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Coração de atleta

Por

Robert S. McKelvie

, MD, PhD, Western University

Última modificação do conteúdo fev 2019
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Coração de atleta consiste em uma constelação de alterações estruturais e funcionais, as quais ocorrem no coração de indivíduos que treinam por > 1 hora na maioria dos dias. A síndrome é assintomática e os sinais incluem bradicardia, sopro sistólico e sons extracardíacos. As alterações eletrocardiográficas (ECG) são comuns. O diagnóstico é clínico ou por ecocardiografia. Não é necessário tratamento. A síndrome é significativa, pois deve ser distinguida de doenças cardíacas graves.

Os treinamentos de resistência e persistência intensivos e prolongados acarretam muitas adaptações fisiológicas. As sobrecargas de volume e pressão ventrículo esquerdo aumentam, o que, ao longo do tempo, aumenta a massa muscular ventrículo esquerdo, a espessura da parede e as dimensões da câmara. Aumentam o volume de ejeção e o débito cardíaco máximo, contribuindo para frequência cardíaca de repouso mais baixa e tempo de enchimento diastólico mais longo. A frequência cardíaca mais baixa decorre principalmente do aumento do tônus vagal, mas a diminuição da ativação simpática e outros fatores não autônomos que diminuem a atividade intrínseca do nó sinusal podem ter algum papel. A bradicardia diminui a demanda miocárdica de oxigênio e, ao mesmo tempo, aumentos da hemoglobina total e do volume sanguíneo exacerbam o transporte de oxigênio. Apesar dessas alterações, as funções sistólica e diastólica permanecem normais. As alterações estruturais em mulheres são classicamente menos intensas do que em homens da mesma idade, dimensões corporais e nível do treinamento.

Sinais e sintomas

Não existem sintomas. Os sinais variam, mas podem envolver: bradicardia; impulso VE deslocado lateralmente, com maior extensão e amplitude; sopro sistólico de ejeção (fluxo) na borda esternal esquerda inferior; B3 decorrente do enchimento ventricular diastólico rápido e inicial; B4, mais bem auscultada durante bradicardia em repouso, pois o tempo de enchimento diastólico está aumentado, e pulsos carotídeos hiperdinâmicos. Tais sinais refletem alterações cardíacas estruturais adaptativas ao esforço intenso.

Diagnóstico

  • Avaliação clínica

  • Normalmente eletrocardiograma

  • Algumas vezes, ecocardiografia

  • Raramente, teste de esforço

Os achados são detectados tipicamente durante a triagem de rotina ou avaliação de sintomas não relacionados. A maioria dos atletas não requer investigação extensiva, embora geralmente o ECG seja indicado. Se os sintomas sugerirem uma doença cardíaca (p. ex., palpitação, dor torácica), realizam-se ECG, ecocardiograma e teste de esforço.

A síndrome do coração de atleta é um diagnóstico de exclusão, devendo ser distinguida de doenças que provocam achados similares, mas potencialmente fatais (p. ex., miocardiopatia dilatada ou hipertrófica, cardiopatia isquêmica e displasia arritmogênica ventrículo direito).

ECG

Várias mudanças de ritmo e traçado do ECG podem ocorrer; elas pouco se correlacionam à intensidade do treinamento e ao desempenho cardiovascular. O achado eletrocardiográfico mais comum é

  • Bradicardia sinusal

É raro que a frequência cardíaca seja < 40 bpm. Em geral, a arritmia sinusal acompanha a frequência cardíaca baixa. A bradicardia de repouso também pode predispor a

  • Ectopia atrial ou ventricular (incluindo acopladas e períodos de TV não sustentada); as pausas após os batimentos ectópicos não excedem 4 segundos

  • Marca-passo atrial migratório

Outros achados eletrocardiográficos passíveis de ocorrer são

  • BAV do primeiro grau (em até um terço dos atletas)

  • BAV de segundo grau (principalmente do tipo 1), que ocorre durante repouso e desaparece com o esforço

  • Complexos QRS de alta voltagem, com alterações da onda T na região inferolateral (refletindo hipertrofia VE)

  • Inversões profundas de onda T nas derivações anterolaterais

  • Bloqueio do ramo direitoincompleto

No entanto, o BAV de 3º grau é anormal e deve ser extensamente investigado.

Essas alterações eletrocardiográficas e de ritmo cardíaco não estão associadas a eventos clínicos adversos, sugerindo que várias arritmias não são anormais em atletas. As arritmias são normalmente eliminadas ou substancialmente reduzidas após um breve período de descondicionamento.

