Acalasia é um distúrbio de motilidade esofágica congênito caracterizado por peristaltismo esofágico defeituoso e falta de relaxamento do esfíncter esofágico inferior durante a deglutição. Os sintomas costumam ser disfagia de progressão lenta, geralmente tanto para sólidos quanto para líquidos, e regurgitação de alimento não digerido. A avaliação classicamente é feita por manometria, deglutição de bário e endoscopia. O tratamento é feito com dilatação, injeção de toxina botulínica, miotomia cirúrgica e miotomia endoscópica peroral.
A acalasia ocorre em todas as idades, mas geralmente tem início na idade adulta, com idade média ao diagnóstico > 50 anos (1). Considera-se que a acalasia seja causada pela perda de células ganglionares no plexo mioentérico do esôfago, resultando em denervação do músculo esofágico. A etiologia da denervação é desconhecida, mas causas virais e autoimunes são suspeitas, e certos tumores podem causar acalasia, seja por obstrução direta ou como um processo paraneoplásico (1). A doença de Chagas, que causa destruição dos gânglios autonômicos, também pode resultar em acalasia.
A pressão aumentada no (EEI) causa obstrução com dilatação esofagiana secundária. A retenção esofagiana de líquidos e alimentos não digeridos é comum.
Referência geral
1. Mittal R, Vaezi MF. Esophageal Motility Disorders and Gastroesophageal Reflux Disease. N Engl J Med. 2020;383(20):1961-1972. doi:10.1056/NEJMra2000328
Sinais e sintomas da acalasia
O começo é insidioso e a progressão gradual se dá durante meses ou anos. A disfagia tanto para sólidos quanto para líquidos é o principal problema. Azia ocorre em até aproximadamente 40% dos pacientes (1, 2). A regurgitação noturna de alimentos não digeridos também é comum e pode causar tosse e aspiração pulmonar, levando à pneumonia aspirativa ou, de forma crônica, à bronquiectasia. A dor torácica é menos comum, mas pode ocorrer com a deglutição ou espontaneamente.
Ocorre perda ponderal leve a moderada; quando a perda ponderal é pronunciada, particularmente em idosos cujos sintomas de disfagia se desenvolveram rapidamente, a pseudoacalasia secundária a um tumor da junção gastroesofágica deve ser considerada.
Referência sobre sinais e sintomas
1. Khashab MA, Vela MF, Thosani N, et al. ASGE guideline on the management of achalasia. Gastrointest Endosc. 2020;91(2):213-227.e6. doi:10.1016/j.gie.2019.04.231
2. Vaezi MF, Pandolfino JE, Yadlapati RH, Greer KB, Kavitt RT. ACG Clinical Guidelines: Diagnosis and Management of Achalasia. Am J Gastroenterol. 2020;115(9):1393-1411. doi:10.14309/ajg.0000000000000731
Diagnóstico da acalasia
Manometria esofágica de alta resolução
Às vezes, deglutição de bário
Às vezes, endoscopia alta
Às vezes, sonda de imagem de lúmen funcional (FLIP)
Os sintomas da acalasia são semelhantes aos da doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), portanto, todos os pacientes que não respondem ao tratamento empírico inicial com supressores de ácido por suspeita de DRGE devem ser avaliados quanto à acalasia (1).
Manometria esofágica de alta resolução é o exame diagnóstico preferido para acalasia. Este teste demonstra relaxamento incompleto do EEI com uma pressão de relaxamento integrada mediana elevada na posição supina ou ereta e ausência completa de peristalse (2). A manometria é utilizada para classificar a acalasia em um de 3 subtipos. Os subtipos podem orientar a escolha do tratamento (1) e apresentam prognósticos distintos.
Os subtipos de acalasia são (1):
Acalasia tipo I (acalasia clássica): a deglutição não resulta em alterações na pressão esofágica
Acalasia tipo II: a deglutição aumenta a pressão em todo o esôfago
Acalasia tipo III (acalasia espástica): a deglutição frequentemente resulta em contrações que obliteram o lúmen
Esta visão endoscópica mostra um esfíncter fechado no esôfago de um paciente com acalasia. A acalasia é a falha no relaxamento das fibras musculares lisas, o que pode fazer com que o esfíncter esofágico inferior permaneça fechado (como observado aqui).
GASTROLAB/SCIENCE PHOTO LIBRARY
Essa imagem mostra acalasia com dilatação esofágica proximal e relaxamento incompleto do esfíncter esofágico inferior. Observe a aparência não homogênea do material no interior do esôfago dilatado decorrente de alimentos não digeridos que não passaram ao estômago (setas longas). Na acalasia grave, apenas pequenas quantidades de contraste conseguem atravessar uma junção esofagogástrica em forma de bico (flechas curtas).
