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Lesões provocadas pela radiação

Por

Jerrold T. Bushberg

, PhD, DABMP, School of Medicine, University of California, Davis

Última revisão/alteração completa jul 2019| Última modificação do conteúdo jul 2019
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Recursos do assunto

Lesões provocadas pela radiação são danos a tecidos causados por exposição à radiação ionizante.

  • Grandes doses de radiação ionizante podem causar doença aguda reduzindo a produção de células sanguíneas e danificando o trato digestivo.

  • Uma dose muito grande de radiação ionizante também pode danificar o coração e os vasos sanguíneos (sistema cardiovascular), o cérebro e a pele.

  • As lesões provocadas por radiação devido a doses grandes e muito grandes são designadas reação do tecido. A dose necessária para causar lesão visível do tecido varia com o tipo de tecido.

  • A radiação ionizante pode aumentar o risco de câncer.

  • A exposição de espermatozoides e óvulos à radiação traz um pequeno aumento do risco de defeitos genéticos nos descendentes.

  • Os médicos retiram a maior quantidade possível de material radioativo externo e interno (material que foi inalado ou ingerido) e tratam os sintomas e as complicações da lesão por radiação.

Geralmente, o termo radiação ionizante refere-se a ondas eletromagnéticas de energia elevada (raios-X e raios gama) e partículas (partículas alfa, beta e nêutrons) que são capazes de capturar elétrons de átomos (ionização). A ionização altera as propriedades químicas dos átomos afetados e de quaisquer moléculas que contenham esses átomos. Ao alterar as moléculas no ambiente altamente organizado da célula, a radiação ionizante pode afetar e danificar células. O dano celular pode causar doença, aumentar o risco de desenvolver câncer ou ambos.

A radiação ionizante é emitida por substâncias radioativas (radioisótopos), como o urânio, o rádio e o plutônio, mas pode ser igualmente produzida por dispositivos, como aparelhos de raios-X e de radioterapia.

As ondas de rádio, como de celulares e transmissores de rádio AM e FM, e a luz visível também são formas de radiação eletromagnética. Contudo, devido a sua energia mais baixa, estas formas de radiação não são ionizantes e, assim, os níveis de exposição pública destas fontes comuns não danificam as células. Nesta discussão, o termo "radiação" refere-se exclusivamente à radiação ionizante.

Medição da radiação

A quantidade de radiação é medida em várias unidades diferentes. O roentgen (R) é uma medida da capacidade ionizante da radiação e é comumente usada para expressar a intensidade da exposição à radiação. O nível de radiação ao qual as pessoas são expostas e quanto se deposita em seu corpo pode ser diferente. O gray (Gy) e o sievert (Sv) são medidas da dose de radiação, que é a quantidade de radiação depositada na matéria, e são as unidades usadas para medir a dose em humanos após a exposição à radiação. O Gy e o Sv são semelhantes, à exceção de o Sv considerar a eficácia dos diferentes tipos de radiação em causar danos e a sensibilidade dos diferentes tecidos no corpo à radiação. Níveis de dose baixos são medidos em mGy (1 mGy =  1/1.000Gy) e mSv (1 mSv = 1/1.000Sv).

Contaminação vs. irradiação

A dose de radiação de uma pessoa pode ser aumentada de duas formas, contaminação e irradiação. Muitos dos acidentes por radiação mais significativos expuseram as pessoas a ambos.

Contaminação é o contato e a retenção de um material radioativo, geralmente como um pó ou líquido. A contaminação externa é a que está na pele ou roupa, da qual pode cair ou ser raspada, contaminando outras pessoas e objetos. A contaminação interna consiste em material radioativo depositado no corpo, que podem entrar por ingestão, inalação ou através de cortes na pele. Uma vez no corpo, o material radioativo pode ser transportado para vários locais, tais como a medula óssea, onde continua a emitir radiação, aumentando a dose, até ser removido ou emitir toda sua energia (desintegração). A contaminação interna é mais difícil de remover que a contaminação externa.

A irradiação consiste na exposição à radiação, mas não a material radioativo, ou seja, não há contaminação. Um exemplo comum é a radiografia diagnóstica usada, por exemplo, para avaliar um osso fraturado. A exposição à radiação pode ocorrer sem contato direto entre as pessoas e a fonte de radiação (como material radioativo ou um aparelho de raios-X). Quando a fonte de radiação é removida ou desligada, a irradiação termina. As pessoas que são irradiadas, mas não contaminadas, não são radioativas, ou seja, elas não emitem radiação e sua dose dessa fonte de radiação não continua aumentando.

