As complicações agudas do diabetes incluem cetoacidose diabética e estado hiperglicêmico hiperosmolar. A cetoacidose alcoólica, embora não seja uma complicação do diabetes, é discutida aqui devido à sobreposição na fisiologia e tratamento.
Cetoacidose diabética
Cetoacidose diabética (CAD) é uma complicação metabólica aguda do diabetes caracterizada por hiperglicemia, hipercetonemia e acidose metabólica. A hiperglicemia causa diurese osmótica com perda significativa de líquidos e eletrólitos. A CAD ocorre principalmente no diabetes mellitus tipo 1. Causa náuseas, vômitos e dor abdominal e pode evoluir para edema cerebral, coma e morte. A CAD é diagnosticada pela detecção de cetonemia e acidose metabólica com hiato aniônico positivo, na presença de hiperglicemia. O tratamento envolve expansão de volume, reposição de insulina e prevenção de hipopotassemia.
A cetoacidose diabética ocorre principalmente em pacientes com diabetes mellitus tipo 1 e é menos comum naqueles com diabetes tipo 2. Desenvolve-se quando os níveis de insulina são insuficientes para atender às necessidades metabólicas básicas do corpo. A CAD é a primeira manifestação do diabetes tipo 1 em aproximadamente um terço dos pacientes (1). A deficiência de insulina pode ser absoluta (p. ex., durante lapsos de administração de insulina exógena) ou relativa (p. ex., quando as doses usuais de insulina não suprem as necessidades metabólicas durante estresse fisiológico).
Estresses fisiológicos comuns que podem desencadear a cetoacidose diabética incluem:
Infecção aguda (particularmente pneumonia e infecções do trato urinário, covid-19)
Gestação
Trauma
Doses perdidas de insulina
Alguns medicamentos implicados como causa de CAD são:
Inibidores do cotransportador de sódio-glicose 2 (SGLT2)
Glicocorticoides
Diuréticos tiazídicos
Simpaticomiméticos
A CAD é menos comum no diabetes mellitus tipo 2, mas pode ocorrer em situações de estresse fisiológico excepcional. O diabetes tipo 2 propenso à cetose (também conhecido como diabetes Flatbush) é uma variante do diabetes tipo 2, que às vezes ocorre em pacientes com obesidade, geralmente de descendência africana (inclusive afro-americanos ou afro-caribenhos) (2). Pacientes com diabetes com tendência à cetose podem apresentar comprometimento significativo da função das células beta das ilhotas pancreáticas com hiperglicemia e, portanto, têm maior probabilidade de CAD no caso de hiperglicemia importante.
Os inibidores de SGLT-2 foram implicados na causa da CAD no diabetes mellitus tipo 1 e tipo 2 (3). Em gestantes e em pacientes em uso de inibidores de SGLT2, a CAD pode ocorrer em níveis de glicemia mais baixos ou mesmo normais (CAD euglicêmica). A cetoacidose euglicêmica (cetoacidose sem níveis elevados de glicose) também pode ocorrer com abuso de álcool ou cirrose.
Referências gerais
1. Dovc K, Neuman V, Gita G, et al. Association of Diabetic Ketoacidosis at Onset, Diabetes Technology Uptake, and Clinical Outcomes After 1 and 2 Years of Follow-up: A Collaborative Analysis of Pediatric Registries Involving 9,269 Children With Type 1 Diabetes From Nine Countries. Diabetes Care. 2025;48(4):648-654. doi:10.2337/dc24-2483
2. Lebovitz HE, Banerji MA. Ketosis-Prone Diabetes (Flatbush Diabetes): an Emerging Worldwide Clinically Important Entity. Curr Diab Rep. 2018;18(11):120. Published 2018 Oct 2. doi:10.1007/s11892-018-1075-4
3. Wang Y, Qin Y, Zhang J, et al. Sodium-Glucose Cotransporter-2 Inhibitors and Diabetic-Ketoacidosis in T2DM Patients: An Updated Meta-Analysis and a Mendelian Randomization Analysis. Clin Pharmacol Ther. 2025;117(6):1661-1669. doi:10.1002/cpt.3615
Fisiopatologia da CAD
Deficiência de insulina e aumento dos hormônios contrarreguladores (glucagon, catecolaminas, cortisol) faz com que o corpo metabolize triglicerídeos e aminoácidos em vez de glicose para obter energia. As concentrações plasmáticas de glicerol e ácidos graxos livres se elevam em decorrência da lipólise não controlada. Os níveis de alanina aumentam por causa do catabolismo muscular. Glicerol e alanina fornecem substrato para a gliconeogênese hepática, a qual é estimulada pelo excesso de glucagon que acompanha a insuficiência de insulina.