© Springer Science+Business Media
A deglutição de bário é um exame complementar que costuma ser realizado durante a fase inicial dos testes quando a causa da disfagia é desconhecida porque a manometria é mais invasiva. A deglutição de bário pode mostrar ausência de contrações peristálticas progressivas durante a deglutição. O esôfago costuma estar dilatado, frequentemente enorme, mas se estreita e tem a forma de bico de pássaro no EEI.
A esofagoscopia costuma ser realizada. Os achados incluem dilatação esofágica ascendente e alterações crônicas de estase na mucosa, mas nenhuma lesão obstrutiva. O EEI pode estar fechado. Um "estalo" clássico é muitas vezes ouvido quando o esofagoscópio atravessa o estômago.
A sonda de imagem funcional do lúmen (FLIP) é um sistema de impedância de alta resolução que avalia a área transversal e a pressão simultânea (distensibilidade) (3). A FLIP, quando disponível, é útil no diagnóstico da acalasia e pode ajudar em casos duvidosos em que a manometria não consegue diagnosticar a acalasia, apesar da forte suspeita clínica (1). Diretrizes recomendam seu uso no diagnóstico e no tratamento da acalasia (4, 5). Além disso, em pacientes submetidos a intervenções para acalasia (p. ex., cirurgia, miotomia endoscópica peroral), a medida da distensibilidade da junção esofagogástrica durante e após a intervenção pode mostrar a resposta clínica às intervenções e pode ajudar a orientar o tratamento.
Quando a manometria mostra pressão mediana integrada de relaxamento elevada em múltiplas posições, com algum peristaltismo intacto e aumento da pressurização intrabolus, em paciente com sintomas de dor torácica ou disfagia, deve-se solicitar um exame de deglutição de bário e/ou FLIP para avaliar obstrução clinicamente significativa da saída da junção esofagogástrica, que pode ser uma variante inicial da acalasia.
A acalasia deve ser diferenciada de estenose péptica, em particular nos pacientes com esclerose sistêmica em que a manometria pode mostrar também aperistalse. Em geral, a esclerodermia é acompanhada por história do fenômeno de Raynaud e sintomas da doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) devido à baixa pressão no EEI em repouso.
Sintomas semelhantes aos da acalasia (isto é, pseudoacalasia) podem ser decorrentes do câncer na junção gastroesofágica, que pode ser diagnosticado por TC de tórax e abdome ou por ultrassonografia endoscópica com biópsia.
Referências sobre diagnóstico
1. Vaezi MF, Pandolfino JE, Yadlapati RH, et al. ACG Clinical Guidelines: Diagnosis and Management of Achalasia. Am J Gastroenterol. 2020;115(9):1393-1411. doi: 10.14309/ajg.0000000000000731
2. Yadlapati R, Kahrilas PJ, Fox MR, et al. Esophageal motility disorders on high-resolution manometry: Chicago classification version 4.0©. Neurogastroenterol Motil. 2021;33(1):e14058. doi:10.1111/nmo.14058
3. Carlson DA, Lin Z, Kahrilas PJ, et al. High-Resolution Impedance Manometry Metrics of the Esophagogastric Junction for the Assessment of Treatment Response in Achalasia. Am J Gastroenterol. 2016;111(12):1702-1710. doi: 10.1038/ajg.2016.442
4. Gyawali CP, Carlson DA, Chen JW, et al. ACG clinical guidelines: Clinical use of esophageal physiologic testing. Am J Gastroenterol. 2020;115(9):1412-1428. doi: 10.14309/ajg.0000000000000734
5. Hirano I, Pandolfino JE, Boeckxstaens GE. Functional lumen imaging probe for the management of esophageal disorders: Expert review from the clinical practice updates committee of the AGA Institute. Clin Gastroenterol Hepatol. 2017;15(3):325-334. doi: 10.1016/j.cgh.2016.10.022
Tratamento da acalasia
Dilatação pneumática por balão do EEI
Miotomia cirúrgica do EEI
Miotomia endoscópica peroral
À vezes, injeção de toxina botulínica
Às vezes, medicação oral
Nenhuma terapia restaura o peristaltismo; o tratamento da acalasia visa reduzir a pressão no EEI e não é curativo (1).
