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Doença

Disforia de gênero

(Transtorno de disforia de gênero)

Por

George R. Brown

, MD, East Tennessee State University

Última revisão/alteração completa abr 2021| Última modificação do conteúdo abr 2022
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A disforia de gênero é quando a pessoa apresenta sentimentos de angústia significativa ou dificuldade de funcionamento relacionados a um sentimento persistente de que o sexo ao nascimento não corresponde ao seu sentimento interno de ser do sexo masculino, feminino, misto, neutro ou outra coisa (identidade de gênero).

  • Algumas pessoas sentem que seu gênero não é compatível com o sexo ao nascimento e algumas sentem que não são do sexo masculino nem do feminino, que são algo entre os dois, que são uma combinação dos dois ou que sua identidade muda.

  • As pessoas com disforia de gênero apresentam angústia ou comprometimento do desempenho funcional relacionados a uma incompatibilidade entre o sexo ao nascimento e sua identidade de gênero.

  • O médico faz o diagnóstico tomando por base os sintomas significativos de angústia psicológica (por exemplo, ansiedade ou depressão) apresentados por uma pessoa transgênero.

  • As opções de tratamento para aliviar a angústia incluem psicoterapia e, às vezes, terapia hormonal de afirmação de gênero ou cirurgia de confirmação de gênero.

Algumas pessoas sentem consistentemente que estão vivendo em um corpo incompatível com seu sentimento interno de ser do sexo masculino, feminino ou outra coisa (identidade de gênero). Esses sentimentos podem começar durante a infância. Por exemplo, algumas pessoas que são rotuladas como homens no nascimento sentem-se como mulheres presas a um corpo de homem e vice-versa. Esse sentimento de incompatibilidade (a denominada incongruência de gênero ou não-conformidade de gênero) não é considerado um transtorno a menos que cause angústia significativa ou interfira com a capacidade de funcionamento da pessoa. A angústia normalmente é uma combinação de ansiedade, depressão e irritabilidade.

Algumas pessoas sentem que não são nem do sexo masculino nem do feminino, que são algo entre os dois, que são uma combinação dos dois ou que sua identidade muda. A não binaridade é um termo geral que se refere a algumas dessas variações de identidade de gênero. Outros termos que podem ser usados são não binário e agênero.

Não se sabe quantas pessoas têm disforia de gênero, mas estima-se que ela ocorra em cinco a 14 em cada mil bebês cujo sexo de nascimento é masculino e em dois a três em cada mil bebês cujo sexo de nascimento é feminino. Um número muito maior de pessoas se identifica como transgênero que as que de fato atendem aos critérios para disforia de gênero.

No travestismo Travestismo O travestismo envolve excitação sexual recorrente e intensa ao usar vestimentas do sexo oposto. O transtorno de travestismo é o travestismo que causa angústia significativa ou que interfere... leia mais , as pessoas (quase sempre homens) sentem excitação sexual ao vestir roupas do sexo oposto, porém não têm um sentimento interno de pertencerem, de fato, a esse sexo.

No caso de algumas pessoas com disforia de gênero, o sentimento de incompatibilidade entre o sexo anatômico e a identidade de gênero é completa, grave, perturbadora e de longa duração, e elas tendem a procurar tratamento medicamentoso e procedimentos para resolver essa incompatibilidade. O termo transexualismo costumava ser usado para descrever esse quadro clínico, mas caiu em desuso pelos profissionais; no entanto, muitas pessoas cuja identidade de gênero difere da que é normalmente associada a seu sexo biológico referem a si mesmas como sendo “trans”.

A maioria dessas pessoas é biologicamente do sexo masculino e se identifica como sendo do sexo feminino, normalmente logo no começo da infância, e desprezam seus órgãos genitais e características masculinas. No entanto, a maioria das crianças com problemas de identidade de gênero não se torna adultos trans.