O glucagon também estimula a conversão mitocondrial de ácidos graxos livres em cetonas. A insulina normalmente bloqueia a cetogênese pela inibição do transporte de derivados de ácidos graxos livres na matriz mitocondrial, mas a cetogênese prossegue na ausência de insulina. Os principais cetoácidos produzidos, os ácidos acetoacético e beta-hidroxibutírico, são ácidos orgânicos fortes que causam acidose metabólica. A acetona derivada do ácido acetoacético acumula-se no sangue e é eliminada lentamente pela respiração.
A hiperglicemia causada pela deficiência de insulina causa diurese osmótica que provoca perda significativa de água e eletrólitos na urina. A excreção urinária de cetonas causa necessariamente perdas adicionais de sódio e potássio. O sódio sérico pode cair em razão da natriurese ou aumentar em virtude da excreção de grandes volumes de água livre.
Ocorre também perda de potássio em grandes quantidades. Apesar do deficit significativo de potássio corporal total, inicialmente o potássio sérico inicial está normal ou elevado, devido à migração extracelular do potássio em resposta à acidose. As concentrações de potássio geralmente caem mais durante o tratamento, à medida que o tratamento com insulina leva o potássio para o interior das células. Se o potássio sérico não for monitorado e reposto quando necessário, pode ocorrer hipopotassemia potencialmente fatal.
Sinais e sintomas da CAD
Os sinais e sintomas da cetoacidose diabética são os sinais e sintomas da hiperglicemia com o acréscimo de náuseas, vômitos e — particularmente nas crianças — dor abdominal. Letargia e sonolência são sintomas de descompensação mais grave. Pacientes podem estar hipotensos e taquicárdicos por desidratação e acidose; podem respirar rápido e profundamente para compensar a acidemia (respiração de Kussmaul). Podem também apresentar hálito com odor de frutas em razão de exalarem acetona. A febre, em si, não é sinal de CAD e, se presente, significa infecção subjacente. Na ausência de tratamento oportuno, a CAD evolui para coma e morte.
O edema cerebral agudo, uma complicação em menos de 1% dos pacientes com CAD (1, 2), ocorre primariamente em crianças e com menor frequência em adolescentes e adultos jovens. Cefaleia e flutuação do nível de consciência marcam essa complicação em alguns pacientes, mas a parada respiratória é a manifestação inicial em outros. A causa não é bem compreendida, mas pode estar relacionada a redução rápida demais na osmolalidade plasmática ou à isquemia cerebral. Em estudos principalmente de crianças, aquelas com os níveis mais elevados de nitrogênio da ureia sanguínea (BUN) e menor PaCO2 na apresentação parecem estar em maior risco. Atrasos na correção da hiponatremia e o uso de bicarbonato durante o tratamento da CAD são outros possíveis fatores de risco (3).
Referência sobre sinais e sintomas
1. Edge JA, Hawkins MM, Winter DL, Dunger DB. The risk and outcome of cerebral oedema developing during diabetic ketoacidosis. Arch Dis Child. 2001;85(1):16-22. doi:10.1136/adc.85.1.16
2. Lawrence SE, Cummings EA, Gaboury I, Daneman D. Population-based study of incidence and risk factors for cerebral edema in pediatric diabetic ketoacidosis. J Pediatr. 2005;146(5):688-692. doi:10.1016/j.jpeds.2004.12.041
3. Nigrovic LE, Kuppermann N, Ghetti S, et al. Emergency Department Presentations of Diabetic Ketoacidosis in a Large Cohort of Children. Pediatr Diabetes. 2023;2023:6693226. doi:10.1155/2023/6693226
Diagnóstico da CAD
pH arterial
Nível de glicose no soro
Cetonas séricas e urinárias
Cálculo do hiato aniônico
Eletrólitos séricos, ureia e creatinina
Nos pacientes com suspeita de cetoacidose diabética, deve-se dosar os eletrólitos séricos, ureia e creatinina, glicose, cetonas e a osmolalidade. Deve-se testar na urina a presença de cetonas. Os pacientes que aparentam doença grave e aqueles com cetonas positivas devem fazer gasometria arterial.
Os critérios diagnósticos para cetoacidose diabética incluem (1, 2, 3):
pH arterial ou venoso < 7,30
Hiato aniônico > 10 a 12 mEq/L (10 a 12 mmol/L)
Bicarbonato sérico < 15 a 18 mEq/L (15 a 18 mmol/L)
Presença de cetonas séricas ou urinárias
Glicose sérica > 200 a 250 mg/dL (11,1 a 13,8 mmol/L)
Algumas diretrizes não exigem um nível específico de glicose sérica para o diagnóstico de CAD e aceitam a presença de diabetes previamente conhecido como substituto de um limite específico de glicose, uma vez que se reconhece que a CAD pode ocorrer em pacientes com níveis normais ou levemente elevados de glicose (CAD euglicêmica) (1, 2, 3).