Você sabia que...

  • Uma pessoa média nos Estados Unidos recebe aproximadamente a mesma dose de radiação natural que a de fontes de radiação fabricadas (quase todas elas consistindo em radiação médica usada para diagnosticar ou tratar doenças).

Fontes de exposição à radiação

As pessoas são constantemente expostas a baixos níveis de radiação, radiação de ocorrência natural (de fundo) e intermitentemente à radiação de fontes fabricadas. A radiação natural de fundo varia enormemente no mundo todo bem como dentro dos países. Nos Estados Unidos, as pessoas recebem, em média, cerca de 3 mSv/ano de fontes naturais e a faixa de exposições varia de cerca de 0,5 a 20 mSv/ano, dependendo da região, da elevação acima do nível do mar e da geologia local. Em média, mais 3 mSv/ano são recebidos de fontes fabricadas (principalmente médicas), totalizando a média total de dose efetiva per capita de cerca de 6 mSv/ano.

Radiação de fundo

As fontes de radiação de fundo incluem

  • Radiação solar e cósmica do espaço

  • Elementos radioativos de ocorrência natural

A radiação cósmica e solar é significativamente bloqueada pela atmosfera da Terra, mas é concentrada nos polos norte e sul pelo campo magnético da Terra. Logo, a exposição à radiação cósmica é maior para pessoas que vivam perto dos polos, a grandes altitudes e durante voos de avião.

Os elementos radioativos, particularmente o urânio e os produtos radioativos nos quais de desintegra naturalmente (como gás radônio), estão presentes em muitas rochas e minerais. Estes elementos acabam em várias substâncias, incluindo alimentos, água e materiais de construção. A exposição a radônio geralmente explica cerca de dois terços da exposição das pessoas à radiação de ocorrência natural.

Mesmo no total, as doses de radiação natural de fundo são baixas demais para causar lesões provocadas por radiação. Até a presente data, não houve efeitos demonstrados na saúde devido a diferenças no nível de radiação de fundo, pois os riscos de efeitos na saúde induzidos pela radiação nesses níveis de exposição reduzidos são inexistentes ou pequenos demais para serem observados.

Radiação criada pelo homem

A exposição da maioria das pessoas a fontes de radiação fabricada envolve exames de diagnóstico por imagem (particularmente tomografia computadorizada [TC] e exames cardíacos de medicina nuclear). As pessoas que recebem tratamentos de radiação para o câncer podem receber doses muito elevadas de radiação. Contudo, são feitos todos os esforços para fornecer radiação somente aos tecidos doentes e para minimizar a radiação nos tecidos normais.

A exposição também ocorre de outras fontes fabricadas, como acidentes por radiação e precipitação radioativa de testes prévios com armas nucleares. Contudo, estas exposições representam uma pequena parte da exposição anual da maioria das pessoas. Normalmente, os acidentes por radiação envolvem pessoas que trabalham com materiais radioativos e com fontes de raios-X, como irradiadores de alimentos, fontes de radiografia industrial e aparelhos de raios-X. Esses trabalhadores podem receber doses significativas de radiação. Esses acidentes são raros e resultam tipicamente do não cumprimento de procedimentos de segurança. A exposição à radiação também ocorreu de fontes industriais ou médicas perdidas ou roubadas, contendo grandes quantidades de material radioativo. Também ocorreram lesões provocadas por radiação em pacientes que receberam radioterapia e certos procedimentos médicos guiados por feixe de raios-X pulsado que mostra uma imagem radiográfica em movimento em uma tela (fluoroscopia). Algumas dessas lesões em pacientes resultam de acidentes ou uso impróprio, porém, às vezes, em casos mais complexos, o uso adequado desses procedimentos pode causar complicações e reações de tecidos inevitáveis induzidas por radiação.

