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Tratamento da dor

Por Russell K. Portenoy, MD, Albert Einstein College of Medicine;Beth Israel Medical Center

Em alguns casos, o tratamento da doença subjacente elimina ou minimiza a dor. Por exemplo, a imobilização de uma fratura ou o tratamento antibiótico para uma articulação infectada reduzem a dor. No entanto, mesmo quando a doença subjacente é tratada, podem ser necessários medicamentos (analgésicos) para a rápida supressão da dor. O médico escolhe o analgésico em função do tipo e da duração da dor, ponderando os possíveis riscos e benefícios. A maioria dos analgésicos é eficaz para a dor nociceptiva (devido a lesões comuns de tecidos), mas são menos eficazes para a dor neuropática (devido a dano ou distúrbio dos nervos, medula espinal ou encéfalo), que muitas vezes exige medicamentos diferentes. Para alguns tipos de dor, em especial a dor crônica, são também importantes os tratamentos não farmacológicos.

Você sabia que...

  • A dor pode quase sempre ser tratada, geralmente de forma eficaz.

Existem três tipos de analgésicos: analgésicos opioides (narcóticos), analgésicos não opioides e analgésicos adjuvantes (fármacos que, em geral, são administrados por razões alheias à dor, mas que ocasionalmente a aliviam).

Analgésicos opioides

Os analgésicos opioides (às vezes chamados narcóticos) são os analgésicos mais potentes. São o pilar do tratamento da dor aguda grave (como na dor pós-operatória ou por queimaduras ou ossos quebrados) e a dor crônica devido ao câncer e outros distúrbios sérios. Os opioides são preferidos pela forte eficácia no controle da dor. Ainda que o seu consumo para tratar a dor crônica causada pelo câncer tenha aumentado, continua a ser pouco frequente. Os analgésicos opioides não são adequados para todas as pessoas.

Todos os analgésicos opioides estão quimicamente relacionados com a morfina, uma substância natural extraída das papoulas, embora alguns possam derivar de outras plantas ou ser produzidos em laboratório.

A dose de um opioide é elevada gradualmente, em etapas, até que a dor seja aliviada ou os efeitos colaterais da opioide tornem-se intoleráveis. Idosos e recém-nascidos, que são mais sensíveis aos efeitos de opioides, recebem doses mais baixas. Os analgésicos não opioides, como paracetamol, muitas vezes são usados com opioides, em comprimidos com os dois compostos.

São muito mais eficazes quando tomados com regularidade, antes que a dor se intensifique. Se for necessário aliviar ainda mais a dor, a dose pode ser elevada ou outro medicamento (como anti-inflamatório não esteroide) pode ser acrescentado, como nas situações a seguir:

  • A dor piora temporariamente

  • O indivíduo precisa se exercitar (o movimento pode ser mais dolorido)

  • Um curativo será trocado em breve

Quando a dor diminui, os médicos reduzem a dose do opioide, e quando possível, suspendem e iniciam tratamento com um analgésico não opioide.

Efeitos colaterais

Os opioides apresentam muitos efeitos colaterais. Efeitos colaterais têm maior probabilidade de ocorrer em pessoas com certos distúrbios: insuficiência renal, distúrbio hepático, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), demência ou outro distúrbio cerebral.

Sonolência, constipação, náusea, vômito e coceira são comuns ao iniciar um tratamento com opioides.

Algumas pessoas toleram a sonolência causada por opioides, outras não. Para a maior parte das pessoas que recebem opioides, a sonolência desaparece ou diminui em alguns dias. Se continuarem sentindo esse efeito indesejável, são prescritos fármacos estimulantes, como metilfenidato, para manter a pessoa acordada e em alerta. Esses medicamentos podem ser tomados regularmente ou somente antes de eventos que exigem estar atento, como uma reunião de família. Para algumas pessoas, o consumo de bebidas contendo cafeína fornece estimulação suficiente. Ao se sentir sonolenta após tomar um opioide, evite dirigir veículos e cuidado extra para evitar acidentes com quedas. Opioides também podem causar confusão, sobretudo em idosos.