Pode-se fazer um diagnóstico presuntivo quando glicose e cetonas urinárias são positivas na urinálise. Os testes com fitas na urina e alguns ensaios para cetonas séricas podem subestimar o grau da cetose porque detectam ácido acetoacético e não beta-hidroxibutírico, que costuma ser o cetoácido predominante. Pode-se medir os níveis séricos de beta-hidroxibutirato ou iniciar o tratamento com base na suspeita clínica e na presença de acidose com hiato aniônico se os níveis séricos ou urinários de cetonas estiverem baixos.
Os sinais e sintomas de doenças desencadeantes devem ser pesquisados por meio dos exames adequados (p. ex., culturas e exames de imagem). Os adultos devem fazer ECG para rastrear infarto agudo do miocárdio e ajudar a determinar o significado das alterações do potássio sérico.
Outras anormalidades laboratoriais são:
Nível elevado de creatinina
Aumento da osmolalidade plasmática
Hipopotassemia, após correção da acidose
Amilase e lipase séricas elevadas
A hiperglicemia pode causar hiponatremia dilucional; assim, a dosagem do sódio sérico é corrigida acrescentando 1,6 mEq/L (1,6 mmol/L) para cada 100 mg/dL (5,6 mmol/L) de elevação da glicemia acima de 100 mg/dL (5,6 mmol/L).
À medida que se corrige a acidose, o potássio sérico cai. Uma concentração inicial de potássio < 4,5 mEq/dL (< 4,5 mmol/L) indica depleção significativa de potássio e exige reposição imediata.
Em geral, a amilase e a lipase séricas estão elevadas, mesmo na ausência de pancreatite (que pode ocorrer nos pacientes com cetoacidose alcoólica e naqueles com hipertrigliceridemia concomitante).
Referências sobre diagnóstico
1.Buse JB, Wexler DJ, Tsapas A, et al: 2019 Update to: Management of Hyperglycemia in Type 2 Diabetes, 2018. A Consensus Report by the American Diabetes Association (ADA) and the European Association for the Study of Diabetes (EASD). Diabetes Care 43(2):487–493, 2020. doi: 10.2337/dci19-0066
2. Garber AJ, Handelsman Y, Grunberger G, et al: Consensus statement by the American Association of Clinical Endocrinologists and American College of Endocrinology on the comprehensive type 2 diabetes management algorithm--2020 executive summary. Endocrine Practice 26:107–139, 2020.
Tratamento da CAD
Reanimação volêmica com soro fisiológico 0,9% IV
Correção de hipopotassemia
Insulina IV (se o potássio sérico for ≥ 3,3 mEq/L [3,3 mmol/L])
Raramente bicarbonato de sódio IV (se pH < 7 após 1 hora de tratamento)
Os objetivos mais urgentes do tratamento da cetoacidose diabética são a rápida reposição de volume intravascular, a correção da hiperglicemia e da acidose e a prevenção da hipopotassemia (1, 2, 3). A identificação de fatores precipitantes subjacentes também é importante.
O tratamento da maioria dos casos de CAD deve ocorrer em unidade de terapia intensiva (UTI) porque as avaliações clínicas e laboratoriais são inicialmente necessárias a cada uma ou duas horas, com ajustes apropriados do tratamento. Casos mais leves podem ser tratados com insulina subcutânea a cada 1 a 2 horas, em unidade semi-intensiva ou sala de emergência.
Reposição de volume
Deve-se restaurar o volume intravascular rapidamente para aumentar a pressão arterial e assegurar a perfusão glomerular (1, 2, 3). A reanimação volêmica inicial em adultos é tipicamente alcançada com infusão IV rápida de 1 a 1,5 L de soro fisiológico a 0,9% na primeira hora, seguida de infusões de soro fisiológico de 250 a 500 mL/hora. Bolus adicionais ou uma velocidade de infusão mais rápida podem ser necessários para corrigir a hipotensão. Podem ser necessárias velocidades de infusão mais baixas em pacientes com insuficiência cardíaca ou naqueles com risco de sobrecarga volêmica. Se os níveis séricos de sódio estiverem normais ou altos, a solução salina normal é substituída por solução salina a 0,45% após reanimação volêmica inicial. Depois que o volume intravascular for restaurado, os deficits totais de água corporal remanescentes são corrigidos mais lentamente, geralmente em cerca de 24 horas. Quando a glicemia cai para < 200 mg/dL (< 11,1 mmol/L), o líquido IV deve ser trocado, e 5% a 10% de glicose podem ser adicionados à solução salina a 0,45%.
