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Incontinência urinária em crianças

Por

Teodoro Ernesto Figueroa

, MD, Nemours/A.I. duPont Nemours Hospital for Children

Última modificação do conteúdo fev 2018
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Recursos do assunto

A incontinência urinária é definida como eliminação urinária involuntária 2 vezes/mês durante o dia ou noite. Sugeriu-se uma terminologia revisada para o momento da incontinência (ver o sito web da International Incontinence Society):

  • Para incontinência urinária durante o dia: enurese diurna (ou episódios diurnos molhados)

  • Para incontinência urinária noturna: enurese noturna (ou cama molhada)

A incontinência diurna geralmente só é diagnosticada aos 5 ou 6 anos de idade. A incontinência noturna geralmente só é diagnosticada aos 7 anos de idade. Antes disso, a enurese costuma ser chamada de cama molhada à noite (1). Esses limites etários baseiam-se em crianças que estão se desenvolvendo normalmente e, portanto, podem não ser aplicáveis àquelas com atraso de desenvolvimento. Tanto a incontinência noturna como a diurna são sintomas—não diagnósticos—e necessitam de considerações sobre a causa de base.

Em geral, a idade em que se alcança a continência urinaria varia, mas > 90% das crianças têm continência diurna aos 5 anos de idade. A continência noturna demora mais tempo para ser alcançada. A incontinência urinária noturna afeta cerca de 30% das crianças aos 4 anos, 10% aos 7 anos, 3% aos 12 anos e 1% aos 18 anos. Cerca de 0,5% dos adultos continuam a ter episódios noturnos molhados. A incontinência urinária noturna é mais comum entre os meninos com história familiar (2).

Na incontinência primária, as crianças nunca alcançam a continência por 6 meses. Na incontinência secundária, as crianças têm incontinência após um período de pelo menos 6 meses de controle urinário. As causas orgânicas são mais prováveis na incontinência secundária. Mesmo quando não há causa orgânica, o tratamento apropriado e a educação dos pais são essenciais devido ao impacto físico e psicológico dos acidentes urinários (3).

Referências gerais

  • 1. Wright, AJ: The epidemiology of childhood incontinence. Em Pediatric Incontinence, Evaluation and Clinical Management, editado por Franco I, Austin P, Bauer S, Von Gontard A, Homsy I. Chichester, John Wiley & Sons Ltd., 2015, pp. 37–60.

  • 2. Horowitz M, Misseri R: Diurnal and nocturnal enuresis. In Clinical Pediatric Urology, ed. 5, editado por Docimo S, Canning D, Khoury A. Londres, Martin Dunitz Ltd., 2007, pp. 819–840.

  • 3. Austin PF, Vricella GJ: Functional disorders of the lower urinary tract in children. Em Campbell-Walsh Urology, ed. 11, editado por Wein A, Kavoussi L, Partin A, Peters C. Philadelphia, Elsevier, 2016, pp. 3297–3316.

Fisiopatologia

O funcionamento da bexiga tem uma fase de armazenamento e uma de esvaziamento. Anormalidades em qualquer uma dessas fases pode causar incontinência primária ou secundária.

Na fase de armazenagem, a bexiga age como um reservatório para a urina. A capacidade de armazenamento da bexiga é afetada pelo seu tamanho e contenção e aumenta à medida que a criança cresce. A capacidade de armazenamento aumenta à medida que as crianças crescem. A contenção pode diminuir por infecções ou obstruções repetidas das vias excretoras, o que torna a musculatura vesical hipertrófica.

Na fase de esvaziamento, a contração vesical sincroniza com a abertura do colo vesical e o esfíncter urinário externo. A incontinência pode ocorrer se há disfunção na coordenação ou na sequência da micção. Há múltiplas razões para que esta disfunção ocorra. Um exemplo é a irritação da bexiga, que provoca contrações irregulares e assincronia na sequência do esvaziamento, resultando em incontinência. A irritação da bexiga pode advir de uma ITU ou de algo que pressione a bexiga (p. ex., o reto distendido pela obstipação).

Etiologia

A incontinência urinária da criança tem causas e tratamento diferentes incontinência urinária dos adultos. Embora algumas anormalidades causem tanto a incontinência urinária noturna como diurna, a etiologia tipicamente varia dependendo de a incontinência urinária ser noturna, diurna, bem como primária ou secundária. A maioria das incontinências urinárias primárias é noturna (enurese), e não decorre de distúrbios orgânicos. A enurese pode ser dividida em monossintomática (ocorre apenas durante o sono) e complexa (outras anormalidades estão presentes, como incontinência urinária diurna e/ou sintomas urinários).