Os opioides podem causar constipação, especialmente em idosos. Os laxantes (veja Laxantes), como sene, previnem e aliviam a obstipação. O aumento da ingestão de líquidos também pode ajudar a aliviar esse sintoma. Algumas pessoas podem precisar de enemas.

Opioides podem causar retenção de urina, especialmente em homens com hiperplasia prostática benigna. Tentar urinar uma segunda vez após uma pausa breve (dupla micção) ou aplicar pressão suave na parte mais baixa do abdômen (área sobre a bexiga) durante a micção pode ajudar. Às vezes, são usados medicamentos que relaxam os músculos da bexiga (como tansulosina).

Por vezes, as pessoas que sentem dor também sentem náuseas e os analgésicos opioides podem aumentar essa sensação. Drogas antieméticas, administradas sob a forma de comprimidos, supositórios ou injeções, podem ajudar a prevenir ou aliviar náuseas. Metoclopramida, hidroxizina e proclorperacina são alguns dos antieméticos mais consumidos.

Para a maior parte de pessoas, náusea e coceira desaparecem ou diminuem em alguns dias. Já a retenção de urina e constipação geralmente desaparecem muito mais lentamente.

O excesso de opioides pode causar reações adversas graves, como uma perigosa insuficiência respiratória e até coma. Esses efeitos podem ser revertidos com naloxona, um antídoto aplicado intravenosamente. Enfermeiros e familiares que cuidam do paciente devem estar atentos para observar qualquer reação adversa dos opioides.

Para a maioria das pessoas, a mesma dose de opioide continua a ser eficaz por muito tempo. Com o tempo, o consumo prolongado dos opioides pode fazer com que algumas pessoas precisam de doses mais altas, pois o organismo se adapta e apresenta menor resposta ao fármaco. Esse fenômeno é chamado de tolerância. Em geral, a necessidade de uma dose mais alta indica que o distúrbio está piorando, e não o desenvolvimento de tolerância.

Você sabia que...

  • Muitas pessoas sentem dor desnecessariamente porque os seus médicos têm um medo infundado que o uso de opioides levará à dependência.

  • As pessoas que tomam opioides antes que a dor fique intensa demais costumam precisar de uma dose menor (não maior) de medicamentos.

As pessoas que tomam opioides por muito tempo geralmente tornam-se fisicamente dependentes. Isso significa que apresentam sintomas de abstinência se for o medicamento for suspenso. Quando se pretende suspender os opioides, depois de os ter consumido durante um longo período, a dose deve ser diminuída de forma progressiva para minimizar o desenvolvimento dos sintomas. Dependência física não é o mesmo que vício, caracterizado por uma ânsia de medicamento e uso compulsório e incontrolado do medicamento, apesar do dano feito ao usuário ou outras pessoas. Embora o vício seja possível, parece raro entre pessoas que tomam opioides para controle da dor e não tiveram anteriormente problemas com abuso de drogas. A preocupação excessiva em relação ao potencial vício a opioides (veja Opiáceos) leva, muitas vezes, a um tratamento inadequado da dor, resultando em sofrimento desnecessário. Pessoas que sofrem de dor intensa não devem evitar os opioides, que devem ser tomados em doses adequadas, se necessário. O médico avalia cuidadosamente os benefícios e as reações adversas antes de prescrever esses fármacos para tratar a dor crônica.

Administração

Sempre que possível, os opioides são administrados por via oral. Quando precisam ser administrados por muito tempo, podem ser aplicados por um adesivo na pele. Opioides são aplicados por injeções quando a dor aparece repentinamente ou quando as pessoas não podem tomá-los oralmente nem por um adesivo na pele. Se as pessoas forem ajudadas por um opioide, mas não tolerarem os efeitos colaterais, ele pode ser injetado diretamente no espaço em volta da medula espinal por uma bomba. Esse método leva altas concentrações do medicamento ao encéfalo. Para alívio da dor por longo prazo, um dispositivo que libera lentamente o opioide pode ser implantado no espaço em volta da medula espinal.

