Transtornos de adaptação envolvem sintomas emocionais e/ou comportamentais em resposta a um estressor identificável. O diagnóstico é baseado em critérios clínicos. O tratamento concentra-se no autocuidado; psicoterapia e farmacoterapia podem desempenhar um papel, mas as evidências são limitadas.
Transtornos de adaptação são comuns e estão presentes em cerca de 5 a 20% dos pacientes que fazem consultas ambulatoriais de saúde mental (1). As estimativas de prevalência de base populacional são poucas e utilizam critérios variados, mas sugerem índices amplamente variáveis, de 1 a 17% (2).
Um estressor que leva a um transtorno de adaptação pode ser um evento único e discreto (p. ex., perder um emprego), múltiplos eventos (p. ex., uma série de problemas financeiros ou romances frustrados), um marco de desenvolvimento comum (p. ex., tornar-se um pai) ou um conjunto contínuo de problemas (p. ex., cuidar de um membro da família com deficiência). O estressor pode impactar apenas um indivíduo, uma família inteira ou um grande grupo de pessoas.
A morte de um ente querido pode deflagrar um transtorno de adaptação. Entretanto, os médicos devem levar em consideração a ampla variedade de reações de luto consideradas típicas em diferentes culturas e só diagnosticar algum transtorno se a resposta à perda estiver além do esperado ou não é mais bem categorizada como transtorno do luto prolongado.
Referências gerais
1. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. 5th ed,Text Revision. American Psychiatric Association Publishing; 2022.
2. Shevlin M, Hyland P, Ben-Ezra M, et al. Measuring ICD-11 adjustment disorder: the development and initial validation of the International Adjustment Disorder Questionnaire. Acta Psychiatr Scand. 2020;141(3):265-274. doi:10.1111/acps.13126
Sinais e sintomas de transtornos de adaptação
Os sintomas de um transtorno de adaptação normalmente começam alguns dias após o evento estressante e desaparecem em 6 meses após a interrupção do estresse e suas consequências. Há 3 categorias de sintomas de transtorno de adaptação: humor deprimido, ansiedade e distúrbios de conduta. Alguns pacientes podem apresentar um desses sintomas de forma particularmente proeminente (p. ex., sentir-se nervoso e agitado após uma agressão física; comportar-se com agressividade atípica no contexto de um divórcio dos pais), mas a maioria dos pacientes apresenta uma mistura de sintomas.
Critérios para transtorno de adaptação são menos específicos do que para transtorno de estresse agudo ou transtorno de estresse pós-traumático, e é um diagnóstico comum em ambientes psiquiátricos de internação e ambulatorial. Embora às vezes visto pelos médicos como um diagnóstico psiquiátrico "leve", o transtorno de adaptação está associado a sofrimento significativo e/ou incapacidade.
Pacientes com transtorno de adaptação também têm maior risco de tentativas de suicídio e consumação de suicídio (1). (Ver também Comportamento suicida.)
Referência sobre sinais e sintomas
1. Casey P, Jabbar F, O'Leary E,et al. Suicidal behaviours in adjustment disorder and depressive episode. J Affect Disord. 2015 Mar 15;174:441-6. doi: 10.1016/j.jad.2014.12.003
Diagnóstico dos transtornos de adaptação
Avaliação psiquiátrica
De acordo com os critérios do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição, Texto Revisado (DSM-5-TR), os pacientes devem apresentar sintomas emocionais ou comportamentais dentro de 3 meses após a exposição a um estressor, e esses sintomas não devem persistir por mais de 6 meses após o término do estressor (1).
Os sintomas devem ser clinicamente significativos, como mostrado por um ou ambos dos seguintes:
Sofrimento acentuado desproporcional ao evento estressante (levando em conta fatores culturais e outros)
Os sintomas prejudicam significativamente o funcionamento social, ocupacional ou outras áreas importantes
Os sintomas não atendem os critérios para outro transtorno psiquiátrico (como o transtorno depressivo maior) e não são mais bem explicados por um luto normal, transtorno de luto prolongado ou por uma exacerbação de outro transtorno psiquiátrico
Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e transtorno por estresse agudo fazem parte do diagnóstico diferencial, mas têm diferentes intervalos de tempo e indicadores mais específicos em relação aos estressores e à resposta do paciente.