Pessoas que nasceram com órgãos genitais que não são claramente masculinos ou femininos (órgãos genitais ambíguos Sintomas Sintomas ) ou que têm uma anomalia genética como, por exemplo, a síndrome de Turner Síndrome de Turner A síndrome de Turner é uma anomalia dos cromossomas sexuais em que as meninas nascem com um dos cromossomos X parcial ou completamente ausente. A síndrome de Turner é causada pela deleção parcial... leia mais Síndrome de Turner ou a síndrome de Klinefelter Síndrome de Klinefelter A síndrome de Klinefelter é uma anomalia do cromossomo sexual, na qual os meninos nascem com dois cromossomos X e um Y (XXY). A síndrome de Klinefelter ocorre quando um menino tem um cromossomo... leia mais Síndrome de Klinefelter , podem vir a apresentar graus variados de disforia de gênero. Contudo, quando crianças são clara e consistentemente consideradas meninos ou meninas e tratadas como tal, mesmo quando os órgãos genitais são ambíguos, a maioria tem um claro senso da sua identidade de gênero.

Sintomas da disforia de gênero

A disforia de gênero em crianças geralmente se desenvolve entre dois a três anos de idade.

Sintomas da disforia de gênero em crianças

Crianças que apresentam disforia de gênero podem fazer o seguinte:

  • Preferem se vestir como pessoas do sexo oposto (transvestir-se)

  • Insistem que pertencem ao sexo oposto

  • Desejam acordar como o outro sexo

  • Preferem participar de jogos e atividades associados ao outro sexo

  • Têm sentimentos negativos em relação aos seus órgãos genitais

Por exemplo, uma menina pode insistir que nela vai nascer um pênis e ela que se tornará um menino e pode urinar em pé. Um garoto pode fantasiar com a ideia de ser uma mulher e evitar brincadeiras fisicamente intensas e jogos competitivos. Ele pode se sentar para urinar e desejar se livrar do seu pênis e de seus testículos. Para meninos com disforia de gênero, a angústia pelas mudanças físicas da puberdade é em geral seguida pela solicitação de um tratamento que faça seu corpo parecer mais com o de uma mulher.

No entanto, a maioria das crianças que dá preferência a atividades consideradas mais adequadas ao sexo oposto (o que é chamado de comportamento não compatível com o gênero) não apresenta disforia de gênero, e um número bastante pequeno de crianças que são de fato diagnosticadas com disforia de gênero continuam a apresentar a disforia de gênero na idade adulta. Assim, a necessidade ou não de apoiar a transição social e/ou médica da criança para o outro gênero e qual é o momento que esse apoio deve ser prestado são assuntos controversos.

Sintomas da disforia de gênero em adultos

Embora a maioria das pessoas com disforia de gênero comece a apresentar sintomas ou a se sentir diferente logo no começo da infância, algumas não reconhecem esses sentimentos até a idade adulta.

As pessoas, normalmente homens, podem primeiro se travestir e não reconhecer a sua identificação com o sexo oposto até uma fase posterior da vida. Alguns desses homens se casam com mulheres ou trabalham em áreas estereotipicamente masculinas para escapar ou negar o desejo de ser do sexo oposto. Assim que eles aceitam esses sentimentos, muitos adotam publicamente um papel social satisfatório e convincente do gênero feminino, com ou sem terapia hormonal ou cirurgia de confirmação de gênero (antigamente chamada cirurgia de mudança de sexo). Outros passam por problemas, como ansiedade Considerações gerais sobre transtornos de ansiedade A ansiedade é uma sensação de nervosismo, preocupação ou desconforto, sendo uma experiência humana normal. Ela também está presente em uma ampla gama de transtornos psiquiátricos, incluindo... leia mais , depressão Depressão Uma breve discussão sobre o transtorno do luto persistente. A depressão é um sentimento de tristeza e/ou diminuição do interesse ou prazer em realizar atividades que se torna um transtorno quando... leia mais e comportamento suicida Depressão Uma breve discussão sobre o transtorno do luto persistente. A depressão é um sentimento de tristeza e/ou diminuição do interesse ou prazer em realizar atividades que se torna um transtorno quando... leia mais . O estresse de não ser aceito pela sociedade e/ou pela família pode causar ou contribuir para esses problemas.