A morfina, que é o protótipo desses fármacos, pode ser utilizada por via oral ou intravenosa. Há três formas orais: liberação imediata, liberação controlada e liberação mantida. Diferentes apresentações de morfina de liberação lenta e mantida proporcionam alívio de 8 a 24 horas. Esses fármacos são amplamente consumidos para tratar a dor crônica. As apresentações de liberação imediata proporcionam alívio de curta duração, que age por até 3 horas. São necessárias quantidades 2 a 6 vezes menores nas formas injetáveis de morfina do que na morfina por via oral, pois quando ingerida, ela é quimicamente alterada (metabolizada) no fígado antes de chegar à corrente sanguínea. Em geral, a via usada não modifica os efeitos do medicamento, embora vias diferentes usem quantidades diferentes de morfina. O alívio da dor é mais rápido com o medicamento injetável do que oral, mas a duração é mais curta.

A morfina pode ser injetada em uma veia (por via intravenosa), num músculo (por via intramuscular) ou sob a pele (por via subcutânea).

  • Via intravenosa: O alívio da dor é quase imediato, mas não dura muito tempo.

  • Via intramuscular: O alívio da dor é menos rápido, mas dura mais tempo. Injeções intramusculares são dolorosas e o alívio da dor é menos previsível, por isso, essa via não costuma ser usada.

  • Via subcutânea: O alívio da dor é o mais lento, mas dura mais que as outras vias.

As injeções podem ser aplicadas em intervalos de poucas horas, ainda que múltiplas injeções possam ser incômodas. Nesse caso, a tendência é introduzir um cateter numa veia ou sob a pele, e ligá-lo a uma bomba de infusão que libere a morfina de forma contínua. Se necessário, a infusão constante pode ser complementada com doses suplementares. Por vezes, é utilizado um dispositivo que permite que a pessoa controle a liberação do medicamento apertando um botão. Essa técnica é denominada analgesia controlada pelo paciente. A perfusão contínua é utilizada, geralmente, em pessoas com dor intensa devido a uma doença grave.

Analgésicos opioides

Medicamento

Duração da eficácia

Comentários

Morfina

Por via intravenosas ou injeções intramusculares: 2 a 3 horas

Liberação imediata por via oral: 3 a 4 horas

Liberação controlada e mantida por via oral: 8 a 24 horas

A morfina age rapidamente. A forma oral pode ser muito eficaz para a dor crônica. Tem maior probabilidade de causar coceira do que outros opioides.

Codeína

Via oral: 3 a 4 horas

A codeína é menos potente do que a morfina. É geralmente administrada com aspirina ou paracetamol.

Fentanilo

Via oral: 3 a 4 horas

Por adesivo: até 72 horas

Adesivos de fentanila e comprimidos dissolúveis podem ser usados para tratar a dor episódica. Adesivos de fentanila também podem ser usados para aliviar a dor e sedar (antes de procedimentos doloridos) crianças. Um adesivo de fentanila pode ser usado para tratar a dor crônica.

Hidrocodona

Via oral: 3 a 5 horas

A hidrocodona tem eficácia semelhante à codeína.

Hidromorfona

Por via intravenosas ou injeções intramusculares: 2 a 4 horas

Via oral: 2 a 4 horas

Por supositório retal: 4 horas

A hidromorfona começa a agir rapidamente. Pode ser usada em vez da morfina e é útil para a dor crônica.

Levorfanol

Por via intravenosas ou injeções intramusculares: 4 horas

Por via oral: aproximadamente 4 horas

A forma oral é forte. Pode ser usada em vez da morfina.

Meperidina

Por via intravenosa ou injeções intramusculares: aproximadamente 3 horas

Por via oral: não muito eficaz

Embora a meperidina possa ser eficaz para o uso a curto prazo, não é preferida para o uso de longo prazo por ter efeitos colaterais, como espasmos musculares, tremores, convulsões e confusão ou psicose (especialmente em pessoas idosas).

Metadona

Via oral: 4 a 6 horas, às vezes mais

A metadona é usada para tratar a dependência de heroína e outros opioides. Também pode ser usada para tratar a dor crônica.

