A pele pode responder à luz solar com alterações agudas (p. ex., fotossensibilidade, queimadura solar) ou crônicas (p. ex., dermatoeliose [fotoenvelhecimento], ceratose actínica).
Radiação ultravioleta (UV)
O sol emite uma vasta gama de radiação eletromagnética. A maioria dos efeitos dermatológicos da luz solar é causada pela radiação UV, que é dividida em 3 bandas: UVA (320 a 400 nm); UVB (280 a 320 nm); e UVC (100 a 280 nm). Como a atmosfera filtra a radiação, apenas a UVA e a UVB chegam à superfície da Terra.
O caráter e a quantidade de raios que produzem queimaduras solares (principalmente os de comprimentos de onda < 320 nm) que alcançam a superfície da Terra variam significativamente de acordo com os seguintes fatores ambientais:
Condições atmosféricas e de superfície
Latitude
Estação
Hora do dia
Altitude
Camada de ozônio
Poluição do ar
Cobertura de nuvens
Refletividade da superfície (p. ex., neve, areia)
O grau de exposição da pele à luz solar também depende de vários fatores relacionados ao estilo de vida (p. ex., roupas, ocupação, atividades recreacionais).
Raios que produzem queimaduras solares são filtrados por um vidro e em grande parte por nuvens densas, fumaça e poluição atmosférica; mas eles ainda podem atravessar nuvens claras, neblina ou 30 cm de água limpa, potencialmente causando queimaduras graves. Neve, areia e água intensificam a exposição pelo reflexo dos raios. A exposição aumenta em baixas latitudes (mais perto do equador), no verão e durante o meio-dia (das 10 às 16 h) porque a luz solar atravessa a atmosfera mais diretamente (isto é, em um ângulo menor) nesses ambientes. A exposição também aumenta em altitudes elevadas, principalmente por causa da atmosfera mais fina. O ozônio estratosférico, que filtra a radiação ultravioleta, em especial os comprimentos de onda mais curtos, é depletado por clorofluorocarbonos produzidos pelo homem (p. ex., fluidos refrigerantes, aerossóis). A depleção da camada de ozônio aumenta a quantidade de raios UVA e UVB que alcançam a superfície da Terra.
Os tratamentos médicos com luz (fototerapia com UVB de banda estreita [UVB-BE]) emitem um comprimento de onda específico, de aproximadamente 311 a 313 nm. Esses tratamentos são eficazes em doenças cutâneas inflamatórias e podem minimizar as queimaduras solares quando comparados a comprimentos de onda de UVB mais curtos e mais eritematogênicos. As câmaras de bronzeamento emitem um amplo espectro (principalmente UVA [320 a 400 nm], com pequena quantidade de UVB [280 a 320 nm]) para bronzeamento cosmético. Muitos dos mesmos efeitos deletérios de longo prazo podem ocorrer tanto com a exposição à radiação UVA quanto à radiação UVB, incluindo fotoenvelhecimento e câncer de pele. A radiação UV emitida por câmaras de bronzeamento artificial foi classificada como carcinógeno para seres humanos, e demonstrou-se que o bronzeamento artificial, bem como a quantidade de exposição e a exposição cumulativa à radiação UV, aumentam o risco de melanoma (1). Quite simply, there is no "safe" suntan with UV exposure.
Referência geral
1. Colantonio S, Bracken MB, Beecker J. The association of indoor tanning and melanoma in adults: systematic review and meta-analysis. J Am Acad Dermatol. 2014 May;70(5):847-57.e1-18. doi: 10.1016/j.jaad.2013.11.050.
Fisiopatologia dos efeitos cutâneos da exposição solar
Efeitos adversos da exposição UV incluem queimadura solar aguda e várias alterações crônicas. A radiação ultravioleta danifica a pele por meio de uma combinação de lesão direta ao DNA, dano oxidativo e inflamação, o que leva a alterações cutâneas e aumenta o risco de melanoma ao promover mutações em genes-chave (1, 2). A exposição UV também leva à inativação e perda das células epidérmicas de Langerhans, que são uma parte importante do sistema imunitário da pele.
As alterações crônicas incluem espessamento da pele, rugas e lesões como ceratose actínica e câncer. Como uma resposta protetora após exposição à luz do sol, a epiderme se espessa e os melanócitos produzem o pigmento de melanina em uma taxa mais alta, causando o que é conhecido como "bronzeado". O bronzeamento fornece alguma proteção natural contra radiação UV, mas normalmente não tem nenhum benefício para a saúde.
