cavitação. TCs e radiografias frequentemente subestimam ou não detectam destruição óssea significativa; contudo, podem ser úteis como métodos adjuvantes no diagnóstico, em conjunto com o exame histopatológico ou a detecção de DNA microbiano.
Referências sobre diagnóstico
1. Lass-Flörl C. Zygomycosis: conventional laboratory diagnosis. Clin Microbiol Infect. 2009;15 Suppl 5:60-65. doi:10.1111/j.1469-0691.2009.02999.x
2. Lackner N, Posch W, Lass-Flörl C. Microbiological and Molecular Diagnosis of Mucormycosis: From Old to New. Microrganismos. 2021;9(7):1518. Published 2021 Jul 16. doi:10.3390/microorganisms9071518
Tratamento da mucormicose
Controle da doença
Formulações lipídicas de anfotericina B
Isavuconazônio
Desbridamento cirúrgico
(Ver também Antifúngicos.)
Terapia efetiva requer controle do diabetes ou, se possível, reversão da imunossupressão ou suspensão da desferroxamina.
Anfotericina B lipossomal IV uma vez ao dia é recomendada como terapia inicial. Isavuconazônio está aprovado para o tratamento primário. Contudo, a experiência clínica com o isavuconazônio é relativamente limitada e, nos pacientes gravemente enfermos, a anfotericina B continua a ser o tratamento de escolha. O posaconazol também pode ser eficaz, especialmente como terapia de consolidação.
O desbridamento cirúrgico completo de tecido necrótico é fundamental.