Oxicodona

Via oral: 3 a 4 horas

A oxicodona pode ser usada em vez da morfina para tratar a dor crônica. Uma formulação de liberação controlada de longa duração está disponível, durando cerca de 8 a 12 horas. A formulação de ação curta é geralmente administrada com aspirina ou paracetamol.

Oximorfona

Por via intravenosas ou injeções intramusculares: 3 a 4 horas

Por supositório retal: 4 horas

A oximorfona pode ser usada em vez da morfina para tratar a dor crônica. Como a oxicodona, está disponível em formulação de liberação controlada de longa duração, durando cerca de 12 horas.

Pentazocina

Por via oral: até 4 horas

A pentazocina pode bloquear a ação analgésica de outros opioides. É quase tão forte como a codeína. A utilidade da pentazocina é limitada porque as doses mais altas não oferecem mais alívio da dor e porque o medicamento pode causar ansiedade e confusão, especialmente em pessoas idosas. Não é uma boa escolha para idosos.

Propoxifeno

Via oral: 3 a 4 horas

Em doses seguras, o propoxifeno fornece pouco ou nenhum alívio da dor em comparação com a aspirina. Em doses altas, provavelmente terá efeitos colaterais. Por isso, não é usado com frequência.

Analgésicos não opioides

Existe uma grande variedade de analgésicos não opioides. Muitas vezes são eficazes para a dor leve a moderada. As pessoas não se tornam fisicamente dependentes desses medicamentos ou tolerante dos efeitos de alívio da dor. Paracetamol e aspirina estão disponíveis sem prescrição (OTC). Diversos outros analgésicos não opioides (como ibuprofeno, cetoprofeno e naproxeno) estão disponíveis com e sem prescrição, em geral em formulações com dose mais alta, com princípio mais ativo por dose do que as formulações que não precisam de prescrição. Os analgésicos que não exigem prescrição são razoavelmente seguros se tomados por períodos curtos, mas as bulas indicam que não devem ser tomados por mais de 7 a 10 dias seguidos para tratar a dor. Consulte o médico caso os sintomas não desapareçam ou piorem.

Medicamentos anti-inflamatórios não esteroides

A maior parte dos analgésicos não opioides são catalogados como anti-inflamatórios não esteroides (AINE). Os AINE são consumidos para tratar a dor leve a moderada e podem ser combinados com opioides para tratar a dor moderada a intensa. Os AINE não só aliviam a dor como também reduzem a inflamação que muitas vezes acompanha e agrava a dor. Todo AINE é administrado por via oral. O AINE cetorolaco também pode ser aplicado por injeções em uma veia (intravenosamente) ou músculo (intramuscularmente). A indometacina pode ser aplicada por supositório.

Embora amplamente usado, AINE podem ter efeitos colaterais, por vezes sérios.

  • Problemas no trato digestivo: Todo o AINE tende a irritar o revestimento do estômago e causar irritação (como pirose, indigestão, náusea, distensão, diarreia e dor de estômago), úlceras pépticas e sangramento no trato digestivo (hemorragia gastrointestinal). Coxibes (COX-2) provocam menos irritação do estômago e menos hemorragias do que AINEs. Contudo, se as pessoas administram um coxibe e aspirina, esses problemas são mais prováveis. O uso dos AINE juntamente com alimentos e antiácidos contribui para a prevenção da irritação gástrica. O fármaco misoprostol tende a ser útil na prevenção da irritação gástrica e de úlceras pépticas, mas pode causar outros problemas, como diarreia. Os inibidores da bomba de prótons, como o omeprazol, ou os antagonistas dos receptores da histamina-2 (H2), como a famotidina, que são usados no tratamento de úlceras pépticas, também podem ajudar a evitar os problemas gástricos causados pelo consumo de AINE.

  • Problemas de sangramento: Todo AINE (exceto coxibes) interfere na tendência coagulante das plaquetas (partículas parecidas com uma célula no sangue que ajudam a parar um sangramento quando os vasos sanguíneos sofrem uma lesão). Assim, os AINE aumentam o risco de hemorragias, sobretudo no tubo digestivo, onde também irritam o estômago.