Correção da hiperglicemia e da acidose
Em adultos, pode-se administrar um bolus inicial de insulina regular 0,1 unidade/kg IV. Então, independentemente de um bolus ter sido administrado, adultos devem receber uma infusão IV contínua de insulina regular 0,1 unidade/kg/hora em solução de soro fisiológico 0,9%. Suspender a insulina até o potássio sérico alcançar ≥ 3,3 mEq/L (≥ 3,3 mmol/L). A adsorção de insulina aos tubos de infusão IV pode ser minimizada enxaguando-se antes o sistema de tubos com solução de insulina. Se a glicemia não cair para 50 a 75 mg/dL (2,8 a 4,2 mmol/L) na primeira hora, a dose de insulina deve ser dobrada.
As cetonas devem começar a desaparecer em horas se a insulina for administrada em doses suficientes. Entretanto, a depuração das cetonas pode parecer retardada, devido à conversão de beta-hidroxibutirato em acetoacetato (a cetona medida na maioria dos laboratórios hospitalares), à medida que a acidose se resolve.
Os níveis séricos de pH e bicarbonato também devem melhorar rapidamente, mas a recuperação da concentração normal de bicarbonato sérico pode demorar 24 horas. O bicarbonato não deve ser administrado rotineiramente porque pode levar ao desenvolvimento de edema cerebral agudo (principalmente em crianças). Se utilizado, o bicarbonato só deve ser iniciado se o pH for < 7 (4), limitando-se a uma elevação modesta do pH, com doses de 50 a 100 mEq (50 a 100 mmol) administradas ao longo de 2 horas, seguidas de reavaliação do pH arterial e do potássio sérico.
Quando as concentrações plasmáticas de glicose alcançam < 250 mg/dL (< 13,9 mmol/L) em adultos, deve-se acrescentar 5-10% de glicose aos líquidos intravenosos para reduzir o risco de hipoglicemia (2, 4). Pode-se ajustar a concentração de glicose e reduzir a dose de insulina para manter a glicose em 150 a 200 mg/dL (8,3 a 11,1 mmol/L), mas deve-se manter a infusão IV contínua de insulina regular até que o hiato aniônico tenha caído em 2 exames de sangue consecutivos e os níveis sanguíneos e urinários estejam consistentemente negativos para cetonas. Pode ser necessário um tratamento mais prolongado com insulina e glicose na CAD associada ao uso de inibidor de SGLT-2.
Quando o paciente está estável e é capaz de se alimentar, inicia-se um regime de insulina em bolus basal. A insulina IV deve ser mantida por 2 horas após a dose inicial de insulina basal subcutânea ser administrada.
Prevenção da hipopotassemia
A prevenção da hipopotassemia requer a reposição de 20 a 30 mEq (20 a 30 mmol) de potássio a cada litro de líquido IV para manter o potássio sérico entre 4 e 5 mEq/L (4 a 5 mmol/L). Se o potássio sérico for < 3,3 mEq/L (< 3,3 mmol/L), a insulina deve ser suspensa (ou interrompida temporariamente) e o potássio administrado na dose de 40 mEq/hora até o potássio sérico ≥ 3,3 mEq/L (≥ 3,3 mmol/L); se o potássio sérico for > 5 mEq/L (> 5 mmol/L), a reposição de potássio pode ser suspensa.
Inicialmente, dosagens normais ou aumentadas de potássio sérico podem refletir desvios dos depósitos intracelulares em resposta à acidemia e ocultar o verdadeiro deficit de potássio que quase todos os pacientes com CAD apresentam. A reposição de insulina rapidamente desloca o potássio para o interior das células, de forma que as concentrações devem ser verificadas a cada uma ou duas horas nas etapas iniciais do tratamento.
Outras medidas
Hipofosfatemia frequentemente se desenvolve durante o tratamento da cetoacidose diabética, mas a reposição de fosfato não parece ser benéfica, exceto em casos de hipofosfatemia grave (< 0,78 mg/dL [<0,32 mmol/L]) (5). Se indicada (p. ex., em caso de rabdmiólise, hemólise ou deterioração neurológica), pode-se infundir fosfato de potássio (1 a 2 mmol/kg de fosfato) de 6 a 12 horas. Se for feita a administração de fosfato, a concentração sérica de cálcio geralmente diminui e deve ser monitorada.
O tratamento de suspeita de edema cerebral consiste em hiperventilação, glicocorticoides e manitol, mas estes geralmente são ineficazes após parada respiratória.