Incontinência urinária noturna

Disfunções orgânicas correspondem a cerca de 30% dos casos e são mais comuns na enurese complexa do que na monossintomática. Os demais casos são, na maioria das vezes, de etiologia não esclarecida, mas admite-se que decorram de uma combinação de fatores, incluindo

  • Maturação tardia

  • Desfralde não completo

  • Pequena capacidade funcional da bexiga (na verdade, a bexiga não é pequena, mas se contrai antes de estar totalmente cheia)

  • Volume urinário noturno aumentado

  • Dificuldade de despertar do sono

  • História familiar (se um dos pais tem enurese noturna, a possibilidade de o filho ter também é de 30%; a probabilidade aumenta para 70% se ambos os pais forem afetados)

Os fatores que contribuem para as causas orgânicas da incontinência urinária noturna incluem

Tabela
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Alguns fatores que contribuem para a incontinência urinária noturna

Causa

Achados sugestivos

Abordagem diagnóstica

Infrequente, fezes endurecidas

Encoprese

Desconforto abdominal

História de dietética de obstipação (p. ex., excesso de leite e derivados, algumas frutas e vegetais)

Avaliação clínica (incluindo fezes diárias)

Às vezes, radiografia abdominal

Aumento da diurese (p. ex., diabetes melito, diabetes insípido, ingestão excessiva de água, anemia falciforme)

Variável conforme a doença

Para diabetes melito, glicose no soro

Osmolalidade sérica e urinária para o diabetes insípido

Triagem para anemia falciforme

Maturação tardia

Nenhuma incontinência urinária diurna

Mais comum entre meninos e pessoas com sono pesado

Possível história familiar de cama molhada.

Avaliação clínica

História de roncos, com parada respiratória seguida de roncos altos

Sonolência diurna excessiva

Hipertrofia de tonsilas

Polissonografia

Disrafias espinais (p. ex., espinha bífida, cordão preso, defeitos ocultos), levando a retenção urinária

Defeitos vertebrais evidentes, saco meníngeo protruso, sulco lombossacral ou tufo de cabelos, fraqueza nas pernas, hipossensibilidade nos membros inferiores

Ausência do reflexo do tornozelo, cremastérico e anal

Radiografia lombossacral

RM para espinha oculta

Estresse

Dificuldades escolares, isolamento ou dificuldades sociais, tensão familiar (p. ex., divórcio, separação)

Avaliação clínica (incluindo diário miccional)

ITU

Disuria, hematúria, frequência, urgência

Febre

Dor abdominal

Exame de urina

Cultura de urina

Para pacientes com pielonefrite, ultrassonografia e uretrocistografia miccional

Incontinência urinária diurna

Causas comuns da incontinência urinária diurna incluem

  • Irritabilidade da bexiga

  • Fraqueza relativa do músculo detrusor (tornando-se difícil a inibição da incontinência)

  • Refluxo uretrovaginal, esvaziamento vaginal: meninas que usam posição incorreta durante a micção (p. ex., com as pernas fechadas) ou têm dobras de pele redundantes que podem apresentar refluxo da urina para a vagina, com subsequentes vazamentos quando ficam em pé

  • Anormalidades estruturais (p. ex., ureter ectópico)

  • Esfíncter anormalmente fraco (p. ex., espinha, bífida, anormalidade do cordão medular, cordão preso)

Tabela
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Algumas causas orgânicas da incontinência diurna

Causa

Achados sugestivos

Abordagem diagnóstica

Infrequente, fezes endurecidas

Às vezes, encoprese, desconforto abdominal

História de dietética de obstipação (p. ex., excesso de leite e derivados, algumas frutas e vegetais)

Avaliação clínica (incluindo fezes diárias)

Às vezes, radiografia abdominal

Micção disfuncional secundária à falta de coordenação do músculo detrusor e esfíncter uretral, sem relação com causa neurológica