  • Problemas relacionados a retenção de líquidos: Os AINE causam retenção de líquidos e inchaço em 1 a 2% das pessoas que os ingerem. O consumo frequente de AINE também aumenta o risco de sofrer distúrbios renais, que podem provocar insuficiência renal (doença designada nefropatia por analgésicos).

  • Risco elevado de distúrbios cardíacos e nos vasos sanguíneos: Estudos recentes sugerem que todo AINE (exceto aspirina) aumenta o risco de ataque cardíaco, derrame e os coágulos sanguíneos nas pernas aumentam. O risco parece ser mais alto com doses mais altas e uso mais longo do medicamento. O risco também é mais alto com certos AINE do que com outros. Esses problemas podem estar diretamente relacionados ao efeito do medicamento sobre a coagulação ou indiretamente a um aumento pequeno mas persistente da pressão arterial causada pelo medicamento.

O uso de um AINE por pouco tempo reduz a chance de problemas sérios. Se o AINE for administrado por muito tempo, alguns exames devem ser feitos regularmente. Eles incluem a verificação da pressão arterial, exames de sangue (hemograma completo e testes para verificar o rim e a função hepática) e sangue oculto nas fezes.

O risco de surgirem reações adversas com os AINE é mais elevado nos idosos, especialmente com indometacina e cetorolaco. Nas pessoas que costumam ingerir bebidas alcoólicas e AINE, o risco de distúrbios digestivos, úlcera péptica e problemas hepáticos aumenta. O risco de ataque cardíaco e derrame pode ser mais alto para pessoas com doença arterial coronária, outros distúrbios cardíacos e dos vasos sanguíneos (cardiovasculares) ou fatores de risco para esses distúrbios. Indivíduos com insuficiência cardíaca, hipertensão arterial ou distúrbios renais ou hepáticos e idosos exigem supervisão médica para o uso de AINEs. Alguns fármacos prescritos para o coração e a hipertensão arterial não agem normalmente se combinados com esses analgésicos.

Você sabia que...

  • Se administrado por muito tempo, o AINE, incluindo aqueles disponíveis sem prescrição, pode ter efeitos colaterais sérios.

Existem diversos AINE disponíveis que diferem na rapidez e duração da ação para alívio da dor. Embora todos os AINEs sejam igualmente eficazes, as pessoas respondem de forma diferentemente a eles. Um indivíduo pode observar que determinado medicamento é mais eficaz ou tem menos efeitos colaterais do que outro.

Aspirina

O ácido acetilsalicílico tem sido usado há cerca de 100 anos. Toma-se por via oral para a dor moderada, tendo de 4 a 6 horas de alívio.

Uma vez que o ácido acetilsalicílico tende a irritar o estômago, ele pode ser combinado com um antiácido (num produto neutralizado) para evitar esse efeito. O antiácido cria um meio alcalino que ajuda a dissolver o ácido acetilsalicílico, reduzindo o tempo pelo qual fica em contato com o estômago. No entanto, o ácido acetilsalicílico com antiácido pode irritar o estômago, porque também reduz a produção de substâncias que ajudam a proteger o revestimento gástrico. Essas substâncias são um tipo de prostaglandina, semelhantes a hormônios.

Foi concebido um tipo de ácido acetilsalicílico com revestimento entérico, para que atravesse o estômago intacto e se dissolva no intestino delgado, minimizando a irritação direta do estômago. (Entérico refere-se ao intestino delgado.) Contudo, o ácido acetilsalicílico com revestimento entérico pode ser absorvido irregularmente. Se forem ingeridos alimentos e aspirina com revestimento entérico ao mesmo tempo, a absorção do ácido não é tão rápida, porque os alimentos atrasam o esvaziamento do estômago. Consequentemente, o alívio de dor é retardado.

