Manual MSD

Please confirm that you are not located inside the Russian Federation

honeypot link

Manifestações clínicas do SARS-CoV-2

Página inicial de recursos sobre a COVID-19 
Pelo Dr. Matthew E. Levison, professor adjunto de medicina na Faculdade de Medicina da Universidade Drexel

14/02/2021

Uma doença sistêmica de múltiplos órgãos

 

Os pulmões são um alvo importante para o SARS-CoV-2. No entanto, o SARS-CoV-2 também causa lesões em muitos outros sistemas de órgãos, como coração, rins e fígado. Compreender que a COVID-19 é uma doença sistêmica de múltiplos órgãos é essencial para seu tratamento clínico.

 

O espectro da apresentação clínica da COVID-19 é amplo, desde nenhum sintoma ou sintomas mínimos, até pneumonia viral grave com insuficiência respiratória, disfunção de múltiplos órgãos, sepse e morte. Até 40% a 45% dos infectados são assintomáticos quando testados para o vírus, muitos dos quais permanecem assintomáticos, eliminando, contudo, o vírus pelo trato respiratório superior e sendo capazes de transmitir o vírus para outras pessoas (1). Outros pacientes se tornam sintomáticos com um período médio de incubação de cerca de 5 dias, variando entre 2 e 14 dias, após a exposição (2).

 

Felizmente, cerca de 80% das pessoas infectadas terão doença leve, que pode ser tratada ambulatorialmente; 15% com doença mais grave (dispneia, hipóxia ou > 50% de envolvimento pulmonar em exames de imagem) exigirão hospitalização, e outros 5% com doença crítica (insuficiência respiratória, choque ou disfunção sistêmica de múltiplos órgãos) exigirão internação na UTI (3). Globalmente, a taxa de letalidade dos casos fica em torno de 4%, mas varia com base nas características demográficas da população local. Todas as idades são suscetíveis à infecção, mas a gravidade e o risco de morte são maiores em idosos, pobres, em populações negras e latinas e naquelas com certas comorbidades pré-existentes, como obesidade, diabetes, hipertensão e doença pulmonar e cardiovascular.

 

Algumas pessoas infectadas e totalmente assintomáticas podem, no entanto, apresentar baixa saturação de oxigênio no sangue, chamada “hipóxia silenciosa”, e podem ter evidências de envolvimento pulmonar em exames de imagem do tórax quando esses estudos são feitos, por exemplo, quando o paciente é atendido no PS para um problema não relacionado, como trauma (4). A hipercapnia (CO2 elevado no sangue) é rara nesses pacientes, o que pode explicar por que os pacientes com COVID-19 podem não se queixar de falta de ar até que a doença pulmonar esteja muito avançada e a hipóxia seja grave.

 

Febre, calafrios, fadiga, tosse seca, anorexia, mialgia, diarreia e produção de escarro são sintomas comuns. A perda de olfato (anosmia) e perda de paladar (disgeusia) também são comumente relatadas. Dor de garganta, congestão nasal e rinorreia são menos comuns. Alguns indivíduos permanecem afebris. Outros apresentam sintomas leves por 8 a 9 dias, até que o início súbito ou piora da falta de ar (dispneia) leve a uma consulta no PS. Pode ser necessário suporte ventilatório logo após o início da dispneia (mediana: 2,5 dias).

 

O envolvimento cardíaco é indicado pelos níveis elevados de troponina e anormalidades em eletrocardiogramas e ecocardiogramas (5). A infecção por SARS-CoV-2 pode desestabilizar placas ateroscleróticas coronarianas anteriormente assintomáticas ou pode causar a formação de coágulos de sangue nos vasos coronários, resultando em obstrução do fluxo sanguíneo arterial coronário. Houve suspeita de miocardite causada pelo SARS-CoV-2, mas não foi comprovada por biópsia e não foi descrita até o momento. Embora os relatórios iniciais sugerissem que pacientes com COVID-19 apresentavam uma alta incidência de parada cardíaca e arritmias, um estudo de 700 pacientes consecutivos admitidos no Hospital da Universidade da Pensilvânia ao longo de 9 semanas concluiu que as arritmias cardíacas eram provavelmente decorrentes de uma doença sistêmica e não apenas de efeitos diretos da infecção de COVID-19 (6).