Em raras ocasiões, quantidades substanciais de material radioativo foram liberadas de centrais de energia nuclear, incluindo a central de Three Mile Island na Pensilvânia em 1979, a central de Chernobyl na Ucrânia em 1986 e a central de Fukushima Daiichi no Japão em 2011. O acidente de Three Mile Island não resultou em grande exposição à radiação. Na verdade, as pessoas que viviam em um raio de 1,6 quilômetro da central receberam somente uma dose adicional de cerca de 0,08 mSv. Todavia, a dose média para as quase 115 mil pessoas que foram evacuadas da área próxima à central de Chernobyl foi de cerca de 30 mSv. A título de comparação, a dose normal de um único exame de TC situa-se entre 4 e 8 mSv. As pessoas que trabalhavam na central de Chernobyl receberam expressivamente mais. Mais de trinta trabalhadores e socorristas morreram em poucos meses depois do acidente, e muitos mais desenvolveram doença aguda por radiação. Houve um baixo nível contaminação proveniente de Chernobyl em locais tão distantes como a Europa, a Ásia e até mesmo (em menor extensão) a América do Norte. A dose média de radiação cumulativa para as populações habitantes de áreas com baixo nível de contaminação (várias regiões da Bielorrússia, Rússia e Ucrânia) em um período de vinte anos após o acidente foi estimada como sendo de cerca de 9 mSv. Cabe salientar que a dose extra anual média (0,5 a 1,5 mSv por ano) recebida pelos residentes dos territórios contaminados pela precipitação radioativa de Chernobyl é geralmente mais baixa que a radiação de fundo típica nos Estados Unidos (3 mSv por ano). Alguns trabalhadores na central de Fukushima Daiichi foram expostos a doses significativas de radiação; no entanto, não houve mortes ou reações permanentes de tecidos induzidas por radiação. As pessoas que viviam no raio de 20 quilômetros da central de Fukushima Daiichi foram evacuadas devido a preocupações sobre exposição à radiação. Todavia, as estimativas são de que quase nenhum morador no entorno recebeu mais do que cerca de 5 mSv. A Organização Mundial de Saúde prevê que a taxa de mortes por câncer relacionadas a este acidente será baixa.

As armas nucleares liberam quantidades maciças de energia e radiação. Estas armas não foram usadas contra pessoas desde 1945. Contudo, atualmente, várias nações têm armas nucleares e os grupos terroristas também tentaram obtê-las ou construir as suas, aumentando a possibilidade de uso dessas armas. A grande maioria das mortes devido à detonação de uma arma nuclear resulta da explosão e das queimaduras térmicas. Uma menor fração das mortes (embora ainda sendo um número elevado) resulta de doença relacionada à radiação.

A possibilidade de exposição intencional à radiação através de atividades terroristas (consulte Armas radiológicas) inclui o uso de um dispositivo para contaminar uma área dispersando material radioativo (um dispositivo de dispersão de radiação que usa explosivos convencionais é designado como uma bomba suja). Outros cenários terroristas incluem o uso de uma fonte de radiação oculta para expor pessoas desprevenidas a grandes doses de radiação, atacando um reator nuclear ou local de armazenamento de material radioativo e detonando uma arma nuclear.

Tabela
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Exposição anual à radiação nos Estados Unidos

Fonte

Dose eficaz média (milisieverts)

Fontes de ocorrência natural

Gás radônio

2,3

Outras fontes terrestres

0,2

Radiação do sol e do espaço sideral

0,3

Material radioativo natural no corpo

0,3

Subtotal

3,1

Fontes fabricadas

Diagnóstico médico por imagem*

3,0

Produtos de consumo

0,1

Precipitação radioativa do teste de armas

inferior a 0,01

Indústria nuclear

inferior a 0,01

Subtotal

3,1

Exposição anual total

6,2

Outras fontes de exposição (por incidente)

Viagens de avião

0,001–0,014/hora de voo

Radiografias odontológicas

0,005

Radiografia do tórax (póstero-anterior)

0,02

Radiografia do tórax (duas incidências: póstero-anterior e lateral)

0,1

Mamografia

0,4

Tomografia computadorizada da cabeça

2

Tomografia computadorizada do tórax, abdômen ou pélvis

6-8

Enema de bário

8

Medicina nuclear (por exemplo, uma cintilografia óssea)

4,2

*Valor médio. A maioria das pessoas recebe doses menores a cada ano, de exames tais como radiografias odontológicas e mamografias, enquanto um número mais reduzido de pessoas doentes ou lesadas exige vários diagnósticos por imagem, recebendo, assim, doses maiores.

Dados do National Council on Radiation Protection and Measurements (Conselho Nacional de Proteção e Medições de Radiação dos EUA). Exposição da população dos Estados Unidos à radiação ionizante. Relatório NCRP n.º 160, National Council on Radiation Protection and Measurements, Bethesda, MD, 2009.