A aspirina eleva o risco de hemorragia em todas as partes do corpo, porque reduz a ação das partículas que ajudam a coagular o sangue (plaquetas). Pessoas que apresentam manchas roxas/contusões com facilidade são especialmente vulneráveis a esse efeito adverso do medicamento. Qualquer paciente com distúrbios hemorrágicos ou pressão arterial alta não controlada deve evitar o medicamento, exceto sob supervisão médica. Pessoas que tomam esse medicamento e anticoagulantes (como a varfarina) devem ser monitoradas atentamente para evitar hemorragias, que podem ser fatais. Em geral, o fármaco não costuma ser administrado durante a semana que antecede uma cirurgia.

O ácido acetilsalicílico pode agravar, também, a asma. Pacientes com pólipos nasais são propensos a sofrer de asma se tomarem aspirina. As pessoas sensíveis (alérgicas) à aspirina podem ter uma reação alérgica severa (anafilaxia), levando a eritema, coceira, problemas respiratórios severos ou choque (veja Choque). Caso ocorra um choque, procure assistência médica imediatamente.

Com doses muito elevadas, o ácido acetilsalicílico pode causar reações adversas graves, como respiração anômala, febre ou confusão. Um dos sintomas de sobredosagem é o zumbido nos ouvidos (tinido).

Crianças e adolescentes com suspeita ou confirmação de infecção pelo vírus da gripe ou varicela não devem tomar ácido acetilsalicílico, porque podem desenvolver a síndrome de Reye. Embora pouco frequente, essa síndrome pode ter graves consequências, podendo provocar a morte.

Ibuprofeno, cetoprofeno e naproxeno:

AINEs como ibuprofeno, cetoprofeno e naproxeno são menos agressivos para o estômago do que a aspirina, embora poucos estudos tenham comparado esses medicamentos. Tal como o ácido acetilsalicílico, esses fármacos também podem causar perturbações gástricas, úlceras e hemorragia gastrointestinal. Podem piorar a asma e elevar a pressão arterial. Tomar um desses medicamentos pode elevar ligeiramente eleva o risco de derrame, ataque cardíaco e coágulos sanguíneos nas artérias das pernas.

Ibuprofeno, cetoprofeno e naproxeno interferem menos com a coagulação do que a aspirina, mas ainda assim só devem ser usados com anticoagulantes (como a varfarina) sob rígida supervisão médica.

Pessoas alérgicas a ácido acetilsalicílico também podem ser alérgicas a ibuprofeno, cetoprofeno e naproxeno. Se surgir eritema, coceira, problemas respiratórios ou choque, procure assistência médica imediatamente.

Coxibes (inibidores de COX-2)

Coxibes, como celecoxibe, diferenciam-se de outros AINEs. Outros AINE bloqueiam duas enzimas:

  • COX 1, envolvido na produção de prostaglandinas que protegem o estômago e têm um papel importante na coagulação do sangue

  • COX 2, envolvido na produção de prostaglandinas que promovem inflamação

Os coxibes tendem a bloquear apenas as enzimas COX-2. Assim, os coxibes são tão eficazes como outro AINE no tratamento da inflamação e da dor. Entretanto, não são tão propensos a prejudicar o estômago e causar náuseas, inchaço, pirose, hemorragias e úlceras pépticas. Também interferem menos na coagulação do que os outros AINEs.

Devido a essas diferenças, os coxibes são úteis para pessoas que não toleram outros AINEs e que estão sob risco alto de certas complicações (como hemorragia gastrointestinal) ao usar AINEs. Nesse grupo, incluem-se as pessoas idosas, pessoas que tomam anticoagulantes, pessoas com histórico de úlceras e pessoas que precisarão tomar analgésicos por um longo período. Contudo, o bloqueio de enzimas COX-2 parece tornar coágulos sanguíneos mais prováveis. Assim, a administração de coxibes, como outros AINEs, provavelmente aumentará o risco de ataque cardíaco, derrame e coágulos sanguíneos nas pernas. Quão elevado é o risco depende do medicamento usado. O risco é mais alto quando doses mais altas são administradas e quando o medicamento é administrado por um tempo mais longo. Assim, antes que pessoas com um distúrbio cardiovascular (como doença arterial coronária), pessoas que tenham tido um derrame ou com fatores de risco para esses distúrbios sejam tratadas com um coxibe, elas são informadas sobre o risco e a necessidade de serem atentamente monitoradas. Coxibes não são apropriados para pessoas com insuficiência cardíaca ou sob risco elevado de insuficiência cardíaca (como aquelas que tiveram um ataque cardíaco).