Frequentemente encoprese, RVU e ITU

Possibilidade de incontinência noturna e diurna

Estudos urodinâmicos para verificar dissinergia da musculatura vesical

Urofluxometria

Ocasionalmente UCGM

Incontinência pelo riso forçado

Micção durante o riso, quase somente em meninas

Micção normal em outras situações

Avaliação clínica

Aumento da diurese (p. ex., diabetes melito, diabetes insípido, ingestão excessiva de água, anemia falciforme)

Variável conforme a doença

Para diabetes melito, glicose no soro

Osmolalidade sérica e urinária para o diabetes insípido

Triagem para anemia falciforme

Adiamento da micção e incontinência por transbordamento

Crianças que esperam até o último minuto para micção

Comum entre pré-escolares que ficam envolvidos pelas brincadeiras

História consistente

Diário miccional

Bexiga neurogênica secundária a disrafismo espinal (p. ex., espinha bífida, cordão preso, defeitos ocultos) ou anomalias do sistema nervoso

Defeitos vertebrais evidentes, saco meníngeo protruso, sulco lombossacral ou tufo de cabelos, fraqueza nas pernas, hipossensibilidade nos membros inferiores

Radiografia lombossacral

RM para espinha oculta

Ultrassonografia dos rins e da bexiga

Estudos urodinâmicos

Bexiga hiperativa

Urgência urinária (essencial para o diagnóstico); frequência e noctúria são comuns

Às vezes, uso de manobras de contenção ou postura corporal (p. ex., agachar-se ou sinal de reverência de Vincent)

História consistente com sintomas de hiperatividade vesical

Consideração do diário miccional, estudo urodinâmico, teste de fluxo urinário

Problemas de sono, dificuldades escolares (p. ex., delinquência, notas baixas)

Comportamento de sedução, depressão, interesses não usuais ou evitar todo assunto sobre sexo, conhecimentos inapropriados para sua idade

Avaliação por especialista sobre abuso sexual

Estresse*

Dificuldades escolares, isolamento ou dificuldades sociais, tensão familiar (p. ex., divórcio, separação)

Avaliação clínica

Anormalidades estruturais (p. ex., ureter ectópico, válvula de uretra posterior)

Nas crianças, a continência diurna total nunca é atingida

Incontinência noturna ou diurna em meninas, antecedente de micção normal, mas com roupas íntimas sempre molhadas, corrimento vaginal

Possível história de infecções do trato urinário ou outras anormalidades do trato urinário

Ultrassonografia dos rins

Exame nuclear do fluxo renal ou urografia IV

TC do abdome e pelve ou urografia por RM

ITU

Disuria, hematúria, frequência, urgência

Febre

Dor abdominal

Exame de urina

Cultura de urina

Para pacientes com pielonefrite, ultrassonografia e UCM

Refluxo vaginal (refluxo uretrovaginal ou diurese vaginal) de qualquer causa (inclusive fusão labial)

Gotejamento após a micção, ao se levantar

Avaliação clínica, instruções para evitar a retenção de urina na vagina (p. ex., maneira de sentar no vaso sanitário)

*Estresse é uma causa principalmente quando a incontinência é aguda.

UCM = uretrocistografia miccional; VUR = refluxo vesicoureteral.

Avaliação

A avaliação deve incluir investigação sobre obstipação (que pode ser um fator contribuinte para incontinência urinária noturna ou diurna).

História

História da doença atual sobre o início dos sintomas (primária ou secundária), ocasião dos sintomas (p. ex., à noite, durante o dia, apenas após a micção) ou sintomas contínuos (gotejamento constante) ou intermitentes. A anotação esquemática da micção (diário miccional), incluindo ocasião, frequência e volume, pode ser útil. Sintomas associados importantes incluem polidipsia, disúria, urgência, frequência, gotejamento e esforço. A posição durante a micção e a força do jato de urina devem ser observadas. Para evitar perda de urina, crianças com incontinência urinária podem usar manobras de retenção, como cruzar as pernas ou ficar de cócoras (às vezes com a mão ou o calcanhar pressionado contra o períneo). Em algumas crianças, as manobras de contenção podem aumentar o risco de infecções do trato urinário. Semelhante ao diário miccional, um diário de evacuação pode ajudar a identificar constipação.

ARevisão dos sistemas deve observar sintomas sugestivos da causa, incluindo frequência e consistência das fezes (obstipação), febre, dor abdominal, disúria e hematúria (ITU), prurido perianal e vaginite (oxiuríase), poliúria e polidipsia (diabetes melito ou insípido), roncos e períodos de apneia durante o sono (apneia do sono). Crianças devem ser avaliadas por abuso sexual, que, embora não tão comum, é uma causa muito importante para ser esquecida.