Os indivíduos diferem muito quanto à sensibilidade e resposta à luz solar, principalmente com base na quantidade de melanina na pele. A pele de pigmentação clara é mais sensível à radiação UV em comparação com a pele de pigmentação escura, que apresenta maior proteção contra essa radiação. Mas pessoas de pele escura não são imunes aos efeitos do sol, e pele pigmentada escura pode desenvolver dano solar com exposição forte ou prolongada. Os efeitos de longo prazo da exposição à radiação UV em pessoas com pele escura são os mesmos observados em pessoas com pele clara, porém tendem a ocorrer mais tardiamente e a ser menos graves, porque a melanina da sua pele fornece proteção intrínseca contra a radiação UV.
Pessoas com cabelo loiro ou ruivo são especialmente suscetíveis aos efeitos agudos ou crônicos da exposição aos raios UV. Depósitos irregulares de melanina ocorrem na maioria das pessoas claras e resultam em efélides. Os polimorfismos no gene do receptor de melanocortina 1 (MC1R) (3) podem predispor a esse fenótipo, pois prejudicam a capacidade dos melanócitos de produzir eumelanina protetora e favorecem a síntese de feomelanina (4). A feomelanina é um pigmento com baixa capacidade de proteção contra a radiação UV e propriedades pró-oxidantes. Algumas evidências também sugerem que pessoas com variantes do MC1R podem ter um risco aumentado de melanoma, independentemente da exposição à radiação UV (5).
Não há pigmentação em albinos devido a um defeito no metabolismo da melanina. Há áreas irregulares de despigmentação em pacientes com vitiligo devido à destruição imunológicia dos melanócitos. Estes e qualquer outro grupo de pessoas que são incapazes de produzir melanina em uma taxa rápida e completa são especialmente suscetíveis a danos induzidos pela luz solar.
Referências sobre fisiopatologia
1. Halliday GM. Inflammation, gene mutation and photoimmunosuppression in response to UVR-induced oxidative damage contributes to photocarcinogenesis. Mutat Res. 2005 Apr 1;571(1-2):107-20. doi: 10.1016/j.mrfmmm.2004.09.013
2. Long GV, Swetter SM, Menzies AM, et al. Cutaneous melanoma. Lancet. 2023 Aug 5;402(10400):485-502. doi: 10.1016/S0140-6736(23)00821-8. Epub 2023 Jul 24. Erratum in: Lancet. 2023 Aug 5;402(10400):450. doi: 10.1016/S0140-6736(23)01581-7
3. Medline Plus. MC1R gene: genemelanocortin 1 receptor. Accessed November 19, 2025.
4. Cerdido S, Sánchez-Beltrán J, Lambertos A, et al. A Side-by-Side Comparison of Wildtype and Variant Melanocortin 1 Receptor Signaling with Emphasis on Protection against Oxidative Damage to DNA. Int J Mol Sci. 2023;24(18):14381. Published 2023 Sep 21. doi:10.3390/ijms241814381
5. Wendt J, Rauscher S, Burgstaller-Muehlbacher S, et al. Human Determinants and the Role of Melanocortin-1 Receptor Variants in Melanoma Risk Independent of UV Radiation Exposure. JAMA Dermatol. 2016 Jul 1;152(7):776-82. doi: 10.1001/jamadermatol.2016.0050
Prevenção dos efeitos da exposição solar
Simples precauções ajudam a prevenir alterações agudas (ou seja, queimadura solar) e os efeitos crônicos da luz solar. Essas precauções são recomendadas para pessoas de todos os tipos de pele, especialmente para aquelas com pele clara e que queimam com facilidade. Evitar o sol, utilizar roupas protetoras e aplicar filtro solar ajudam a minimizar a exposição UV. Dois suplementos orais — Polypodium leucotomos e nicotinamida — também podem fornecer alguma proteção contra danos causados pelo sol (p. ex., espessamento da pele, rugas).
Evitar o sol
A exposição ao sol do meio-dia e outros ambientes de alta radiação UV [ver Radiação ultravioleta (UV)] deve ser minimizada (30 minutos ou menos), mesmo para pessoas com pele escura. Em zonas temperadas, a intensidade dos raios UV é menor antes das 10 horas da manhã e após as 16 horas porque mais comprimentos de onda que produzem queimaduras solares são filtrados. A neblina e as nuvens não reduzem o risco de maneira significativa. O risco também é elevado em grandes altitudes e baixas latitudes (p. ex., na linha do equador ou perto dela).
Embora a exposição solar ajude a produzir vitamina D, muitos especialistas recomendam a manutenção de níveis adequados de vitamina D consumindo suplementos, se necessário, em vez de exposição excessiva à luz solar.