Efeitos da radiação

Os efeitos prejudiciais da radiação (ou seja, a gravidade da reação dos tecidos) dependem de vários fatores:

  • A quantidade (dose)

  • Rapidez de recepção da dose

  • Duração da exposição do corpo

  • A sensibilidade de tecidos específicos à radiação

  • A presença de anomalias genéticas que prejudiquem o reparo normal do DNA

  • A idade da pessoa na época da exposição

  • O estado geral de saúde da pessoa antes da exposição

Uma única dose rápida de radiação por todo o corpo pode ser mortal, mas a mesma dose no seu total, aplicada num prazo de semanas ou meses, pode provocar efeitos muito menores. Os efeitos da radiação podem igualmente depender da porcentagem exposta do corpo. Por exemplo, mais de 6 Gy podem ser fatais quando a dose de radiação é para todo o corpo. Contudo, quando concentrada em uma área pequena e estendendo-se por um período de semanas ou meses, como em radioterapia para câncer, pode-se administrar dez ou mais vezes esta quantidade sem lesões sérias.

Algumas partes do corpo são mais sensíveis à radiação. Os órgãos e os tecidos onde as células se multiplicam rapidamente, como o intestino e a medula óssea, ficam mais danificados pela radiação do que os tecidos cujas células se multiplicam com maior lentidão, como os músculos e as células do cérebro. A glândula tireoide é suscetível a câncer após ser exposta a iodo radioativo, pois o iodo radioativo concentra-se na mesma.

Radiação e crianças

Em crianças, alguns órgãos e tecidos, como o cérebro, o cristalino do olho e a glândula tireoide, são mais sensíveis à radiação do que em adultos. No entanto, alguns tecidos em crianças não são mais sensíveis à radiação do que em adultos e alguns, como os ovários, são na verdade menos sensíveis. Os motivos para as diferenças são complicados e não são totalmente entendidos, mas os médicos acreditam que a sensibilidade mais elevada de alguns tecidos em crianças se deve, pelo menos em parte, ao fato de que as células das crianças crescem e amadurecem mais depressa e passarão por muito mais divisões celulares do que as de adultos.

O feto é sensível a danos provenientes de radiação porque as células fetais estão se dividindo muito rapidamente, além de estarem se diferenciando de células imaturas em maduras. No feto, a exposição superior a 300 mGy durante 8 a 25 semanas após a concepção pode causar redução de inteligência e fraco rendimento escolar. Os defeitos congênitos podem ocorrer devido à exposição no útero a elevadas doses de radiação. Contudo, em doses inferiores a 100 mGy, particularmente nas doses ainda mais baixas usadas nos exames de diagnóstico por imagem a que uma mulher grávida pode ser normalmente submetida, não há aumento aparente que ultrapasse o risco normal de ter uma criança nascida com um defeito congênito.

Você sabia que...

  • A radiação não é uma causa tão potente de câncer ou defeitos congênitos como as pessoas poderiam supor.

Radiação e câncer

Uma grande exposição à radiação aumenta o risco de câncer devido aos danos no material genético (DNA) nas células que sobrevivem à radiação. Contudo, a radiação é uma causa menos significativa de câncer do que as pessoas poderiam supor. Mesmo uma dose de corpo inteiro de 500 mGy (mais de 150 vezes acima da dose de radiação de fundo anual média) aumenta o risco de morte por câncer de uma pessoa típica de 22% para cerca de 24,5%, um aumento no risco absoluto de apenas 2,5%.

Em um feto ou criança, o risco de câncer induzido por radiação é várias vezes maior do que em um adulto. As crianças podem ser mais suscetíveis, pois suas células dividem-se mais vezes e têm um tempo de vida maior durante o qual o câncer se pode desenvolver. O risco permanente de morrer em decorrência de câncer para uma criança de 1 ano submetida a um exame de tomografia computadorizada (TC) do abdômen pode aumentar em cerca de 0,1%. Recentemente, as preocupações sobre possíveis riscos devido a exames de TC resultaram em controvérsia sobre se os exames de TC estão sendo usados em excesso. Por causa dessas preocupações, as técnicas para exames de TC estão sendo otimizadas para reduzir a dose de radiação. Os médicos também procuram realizar um exame de TC somente quando ele for mais preciso do que outros exames que usam menos ou nenhuma radiação. Quando a TC for nitidamente o teste mais preciso, o risco resultante de não fazer o diagnóstico correto devido à utilização de um exame menos preciso é muito maior do que o risco do exame de TC.

Radiação e defeitos herdados

Nos animais, foi demonstrado que altas doses de radiação dos ovários ou testículos resultam em uma prole deficiente (efeitos hereditários). Contudo, não foi observado nenhum aumento na porcentagem de defeitos congênitos nas crianças dos sobreviventes das explosões da bomba nuclear no Japão. Pode dever-se ao fato de a exposição à radiação não ter sido suficientemente elevada para causar um aumento mensurável. Não foi encontrado nenhum aumento no risco de defeitos congênitos em crianças concebidas depois que seus pais receberam radioterapia para câncer na qual a dose média para os ovários foi de 0,5 Gy e para os testículos de cerca de 1,2 Gy (exposição típica a tecidos próximos, mas não diretamente na área de tratamento durante a radioterapia).