O DSM-5-TR encoraja o uso do julgamento clínico para estabelecer o diagnóstico. Por exemplo, um paciente que desenvolveu sintomas depressivos após um estressor pode ser diagnosticado com um transtorno de adaptação (com características depressivas), transtorno depressivo maior ou luto normal e culturalmente apropriado.
O termo transtorno de adaptação muitas vezes tem sido mal utilizado pelos médicos como termo geral para um quadro clínico que é inespecífico e relativamente leve. Como resultado, o DSM-5-TR incluiu transtorno de adaptação no capítulo sobre trauma para destacar o fato de que os sintomas devem estar em resposta a um estressor. Contudo, o quadro clínico é muitas vezes heterogêneo (p. ex., com sintomas de ansiedade, depressão e/ou problemas de conduta), e o diagnóstico continua sendo um dos mais comuns tanto em pacientes internados como ambulatoriais (2). Embora essa heterogeneidade possa ser clinicamente razoável, ela complica a abordagem ao tratamento.
Referências sobre diagnóstico
1. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. 5th ed,Text Revision. American Psychiatric Association Publishing; 2022.
2. Morgan MA, Kelber MS, Bellanti DM, et al. Outcomes and prognosis of adjustment disorder in adults: A systematic review. J Psychiatr Res. 2022;156:498-510. doi:10.1016/j.jpsychires.2022.10.052
Tratamento dos transtornos de adaptação
Autocuidado
Às vezes, psicoterapia
Às vezes, farmacoterapia
Segurança e autocuidado são importantes para a recuperação bem-sucedida do transtorno de adaptação. O tratamento é difícil se o evento estressante é recorrente e se as condições circundantes permanecem inseguras. Outras intervenções são muito mais propensas a serem úteis se o paciente com um transtorno de adaptação está vivendo dentro de uma família intacta e um sistema social saudável. Os pacientes geralmente se recuperam de um transtorno de adaptação ao longo do tempo e com a ajuda de amigos e familiares.
Embora psicoterapia e medicamentos possam ser utilizados, há dados limitados para corroborar sua eficácia (1).
Autocuidado
O autocuidado é crucial durante e após um estressor significativo. O autocuidado inclui atenção à segurança pessoal, à saúde física, à atenção plena e à manutenção, quando viável, de uma rotina diária e do envolvimento com a comunidade.
Psicoterapia
As evidências para apoiar o uso de psicoterapia para transtorno de adaptação são limitadas (1), em parte por causa da heterogeneidade da doença. Mas os dados sugerem benefício para várias psicoterapias individuais e em grupo entre as subpopulações de pacientes com transtorno de adaptação. Essas intervenções incluem terapia cognitivo-comportamental, psicoterapia psicodinâmica, terapia familiar, terapia interpessoal e psicoterapia de apoio. Alguns desses tratamentos têm como alvo elementos específicos do transtorno de adaptação, como luto, trauma e transições de papéis, enquanto outras abordagens parecem ser mais generalizadas. Se for utilizada psicoterapia, ter um médico sensível e informado sobre trauma parece ser útil.
Farmacoterapia
Assim como na psicoterapia, as evidências são limitadas em relação ao uso da farmacoterapia para transtornos de adaptação (1). Antidepressivos têm sido utilizados com algum sucesso. É importante observar que medicamentos como os inibidores seletivos da recaptação de serotonina têm uma base de evidências mais sólida se o diagnóstico final for um transtorno de ansiedade ou transtorno depressivo, em vez de um transtorno de adaptação. Benzodiazepinas são frequentemente utilizadas para tratar sintomas específicos como insônia e ansiedade no transtorno de adaptação, mas há evidências de eficácia variada. Além disso, o uso de benzodiazepinas pode levar à dependência e uso indevido e pode agravar agudamente a cognição. Vários outros medicamentos e suplementos foram tentados, sem evidências de eficácia.
Referência sobre tratamento
1. O'Donnell ML, Metcalf O, Watson L, et al. A systematic review of psychological and pharmacological treatments for adjustment disorder in adults. J Trauma Stress. Jun;31(3):321-331, 2018. doi: 10.1002/jts.22295