Referências sobre tratamento
1. American Diabetes Association Professional Practice Committee. 6. Glycemic Goals and Hypoglycemia: Standards of Care in Diabetes-2025. Diabetes Care. 2025;48(1 Suppl 1):S128-S145. doi:10.2337/dc25-S006
2. Dhatariya KK; Joint British Diabetes Societies for Inpatient Care. The management of diabetic ketoacidosis in adults-An updated guideline from the Joint British Diabetes Society for Inpatient Care. Diabet Med. 2022;39(6):e14788. doi:10.1111/dme.14788
3. Wolfsdorf JI, Glaser N, Agus M, et al. ISPAD Clinical Practice Consensus Guidelines 2018: Diabetic ketoacidosis and the hyperglycemic hyperosmolar state. Pediatr Diabetes. 2018;19 Suppl 27:155-177. doi:10.1111/pedi.12701
4. American Diabetes Association Professional Practice Committee. 16. Diabetes Care in the Hospital: Standards of Care in Diabetes-2025. Diabetes Care. 2025;48(1 Suppl 1):S321-S334. doi:10.2337/dc25-S016
5. Tran TTT, Pease A, Wood AJ, et al. Review of Evidence for Adult Diabetic Ketoacidosis Management Protocols. Front Endocrinol (Lausanne). 2017;8:106. doi:10.3389/fendo.2017.00106
Prognóstico da cetoacidose diabética (CAD)
A mortalidade geral por cetoacidose diabética é < 1% (1); no entanto, a mortalidade é mais alta nos idosos e nos pacientes com outras doenças potencialmente fatais. O diabetes tipo 2 (em comparação com o tipo 1), sepse, alteração do nível de consciência e obesidade também estão associados a um risco aumentado de mortalidade (2, 3). Edema cerebral em adultos com CAD é considerado muito raro.
Referências sobre prognóstico
1. Umpierrez G, Korytkowski M. Diabetic emergencies - ketoacidosis, hyperglycaemic hyperosmolar state and hypoglycaemia. Nat Rev Endocrinol. 2016;12(4):222-232. doi:10.1038/nrendo.2016.15
2. Eledrisi MS, Alkabbani H, Aboawon M, et al. Clinical characteristics and outcomes of care in patients hospitalized with diabetic ketoacidosis. Diabetes Res Clin Pract. 2022;192:110041. doi:10.1016/j.diabres.2022.110041
3. Sato Y, Morita K, Okada A, Matsui H, Fushimi K, Yasunaga H. Factors affecting in-hospital mortality of diabetic ketoacidosis patients: A retrospective cohort study. Diabetes Res Clin Pract. 2021;171:108588. doi:10.1016/j.diabres.2020.108588
Pontos-chave
Cetoacidose diabética (CAD) é uma complicação metabólica aguda do diabetes caracterizada por hiperglicemia, hipercetonemia e acidose metabólica.
CAD pode ocorrer quando os estressores fisiológicos agudos (p. ex., infecções, infarto do miocárdio) desencadeiam acidose, elevação moderada da glicose, desidratação e perda de potássio grave, particularmente em pacientes com diabetes tipo 1.
Diagnosticar por pH arterial < 7,30, presença de cetonas séricas ou urinárias, hiperglicemia, bicarbonato sérico diminuído e/ou hiato aniônico aumentado.
Corrigir acidose e hiperglicemia com líquidos IV e insulina.
Manter a insulina até o potássio sérico alcançar ≥ 3,3 mEq/L (≥ 3,3 mmol/L).
O edema cerebral agudo é uma complicação rara, mas letal.
Estado hiperglicêmico hiperosmolar (EHH)
O estado hiperglicêmico hiperosmolar é uma complicação metabólica do diabetes mellitus caracterizada por hiperglicemia grave, desidrataçãoextrema, hiperosmolaridade do plasma e alteração do nível de consciência. Com mais frequência, ocorre em pacientes com diabetes mellitus tipo 2, geralmente por ocasião de um estresse fisiológico. O diagnóstico de estado hiperosmolar hiperglicêmico é por hiperglicemia grave e hiperosmolaridade plasmática na ausência de cetose significativa. O tratamento se faz com solução fisiológica e insulina IV. As complicações incluem coma, convulsões e morte.
O estado hiperglicêmico hiperosmolar (anteriormente chamado de coma não cetótico hiperglicêmico hiperosmolar [CNHH] e síndrome hiperosmolar não cetótica [SHNC]) é uma complicação do diabetes mellitus tipo 2 e tem uma taxa de mortalidade estimada de até cerca de 2%, maior do que a mortalidade por cetoacidose diabética (atualmente < 1%) (1).
Desenvolve-se, geralmente, após um período de hiperglicemia sintomática no qual a ingestão de líquidos é inadequada para evitar a desidratação extrema decorrente da diurese osmótica induzida pela hiperglicemia.