Sintomas

Os sintomas dependem do fato de a exposição à radiação incluir todo o corpo ou estar limitada a pequena parte do corpo. A doses elevadas, a exposição de todo o corpo causa doença aguda por radiação, enquanto uma exposição parcial do corpo causa lesões locais provocadas pela radiação.

Doença aguda por radiação

Geralmente, a doença aguda por radiação ocorre em pessoas em que todo o corpo foi exposto a doses muito elevadas de radiação de uma só vez ou em um curto período de tempo. Os médicos dividem a doença aguda por radiação em três grupos (síndromes), de acordo com o principal sistema orgânico afetado, embora esses grupos se sobreponham:

  • Síndrome hematopoiética: Afeta tecidos que produzem células sanguíneas

  • Síndrome gastrointestinal: Afeta o trato digestivo

  • Síndrome vascular cerebral: Afeta o cérebro e o sistema nervoso

Geralmente, a doença aguda por radiação progride em três fases:

  • Sintomas precoces como enjoo, perda de apetite, vômito, cansaço e, quando são recebidas doses de radiação muito elevadas, diarreia (conjuntamente chamados pródromo)

  • Um período sem sintomas (fase latente)

  • Diversos padrões de sintomas (síndromes) em função da quantidade de radiação recebida

A síndrome que se desenvolve, sua gravidade e sua velocidade de progressão depende da dose de radiação. À medida que a dose aumenta, os sintomas desenvolvem mais cedo, progridem mais rapidamente (por exemplo, de sintomas prodrômicos para as várias síndromes de sistemas de órgão) e ficam mais graves.

A gravidade e a evolução temporal dos sintomas iniciais são bastante consistentes de pessoa a pessoa para determinada quantidade de exposição à radiação. Assim, muitas vezes os médicos podem estimar a exposição à radiação de uma pessoa com base no momento, na natureza e na gravidade dos sintomas precoces. Contudo, a presença de lesões, queimaduras ou ansiedade grave podem complicar esta estimativa.

A síndrome hematopoiética é causada pelos efeitos da radiação sobre a medula óssea, o baço e os gânglios linfáticos, que são os principais locais de produção de células sanguíneas (hematopoiese). A perda de apetite (anorexia), a letargia, o enjoo e os vômitos começam entre 1 e 6 horas após a exposição a 1 ou 6 Gy de radiação. Esses sintomas desaparecem entre 24 e 48 horas depois da exposição e a pessoa sente-se bem durante uma semana ou mais. Durante esse período livre de sintomas, as células produtoras de sangue da medula óssea, do baço e dos gânglios linfáticos começam a se degradar e não são substituídas, dando lugar a uma grave insuficiência de leucócitos, seguida de uma escassez de plaquetas e, mais tarde, de eritrócitos. A insuficiência de glóbulos brancos do sangue pode conduzir a infecções graves. A escassez de plaquetas pode ocasionar sangramento incontrolado. A insuficiência de glóbulos vermelhos (anemia) provoca fadiga, fraqueza, palidez e dificuldade respiratória durante o esforço físico. Se as pessoas sobreviverem, depois de quatro a cinco semanas as células sanguíneas começam a ser novamente produzidas, mas as pessoas sentem-se debilitadas e cansadas durante meses e correm mais risco de câncer.

A síndrome gastrointestinal deve-se aos efeitos da radiação sobre as células que revestem o aparelho digestivo. Os enjoos graves, os vômitos e a diarreia podem começar em menos de 1 hora depois da exposição a 6 Gy ou mais de radiação. Os sintomas podem levar a uma desidratação grave, mas desaparecem ao fim de 2 dias. Durante os 4 ou 5 dias seguintes (fase latente), a pessoa se sente bem, mas as células que revestem o aparelho digestivo, que normalmente atuam como uma barreira protetora, morrem e são expulsas. Depois desse período, uma diarreia intensa reaparece, frequentemente sanguinolenta, provocando mais uma vez a desidratação. As bactérias do aparelho digestivo podem invadir o organismo causando infecções graves. Quem recebe essa quantidade de radiação padece igualmente da síndrome hematopoiética, que resulta em sangramento e infecção e aumenta o risco de morte. Depois da exposição a 6 Gy ou mais de radiação, a morte é comum. Contudo, com cuidado médico avançado, é possível que cerca de 50% das pessoas possa sobreviver.