Roupas protetoras
Pode-se minimizar a exposição da pele à radiação UV usando proteção física, como chapéus, camisas de manga comprida, calças e óculos de sol. Tecidos com tramas estreitas bloqueiam o sol melhor do que aqueles com configuração mais frouxa. Roupas especiais que produzem alta proteção ao sol são encontradas comercialmente. Esse tipo de vestuário é rotulado pelo termo fator de proteção ultravioleta (FPU) seguido por um número que indica o nível de proteção (semelhante a rotulagem dos filtros solares). Chapéus de abas largas ajudam a proteger a face, orelhas e pescoço, mas essas áreas ainda precisam de proteção suplementar com um filtro solar tópico. O uso regular de protetor UV ao redor dos óculos escuros ajuda a proteger os olhos e pálpebras.
Fotoprotetores
Filtros solares são agentes tópicos que ajudam a proteger a pele contra queimadura solar e dano crônico provocados pelo sol absorvendo ou refletindo os raios solares UV (1). A maioria dos filtros solares atualmente disponíveis filtra eficazmente tanto a radiação UVA quanto a UVB e é rotulada como “amplo espectro”. Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA) classifica os filtros solares pelo fator de proteção solar (FPS): quanto maior o número, maior a proteção. O FPS quantifica apenas a proteção contra a exposição à radiação UVB; nos Estados Unidos, não existe uma escala aprovada pela FDA para proteção contra UVA; entretanto, o grau de proteção UVA (classificação PA) pode estar indicado em alguns filtros solares fabricados em vários países. As pessoas normalmente devem utilizar um protetor solar de amplo espectro com uma classificação FSP de 30 ou mais. Além disso, a resistência à água é uma característica importante de muitos protetores solares.
Há filtros solares disponíveis em uma ampla variedade de apresentações, como cremes, sprays, espumas, géis e bastões. Os ingredientes do filtro solar funcionam absorvendo e/ou refletindo a luz. Os produtos autobronzeantes não protegem à exposição ao UV.
Filtros solares químicos contêm ingredientes que absorvem a radiação UV. Cinamatos, salicilatos e derivados do ácido para-aminobenzóico (PABA) fornecem proteção UVB. Benzofenonas são comumente utilizadas para fornecer proteção contra UVB e UVA de ondas curtas. Avobenzona e ecamsule filtram no intervalo UVA e podem ser acrescentados para fornecer proteção UVA extra.
O bloqueio físico (filtros solares minerais) reflete ou dispersa a luz e contém óxido de zinco e dióxido de titânio, que refletem fisicamente os raios UVB e UVA. Embora as formulações desses produtos fossem previamente muito brancas e pastosas quando aplicadas, a micronização e nanotecnologia permitiram que formassem uma camada mais transparente e, ao mesmo tempo, fornecessem proteção de amplo espectro.
Acredita-se que todos os ingredientes químicos dos filtros solares tenham algum grau de absorção sistêmica. Embora a maioria dos ingredientes tenha efeitos adversos mínimos, alguns têm risco potencial e outros estão sendo investigados atualmente. Para as pessoas preocupadas com a absorção sistêmica, os filtros solares minerais que não foram micronizados podem ser preferidos, porque suas moléculas são grandes demais para serem absorvidas pela pele.
A ineficiência de um filtro solar é comum e, geralmente, resultante da aplicação tardia do produto (deve-se aplicar o filtro solar 30 minutos antes da exposição), da não reaplicação após suar ou nadar, da não aplicação a cada 2 ou 3 horas durante a exposição ao sol, ou da aplicação insuficiente do produto. Deve-se utilizar cerca de 30 mL para cobrir toda a superfície do corpo de uma pessoa de tamanho médio; a maioria das pessoas aplica menos da metade da quantidade recomendada.
Pode haver reação alérgica ou fotosensibilidade com protetores solares contendo filtros químicos e deve-se diferenciá-los de outros exantemas de fotossensibilidade. Testes de contato ou fototestes com componentes dos filtros solares podem ser necessários para confirmar o diagnóstico. Isso costuma ser realizado por dermatologistas ou alergistas com experiência em dermatite de contato alérgica.
Suplementos protetores
Polypodium leucotomos (extrato natural de samambaia tropical) (2) e nicotinamida são suplementos orais que fornecem alguma proteção contra os efeitos nocivos da luz solar, mas não devem ser considerados um substituto para outros métodos de proteção solar. Deve-se ter cautela ao utilizar doses mais altas de nicotinamida porque podem causar lesão hepática e elevar os níveis séricos de glicose.
Referências sobre prevenção
1. Glaser KS, Tomecki KJ. Sunscreens in the United States: Current Status and Future Outlook. Adv Exp Med Biol. 2020;1268:355-379. doi: 10.1007/978-3-030-46227-7_18
2. Nestor MS, Berman B, Swenson N. Safety and efficacy of oral Polypodium leucotomos extract in healthy adult subjects. J Clin Aesthet Dermatol 8(2):19–23, 2015