Os fatores precipitantes incluem:
Infecções graves e outras condições médicas
Medicamentos que prejudicam a tolerância à glicose (glicocorticoides) ou aumentem a perda de líquidos (diuréticos)
Não adesão ao tratamento do diabetes
As cetonas séricas não estão presentes, pois a quantidade de insulina na maioria dos pacientes com diabetes mellitus tipo 2 é adequada para suprimir a cetogênese. Como os sintomas da acidose não estão presentes, a maioria dos pacientes passa por um período significativamente mais longo de diurese osmótica (altas concentrações de solutos da glicose nos túbulos renais, levando ao excesso de perda de água). Isso causa desidratação mais grave antes da apresentação e, portanto, glicemia [> 600 mg/dL (> 33,3 mmol/L)] e osmolalidade (> 320 mOsm/L) são tipicamente muito mais elevados do que na cetoacidose diabética.
Referência geral
1. American Diabetes Association Professional Practice Committee. 6. Glycemic Goals and Hypoglycemia: Standards of Care in Diabetes-2025. Diabetes Care. 2025;48(1 Suppl 1):S128-S145. doi:10.2337/dc25-S006
Sinais e sintomas de estado hiperglicêmico hiperosmolar
O sintoma primário do estado hiperglicêmico hiperosmolar é a alteração do nível de consciência, variando de confusão ou desorientação a coma, geralmente resultante de desidratação extrema com ou sem azotemia pré-renal, hiperglicemia e hiperosmolalidade. Ao contrário da cetoacidose diabética, pode haver convulsões focais ou generalizadas e hemiplegia transitória.
Diagnóstico do estado hiperglicêmico hiperosmolar
Os critérios diagnósticos para EHH são (1):
Nível de glicemia ≥ 600 mg/dL (33,3 mmol/L)
Osmolalidade sérica > 300 mOsm/kg
Ausência de cetose: cetonas urinárias < 2+ ou beta-hidroxibutirato < 3,0 mmol/L
Ausência de acidose: pH ≥ 7,3 e bicarbonato sérico ≥ 15 mEq/L (15 mmol/L)
A suspeita inicial de estado hiperglicêmico hiperosmolar ocorre ao identificar um aumento muito grande da glicemia em uma amostra de glicemia capilar obtida no curso de uma avaliação de alteração do estado mental. Se isso ainda não tiver sido feito, deve-se testar a urina à procura de cetonas e deve-se medir os seguintes em uma amostra de sangue:
Eletrólitos séricos
Nitrogênio da ureia sanguínea (BUN)
Creatinina
Glicose
Cetonas
Osmolalidade plasmática
As concentrações de potássio costumam ser normais, mas as de sódio podem estar aumentadas ou diminuídas, dependendo do deficit de volume.
A hiperglicemia pode causar hiponatremia dilucional; assim, a dosagem do sódio sérico é corrigida acrescentando 1,6 mEq/L (1,6 mmol/L) para cada 100 mg/dL (5,6 mmol/L) de elevação da glicemia acima de 100 mg/dL (5,6 mmol/L).
Ureia e creatinina séricas são, geralmente, muito elevadas.
O pH arterial costuma estar > 7,3, mas ocasionalmente ocorre acidose metabólica leve em decorrência do acúmulo de lactato.
O deficit de líquidos pode ultrapassar 10 L e o colapso circulatório agudo é uma causa comum de morte. Trombose disseminada é um achado frequente na necropsia e, em alguns casos, pode haver sangramento em consequência de coagulação intravascular disseminada. Outras complicações incluem pneumonia aspirativa, insuficiência renal aguda e síndrome de desconforto respiratório agudo.
Não é incomum que características tanto de CAD quanto de EHH estejam presentes. Por exemplo, cetonemia leve frequentemente ocorre em indivíduos com EHH. No entanto, se cetonemia significativa e acidose estiverem presentes em um paciente com sobreposição EHH/CAD, deve-se administrar a insulina de acordo com os protocolos de CAD.
Referência sobre diagnóstico
1. American Diabetes Association Professional Practice Committee. 6. Glycemic Goals and Hypoglycemia: Standards of Care in Diabetes-2025. Diabetes Care. 2025;48(1 Suppl 1):S128-S145. doi:10.2337/dc25-S006
Tratamento do estado hiperglicêmico hiperosmolar
Solução fisiológica a 0,9% IV
Correção de qualquer hipopotassemia
Insulina IV (se o potássio sérico for ≥ 3,3 mEq/L [≥ 3,3 mmol/L])
Todos os pacientes com estado hiperglicêmico hiperosmolar devem ser hospitalizados e tratados em ambiente de terapia intensiva.
O tratamento é feito com soro fisiológico IV, correção da hipopotassemia e insulina IV (1, 2, 3).
O tratamento é soro fisiológico a 0,9% (isotônica); 1.000 mL são administrados na primeira hora. Pode-se administrar bolus menores (500 mL) em caso de risco de exacerbação da insuficiência cardíaca ou sobrecarga volêmica. Bolus adicionais podem ser necessários para pacientes que são hipotensos.
Após a primeira hora, deve-se ajustar os líquidos intravenosos de acordo com o status hemodinâmico e eletrolítico, mas geralmente eles devem ser mantidos em uma velocidade de 250 a 500 mL/hora.