 

Alguns pacientes desenvolvem proteinúria e insuficiência renal aguda. Cerca de 15% a 30% dos pacientes com COVID-19 na UTI precisam receber terapia de reposição renal. No exame post-mortem, foi observada lesão tubular aguda proximal na histologia renal, com partículas semelhantes ao coronavírus no citoplasma do epitélio tubular proximal e podócitos, locais de expressão conhecida da ECA2 (7). O envolvimento hepático é indicado por níveis séricos elevados de alanina aminotransferase e aspartato aminotransferase.

A COVID-19 é frequentemente complicada por uma coagulopatia, com níveis elevados de dímero D, mas ao contrário da coagulação intravascular disseminada (CID) associada à sepse, sangramento significativo é incomum, o tempo de protrombina e o tempo de tromboplastina parcial estão normais ou levemente prolongados, o nível de fibrinogênio está frequentemente aumentado e a contagem de plaquetas está normal ou levemente diminuída (8, 9, 10). Relatórios descrevem uma frequência elevada de tromboembolia venosa e patologia pulmonar que mostra trombose microvascular acentuada associada a inflamação alveolar e intersticial extensa, sugerindo que a coagulação está contribuindo para a insuficiência respiratória nesses pacientes.

O comprometimento neurológico é comum na COVID-19. Um estudo nacional no Reino Unido observou pacientes com COVID-19 diagnosticados com estado mental alterado, psicose de início recente, comprometimento neurocognitivo (semelhante à demência) e um transtorno afetivo (11). Também há relatos de pacientes com encefalite e PCR de LCR positiva para SARS-CoV-2 (12) e encefalopatia necrosante aguda (13). A COVID-19 pode causar AVC isquêmico; e tem sido observado que esses pacientes são mais jovens, apresentam sintomas piores e têm uma probabilidade pelo menos sete vezes maior de morrer do que pessoas que tiveram AVC não associado à COVID-19 (14). Pacientes que necessitam de ventilação mecânica e/ou estadias prolongadas na UTI podem apresentar sintomas, incluindo fadiga crônica, alteração da capacidade cognitiva, TEPT e transtornos afetivos.

 

A linfopenia é o achado laboratorial mais comum em pacientes hospitalizados com COVID-19 e tem sido associada a uma doença grave. A elevação acentuada da ferritina sérica ocorre em pacientes com COVID-19 grave, complicada por “tempestade de citocinas”, que é definida pela liberação excessiva e descontrolada de citocinas pró-inflamatórias (IL-2, IL-6, IL-10 e TNF-α) e marcadores inflamatórios, como proteína C-reativa e hemossedimentação. A “tempestade de citocinas” na COVID-19 aparece mais tarde na evolução hospitalar. Segundo relatos, ela aparece após uma melhora clínica inicial e está associada à piora da lesão pulmonar, falência múltipla de órgãos e prognóstico desfavorável.

 

 

Sintomas da COVID-19 em crianças

 

A maioria das crianças é assintomática ou apresenta sintomas leves quando infectadas pela COVID-19, mas no final de abril de 2020, observou-se que algumas crianças apresentavam o que veio a ser chamado de síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P), uma nova apresentação da COVID-19, que apresenta algumas características semelhantes à doença de Kawasaki (mas, ao contrário da doença de Kawasaki, ocorre em um grupo etário mais velho), síndromes do choque tóxico por estafilococos e estreptococos, sepse bacteriana e síndromes de ativação macrofágica (15).