Diagnóstico da disforia de gênero

  • Avaliação de um médico com base em critérios específicos

A maioria das crianças com disforia de gênero não é avaliada até que atinja uma idade de seis a nove anos.

Os médicos diagnosticam a disforia de gênero quando as pessoas (crianças ou adultos) fazem o seguinte:

  • Sentem que seu sexo anatômico não é compatível com a identidade de gênero e sentem-se dessa maneira há seis meses ou mais

  • Sentem muita angústia ou não desempenham funções normalmente devido a esse sentimento

  • Apresentam determinados outros sintomas, que podem variar por faixa etária

Os outros sintomas necessários para que o médico diagnostique disforia de gênero em crianças diferem ligeiramente dos sintomas de adolescentes e adultos.

Crianças também precisam apresentar, no mínimo, seis dos seguintes sintomas:

  • Um forte e persistente desejo de serem ou a insistência de que são do sexo oposto (ou algum outro gênero)

  • Uma forte preferência por vestirem-se com roupas do gênero oposto e, em garotas, resistência em vestir roupas tipicamente femininas

  • Uma forte preferência por fingirem ser do gênero oposto quando estão brincando

  • Uma forte preferência por brinquedos, jogos e atividades típicas do outro gênero

  • Uma forte preferência por companheiros de brincadeiras do outro gênero

  • Uma forte rejeição de brinquedos, jogos e atividades típicas do gênero correspondente ao seu sexo anatômico (por exemplo, meninos se recusam a brincar com carrinhos ou jogar futebol)

  • Uma forte aversão à sua anatomia

  • Um forte desejo por características sexuais que correspondem à sua identidade de gênero

Adolescentes e adultos também precisam apresentar um ou mais dos seguintes sintomas:

  • Um forte desejo de se livrar de suas características sexuais e, no caso de adolescentes jovens, evitar o desenvolvimento de características sexuais secundárias (as que ocorrem durante a puberdade)

  • Um forte desejo por características sexuais que correspondem à sua identidade de gênero

  • Um forte desejo de ser do gênero oposto (ou algum outro gênero)

  • Um forte desejo de viver ou ser tratado como o gênero oposto

  • Uma forte crença de que se sentem e reagem como o gênero oposto

Tratamento da disforia de gênero

  • Psicoterapia

  • Às vezes, terapia hormonal de afirmação de gênero

  • Às vezes, cirurgia de confirmação de gênero e outras cirurgias relacionadas ao gênero

Adultos que sentem que seu sexo anatômico não corresponde à sua identidade de gênero podem não necessitar de tratamento, caso não sintam angústia psicológica ou problemas com o desempenho de funções na sociedade. Algumas pessoas estão satisfeitas em mudar o seu papel social de gênero trabalhando, vivendo e se vestindo na sociedade como alguém do gênero oposto. Essa abordagem pode incluir a obtenção de uma identificação (como a carteira de motorista) que os ajude a trabalhar e viver em sociedade como alguém do gênero oposto. Pode acontecer que nunca procurem realmente alterar a sua anatomia. Muitas dessas pessoas não têm os sintomas que atendem aos critérios de um transtorno de saúde mental. Na maioria das culturas ocidentais, a maioria das pessoas com disforia de gênero grave que pede tratamento são pessoas cujo sexo anatômico é masculino, mas que se identificam como sendo do sexo feminino e desprezam seus órgãos genitais e características masculinas.

Na maioria dos casos, quando essas pessoas buscam tratamento, elas não querem receber tratamento psicológico. Ele quer terapia hormonal e/ou cirurgia que fará com que sua aparência física corresponda ao gênero com o qual ele se identifica.