Medicamentos anti-inflamatórios não esteroides

Tipo

Medicamento

Salicilatos

Aspirina

Trissalicilato de magnésio e colina

Diflunisal

Salsalato

Coxibes

Celecoxibe

Outros

Diclofenaco

Etodolaco

Fenoprofeno

Flurbiprofeno

Ibuprofeno

Indometacina

Cetoprofeno

Cetorolaco

Meclofenamato

Ácido mefenâmico

Meloxicam

Nabumetona

Naproxeno

Oxaprozina

Piroxicam

Sulindaco

Tolmetina

Paracetamol

O paracetamol é comparável com a aspirina no potencial para aliviar a dor e baixar a febre. Contudo, ao contrário dos AINE, não tem praticamente qualquer atividade anti-inflamatória útil, não afeta a coagulação sanguínea e não tem reações adversas sobre o estômago. Não se sabe com certeza como o paracetamol age.

O paracetamol é administrado por via oral ou por supositórios retais e a sua ação dura, em geral, de 4 a 6 horas. O paracetamol parece ser um medicamento muito seguro. As doses elevadas podem provocar lesões hepáticas irreversíveis. Pessoas com distúrbios do fígado devem consumir doses mais baixas do que as doses normais. Não se sabe se doses mais baixas administradas por um longo período podem comprometer o fígado. Indivíduos que consomem quantidade elevada de álcool têm um alto risco de sofrer um dano hepático se também usarem paracetamol em doses elevadas. Pessoas que tomam paracetamol e deixam de comer por causa de uma gripe forte, resfriado ou outro motivo podem estar mais vulneráveis a problemas hepáticos. A ingestão de doses elevadas de forma prolongada também pode causar problemas renais.

Analgésicos adjuvantes

Analgésicos adjuvantes são medicamentos que não são geralmente usados para alívio da dor, mas que podem aliviar a dor em determinadas circunstâncias. Quando usado para aliviar a dor, costuma ser usado com outros analgésicos ou tratamentos não farmacológicos da dor.

Os analgésicos adjuvantes consumidos com maior frequência para a dor são os antidepressivos (como amitriptilina, bupropiona, desipramina, fluoxetina e venlafaxina—vide Medicamentos usados para tratar a depressão), anticonvulsivantes (como gabapentina e pregabalina—vide Fármacos usados para tratar convulsões) e os anestésicos orais e tópicos.

Antidepressivos

Os antidepressivos podem aliviar a dor mesmo se a pessoa não estiver deprimida. Antidepressivos tricíclicos podem ser mais eficazes com tal finalidade do que outros antidepressivos, mas antidepressivos mais novos, como os inibidores de recaptação seletiva de serotonina (ISRs) e inibidores de recaptação seletiva de serotonina e norepinefrina (SSNRIs, como duloxetina) são melhor tolerados. As pessoas podem responder positivamente a um antidepressivo e não a outro.

Anticonvulsivos

Esses medicamentos podem ser usados para aliviar a dor neuropática. O que se utiliza com maior frequência é a gabapentina, mas também muitos outros, incluindo carbamazepina, clonazepam, divalproato, lamotrigina, oxcarbazepina, fenitoína, pregabalina e topiramato podem ser utilizados. A pregabalina pode ser usada para aliviar a dor causada por lesão nervosa devido a diabetes (neuropatia diabética) ou uma complicação de herpes zoster (neuralgia pós-herpética). Anticonvulsivos como divalproato podem evitar enxaquecas.