A história clínica deve identificar possíveis causas conhecidas, incluindo agravos perinatais ou defeitos inatos (p. ex., espinha bífida), disfunções neurológicas, nefropatias e infecções do trato urinário. Deve-se observar quaisquer tratamentos atuais ou prévios para incontinência e a maneira como foram instituídos na prática, bem como uma lista dos fármacos atuais.

A história desenvolvimental deve observar disfunções ou atraso no desenvolvimento relacionados com a micção (p. ex., transtorno de deficit de atenção/hiperatividade, que pode aumentar a probabilidade de incontinência urinária).

Deve-se pesquisar a presença de incontinência nos antecedentes familiares e quaisquer distúrbios urológicos.

A história social deve observar fatores de estresse que ocorrem perto do início dos sintomas, incluindo dificuldades na escola, com amigos ou em casa; embora a incontinência urinária não seja uma doença psicológica, pode ocorrer um período breve de episódios molhados durante o estresse.

O médico deve também perguntar sobre o impacto da incontinência urinária diurna sobre a criança, porque isso também afeta as decisões de tratamento.

Exame físico

O exame se inicia com revisão dos sinais vitais para febre (ITU), sinais para perda ponderal (diabetes melito) e hipertensão (nefropatia). No exame de cabeça e pescoço, deve-se observar aumento das tonsilas, respiração bucal ou deficit de crescimento (apneia do sono). No exame abdominal, deve-se observar a presença de massa consistente com fezes ou bexiga cheia.

Nas meninas, o exame genital deve focalizar fusão labial, cicatrizes ou lesões suspeitas de abuso sexual. O orifício da uretra ectópica é difícil de ver, mas deve ser pesquisado. Nos meninos, observar irritação do meato ou qualquer lesão da glande ou ao redor do reto. Em ambos os sexos, escoriações perianais podem sugerir oxiuríase.

Defeitos da linha média podem estar presentes no exame da espinha (p. ex., depressão sacral profunda, tufo de cabelos sacral). O exame neurológico completo é essencial e deve focalizar a força dos membros inferiores, sensação e reflexos do tendões, reflexos sacrais (p. ex., esfíncter anal) e, nos meninos, o reflexo cremastérico pode identificar possível disrafismo espinal. O exame do reto pode detectar obstipação ou diminuição do tônus retal.

Sinais de alerta

Achados de particular interesse são

  • Sinais ou preocupações sobre abuso sexual

  • Muita sede, poliúria e perda ponderal

  • Incontinência urinária diurna primária prolongada (além dos 6 anos de idade)

  • Sinais neurológicos, especialmente nos membros inferiores

  • Sinais físicos de comprometimento neurológico

Interpretação dos achados

Geralmente, a incontinência urinária noturna primária ocorre em crianças com anamnese e exame físico sem alterações e provavelmente representa atraso na maturação. Um pequeno número de crianças tem doença médica tratável; achados ocasionais sugerem possíveis causas ({blank} Alguns fatores que contribuem para a incontinência urinária noturna).

Para crianças avaliadas para enurese, é importante determinar se sintomas diurnos de urgência, frequência, postura corporal ou manobras de contenção e incontinência estão presentes. Crianças com esses sintomas têm enurese complexa e o tratamento deve ser direcionado principalmente ao controle dos sintomas diurnos.

Na incontinência urinária diurna, sugere-se micção disfuncional por incontinência intermitente precedida por sensação de urgência, história de distração durante brincadeiras ou uma combinação. Incontinência após micção (por causa da falta de esvaziamento total da bexiga) também pode fazer parte da história.

Incontinência causada por ITU é provavelmente um episódio distinto em vez de crônico, problema intermitente e pode ser acompanhado por sintomas típicos (p. ex., urgência, frequência, dor durante a micção); mas outras causas da incontinência urinária podem levar à ITU secundária.

A obstipação é lembrada com a presença de fezes endurecidas e dificuldade na evacuação (ocasionalmente, as fezes são palpáveis durante o exame físico).

Apneia do sono deve ser considerada com história de sonolência diurna excessiva e transtorno do sono; os pais podem fornecer história de ronco ou pausas respiratórias.

Prurido anal (especialmente à noite), vaginite, uretrite, combinados ou não, levantam a suspeita de oxiuríase.