Uma combinação dos itens a seguir parece conseguir ajudar muitas pessoas:

  • Terapia hormonal

  • Eletrólise

  • Caso desejado, cirurgia de confirmação de gênero, que é irreversível

Realizar sessões de psicoterapia antes de uma pessoa poder receber terapia hormonal e/ou realizar uma cirurgia de confirmação de sexo não é mais obrigatório. Contudo, os profissionais de saúde mental podem ajudar com o seguinte:

Terapia hormonal de afirmação de gênero

Algumas pessoas com disforia de gênero, além de adotarem o comportamento, o vestuário e os trejeitos do sexo oposto, recebem tratamentos hormonais para alterarem suas características sexuais secundárias:

  • Nos homens biológicos, o uso do hormônio feminino estrogênio provoca o crescimento das mamas e outras alterações corporais, como redução de pelos no rosto e no corpo, a diminuição dos órgãos genitais (atrofia genital) e a incapacidade de manter uma ereção.

  • Nas mulheres biológicas, o uso do hormônio masculino testosterona provoca mudanças como crescimento de barba, voz mais grave, bem como alterações no odor corporal e na distribuição da gordura corporal e dos músculos.

Além dos efeitos físicos, a terapia hormonal tem efeitos psicológicos benéficos significativos, incluindo fazer com que a pessoa se sinta mais à vontade, menos ansiosa e mais capaz de interagir como o gênero preferido.

Cirurgia de confirmação de gênero

Outras pessoas pedem para fazer cirurgia de confirmação de gênero. Essa cirurgia é irreversível.

Em ambos os sexos, a cirurgia é precedida por

  • Uso do hormônio sexual apropriado (estrogênio para a transformação de masculino para feminino e testosterona para a transformação de feminino para masculino).

  • Viver em tempo integral no papel social do gênero oposto por, no mínimo, um ano

Nos homens biológicos, a cirurgia envolve a extração de parte do pênis e dos testículos e a criação de uma vagina artificial. A parte do pênis que sobra assume a função do clitóris. A parte que sobra conta com sensibilidade sexual e torna possível o orgasmo. A transformação de homem para mulher também pode incluir cirurgias cosméticas não genitais para criar ou realçar atributos feminino (por exemplo, cirurgia de aumento da mama, rinoplastia, cirurgia para levantar a sobrancelha, raspagem da proeminência laríngea [cirurgia para redução do pomo de Adão] e/ou reconfiguração da mandíbula). Algumas pessoas realizam cirurgia das cordas vocais para alterar as características da voz.

Nas mulheres biológicas, a cirurgia envolve a extração cirúrgica das mamas (mastectomia) e, às vezes, dos órgãos reprodutores internos (útero e ovários), a oclusão da vagina e a criação de um pênis artificial e geralmente um escroto. Os resultados de uma cirurgia de transformação de feminino para masculino são menos satisfatórios, em termos da aparência e função, do que a de masculino para feminino, o que possivelmente explica por que um número menor de mulheres pede para fazer cirurgia de confirmação de gênero. Além disso, complicações, principalmente problemas urinários, ocorrem com frequência. Porém, as técnicas cirúrgicas de transformação de masculino para feminino continuam a melhorar e um número maior de mulheres biológicas está solicitando a cirurgia.

Embora as pessoas com disforia de gênero grave que realizaram cirurgia de confirmação de gênero não possam procriar, muitas delas conseguem ter relações sexuais satisfatórias. É comum que, após a cirurgia, se conserve a capacidade de se atingir o orgasmo e algumas pessoas afirmam que se sentem, pela primeira vez, sexualmente satisfeitas. No entanto, poucas pessoas se submetem a uma cirurgia de confirmação de gênero com o único propósito de agir sexualmente como alguém do sexo oposto. A confirmação do seu sentimento interno de identidade de gênero normalmente é a motivação.

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