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Infecção por Taenia solium (tênia da carne de porco) e cisticercose

Por

Richard D. Pearson

, MD,

  • University of Virginia School of Medicine

Última modificação do conteúdo jul 2018
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A infecção por Taenia solium (teníase) é uma infecção intestinal por tênias adultas provenientes da ingestão de carne de porco contaminada. Cisticercose é a infecção causada pelas larvas de T. solium, que se desenvolve depois da ingestão de ovos excretados nas fezes humanas. Vermes adultos podem produzir sintomas GI leves ou passagem de segmentos móveis nas fezes. Na cisticercose, os sintomas geralmente estão ausentes, exceto se larvas invadirem o sistema nervoso central, resultando em neurocisticercose, a qual pode causar convulsões e vários outros sinais neurológicos. A neurocisticercose pode ser reconhecida em exames de imagem do cérebro. Pouco menos da metade dos pacientes com neurocisticercose apresenta T. solium adulta nos seus intestinos e, portanto, ovos ou proglotes nas fezes. Vermes adultos podem ser erradicados com praziquantel. O tratamento sintomático da neurocisticercose é complicado; é feito com corticoides, anticonvulsivantes e, em algumas situações, albendazol ou praziquantel. Cirurgia pode ser necessária.

Apresentação, diagnóstico e tratamento da infecção intestinal por tênias adultas T. solium são semelhantes àqueles da infecção por T. infecção por saginata (tênia da carne bovina).

Porém, seres humanos também podem agir como hospedeiros intermediários para larvas de T. solium se ingerirem ovos de T. solium presentes em excretas humanas ( Ciclo de vida do Taenia solium). Alguns especialistas postulam que se uma tênia adulta estiver presente no intestino, proglotes prenhes (segmentos de tênias) podem passar de forma retrógrada do intestino para o estômago, no qual oncosferas (forma imatura do parasita inserida em um invólucro embrionário) podem eclodir e migrar para tecidos subcutâneos, músculos, vísceras e sistema nervoso central.

As tênias adultas podem residir no intestino delgado durante anos. Ele chegam a ter 2 a 7 m de comprimento e produzem até 1.000 proglotes; cada um dos quais contém cerca de 50.000 ovos.

Ciclo de vida do Taenia solium

Os seres humanos desenvolvem infecção intestinal com tênias adultas após a ingestão de carne de porco contaminada, ou podem desenvolver cisticercose após a ingestão de ovos de T. solium (tornando os seres humanos hospedeiros intermediários).

  • 1. Os seres humanos ingerem carne de porco crua ou malcozida contendo cisticercos (larvas).

  • 2. Após a ingestão, cistos evertem, ligam-se ao intestino delgado pelo seu escólex e tornam-se tênias adultas em cerca de 2 meses.

  • 3. As tênias adultas produzem proglotes, que se tornam prenhes; estas desprendem-se da tênia e migram para o ânus.

  • 4. Proglotes soltas e/ou ovos são passados para o hospedeiro definitivo (ser humano) pelas fezes.

  • 5. Porcos ou seres humanos tornam-se infectados pela ingestão de ovos embrionados ou proglotes prenhes (p. ex., na comida contaminada por fezes). Pode ocorrer autoinfecção nos seres humanos se proglotes passarem do intestino para o estômago via peristaltismo reverso.

  • 6. Depois que os ovos são ingeridos, eclodem no intestino e liberam oncosferas, as quais penetram na parede intestinal.

  • 7. As oncosferas, através da rede sanguínea, vão para músculos estriados e para o cérebro, o fígado e outros órgãos, nos quais se desenvolvem até cisticercos. Pode resultar em cisticercose.

Ciclo de vida do  <i>Taenia solium</i>

A teníase e a cisticercose ocorrem em todo o mundo. A cisticercose é prevalente, e a neurocisticercose é a maior causa de epilepsia na América Latina. A cisticercose é rara nos países muçulmanos. A infecção nos EUA é mais comum em imigrantes, mas norte-americanos que não viajaram para o exterior foram infectados pela ingestão de ovos a partir de imigrantes que abrigam T. solium. adulta.

Raramente, Taenia spp zoonótica além de T. solium causam neurocisticercose.

Sinais e sintomas

Infecção intestinal

Seres humanos infectados com vermes adultos de T. solium são assintomáticos ou apresentam queixas GI leves. Eles podem ver proglotes nas suas fezes.