Sede excessiva, incontinência urinária noturna e diurna e perda ponderal sugerem uma possível causa orgânica (p. ex., diabetes melito).

Embora difícil de diagnosticar, o estresse e abuso sexual devem ser avaliados. Abuso sexual é uma causa incomum, mas é muito importante para ser ignorado.

Exames

O diagnóstico da incontinência costuma ser aparente depois da história e exame físico. Exame de urina e cultura de urina são apropriadas para ambos os sexos. Outras causas orgânicas podem ser sugeridas pela história e exames físicos ({blank} Alguns fatores que contribuem para a incontinência urinária noturna e {blank} Algumas causas orgânicas da incontinência diurna). Ultrassonografia dos rins e da bexiga é muitas vezes feita para verificar se a anatomia do trato urinário está normal. Urofluxometria pode mostrar um padrão de micção interrompido em pacientes com disfunções miccionais.

Tratamento

A parte mais importante do tratamento é ensinar a família quanto à causa e à evolução clínica da incontinência. O aprendizado ajuda a diminuir o impacto psicológico negativo dos acidentes urinários, o que resulta em adesão aumentada do tratamento.

O tratamento da incontinência urinária deve focalizar qualquer causa identificada, embora nem sempre diagnosticada. A seguir, são especificados os tratamentos que podem ser úteis.

Incontinência urinária noturna

A estratégia mais eficaz a longo prazo é um alarme de enurese. Embora exija muito trabalho, a taxa de sucesso pode ser tão alta quanto 70% quando as crianças estão motivadas a vencer a enurese, e a família é capaz de aderir. Pode demorar até 4 meses do uso noturno para o desaparecimento completo dos sintomas. O alarme dispara quando ocorre a enurese. Embora as crianças inicialmente continuem tendo episódios de enurese, ao longo do tempo, aprendem a associar a sensação de bexiga cheia ao alarme e então acordam para urinar antes de um evento enurético. Esses alarmes estão prontamente disponíveis online sem prescrição. Um alarme não deve ser usado por crianças com enurese complexa ou por crianças com capacidade vesical reduzida (como evidenciado pelo diário miccional). Essas crianças devem ser tratadas da mesma maneira como as crianças com incontinência urinária diurna. É essencial evitar abordagens punitivas porque elas prejudicam o tratamento e resultam apenas em baixa autoestima.

Fármacos como desmopressina (DDAVP) e imipramina ({blank} Fármacos utilizados para incontinência urinária em crianças*) podem diminuir episódios de enurese noturna. Mas os resultados não são sustentados na maioria dos pacientes quando o tratamento é interrompido; os pais e as crianças devem ser prevenidos disso para ajudar a limitar decepções. O DDAVP é preferível devido ao raro potencial de morte súbita com o uso da imipramina.

Incontinência urinária diurna

A obstipação deve ser sempre tratada. Informações do diário miccional podem ajudar a identificar crianças com capacidade funcional vesical reduzida, aumento da frequência e urgência urinária e infrequência urinária, todas as quais podem apresentar incontinência urinária.

Medidas gerais podem incluir

  • Exercícios para conter a urgência: as crianças devem ser orientadas para ir ao banheiro tão logo sintam a necessidade de urinar. Elas retêm a urina até onde puderem e, quando não conseguirem mais segurar a micção, iniciam a diurese e, a seguir, interrompem e recomeçam a micção. Este exercício fortalece o esfíncter e dá à criança a confiança de que podem alcançar o banheiro antes que o acidente ocorra.

  • Aumentar gradualmente o intervalo entre as micções (se houver suspeita de instabilidade do detrussor ou micção disfuncional)

  • Mudanças de comportamento (p. ex., micção atrasada) com reforço positivo e micção programada (momento de urinar): as crianças serão lembradas de que devem urinar por um relógio que vibra ou por sons de um alarme (melhor que os pais lembrando).

  • O uso de métodos urinários corretos para desencorajar a retenção de urina na vagina: em meninas que experimentam obstrução vaginal da urina, o tratamento é incentivar a posição sentada virada para trás no vaso sanitário ou com os joelhos afastados, o que expandirá o introito e permitirá o fluxo direto da urina para o vaso sanitário.