 

As crianças afetadas (2 a 16 anos de idade) apresentam febre prolongada, fadiga, dor de garganta, dor de cabeça, dor abdominal e vômitos, com envolvimento de múltiplos órgãos (p. ex., sistema cardíaco, gastrointestinal, renal, hematológico, dermatológico, neurológico), progredindo rapidamente para choque e disfunção de órgãos. Um estudo na Inglaterra incluiu 58 pacientes com SIM-P e descobriu que todas as crianças apresentavam febre e sintomas inespecíficos, incluindo dor abdominal, diarreia, vômito, erupção cutânea e hiperemia conjuntival, cada um ocorrendo em cerca de 50% dos pacientes (16). Ao contrário dos adultos com COVID-19, apenas um terço apresenta sintomas respiratórios. A maioria apresenta disfunção sistólica ventricular esquerda e algumas têm dilatação ou aneurismas de artérias coronarianas. Os resultados laboratoriais mostram proteína C-reativa (PCR) elevada, ferritina elevada, linfopenia e dímero D elevado, e algumas crianças apresentam níveis elevados de troponina e peptídeo natriurético cerebral (BNP), sugerindo lesão cardíaca. Algumas apresentam creatinina sérica elevada. Algumas requerem suporte circulatório ou respiratório ou, em casos raros, oxigenação por membrana extracorpórea.

 

Até 8 de janeiro de 2021, houve 1.659 casos nos EUA que atenderam à definição de caso para SIM-P, com 26 óbitos; 99% dos casos apresentaram teste positivo para SARS CoV-2, com os restantes 1% sendo expostos a alguém com COVID-19. A maioria das crianças desenvolveu SIM-P 2 a 4 semanas após a infecção com SARS-CoV-2, e mais de 70% dos casos ocorreram em crianças hispânicas ou latinas, ou negras não hispânicas (17).

 

A maioria dos pacientes recebeu tratamento com imunoglobulina intravenosa (IVIG) e alguns foram tratados com esteroides intravenosos e heparina. Testes sorológicos devem ser realizados antes da administração de IVIG ou de qualquer outro tratamento com anticorpos exógenos.

 

Pacientes com menos de 21 anos de idade que atendam aos critérios do CDC para SIM-P (18) devem ser notificados ao departamento de saúde local, estadual ou territorial. Os critérios do CDC para SIM-P são:

  • Febre (>38,0 °C por ≥24 horas, ou relato de febre subjetiva com duração ≥24 horas), evidências laboratoriais de inflamação (níveis elevados de CRP, velocidade de hemossedimentação, fibrinogênio, dímero D, ferritina, lactato desidrogenase, IL-6 ou razão neutrófilos/linfócitos; níveis baixos de albumina) e evidências de doença clínica grave que requer hospitalização, com envolvimento de órgãos de múltiplos sistemas (>2) (sistema cardíaco, renal, respiratório, hematológico, gastrointestinal, dermatológico ou neurológico); E
  • nenhum diagnóstico alternativo plausível; E
  • RT-PCR, sorologia ou teste de antígeno positivo para infecção atual ou recente por SARS-CoV-2; ou exposição a um caso suspeito ou confirmado de COVID-19 nas 4 semanas anteriores ao início dos sintomas

 

 

Complicações de longo prazo da COVID-19

 

Em geral, a COVID-19 é uma doença de curto prazo. Normalmente, as pessoas com sintomas leves se recuperam em cerca de 2 semanas, enquanto aquelas com doença grave ou crítica se recuperam em 3 a 6 semanas. No entanto, em alguns pacientes, os sintomas debilitantes persistem por semanas ou até meses. Em alguns desses pacientes, os sintomas nunca desapareceram.