A síndrome vascular cerebral ocorre quando a dose total de radiação excede 20 a 30 Gy. As pessoas manifestam rapidamente confusão, enjoos, vômitos, diarreia sanguinolenta, tremores e choque. A fase latente é breve ou inexistente. Em apenas algumas horas, a pressão arterial diminui, acompanhada de convulsões e coma. A síndrome vascular cerebral é mortal num período que oscila entre horas a 1 ou 2 dias.

Lesões locais provocadas por radiação

A radioterapia para câncer é uma das causas mais comuns de lesões locais provocadas por radiação. Os sintomas dependem da quantidade de radiação, da taxa em que foi recebida e da área do corpo tratada.

Podem ocorrer enjoos, vômitos e perda de apetite durante (ou pouco após) uma irradiação no cérebro ou no abdômen. Grandes quantidades de radiação sobre uma zona limitada do corpo danificam frequentemente a pele que cobre essa área. As alterações cutâneas incluem queda de cabelo, vermelhidão, descamação, úlceras e, possivelmente, eventual adelgaçamento da pele e dilatação dos vasos sanguíneos logo abaixo da superfície da pele (veias em forma de aranha). A radiação na boca e no maxilar inferior pode causar secura permanente na boca, o que tem como resultado um maior número de cáries dentárias e danos no maxilar inferior. A radiação sobre os pulmões pode provocar inflamação neste órgão (pneumonite por radiação). e doses muito elevadas podem provocar cicatrizes graves (fibrose) no tecido pulmonar, o que pode causar falta de ar incapacitante e morte. O coração e sua camada protetora (pericárdio) podem ficar inflamados depois de uma radiação extensa sobre o tórax, causando sintomas como dor no peito e falta de ar. Doses acumuladas elevadas de radiação na coluna vertebral podem provocar danos extremamente graves que podem levar à paralisia, incontinência e perda de sensibilidade. A radiação extensa no abdômen (para câncer dos linfonodos, testículos ou ovários) pode levar a úlceras crônicas, cicatrizes e estreitamento ou perfuração do intestino, causando sintomas como dor abdominal, vômito, vômitos de sangue e fezes de cor escura tipo alcatrão.

Em certas ocasiões, surgem lesões graves muito depois de a radioterapia ter terminado. Pode haver declínio na função renal no prazo de seis meses a um ano depois de uma pessoa ter recebido uma quantidade extremamente elevada de radiação, provocando anemia e hipertensão arterial. Doses acumuladas elevadas de radiação nos músculos podem provocar um quadro doloroso que inclui desgaste muscular (atrofia) e formação de depósitos de cálcio no músculo irradiado. Em certas ocasiões, a radioterapia pode resultar em um novo tumor canceroso (maligno). Estes cânceres induzidos por radiação surgem 10 anos ou mais depois da exposição.

Diagnóstico

  • Os sintomas, a gravidade dos sintomas e o tempo até o surgimento dos sintomas após a exposição à radiação.

  • Contagens de linfócitos (para determinar a gravidade da exposição)

A exposição à radiação pode ser evidente com base no histórico da pessoa. Suspeita-se de lesão provocada pela radiação quando as pessoas desenvolvem sintomas de doença ou vermelhidão na pele ou dores depois de receberem radioterapia ou serem expostas durante um acidente por radiação. O tempo até os sintomas se desenvolverem pode ajudar os médicos a estimar a dose de radiação. Não existem testes específicos para diagnosticar a exposição à radiação, embora possam ser efetuados determinados exames para detectar infecções, uma diminuição no número de células sanguíneas ou um mau funcionamento de um órgão. Para determinar a gravidade de uma exposição à radiação, mede-se o número de linfócitos (um tipo de glóbulo branco do sangue) no sangue. Geralmente, quanto menor for o número de linfócitos nas 48 horas após a exposição, pior terá sido a exposição à radiação.

A contaminação radioativa, ao contrário da irradiação, muitas vezes pode ser determinada por meio de uma inspeção do corpo da pessoa com um contador Geiger-Muller, um aparelho que detecta radiação. É igualmente efetuado um controle de sinais de radioatividade a partir da coleta de secreções do nariz, da garganta e de qualquer lesão.

Os sintomas precoces de doença aguda por radiação – enjoo, vômito e tremores – também podem ser causados pela ansiedade. Como a ansiedade é comum após incidentes terroristas e nucleares, as pessoas não devem entrar em pânico quando esses sintomas se desenvolverem, particularmente se a quantidade de exposição à radiação for desconhecida e pode ter sido pequena.