Cisticercose

Na maioria dos órgãos, os cisticercos viáveis (forma larval) provocam reação mínima ou nenhuma reação no tecido, mas a morte dos cistos no sistema nervoso central pode desencadear uma resposta tecidual intensa. Dessa forma, com frequência os sintomas não aparecem durante anos depois da infecção.

A infecção cerebral (neurocisticercose) pode provocar sintomas graves, decorrentes do efeito de massa e da inflamação induzidos pela degeneração dos cisticercos e liberação de antígenos.

Dependendo da locação e do número de cisticercos, os pacientes com neurocisticercose podem apresentar convulsões, sinais de hipertensão intracraniana, hidrocefalia, sinais neurológicos focais, estado mental alterado, ou meningite asséptica.

Os cisticercos também podem infectar a medula espinal, os músculos, os tecidos subcutâneos e os olhos.

Imunidade secundária significativa se desenvolve após infecção larval.

Diagnóstico

  • Exame microscópico de fezes para presença de ovos e proglotes

  • CT e/ou MR e teste sorológico em pacientes com sintomas no sistema nervoso central

(Ver também guidelines for diagnosis and treatment of neurocysticercosis from the Infectious Diseases Society of America (IDSA) and the American Society of Tropical Medicine and Hygiene (ASTMH).)

A infecção intestinal por vermes adultos T. solium geralmente pode ser diagnosticada por exame microscópico das amostras de fezes e identificação dos ovos e/ou proglotes. Mas os ovos são indistinguíveis daqueles de T. saginata e T. asiatica. Ovos de T. solium estão presentes em 50% das amostras de fezes de pacientes com cisticercose.

O diagnóstico da cisticercose é normalmente feito quando TC ou RM é realizada para avaliar sintomas neurológicos. Exames cuidadosos podem mostrar nódulos sólidos, cisticercos, cistos, cistos calcificados, lesões com reforço em anel ou hidrocefalia. Os ensaios imunoenzimáticos (utilizando uma amostra de soro) dos CDC são muito específicos e mais sensíveis do que outros imunoensaios enzimáticos (particularmente quando houver > 2 lesões no sistema nervoso central; a sensibilidade é mais baixa quando houver apenas um único cisto).

Dicas e conselhos

  • Ovos de T. solium estão presentes em 50% das amostras de fezes de pacientes com cisticercose.

Tratamento

  • Para infecção intestinal: praziquantel ou niclosamida (fora dos EUA)

  • Para cisticercose: corticoides, anticonvulsivantes e, algumas vezes, albendazole ou praziquantel e/ou cirurgia

Tratamento da infecção intestinal

Infecção intestinal é tratada com praziquantel, 5 a 10 mg/kg, VO, em dose única, para eliminar vermes adultos. Praziquantel deve ser usado com precaução nos pacientes que também têm neurocisticercose porque, ao matar os cistos, o praziquantel pode desencadear uma resposta inflamatória associada a convulsões ou outros sintomas.

Alternativamente, uma única dose de 2 g de niclosamida (não disponível nos EUA) é dada em 4 comprimidos (500 mg cada) que são mastigados um de cada vez e engolidos com uma pequena quantidade de água. Para crianças, a dose é 50 mg/kg (máximo de 2 g).

Tratamento da neurocisticercose

O tratamento da neurocisticercose é difícil. Diretrizes detalhadas de prática clínica sobre o diagnóstico e tratamento da neurocisticercose foram publicadas como Diagnosis and Treatment of Neurocysticercosis pela Infectious Diseases Society of America e pela American Society of Tropical Medicine and Hygiene em 2018.

Os objetivos do tratamento inicial para neurocisticercose sintomática são

  • Reduzir a inflamação associada à degeneração dos cisticercos documentada por RM

  • Evitar convulsões, se presente, ou se o risco é alto

  • Aliviar a elevação da pressão intracraniana, se presente

Corticoides (prednisona, 60 mg VO uma vez ao dia, ou dexametasona, 6 mg VO uma vez ao dia) são utilizados para reduzir inflamação e aumento da pressão intracraniana.

Anticonvulsivantes convencionais são administrados para pacientes que apresentam convulsões. Esses fármacos podem ser usados como profilaxia para os pacientes com alto risco de convulsões, particularmente aqueles que têm múltiplas lesões degenerativas associadas com inflamação.