Muitos estudos documentaram danos persistentes em muitos órgãos ou sistemas, incluindo pulmões, coração, cérebro, rins e sistema vascular, em pacientes infectados com SARS-CoV-2. O dano parece ser causado por respostas inflamatórias intensas, microangiopatia trombótica, tromboembolismo venoso e privação de oxigênio. Foi documentado que a lesão nos órgãos persiste nos pulmões, coração, cérebro e rins, mesmo em algumas pessoas que inicialmente apresentavam apenas sintomas leves. O ritmo lento da recuperação explica prontamente a duração do que passou a ser chamado de “síndrome pós‑COVID”. Algumas pessoas também podem apresentar a síndrome pós-tratamento intensivo, um conjunto de sintomas que, às vezes, ocorre em pessoas que estavam internadas em uma unidade de tratamento intensivo, e que envolve fraqueza muscular, problemas de equilíbrio, declínio cognitivo e distúrbios de saúde mental observados após a alta da unidade de cuidados intensivos que geralmente envolvem um período prolongado de ventilação mecânica (19).

A persistência dos sintomas também ocorreu após a infecção por outro coronavírus, SARS-CoV-1, o vírus que causou a epidemia da síndrome respiratória aguda grave (SARS) em 2002–2003. Os sintomas persistentes assemelham-se à síndrome da fadiga crônica/encefalomielite miálgica (SFC/EM). Fadiga persistente, dor muscular, depressão e sono interrompido impediram pacientes com SARS em Toronto, a maioria dos quais eram profissionais de saúde, de retornar ao trabalho por até 20 meses após a infecção (20). Foi relatado que 40% dos 233 sobreviventes de SARS em Hong Kong apresentavam fadiga crônica após cerca de 3 a 4 anos, e 27% atendiam aos critérios descritos pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (Centers for Disease Control and Prevention, CDC) para SFC/EM (21). Muitos permaneceram desempregados e sofreram estigmatização social (22).

A doença semelhante à SFC/EM, na qual algumas pessoas melhoram rapidamente, mas outras permanecem doentes por períodos prolongados, tem acompanhado muitas outras doenças infecciosas. Os exemplos incluem influenza, infecção pelo vírus Epstein-Barr (mononucleose infecciosa – 23), brucelose, febre Q (infecção por Coxiella burnetii – 24), infecção pelo vírus Ebola (25) e infecção pelo vírus Ross River (26).

 

Também se diz que a doença persistente após a COVID-19 se assemelha à SFC/EM (27), e pessoas com síndrome pós-COVID-19 deram a si mesmas o nome de “long-haulers” (portadores de longo curso). No entanto, não existe uma imagem clara do que constitui a síndrome pós‑COVID-19. Sem uma definição formalmente aceita para a síndrome pós-COVID-19, é difícil avaliar a sua frequência, quanto tempo ela dura, quem corre o risco de desenvolver a síndrome, o que a causa, qual é a sua fisiopatologia e como tratar e preveni-la. Contudo, vários estudos estão começando a definir este grupo de pacientes.

O CDC conduziu uma pesquisa telefônica em vários estados, de abril a junho de 2020, entrevistando adultos não hospitalizados com um teste de reação em cadeia da polimerase via transcriptase reversa (RI-PCR) positivo para infecção por SARS-CoV-2 (28). Os entrevistados foram inquiridos sobre características demográficas, quadros clínicos crônicos basais, sintomas presentes no momento do teste, se esses sintomas haviam sido resolvidos até a data da entrevista e se eles haviam retornado ao seu estado de saúde habitual no momento da entrevista. Dos 274 entrevistados sintomáticos no momento do teste de PCR, cerca de um terço relatou não ter retornado ao seu estado de saúde habitual quando entrevistados 2 a 3 semanas após o teste. Dentre os jovens, com idades entre 18 e 34 anos, sem quadros clínicos crônicos, 20% não haviam retornado ao seu estado de saúde habitual. No entanto, a idade avançada e a presença de múltiplos quadros clínicos crônicos foram mais comumente associadas à doença prolongada, que estava presente em 26% dos pacientes entre 18 e 34 anos de idade, 32% dos pacientes entre 35 e 49 anos de idade e 47% dos pacientes a partir de 50 anos de idade. Fadiga (71%), tosse (61%) e dor de cabeça (61%) foram os sintomas mais frequentemente relatados. Esses achados indicam que a COVID-19 pode resultar em doença prolongada mesmo em pessoas com doença ambulatorial mais leve, incluindo adultos jovens. Essa descoberta é particularmente preocupante, pois surtos estão surgindo em campi universitários.