  • Biofeedback: essa terapia não cirúrgica conservadora é usada para tratar disfunção vesical, incontinência urinária, incontinência fecal, urgência, dor pélvica e para reeducar os músculos do assoalho pélvico a fim de restaurar e manter a saúde. Com essa terapia, as crianças podem ser avaliadas e instruídas quanto à seleção, aos exercícios e ao uso dos músculos do assoalho pélvico e dos músculos do abdome para promover micção coordenada sinérgica (1).

No caso de fusão labial, recomenda-se o uso de creme de estrogênios ou triancinolona conjugados a 0,5%.

O tratamento medicamentoso ({blank} Fármacos utilizados para incontinência urinária em crianças*) é ocasionalmente útil, mas não é de primeira linha. Anticolinérgicos (oxibutinina e tolterodina) podem beneficiar pacientes com incontinência urinária diurna por causa de micção disfuncional quando a terapia comportamental ou fisioterapia não são bem-sucedidas. Fármacos para enurese podem diminuir os episódios de cama molhada à noite e, às vezes, são úteis para incentivar a secura em eventos noturnos, como dormir fora.

Novos anticolinérgicos (p. ex., solifenacina e darifenacina) que são prescritos para o tratamento da bexiga hiperativa em adultos mostraram eficácia em crianças. De maneira similar, mirabegrom agonista do receptor beta-3 tem sido usado em crianças para tratar sintomas de incontinência urinária decorrente da hiperatividade do músculo detrusor refratária a anticolinérgicos.

Tabela
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Fármacos utilizados para incontinência urinária em crianças*

Fármaco

Dosagem

Alguns efeitos adversos

Disfuncão miccional na incontinência urinária diurna (hiperatividade da bexiga)

Oxibutinina

Para crianças > 5 anos, 5 mg VO bid podendo aumentar para 5 mg tid

Liberação prolongada: para crianças > 6 anos, 5 mg VO uma vez ao dia, aumentando conforme o tolerado em 5 mg/dia até o máximo de 15 mg/dia

Confusão, tontura, temperatura aumentada, rubor, obstipação, boca seca

Tolterodina

Para crianças > 5 anos, 1 mg VO bid

As crianças que conseguem engolir comprimidos, cápsulas de liberação prolongada de 2 mg a 4 mg uma vez/dia

Constipação, rubor, boca seca

Incontinência urinária noturna

Desmopressina (DDAVP)

Para crianças 6 anos, inicialmente 0,2 mg VO uma vez ao dia, 1 hora antes de dormir, aumentando, de acordo com as necessidades, até o máximo de 0,6 mg, uma vez ao dia

DDAVP intranasal não é mais recomendado devido ao risco de hiponatremia dilucional

Imipramina

Para crianças de 6–8 anos, 25 mg VO uma vez ao dia, à noite)

Para crianças > 8 anos, 50 mg VO uma vez ao dia, à noite

Raramente, morte

Possivelmente nervosismo, mudança de personalidade, transtorno do sono, arritmias cardíacas

*Esses fármacos são principalmente utilizados como terapia de 2ª linha. O primeiro tratamento deve atingir a doença de base e alteração de comportamento.

Morte súbita de etiologia incerta foi relatada. Esse fármaco é agora raramente usado.

ECG deve ser realizado para identificar o prolongamento do intervalo QT e/ou o intervalo QT corrigido (QTc), o que contraindica a utilização de imipramina.

Referência sobre o tratamento

  • 1. Rae A, Renson, C: Biofeedback in the treatment of functional voiding disorders. Em Pediatric Incontinence, Evaluation and Clinical Management, editado por Franco I, Austin P, Bauer S, Von Gontard A, Homsy I. Chichester, John Wiley & Sons Ltd., 2015, pp. 145–152.

Pontos-chave

  • Incontinência urinária primária manifesta-se mais frequentemente como incontinência noturna.

  • A obstipação deve ser considerada como uma fonte contribuidora.

  • A maioria dos casos de incontinência urinária noturna desaparece com a maturidade (15%/ano de resolução sem nenhuma intervenção), mas pelo menos 0,5% dos adultos têm episódios de cama molhada à noite.

  • As causas orgânicas da incontinência, embora infrequentes, devem ser consideradas.

  • Alarmes são o tratamento mais eficiente para enurese.

  • Outros tratamentos incluem intervenções comportamentais e ocasionalmente fármacos.

  • A educação dos pais é essencial para resultados e bem-estar da criança.

Informações adicionais

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