Deve-se calcular o sódio corrigido. Se o sódio corrigido estiver < 135 mEq/L (< 135 mmol/L), a solução salina isotônica pode ser continuada. Se o sódio corrigido estiver normal ou elevado, utilizar soro fisiológico a 0,45% (metade do normal).
Deve-se acrescentar soro glicosado quando o nível de glicose alcançar 250 a 300 mg/dL (13,9 a 16,7 mmol/L).
A velocidade de infusão de líquidos IV deve ser ajustada de acordo com a pressão arterial, o estado cardíaco e o equilíbrio entre entrada e eliminação de líquidos.
Administra-se insulina em infusão de 0,05 unidade/kg/hora após a infusão do primeiro litro de solução salina e correção da hipopotassemia. Às vezes, a hidratação pode, isoladamente, precipitar a redução da glicemia plasmática, de forma que a dose de insulina tenha de ser reduzida. Uma redução muito rápida da osmolalidade pode causar edema cerebral. Pacientes ocasionais com diabetes mellitus tipo 2 resistente à insulina e estado hiperglicêmico hiperosmolar exigem doses mais altas de insulina. Depois que a glicemia alcança 300 mg/dL (16,7 mmol/L), a infusão de insulina deve ser reduzida para níveis basais (1 a 2 unidade/hora) até que se conclua a reidratação e o paciente consiga se alimentar.
Se cetonemia significativa e acidose estiverem presentes em um paciente com sobreposição EHH/CAD, deve-se administrar a insulina de acordo com os protocolos de CAD.
A glicemia alvo está entre 250 e 300 mg/dL (13,9 a 16,7 mmol/L). Após a recuperação do episódio agudo, os pacientes começam a receber doses ajustadas de insulina por via subcutânea.
A reposição de potássio é semelhante à da cetoacidose diabética: 40 mEq/hora para potássio sérico < 3,3 mEq/L (< 3,3 mmol/L); 20 a 30 mEq/hora para potássio sérico entre 3,3 e 4,9 mEq/L (3,3 e 4,9 mmol/L); e nada para potássio sérico ≥ 5 mEq/L (≥ 5 mmol/L).
Referências sobre tratamento
1. American Diabetes Association Professional Practice Committee. 16. Diabetes Care in the Hospital: Standards of Care in Diabetes-2025. Diabetes Care. 2025;48(1 Suppl 1):S321-S334. doi:10.2337/dc25-S016
2. Gosmanov AR, Gosmanova EO, Kitabchi AE. Hyperglycemic Crises: Diabetic Ketoacidosis and Hyperglycemic Hyperosmolar State. In: Feingold KR, Anawalt B, Blackman MR, et al., eds. Endotext. South Dartmouth (MA): MDText.com, Inc.; May 9, 2021.
3. French EK, Donihi AC, Korytkowski MT: Diabetic ketoacidosis and hyperosmolar hyperglycemic syndrome: review of acute decompensated diabetes in adult patients. BMJ. 365:l1114, 2019. doi: 10.1136/bmj.l1114
Pontos-chave
O estado hiperglicêmico hiperosmolar (EHH) é uma complicação metabólica do diabetes mellitus caracterizada por hiperglicemia grave, desidratação extrema, hiperosmolaridade do plasma e alteração do nível de consciência.
O EHH pode ocorrer se infecções, não adesão e certos medicamentos desencadearem elevação acentuada da glicose, desidratação e consciência alterada em pacientes com diabetes tipo 2.
Pacientes com insulina adequada se apresentam para prevenir cetoacidose.
O deficit hídrico é 10 L; o tratamento é com soro fisiológico a 0,9% IV e infusão de insulina.
A glicemia alvo no tratamento agudo está entre 250 e 300 mg/dL (13,9 a 16,7 mmol/L).
Fazer reposição de potássio de acordo com os níveis séricos do potássio.
Cetoacidose alcoólica
A cetoacidose alcoólica é uma complicação metabólica da utilização de álcool e do jejum, caracterizada por hipercetonemia e acidose metabólica, com hiato aniônico positivo, sem hiperglicemia significativa. A cetoacidose alcoólica causa náuseas, vômitos e dor abdominal. O diagnóstico se faz por meio da história e do achado de cetoacidose sem hiperglicemia. O tratamento consiste em infusão IV de solução fisiológica e infusão de glicose.
A cetoacidose alcoólica é atribuída aos efeitos combinados do álcool e jejum sobre o metabolismo de glicose.