Em outro estudo em Roma, Itália, com 143 pacientes (idade média de 57 anos) após cerca de duas semanas de hospitalização por COVID-19, muitos pacientes ainda enfrentavam sintomas, em média, 60 dias após o início da doença; 87% ainda apresentavam, pelo menos, um sintoma e 55% apresentavam 3 ou mais sintomas (23). A qualidade de vida havia piorado em 44%, com fadiga (53,1%), dificuldade respiratória (43%), dor articular, (27%) e dor torácica (22%) persistindo em muitos dos pacientes. Nenhum tinha febre ou quaisquer sinais ou sintomas de doença aguda.

No entanto, muitas informações que caracterizam os dados demográficos, o curso temporal e a sintomatologia da síndrome pós-COVID-19 foram geradas e analisadas pelos próprios “long-haulers” que pertencem ao Grupo de Suporte on-line da Body Politic para a COVID-19 e que têm experiência em pesquisa, elaboração de enquetes e análise de dados. A pesquisa on-line que eles desenvolveram e destinaram àqueles cujos sintomas persistiram por mais de duas semanas recebeu 640 respostas de 21 de abril a 2 de maio de 2020 (29).

 

Os entrevistados eram predominantemente jovens (63% com idade de 30 a 49 anos), brancos (77%) e mulheres (77%), vivendo nos Estados Unidos (72%) ou no Reino Unido (13%). A maioria não chegou a ser hospitalizada, ou se foi hospitalizada, não foi internada em uma UTI ou colocada em um ventilador, então seus casos contaram, tecnicamente, como “leves”. Muitos foram atendidos em um pronto-socorro/unidade de atendimento de emergência, mas não foram internados. Todos os entrevistados foram incluídos, independentemente do status do teste RT-PCR para SARS-CoV-2. Em cerca de 25%, o teste RT-PCR foi positivo; mas quase 50% dos participantes nunca foram testados, porque os testes durante esses meses (março e abril de 2020) estavam muitas vezes limitados a pessoas hospitalizadas com problemas respiratórios graves, e seus sintomas foram considerados “clássicos”, tornando os testes desnecessários em um momento em que os kits de testes de PCR estavam em falta, ou os testes foram negados, porque seus sintomas não correspondiam aos critérios predefinidos.

Outros 25% dos entrevistados apresentaram resultado negativo, mas um resultado negativo não significa que essas pessoas não tiveram COVID-19. Alguns testes negativos foram, provavelmente, resultados falso-negativos, o que ocorre em até 30% das vezes (30). Outros foram testados relativamente tarde no curso da doença, em um momento em que o vírus podia não ser mais detectável (31). Na pesquisa, os entrevistados com resultados negativos para o teste de RT‑PCR foram, de fato, testados uma semana mais tarde em relação aos que tiveram resultados positivos.