A escolha da terapia específica baseia-se no subtipo de acalasia, risco do procedimento e potenciais efeitos adversos. A American Society for Gastrointestinal Endoscopy e o American College of Gastroenterology reconhecem a dilatação pneumática com balão do EEI, a miotomia endoscópica peroral e a miotomia de Heller laparoscópica como terapias de primeira linha eficazes (1, 2). Embora essas 3 terapias pareçam ser aproximadamente equivalentes em eficácia para a acalasia tipo I e tipo II, a miotomia endoscópica peroral parece superior para a acalasia tipo III. De modo geral, a miotomia endoscópica peroral mantém uma taxa de sucesso terapêutico superior à da dilatação pneumática (81% vs. 40% em 5 anos), embora a miotomia peroral esteja associada a uma maior incidência de doença do refluxo gastroesofágico e esofagite endoscópica (3).
Quando se realiza a miotomia cirúrgica, também se recomenda a fundoplicatura para reduzir o refluxo (1).
Em pacientes que não são candidatos às opções padrão de tratamento endoscópico ou cirúrgico, pode-se tentar a denervação química dos nervos colinérgicos do esôfago distal por meio de injeção endoscópica direta de toxina botulínica tipo A no EEI. A melhora clínica ocorre geralmente em 70 a 80% dos pacientes no primeiro mês (4) e pode durar de 6 meses a mais de 1 ano.
Medicamentos como nitratos ou bloqueadores dos canais de cálcio têm sido utilizados, mas não demonstraram ser eficazes.
Referências sobre tratamento
1. Vaezi MF, Pandolfino JE, Yadlapati RH, et al. ACG Clinical Guidelines: Diagnosis and Management of Achalasia. Am J Gastroenterol. 2020;115(9):1393-1411. doi: 10.14309/ajg.0000000000000731
2. Khashab MA, Vela MF, Thosani N, et al. ASGE guideline on the management of achalasia. Gastrointest Endosc. 2020;91(2):213-227.e6. doi:10.1016/j.gie.2019.04.231
3. Kuipers T, Ponds FA, Fockens P, et al. Peroral endoscopic myotomy versus pneumatic dilation in treatment-naive patients with achalasia: 5-year follow-up of a randomised controlled trial. Lancet Gastroenterol Hepatol. 2022;7(12):1103-1111. doi:10.1016/S2468-1253(22)00300-4
4. Campos GM, Vittinghoff E, Rabl C, et al: Endoscopic and surgical treatments for achalasia: a systematic review and meta-analysis. Ann Surg 249(1):45-57, 2009. doi: 10.1097/SLA.0b013e31818e43ab
Prognóstico da acalasia
Pacientes com acalasia tipo II tendem a ter o melhor prognóstico, enquanto aqueles com acalasia tipo III frequentemente necessitam de uma miotomia mais extensa e apresentam os piores desfechos (1). A tortuosidade e dilatação esofágicas são indicadores de mau prognóstico. Regurgitação noturna e tosse sugerem aspiração. A aspiração pulmonar é uma complicação tardia, e as complicações pulmonares secundárias à aspiração são difíceis de manejar.
A incidência de carcinoma de células escamosas esofágico em pacientes com acalasia é significativamente maior em relação à população geral, embora ainda seja baixa (2, 3).
Referências sobre prognóstico
1. Vaezi MF, Pandolfino JE, Yadlapati RH, et al. ACG Clinical Guidelines: Diagnosis and Management of Achalasia. Am J Gastroenterol. 2020;115(9):1393-1411. doi: 10.14309/ajg.0000000000000731
2. Low EE, Demb J, Shah SC, et al. Risk of Esophageal Cancer in Achalasia: A Matched Cohort Study Using the Nationwide Veterans Affairs Achalasia Cohort. Am J Gastroenterol. 2024;119(4):635-645. doi:10.14309/ajg.0000000000002591
3. Savarino E, Bhatia S, Roman S, et al. Achalasia. Nat Rev Dis Primers. 2022;8(1):28. doi:10.1038/s41572-022-00356-8
Pontos-chave
A perda das células ganglionares no plexo mientérico do esôfago, supostamente induzida por vírus ou autoimune, diminui o peristaltismo esofágico e prejudica o relaxamento do esfíncter esofágico inferior (EEI).
Os pacientes gradualmente desenvolvem disfagia tanto para sólidos quanto para líquidos, e muitos regurgitam alimentos não digeridos à noite.
A manometria esofágica é o teste preferido para a acalasia e mostra uma pressão integrada de relaxamento elevada em conjunto com uma completa ausência de peristaltismo.
A deglutição de bário mostra ausência de contrações peristálticas progressivas durante a deglutição e um esôfago acentuadamente dilatado com estreitamento em forma de bico no LES.
Nenhuma terapia restaura o peristaltismo; o tratamento visa reduzir a pressão (e, assim, a obstrução) no LES.
O tratamento normalmente consiste em dilatação pneumática com balão ou miotomia do EEI; pacientes que não são candidatos a esses tratamentos podem receber injeções de toxina botulínica.