Fisiopatologia da cetoacidose alcoólica
O álcool diminui a gliconeogênese hepática e leva à diminuição da secreção de insulina, aumento da lipólise, transporte prejudicado dos ácidos graxos para mitocôndrias, oxidação de ácidos graxos e cetogênese subsequente, causando acidose metabólica com hiato aniônico elevado. Hormônio do crescimento, adrenalina, cortisol e glucagon estão todos aumentados. As concentrações plasmáticas de glicose são, geralmente, baixas ou normais, mas discreta hiperglicemia ocorre algumas vezes.
Sinais e sintomas da cetoacidose alcoólica
Tipicamente, a bebedeira causa vômitos e cessação de ingestão de álcool e alimentos por ≥ 24 horas. Durante esse período de jejum, os vômitos continuam e desenvolve-se dor abdominal, levando o paciente a procurar cuidados médicos. Pode ocorrer pancreatite.
Diagnóstico da cetoacidose alcoólica
Cálculo do hiato aniônico
Exclusão de outras doenças
O diagnóstico requer alto índice de suspeita; sintomas similares em um paciente com transtorno por uso de álcool podem resultar de pancreatite aguda, intoxicação por metanol ou etilenoglicol (ver tabela ) ou cetoacidose diabética (CAD). Frequentemente, os níveis de álcool no sangue não estão mais elevados quando os pacientes manifestam cetoacidose alcoólica.
Nos pacientes com suspeita de cetoacidose alcoólica, dosar os eletrólitos séricos (inclusive magnésio), nitrogênio da ureia sanguínea (BUN) e creatinina, glicose, cetonas, amilase, lipase e a osmolaridade plasmática. Deve-se testar na urina a presença de cetonas. Pacientes com aspecto grave e aqueles com cetonas positivas devem fazer gasometria arterial e dosar o lactato sérico.
A ausência de hiperglicemia torna a cetoacidose diabética pouco provável. Pacientes com hiperglicemia discreta podem ter diabetes mellitus subjacente, que pode ser identificado pela elevação da hemoglobina A1C.
Achados laboratoriais típicos incluem:
Cetonemia e cetonúria
A detecção da acidose pode ser complicada pela alcalose metabólica concomitante decorrente dos vômitos, resultando em pH relativamente normal; a principal pista é a elevação do hiato aniônico. Se a história não excluir a ingestão tóxica de álcool como causa do aumento do hiato aniônico elevado, deve-se medir os níveis séricos de metanol e etilenoglicol.
A presença de cristais de oxalato de cálcio na urina também sugere intoxicação por etilenoglicol.
As concentrações de ácido láctico costumam estar elevadas em razão da alteração do equilíbrio das reações de redução e oxidação no fígado.
Tratamento da cetoacidose alcoólica
Tiamina IV e outras vitaminas junto com magnésio
Glicose a 5% em solução fisiológica a 0,9% IV
Uma infusão IV de soro fisiológico 0,9% é administrada, geralmente com dextrose a 5%. Em pacientes com hipoglicemia, concentrações mais altas de dextrose podem ser administradas inicialmente. Os fluidos intravenosos iniciais devem conter vitaminas hidrossolúveis e magnésio adicionados, com reposição de potássio e fosfato conforme necessário. Os pacientes também recebem tiamina 100 a 200 mg IV (500 mg em pacientes com risco aumentado de encefalopatia de Wernicke) para prevenir o desenvolvimento de encefalopatia de Wernicke ou psicose de Korsakoff (1, 2).
A cetoacidose e os sintomas gastrointestinais respondem, geralmente, rapidamente. O nível de potássio sérico deve ser monitorado de perto; como na cetoacidose diabética, há frequentemente depleção do potássio corporal total e o deslocamento intracelular com correção da acidose por reanimação volêmica pode baixar o potássio sérico (1). A utilização de insulina só é apropriada se houver dúvidas sobre cetoacidose diabética atípica ou se ocorrer hiperglicemia > 300 mg/dL (> 16,7 mmol/L).
Referências sobre tratamento
1. Knight-Dunn L, Gorchynski J. Alcohol-Related Metabolic Emergencies. Emerg Med Clin North Am. 2023;41(4):809-819. doi:10.1016/j.emc.2023.07.003
2. Long B, Lentz S, Gottlieb M. Alcoholic Ketoacidosis: Etiologies, Evaluation, and Management. J Emerg Med. 2021;61(6):658-665. doi:10.1016/j.jemermed.2021.09.007
Pontos-chave
A causa da cetoacidose alcoólica é uma combinação de efeitos do álcool e jejum no metabolismo da glicose; é caracterizada por hipercetonemia e acidose metabólica com hiato aniônico elevado sem hiperglicemia significativa.
Medir cetonas e eletrólitos no soro e na urina e calcular o hiato aniônico sérico.
Tratar inicialmente com tiamina intravenosa para evitar a encefalopatia de Wernicke ou a psicose de Korsakoff, então continuar com glicose IV em soro fisiológico a 0,9%.