Os sintomas relatados foram diversos e abrangeram o trato respiratório e os sistemas neurológico, cardiovascular, gastrointestinal e vários outros. Os dez principais sintomas, relatados por 70% ou mais dos entrevistados, incluíram falta de ar, aperto no peito, fadiga, calafrios ou suores, dores no corpo, tosse seca, “temperatura elevada” (37,1 ºC a 37,7 ºC), dor de cabeça e confusão mental/dificuldade de concentração. Foi relatada fadiga extrema a ponto de impedir que a pessoa levantasse da cama, dor de cabeça intensa, febre (acima de 37,8 ºC) e perda do paladar ou olfato por 40% a 50% dos entrevistados. Setenta por cento (70%) apresentaram flutuações no tipo e 89% na intensidade dos sintomas ao longo do período sintomático. Alguns pacientes observaram que os sintomas voltaram ou se intensificaram com atividade física ou eram mais intensos à noite. Cerca de 70% estavam fisicamente em forma antes do início dos sintomas, mas 70% relataram ficar sedentários após o início dos sintomas.

Cerca de 10% dos entrevistados haviam se recuperado, em média, após cerca de 4 semanas. Os 90% que não haviam se recuperado apresentaram sintomas por 40 dias em média. Uma grande proporção dos entrevistados apresentou sintomas por 5 a 7 semanas. A chance de recuperação completa até o dia 50 foi estimada como sendo menor que 20%.

No entanto, resultados de pesquisas como esta estão sujeitos a viés. Os participantes das pesquisas podem diferir dos não participantes; por exemplo, pode ter havido viés de gênero, visto ser mais provável que mulheres participem de grupos de apoio e respondam pesquisas on-line; pacientes com doenças mais graves podem não ter sido capazes de responder ou não conseguir se lembrar dos eventos com precisão. As pesquisas on-line também podem ser direcionadas para entrevistados com status econômico mais elevado, mais jovens e com mais experiência com computadores e omitir minorias economicamente desfavorecidas, os sem-teto, aqueles sem banda larga e sem computadores, além daqueles que têm medo de responder, como imigrantes sem documentos.

Desde a emissão de seu relatório, a equipe do Grupo de Suporte da Body Politic para a COVID-19 se reuniu com a equipe dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças e da Organização Mundial da Saúde (32) e emitiu uma segunda pesquisa para preencher as lacunas do seu primeiro relatório; examinar os resultados dos testes de anticorpos, os sintomas neurológicos e o papel da saúde mental, além de aumentar a diversidade geográfica e demográfica (33).

Muitos “long-haulers” relatam que seus sintomas persistentes estão sendo minimizados. Dizem a essas pessoas que talvez elas estejam exagerando, imaginando ou até mesmo inventando essa doença capaz de alterar a vida. Atividades físicas simples, como levantar da cama, se arrumar, preparar refeições simples e tomar banho, podem ser exaustivas para algumas pessoas. Ser incapaz de cuidar de si e de suas famílias, ser incapaz de trabalhar e perder renda e, possivelmente, seguro de saúde oferecido pelo empregador, trazem encargos adicionais. Os planejadores da assistência à saúde e formuladores de políticas devem se preparar para atender às necessidades das muitas pessoas que foram afetadas por esta doença e suas famílias, enquanto os estudos em andamento investigam causas e maneiras de mitigar a síndrome pós-COVID.

 

Referências

 

1. Oran DP, Topol EJ: Prevalence of asymptomatic SARS-CoV-2 infection. Annals of Internal Medicine 3 de junho de 2020. Acessado em 23 de julho de 2020. https://www.acpjournals.org/doi/10.7326/M20-3012

 

2. Backer JA, Klinkenberg D, Wallinga J: Incubation period of 2019 novel coronavirus (2019-nCoV) infections among travellers from Wuhan, China, 20-28 de janeiro de 2020. Eurosurveillance 25 (5):pii=2000062, 2020. https://www.eurosurveillance.org/content/10.2807/1560-7917.ES.2020.25.5.2000062

 

3. Centers for Disease Control and Prevention: Healthcare workers: Interim clinical guidance for management of patients with confirmed coronavirus disease (COVID-19). 30 de junho de 2020. Acessado em 23 de julho de 2020. https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/hcp/clinical-guidance-management-patients.html

 