Ecocardiografia

Em geral, o ecocardiograma pode diferenciar entre a síndrome do coração de atleta e as miocardiopatias (ver tabela Características que diferenciam a síndrome do coração de atleta da miocardiopatia), mas a diferença nem sempre é clara porque existe um continuum entre o aumento cardíaco fisiológico e o patológico. A zona de sobreposição entre a síndrome de coração de atleta e miocardiopatia é a espessura do septo VE:

  • Em homens, 13 a 15 mm

  • Em mulheres, 11 a 13 mm

Nesta área de sobreposição, a presença de movimento sistólico anterior da valva mitral sugere fortemente miocardiopatia hipertrófica. Além disso, os índices diastólicos podem ser anormais na miocardiopatia, mas geralmente são normais na síndrome de coração de atleta. Em geral, as alterações ecocardiográficas têm baixa correlação com o nível de treinamento e o desempenho cardiovascular. É comum detectar sinais de regurgitação mitral e regurgitação tricúspide. É importante observar que a redução do treinamento físico resultará na regressão do alargamento cardíaco em pacientes com a síndrome de coração de atleta, mas não naqueles com miocardiopatia.

Teste de estresse

Durante o teste de esforço, a frequência cardíaca permanece mais baixa que o normal no estresse submáximo e aumenta de maneira apropriada e comparável à frequência cardíaca em não atletas no estresse máximo, recuperando-se rapidamente após o esforço. A resposta pressórica é normal se:

  • A pressão arterial sistólica aumenta

  • A pressão arterial diastólica cai

  • A pressão arterial média permanece relativamente constante

Muitas alterações no ECG em repouso diminuem ou desaparecem durante o exercício; esse resultado é exclusivo para a síndrome de coração de atleta, distinguindo-a das condições patológicas. Entretanto, a pseudonormalização das inversões da onda T pode refletir isquemia miocárdica e, por isso, exige investigação adicional em atletas idosos. Mas um resultado normal de teste de esforço não descarta miocardiopatia.

Tabela
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Características que distinguem a síndrome do coração de atleta da miocardiopatia

Característica

Coração de atleta

Miocardiopatia

Espessura septal do ventrículo esquerdo*

Em homens, < 13 mm

Em mulheres < 11 mm

Em homens, > 15 mm

Em mulheres > 13 mm

Diâmetro diastólico VE final

< 60 mm

> 70 mm

Função diastólica

Normal (razão E:A > 1)

Anormal (razão E:A < 1)

Hipertrofia septal

Simétrica

Assimétrica (na miocardiopatia hipertrófica)

História familiar

Nenhuma

Pode estar presente

Resposta pressórica ao exercício

Normal

Normal ou reduzida resposta pressão arterial sistólica

Descondicionamento

Regressão da HVE

Sem regressão da HVE

*Os valores entre 13 e 15 mm para homens e 11 a 13 para mulheres são indeterminados.

Um valor entre 60 e 70 mm é indeterminado.

A proporção E:A = a razão entre as velocidades de fluxo transmitral precoce e tardia.

Prognóstico

Embora as alterações estruturais macroscópicas assemelhem-se às de algumas doenças cardíacas, não existem efeitos adversos aparentes. Na maioria dos casos, as alterações estruturais e a bradicardia regridem com a interrupção do treinamento, embora em cerca de 20% dos atletas de elite ocorra aumento residual da câmara, levantando questões, na ausência de dados a longo prazo, sobre a síndrome do coração de atleta ser realmente benigna.

Tratamento

  • Possivelmente um período de descondicionamento para monitorar a regressão do VE

Não há necessidade de tratamento, embora possam ser necessários 3 meses de perda de condicionamento para monitorar a regressão do VE, como uma maneira de distinguir essa síndrome da miocardiopatia. Essa perda de condicionamento pode interferir amplamente na vida do atleta e ser recebida com resistência.

Pontos-chave

  • Exercício físico intensivo aumenta a massa muscular do ventrículo esquerdo, espessura da parede e tamanho da câmara, mas a função sistólica e função diastólica permanecem normais.

  • A frequência cardíaca em repouso é lenta e pode haver um sopro sistólico na borda inferior do esterno à esquerda, uma 3ª bulha cardíaca (B3) e/ou uma 4ª bulha cardíaca (B4).

  • O ECG mostrar bradicardia e sinais de hipertrofia e, algumas vezes, outros achados como arritmia sinusal, extrassístoles atriais ou ventriculares e bloqueio atrioventricular (AV) de 1º ou 2º grau.

  • As alterações estruturais e no ECG devido à síndrome de coração do atleta são assintomáticas; a presença de sintomas cardiovasculares (p. ex., dor no peito, dispneia, palpitação) ou bloqueio AV de 3º grau deve levar a pesquisa de doença cardíaca subjacente.

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