Prevenção

Após uma contaminação ambiental de alto nível de disseminação de um acidente de uma central de energia nuclear ou a liberação intencional de material radioativo, as pessoas devem seguir o conselho dos funcionários de saúde pública. Essas informações são normalmente transmitidas na televisão e rádio. O conselho pode ser para as pessoas evacuarem a área contaminada ou protegerem-se onde estiverem. A recomendação de evacuação ou abrigo depende de muitos fatores, incluindo o tempo decorrido desde a liberação inicial, se a liberação parou, condições climáticas, disponibilidade de abrigos adequados e condições rodoviárias e do tráfego. Se for recomendado abrigo, um abrigo em concreto ou estrutura metálica, particularmente um abaixo do solo (como em uma cave), é a melhor opção. A meio caminho entre as partes superior e inferior de um edifício alto, perto do centro, afastado de janelas, é a melhor opção quando não estiver disponível um abrigo abaixo do solo.

É recomendado trocar de roupa e tomar banho se as pessoas suspeitarem que possam ter sido contaminadas com material radioativo. As pessoas podem obter comprimidos de iodeto de potássio (KI) nas farmácias locais e algumas agências de saúde pública. Contudo, o iodeto de potássio somente é útil se estiver sendo liberado iodo radioativo. Não protege contra outros materiais radioativos. As pessoas com sensibilidade a iodo e certas condições de tireoide devem evitar o iodeto de potássio. Deve consultar um médico se suspeitar de sensibilidade ao iodo. Certos medicamentos experimentais administrados durante ou imediatamente depois da irradiação mostraram aumentar as taxas de sobrevida em animais. No entanto, esses medicamentos podem ser muito tóxicos e atualmente não são recomendados para pessoas.

Durante procedimentos de diagnóstico por imagem que envolvam radiação ionizante e especialmente durante radioterapia para câncer, a qual envolve doses elevadas, as partes mais suscetíveis do corpo, tais como o cristalino dos olhos, mamas femininas, ovários ou testículos e a glândula tireoide, são protegidas sempre que possível (por exemplo, usando um revestimento de chumbo).

Você sabia que...

  • As pessoas que vivem a mais de 16 quilômetros de uma central de energia nuclear já têm acesso a comprimidos de iodeto de potássio.

  • Trocar de roupa e tomar banho com água quente e xampu normal são medidas muito eficazes na remoção da maior parte da contaminação externa.

Prognóstico

O resultado depende da dose de radiação, da velocidade da dose (quão rapidamente a exposição ocorre) e das partes do corpo afetadas. Outros fatores incluem estado de saúde das pessoas e se recebem cuidados médicos. Em geral, sem cuidados médicos, metade de todas as pessoas que recebem mais de 3 Gy de radiação em todo o corpo de uma só vez morre. Quase todas as pessoas que recebem mais de 8 Gy morrem. Quase todas as pessoas que recebem menos de 2 Gy se recuperam completamente em 1 mês, embora possam ocorrer complicações a longo prazo, como câncer. Com cuidados médicos, cerca de metade das pessoas sobreviveram a 6 Gy de radiação em todo o corpo. Algumas pessoas sobreviveram a doses de até 10 Gy.

Como é improvável que os médicos conheçam a quantidade de radiação que uma pessoa recebeu, preveem o prognóstico através dos sintomas que a pessoa apresenta. A síndrome vascular cerebral é mortal num período que oscila entre horas e poucos dias. A síndrome gastrointestinal é, em geral, mortal entre 3 e 10 dias, embora algumas pessoas sobrevivam durante umas semanas. Muitas pessoas que recebem cuidados médicos adequados sobrevivem à síndrome hematopoiética, dependendo da dose de radiação e de seu estado de saúde. Aquelas que não sobrevivem geralmente morrem entre 4 a 8 semanas depois da exposição.

Tratamento

  • Em primeiro lugar, tratamento de feridas graves, que ameaçam a vida

  • Descontaminação de feridas, da pele e do cabelo

  • Tratamento da contaminação interna

  • Às vezes, medidas específicas para determinados radionuclídeos

  • Tratamento do sistema imunológico comprometido

  • Cuidados de apoio

Lesões físicas sérias são tratadas antes do tratamento da irradiação, pois elas representam um risco à vida mais imediato. A irradiação não possui um tratamento de emergência, mas a pessoa pode ser cuidadosamente controlada em relação ao aparecimento das diversas síndromes e os sintomas podem ser tratados à medida que surgem.