4. Levitan R: Opinion: The infection that is silently killing coronavirus patients. New York Times, 20 de abril de 2020. Acessado em 23 de julho de 2020. https://www.nytimes.com/2020/04/20/opinion/sunday/coronavirus-testing-pneumonia.html

 

5. Bonow RO, Fonarow GC, O’Gara PT, et al: Association of coronavirus disease 2019 (COVID-19) with myocardial injury and mortality. JAMA Cardiology 5(7):751-753, 2020.https://jamanetwork.com/journals/jamacardiology/fullarticle/2763844

 

6. Bhatla A, Mayer MM, Adusumalli S, et al: Covid-19 and cardiac arrhythmias. Heart Rhythm 17(9): 1439-1444, 2020. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32585191/

7. Su H, Yang M, Wan C, et al: Renal histopathological analysis of 26 postmortem findings of patients with COVID-19 in China. Kidney International 98(1): P219-227, 2020. https://www.kidney-international.org/article/S0085-2538(20)30369-0/fulltext 

 

8. Wood GD, Miller JL: The impact of COVID-19 disease on platelets and coagulation. Pathobiology 88:15-27, 2021. https://www.karger.com/Article/FullText/512007

 

9. Mei H, Luo L, Hu Y: Thrombocytopenia and thrombosis in hospitalized patients with COVID-19. J Hematol Oncol 13, 161, 2020. Doi: 10.1186/s13045-020-01003-z https://jhoonline.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13045-020-01003-z

 

10. Zong X, Gu Y, Yu H, et al: Thrombocytopenia is associated with COVID-19 severity and outcome: An update meta-analysis of 5637 patients with multiple outcomes. Lab Med 52:10-15, 2021. Doi: 10.1093/labmed/lmaa067 https://academic.oup.com/labmed/article/52/1/10/5905622

 

11. Varatharaj A, Thomas N, Ellul MA, et al: Neurological and neuropsychiatric complications of COVID-19 in 153 patients: A UK-wide surveillance study. Lancet Psychiatry 25 de junho de 2020. Acessado em 23 de julho de 2020. https://www.thelancet.com/journals/lanpsy/article/PIIS2215-0366(20)30287-X/fulltext

 

12. Xinhua: Beijing hospital confirms nervous system infections by novel coronavirus. Xinhuanet. 05-03-2020. Acessado em 30 de julho de 2020. http://www.xinhuanet.com/english/2020-03/05/c_138846529.htm

 

13. Poyiadji N, Shahin G, Noujaim D, et al: COVID-19-associated acute hemorrhagic necrotizing encephalopathy: Imaging features. Radiology 269(2): 31 de março de 2020. Acessado em 23 de julho de 2020.https://pubs.rsna.org/doi/10.1148/radiol.2020201187

 

14. Yaghi S, Ishida K, Torres J, et al: SARS-CoV-2 and stroke in a New York Healthcare system. Stroke 51(7): 2002-2011, 2020. https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/STROKEAHA.120.030335

 

15. Fornell D: Kawasaki-like inflammatory disease affects children with COVID-19. Diagnostic and Interventional Cardiology, 20 de maio de 2020. Acessado em 23 de julho de 2020. https://www.dicardiology.com/article/kawasaki-inflammatory-disease-affects-children-covid-19

 

16. Whittaker E, Bamford A, Kenny J, et al: Clinical characteristics of 58 children with a pediatric inflammatory multisystem syndrome temporally associated with SARS-CoV-2. JAMA 324 (3): 259-269, 2020. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32511692/

 

17. Centers for Disease Control and Prevention: Health Department-Reported Cases of Multisystem Inflammatory Syndrome in Children (MIS-C) in the United States https://www.cdc.gov/mis-c/cases/index.html

 

18. Centers for Disease Control and Prevention: Information for healthcare providers about multisystem inflammatory syndrome in children. 28 de agosto de 2020. Acessado em 16 de janeiro de 2021 https://www.cdc.gov/mis-c/hcp/