Intervenção neurocirúrgica pode ser necessária para os pacientes com aumento da pressão intracraniana ou cisticercos intraventriculares.

O tratamento anti-helmíntico da neurocisticercose é complicado, e recomenda-se a consulta com um especialista. A escolha do tratamento depende da localização, número e tamanho dos cisticercos; estágio da doença; e manifestações clínicas.

Nem todos os pacientes respondem ao tratamento e nem todos devem ser tratados (os cistos já podem estar mortos e calcificados, ou a resposta inflamatória ao tratamento pode ser pior que a doença).

Quando o tratamento anti-anti-helmíntico é utilizado, albendazol, 7,5 mg VO duas vezes ao dia durante 15 parece ser mais eficaz do que a alternativa, praziquantel, 16,6 mg/kg VO tid por 15 dias, mas alguns pacientes que não responderam ao albendazol, responderam ao praziquantel. Albendazol dado por ≥ 30 dias tem sido utilizado para tratar doença extensa e cistos no espaço subaracnoide (cisticercose racemosa), que são menos sensíveis aos anti-helmínticos. Ocasionalmente, albendazol e praziquantel são usados em conjunto.

Prednisona ou dexametasona é administrada simultaneamente com o anti-helmíntico para reduzir a inflamação que ocorre em resposta à morte dos cistos no cérebro. Corticoides aumentam o nível do metabólito ativo do albendazol no líquor, mas diminuem o nível praziquantel no líquor.

Nem albendazol nem praziquantel devem ser usados em pacientes com cisticercos oculares ou da medula espinal.

A presença de cisticercos intraventriculares é uma contraindicação relativa ao uso de anti-helmínticos porque a resposta inflamatória resultante provocada pela morte dos cistos pode causar hidrocefalia obstrutiva.

Cirurgia pode ser necessária para tratar hidrocefalia obstrutiva (decorrente de cisticercose intraventricular, incluindo aqueles do 4º ventrículo) ou cisticercose espinal ou ocular. Os cisticercos intraventriculares são removidos por via endoscópica, quando possível. Derivações ventriculares podem ser necessárias para reduzir o aumento da pressão intracraniana.

Prevenção

Pode-se prevenir a infecção intestinal por T. solium cozinhando cortes inteiros de carne de porco a ≥ 63 °C aferidos com termômetro alimentar colocado na parte mais espessa da carne, permitindo a seguir que a carne descanse por 3 minutos antes de cortar ou consumir. Deve-se cozinhar a carne de porco moída a ≥ 71 °C. A carne de porco moída não requer um período de descanso.

A identificação e o tratamento dos portadores de T. solium adultas são uma importante medida de prevenção da cisticercose. Nos EUA, a transmissão ocorreu quando as pessoas que foram infectadas em áreas endêmicas tinham T. solium no intestino e então contaminaram os alimentos com as fezes.

Lavar as mãos com cuidado é importante, especialmente ao manusear alimentos.

Ao viajar para as regiões endêmicas com más condições de saneamento, as pessoas devem ter o cuidado de evitar alimentos que possam estar contaminados por fezes humanas e evitar o consumo de carne de porco crua ou inadequadamente cozida.

Pontos-chave

  • A ingestão de cistos T. solium pode causar infecção intestinal; a ingestão de ovos pode resultar em cistos teciduais (cisticercose), que são particularmente problemáticos quando estão no cérebro.

  • Pacientes com neurocisticercose podem apresentar convulsões, sinais de elevação da pressão intracraniana, estado mental alterado, sinais neurológicos focais ou meningite asséptica.

  • Diagnosticar a infecção intestinal por vermes adultos identificando as proglotes nas fezes e os ovos por exame microscópico de amostras das fezes.

  • Diagnosticar a neurocisticercose por neuroimagem e testes sorológicos.

  • Administrar praziquantel para infecção intestinal.

  • Consultar um especialista para neurocisticercose; normalmente corticoides são dados com anticonvulsivantes a pacientes que têm convulsões associadas ou que são considerados como de alto risco de convulsões.

  • O uso de anti-helmínticos e/ou cirurgia para neurocisticercose depende da localização, número e tamanho dos cisticercos; estágio da doença; e manifestações clínicas.

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