Anestésicos

A mexiletina, usada para tratar arritmias cardíacas, também é usada para tratar a dor neuropática. É semelhante a anestésicos locais aplicados diretamente em perto de uma área dolorida para ajudar a reduzir a dor. O médico pode injetar na pele um anestésico local, como lidocaína, para controlar a dor devido a uma lesão ou para o alívio da dor neuropática. Anestésicos locais também podem ser injetados em nervos para bloquear a dor — um procedimento chamado de bloqueio de nervo. O bloqueio de um nervo simpático envolve a injeção de um anestésico local no interior de um grupo de nervos, no pescoço para dor na parte superior do corpo ou nas costas em caso de dor na parte inferior do corpo.

Para controlar a dor, em determinadas circunstâncias, anestésicos tópicos, como a lidocaína em loção, pomada ou emplastro, podem ser aplicados sobre a pele. Em geral, esses anestésicos são consumidos por curtos períodos. Por exemplo, o gargarejo de poucas quantidades de um enxaguante bucal anestésico, limitado a algumas vezes por dia, pode aliviar a dor de garganta. No entanto, algumas pessoas podem se beneficiar do uso de anestésicos tópicos durante longos períodos de tempo para aliviar a dor crônica. Por exemplo, um adesivo de lidocaína pode aliviar a neuralgia pós-herpética.

Um creme contendo capsaicina, uma substância extraída da pimenta-de-caiena, pode reduzir a dor causada por distúrbios como o herpes zoster e a osteoartrite. É muitas vezes usado por pessoas com dor localizada devido à artrite. O creme é aplicado várias vezes ao dia.

Tratamento da dor sem medicamentos

Além dos medicamentos, existem muitos outros tratamentos para alívio da dor. Aplicar compressas frias ou quentes diretamente na área dolorida pode ajudar (veja Tratamento da dor e inflamação). A ultrassonografia que fornece o calor profundo (diatermia) pode aliviar a dor da osteoartrite e da distensão muscular.

Algumas pessoas sentem alívio mediante a estimulação elétrica transcutânea dos nervos (transcutaneous electrical nerve stimulation, TENS). Ela consiste numa corrente elétrica fraca, aplicada por eletrodos sobre a pele. TENS provoca uma sensação de formigamento sem aumentar a tensão muscular. Pode ser aplicada de forma contínua ou várias vezes ao dia, desde 20 minutos a várias horas. O momento e a duração do estímulo variam porque cada pessoa responde de maneira diferente. Muitas vezes, as pessoas são orientadas sobre como usar o TENS para que o utilizem de acordo com a sua necessidade. Essa estimulação pode ser útil para aliviar a dor crônica. Se a dor for muito grave e outros tratamentos forem ineficazes, podem ser implantados eletrodos ao longo dos nervos afetados ou no espaço em volta da medula espinal.

Ocasionalmente, a dor por lesão nervosa pode ser tratada interrompendo o trajeto do nervo que transmite os sinais de dor. A via é interrompida injetando-se uma substância cáustica (como fenol) em um nervo para destruí-lo, congelá-lo (na crioterapia) ou queimá-lo com uma sonda de radiofrequência. Esses procedimentos podem ser usados para tratar a dor facial devido a uma neuralgia do trigêmeo.

A acupuntura envolve a inserção de agulhas muito pequenas em áreas específicas do corpo (veja Acupuntura). Sabe-se pouco sobre como a acupuntura funciona e alguns especialistas ainda duvidam de sua eficácia. Algumas pessoas encontram um alívio substancial com a acupuntura, ao menos durante algum tempo.

O biofeedback e outras técnicas cognitivas para o controle da dor (como os métodos de relaxamento, hipnose e técnicas de meditação) podem ajudar as pessoas a controlar, reduzir ou suportar a dor, alterando o centro da sua atenção. Numa técnica de meditação, as pessoas podem aprender a visualizarem-se num ambiente tranquilo e reconfortante (como num sofá ou numa praia) quando sentem dor.

A importância do apoio psicológico às pessoas que sofrem de dor não deve ser subestimada. Amigos e familiares devem estar cientes de que as pessoas com dor sofrem, precisam de apoio e podem desenvolver depressão ou ansiedade, que exigem apoio psicológico.

Recursos neste artigo