 

19. Jaffri A, Jaffri UA: Post-intensive care syndrome after COVID-19: A crisis after a crisis? Heart Lung 18 de junho de 2020. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7301100/

 

20. Moldofsky H. Patcai J: Chronic widespread musculoskeletal pain, fatigue, depression and disordered sleep in chronic post-SARS syndrome; a case-controlled study. BMC Neurol 11:1–7, 2011. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3071317/

 

21. Lam MHB, Wing YK, Yu MWM, et al: Mental morbidities and chronic fatigue in severe acute respiratory syndrome survivors: long-term follow-up. Arch Intern Med 169:2142-2147, 2009. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20008700/

 

22. Katz BZ, Shiraishi Y, Mears CJ, et al: Chronic fatigue syndrome following infectious mononucleosis in adolescents: A prospective cohort study. Pediatrics 124: 189-193, 2009.https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2756827/

 

23. Morroy G, Keijmel SP, Delsing CE, et al: Fatigue following acute Q fever: A systematic literature review. PloS One 11(5): e0155884, 2016. doi:10.1371/journal.pone.0155884 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4880326/

 

24. PREVAIL III Study Group, Sneller MC, Reilly C, et al: A longitudinal study of Ebola sequelae in Liberia. N Engl J Med 380(10):924-934, 2019.https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30855742/

 

25. Centers for Disease Control and Prevention: Myalgic encephalomyelitis/Chronic fatigue syndrome: Possible causes. Atualizado em 12 de julho de 2018. Acessado em 22 de setembro de 2020.https://www.cdc.gov/me-cfs/about/possible-causes.html

 

26. Perrin R, Riste L, Hann M: Into the looking glass: Post-viral syndrome post COVID-19. [publicado on-line antes da impressão, 27 de junho de 2020]. Med Hypotheses 144:110055, 2020. doi:10.1016/j.mehy.2020.110055 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7320866/

 

27. Tenforde MW, Kim SS, Lindsell CJ, et al: Symptom duration and risk factors for delayed return to usual health among outpatients with COVID-19 in a multi-state health care systems network-United States, março a junho de 2020. MMWR 69:993-998, 31 de julho de 2020. https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/69/wr/mm6930e1.htm?s_cid=mm6930e1_e&deliveryName=USCDC_921-DM33740

 

28. Carfi A, Bernabei R, Landi F, et al: Persistent symptoms in patients after acute COVID-19. JAMA 324:603-605, 2020. https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2768351

 

29. Patient-led Research for COVID-19: Report: What does Covid-19 recovery actually look like? 11 de maio de 2020. Acessado em 22 de setembro de 2020. https://patientresearchcovid19.com/research/report-1/

 

30. Krumholz HM: If you have coronavirus symptoms, assume you have the illness, even if you test negative. New York Times, 1º de abril de 2020. Acessado em 22 de setembro de 2020. https://www.nytimes.com/2020/04/01/well/live/coronavirus-symptoms-tests-false-negative.html

 

31. Kucirka LM, Lauer SA, Laeyendecker O, et al: Variation in false-negative rate of reverse transcriptase polymerase chain reaction-based SARS-CoV-2 tests by time since exposure. Ann Intern Med 173:262-267, 2020. https://www.acpjournals.org/doi/10.7326/M20-1495

 

32. Collins F: Body Politic COVID-19 Support Group: Citizen scientists take on the challenge of long-haul COVID-19. NIH Director’s Blog, 03 de setembro de 2020. Acessado em 22 de setembro de 2020. https://directorsblog.nih.gov/tag/body-politic-covid-19-support-group/

 

33. Akrami A, et al: Online survey on recovery from COVID-19 (survey 2). Patient-led research for Covid-19. Acessado em 22 de setembro de 2020. https://patientresearchcovid19.com/survey2/

 

Página inicial de recursos sobre a COVID-19