A contaminação deve ser rapidamente removida para impedir que o material radioativo continue a irradiar a pessoa e para evitar que o material radioativo seja absorvido pelo corpo. As feridas contaminadas são tratadas antes da pele contaminada. Os médicos descontaminam feridas lavando-as com uma solução de água e sal e limpando-as com uma esponja cirúrgica. Depois da descontaminação, as feridas são cobertas para prevenir nova contaminação enquanto os outros locais são lavados.

A pele contaminada deve ser suavemente esfregada com grandes quantidades de água morna (não quente) e sabão. As pregas da pele e as unhas precisam de atenção especial. Os produtos químicos fortes, escovas ou fricção que possam fragilizar a pele devem ser evitados. Se não for possível descontaminar o pelo com água e sabão, é preferível cortá-lo com tesoura do que barbear. Ao barbear pode cortar a pele e permitir a entrada de contaminação no corpo. A descontaminação da pele e da ferida deve continuar até o contador Geiger-Muller mostrar que já não há radioatividade ou que é praticamente inexistente, até a lavagem não reduzir substancialmente a quantidade de radioatividade medida ou até a limpeza colocar a pele em perigo. As queimaduras devem ser suavemente lavadas, mas não esfregadas.

Certas medidas podem diminuir a contaminação interna. Se as pessoas tiverem ingerido recentemente uma quantidade significativa de material radioativo, pode induzir o vômito. Alguns materiais radioativos têm tratamentos químicos específicos que podem reduzir sua absorção depois de serem ingeridos ou ajudar a acelerar sua remoção do corpo. O iodeto de potássio, se administrado pouco antes ou logo depois da contaminação interna com iodo radioativo, impede, de forma muito eficaz, a absorção do iodo radioativo pela glândula tireoide, reduzindo assim o risco de câncer da tireoide e lesões na tireoide. O iodeto de potássio somente é eficaz para iodo radioativo, não para outros elementos radioativos. Outros medicamentos, como ácido dietilenotriamino pentacético de cálcio ou zinco (DTPA – para plutônio, ítrio, califórnio e amerício), soluções de fosfato de cálcio ou alumínio (para estrôncio radioativo) e azul da Prússia (para césio, rubídio e tálio radioativos), podem ser administrados por via intravenosa ou por via oral para remover uma fração de certos radionuclídeos depois que eles entraram no corpo. Contudo, exceto relativamente ao iodeto de potássio, que é muito eficaz, os medicamentos administrados para reduzir a contaminação interna reduzem-na em somente 25 a 75%.

O enjoo e os vômitos podem ser reduzidos tomando medicamentos para prevenir o vômito (antieméticos). Esses medicamentos são administrados rotineiramente a pessoas sujeitas a radioterapia ou quimioterapia. A desidratação cura-se com soros administrados por via intravenosa.

As pessoas com síndrome gastrointestinal ou hematopoiética são mantidas isoladas para minimizar seu contato com microrganismos infecciosos. Para aumentar o número de células sanguíneas, são realizadas transfusões de sangue e administradas injeções de fatores de crescimento, como a eritropoietina e o fator estimulador de colônias, que estimulam a produção de sangue. Este tratamento ajuda a reduzir o sangramento e a anemia e ajuda a combater infecções. Se a medula óssea for gravemente danificada, esses fatores de crescimento são ineficazes e, às vezes, é feito um transplante de células-tronco hematopoiéticas, embora a experiência com transplantes de células-tronco para síndrome gastrointestinal ou hematopoiética seja limitada e a taxa de sucesso seja reduzida.

As pessoas com síndrome gastrointestinal necessitam de antieméticos, líquidos por via intravenosa e sedativos. Algumas pessoas conseguem ingerir líquidos. São administrados antibióticos por via oral para eliminar bactérias do intestino que podem invadir o organismo. Sempre que necessário, podem ser administrados antibióticos, juntamente com antimicóticos e medicamentos antivirais, por via intravenosa.

O tratamento para a síndrome vascular cerebral visa proporcionar bem-estar, aliviando a dor, a ansiedade e as dificuldades respiratórias. Administram-se medicamentos para controlar as convulsões.

A dor causada por lesões e úlceras relacionadas à radiação é tratada com analgésicos. Se estas feridas não cicatrizarem satisfatoriamente com o tempo, elas podem ser reparadas cirurgicamente com enxertos de pele ou outros procedimentos.

As pessoas que sobrevivem podem precisar de monitoramento regular de catarata e distúrbios da tireoide, mas nenhum outro monitoramento regular é necessário.

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